O Silêncio de Junho
- A Equipa Atlantic Lisbon

- 21 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 22 de jan.
Há datas que não envelhecem. Não porque o Estado as repita, mas porque o Estado as evita.

China: 1989 como método de governo
Na China, 4 de Junho não é um feriado, nem um luto, nem uma aula. É uma zona interditada. Um lugar mental onde a linguagem falha de propósito. Um país inteiro aprende, por repetição invisível, que há memórias que não se discutem, nomes que não se escrevem, perguntas que não se fazem em voz alta.
O silêncio não é ausência. É técnica.
Para compreender a China contemporânea — o crescimento, a disciplina, a campanha anticorrupção, o medo do imprevisível, a obsessão pela estabilidade — é preciso olhar para 1989 não como episódio, mas como viragem estrutural. Não é apenas a história de uma praça e de tanques. É a história de um contrato imposto: prosperidade em troca de desistência.
O Ocidente tende a tratar Tiananmen como símbolo moral. E é. Mas, para o regime, Tiananmen é sobretudo uma lição administrativa.
A lição não é “reprimir funciona”. A lição é mais subtil: a partir de certo ponto, a fiscalização pública é intolerável. A partir de certo ponto, o Partido não pode aceitar que a sociedade tenha instrumentos para vigiar o poder.
Antes de 1989, a China vivia uma tensão: reforma económica, debates internos, abertura parcial, esperança de que a modernização pudesse trazer também reforma política.
Havia zonas de respiração. Havia disputas dentro do Partido que se exprimiam em linguagem política, não apenas em disciplina. Havia a possibilidade — frágil, mas real — de que a história pudesse seguir por um caminho menos fechado.
Depois de 1989, o caminho estreitou-se.
A repressão não eliminou apenas protestos. Eliminou uma expectativa: a expectativa de que a sociedade pudesse ter voz na reforma. E, quando se elimina essa expectativa, muda-se a relação entre cidadão e Estado. O cidadão deixa de ser alguém que participa num futuro. Passa a ser alguém que é administrado.
Administrar uma sociedade com ambição exige duas coisas: crescimento e controlo.
O crescimento foi a promessa. O controlo foi o método. E, durante décadas, a combinação funcionou com uma eficácia que muitos governos, noutros lugares, olharam com inveja. As cidades cresceram, as infraestruturas multiplicaram-se, a pobreza extrema recuou, uma classe média emergiu. A narrativa oficial ganhou um corpo visível: “o Partido entrega”.
Mas 1989 introduziu um segundo corpo — invisível — na mesma narrativa: “o Partido não discute”.
A partir daí, a reforma económica ganhou uma tonalidade particular. O mercado não surgiu como libertação política; surgiu como compensação. Se a política não se abre, abre-se a vida material. Se não há pluralismo, há consumo. Se não há liberdade de imprensa, há mobilidade e emprego. Se não há fiscalização pública, há um pacto implícito: não questionar o topo em troca de melhoria no rés-do-chão.
O problema de pactos implícitos é que não têm tribunal.
Quando funcionam, parecem naturais. Quando deixam de funcionar, revelam-se cruéis.
1989 também alterou a distribuição de poder dentro do próprio sistema. O Partido aprendeu que o risco maior não vinha apenas de inimigos externos; vinha do contágio interno. Vinha de estudantes, de trabalhadores, de quadros desiludidos, de jornalistas, de intelectuais. Vinha da ideia de que a corrupção e o privilégio poderiam ser denunciados por baixo, em praça pública, e obrigar o centro a responder.
Isso não podia voltar a acontecer.
Por isso, a China pós-1989 tornou-se mais sofisticada na forma como gere dissenso. A repressão brutal não desapareceu; apenas passou a ser a última linha. As primeiras linhas são administrativas: controlar universidades, controlar meios digitais, controlar associações, controlar linguagem, controlar a própria memória. Criar um ambiente em que protestar não é apenas perigoso; é inútil.
E é nessa inutilidade produzida que nasce a corrupção estrutural.
Porque a corrupção não prospera apenas onde há ganância. Prosperar, prospera. Mas torna-se sistémica onde não há fiscalização independente e onde o cidadão aprende que não tem a quem recorrer. Quando um país perde a capacidade de falar, perde também a capacidade de corrigir.
A corrupção, então, deixa de ser “excepção”. Torna-se infraestrutura informal: uma forma de resolver, de acelerar, de contornar, de sobreviver. Isto não significa que todos roubem. Significa que o sistema cria incentivos permanentes para transformar poder em renda.
Há uma linha que merece ser dita com cuidado: em 1989, parte dos protestos denunciava corrupção e privilégios. Não era um capricho “ocidental”. Era uma angústia interna: ver filhos de quadros a enriquecer, ver favores, ver acesso hereditário, ver uma elite a crescer dentro de um regime que proclamava igualdade. O protesto era moral e político ao mesmo tempo.
A resposta do Estado foi, paradoxalmente, moral também — mas moral de disciplina. O Estado disse: a estabilidade vale mais do que a crítica. E a crítica, mesmo quando tem razão, é inimiga.
Deste modo, 1989 não congelou apenas uma reforma política. Estabeleceu uma hierarquia de valores que ainda hoje governa: estabilidade acima de transparência; disciplina acima de direito; crescimento acima de justiça; obediência acima de fiscalização.
O efeito colateral foi profundo: o Partido tornou-se o árbitro exclusivo da virtude pública.
Isto ajuda a compreender a campanha anticorrupção contemporânea. Quando o Partido diz que combate corrupção, fá-lo como quem faz higiene interna — para manter o corpo capaz de mandar. E, ao mesmo tempo, persegue quem tenta expor corrupção fora da autorização do Partido. Denunciar torna-se crime quando não é “ainda permitido”.
É a mesma lógica do silêncio: o Estado aceita a verdade, desde que seja sua.
O que torna este modelo particularmente instável é o seu próprio sucesso. Quanto mais rica e complexa se torna a sociedade chinesa, mais difícil é manter um silêncio homogéneo. Quanto mais educação, tecnologia e mobilidade, mais o controlo precisa de ser sofisticado. E quanto mais sofisticado é o controlo, mais o sistema depende de medo e de gestão de narrativa.
O motor, por décadas, foi o crescimento. Mas crescimento não é eterno.
Quando o crescimento abranda, o pacto implícito fica exposto. O cidadão começa a perguntar: se a vida material deixa de melhorar com a mesma velocidade, o que me resta? E, num país onde a política foi fechada como condição de sobrevivência do regime, essa pergunta é perigosa porque não tem canais legítimos de resposta.
É aqui que 1989 volta como fantasma de governo.
Não porque as pessoas se levantem todas de uma vez. Mas porque a memória interditada cria uma espécie de pressão subterrânea: a sensação de que o Estado tem medo da lembrança. E quando um Estado tem medo da lembrança, admite — sem o dizer — que a lembrança contém uma acusação.
O Partido sabe isto. Por isso, não permite luto público, não permite discussão aberta, não permite investigação independente. Não se trata apenas de “não perder a face”. Trata-se de impedir que a história se torne tribunal. Porque, se a história se tornar tribunal, o edifício moral do regime sofre uma fissura que não se tapa com PIB.
O resultado é uma China paradoxal: uma superpotência capaz de atravessar o país em alta velocidade, mas incapaz de atravessar uma data. Capaz de exportar tecnologia de ponta, mas incapaz de permitir que um cidadão publique um texto sobre 4 de Junho sem risco. Capaz de prometer futuro, mas com medo de um passado.
Este ensaio fecha o Caderno Chinês com uma ideia simples: 1989 não é apenas memória censurada. É método. É o ponto em que o regime decidiu que a fiscalização pública era mais perigosa do que a corrupção. E, ao decidir isso, abriu a estrada para um capitalismo sob tutela, onde a regra suprema é a estabilidade do comando.
Enquanto essa decisão não for enfrentada — enquanto o país não puder dizer, sem medo, o que aconteceu — a China continuará a crescer e a tremer ao mesmo tempo. Porque há coisas que o crescimento não compra: legitimidade moral, confiança institucional, direito à palavra.
A história pode ser silenciada. Mas o silêncio, um dia, cobra.
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