O Cansaço da Autoridade
- A Equipa Atlantic Lisbon

- há 4 dias
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ANÁLISE · Mundo · Estados Unidos · Poder Executivo
O número surge num ecrã de telemóvel, entre notificações que já não surpreendem. Trinta e sete. Não é um valor isolado, nem um choque súbito. É um degrau a menos numa escada que desce devagar.
A aprovação presidencial de Donald Trump, medida por uma sondagem nacional divulgada esta semana, voltou a recuar.
O gesto que se segue — deslizar o dedo e fechar a aplicação — diz tanto como o número: a erosão deixou de ser notícia e passou a ser ambiente.
O que está em causa não é apenas a popularidade de Donald Trump. É a forma como a autoridade executiva se comporta quando entra numa fase de desgaste contínuo, sem colapso visível, mas também sem capacidade clara de recomposição. A sondagem do Pew Research Center não inaugura uma crise; descreve um estado.
Durante meses, a presidência americana tem funcionado num registo de atrito permanente. Não há um acontecimento único que explique o recuo. Há uma sucessão de decisões, confrontos institucionais, disputas simbólicas e episódios de força que, acumulados, produzem fadiga política. O sistema não falha; cansa.
A aprovação como termómetro tardio
As sondagens presidenciais raramente captam o momento exato em que algo muda. Funcionam como instrumentos de confirmação.
Quando os números se movem, o movimento já aconteceu algures antes — nas conversas privadas, nas escolhas eleitorais intermédias, no silêncio de quem deixou de defender.
O recuo agora registado não altera a base do poder presidencial: o apoio partidário mantém-se maioritário entre republicanos. Mas revela uma fragilidade noutro ponto: a dificuldade em reter confiança fora do núcleo fiel.
É nesse espaço intermédio — independentes, eleitores voláteis, apoiantes condicionais — que a autoridade executiva se mede quando deixa de crescer e passa a resistir.
O dado relevante não é apenas a percentagem de aprovação. É o conjunto de indicadores que a rodeiam: expectativas defraudadas, confiança em queda, reservas quanto à capacidade de liderança, dúvidas sobre critérios éticos. Nenhum destes elementos, isoladamente, é decisivo. Juntos, formam um padrão.
Governação em modo defensivo
Quando um executivo entra numa fase de desgaste, tende a ajustar o seu comportamento. O discurso torna-se mais rígido. A margem para compromisso encolhe. As decisões passam a ser tomadas com um olho no efeito imediato e outro na reação da base.
Este padrão não é exclusivo desta presidência. Mas aqui assume contornos particulares por duas razões: a centralidade do confronto como método político e a personalização extrema da autoridade.
Num sistema assim, cada recuo nos índices de confiança é lido como ataque, não como aviso.
O resultado é uma governação em modo defensivo. Não necessariamente mais cautelosa, mas mais reativa.
As políticas avançam menos por consenso e mais por insistência. O custo político de cada decisão sobe, mas o incentivo à correção diminui.
A imigração como eixo de fricção
Entre os vários temas que atravessam este momento, a imigração ocupa um lugar especial. Não apenas pelo impacto material das medidas adotadas, mas pelo seu valor simbólico.
É um domínio onde a administração investiu capital político significativo e onde a resposta pública se tornou mais polarizada.
A contestação recente às práticas de aplicação da lei migratória não alterou a linha geral do executivo, mas ampliou a perceção de um governo disposto a suportar conflito prolongado.
Episódios envolvendo o uso da força por agentes federais funcionam aqui como catalisadores: não criam a tensão, mas tornam-na visível.
A sondagem foi realizada enquanto esse ambiente se adensava.
Não é possível afirmar uma relação causal direta. Mas é possível observar uma coincidência temporal entre a intensificação do debate e a quebra adicional de confiança em dimensões como ética e liderança.
O Congresso como espelho
O desgaste presidencial não se mede apenas nas sondagens. Mede-se também na relação com o Congresso.
Quando a confiança no executivo diminui, o espaço para negociação estreita-se. As votações tornam-se testes de força. O risco de bloqueio institucional cresce.
A dificuldade em assegurar consensos mínimos em matérias orçamentais e de financiamento de agências federais não resulta apenas de divergências ideológicas. Resulta de um ambiente em que ceder é visto como fraqueza e resistir como obrigação identitária.
Este contexto empurra os partidos para posições mais rígidas. Do lado democrata, cresce a pressão para confronto aberto. Do lado republicano, aumenta a dependência da figura presidencial como garante de coesão. O sistema fecha-se sobre si próprio.
Confiança: o recurso invisível
Governar exige mais do que autoridade formal. Exige confiança difusa — a perceção de que o líder sabe o que faz, escolhe bem quem o rodeia e respeita regras básicas do jogo democrático. Quando essa confiança se desgasta, o poder não desaparece; torna-se mais caro de exercer.
Os indicadores de confiança medidos pelo Pew mostram uma erosão transversal.
Não se trata apenas de discordância política, mas de reservas quanto à competência, à ética e à capacidade de julgamento. Estes são sinais difíceis de inverter com uma vitória legislativa ou uma decisão executiva.
A confiança, uma vez perdida, raramente regressa por imposição. Requer tempo, previsibilidade e, muitas vezes, mudança de tom. Nenhuma destas variáveis parece dominante neste momento.
Um sistema que aguenta — por agora
Nada no retrato atual sugere um colapso iminente.
A presidência mantém instrumentos de poder intactos. A base partidária continua mobilizada. As instituições funcionam. Mas o sistema opera com menor folga.
A política americana tem experiência em absorver tensões prolongadas.
O risco não está numa rutura súbita, mas na normalização do conflito como estado permanente. Quando o desgaste deixa de ser exceção e passa a ser rotina, a capacidade de resposta estratégica diminui.
O executivo continua a agir. Mas age num ambiente onde cada passo é contestado, cada erro amplificado e cada correção interpretada como recuo.
O que ainda não se sabe
Não é claro se este declínio representa uma tendência duradoura ou uma oscilação conjuntural. Não é claro se os independentes regressarão à neutralidade ou se o afastamento se consolidará. Não é claro se a base republicana permanecerá coesa perante novos choques políticos.
O que é claro é que a presidência americana entrou numa fase em que os números deixaram de ser apenas retrato e passaram a ser condicionantes. A margem de manobra existe, mas é mais estreita. O custo de errar é mais elevado.
A autoridade política raramente se perde de um dia para o outro. Desgasta-se. Primeiro nos índices. Depois no tom. Por fim, na capacidade de impor agenda sem recorrer ao confronto permanente.
A sondagem desta semana não define o destino de uma presidência. Mas confirma algo mais discreto e mais relevante: o poder executivo nos Estados Unidos está a funcionar sob pressão contínua, com menos confiança disponível e mais resistência acumulada.
E esse tipo de pressão, quando se prolonga, não derruba sistemas. Torna-os rígidos.
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