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Linhagem de Acesso

Há uma forma de poder que não se anuncia. Não vem em discurso. Não precisa de bandeira. Chega como convite.

Uma chamada curta. Um nome dito com naturalidade. Um lugar reservado. Um “claro, sim, conheço”. E, de repente, o mundo fica mais simples: o processo acelera, a autorização chega cedo, a inspeção torna-se cordial, o contrato aparece com menos linhas de risco.

Não é magia. É genealogia.


Imagem tipo capa de livro sobre redes de influência e privilégio económico na China
Ensaio “Linhagem de Acesso”, do Atlantic Lisbon, sobre a aristocracia do acesso na China, redes de influência e a lógica política da autorização como capital. Imagem original criada para publicação.

China: quando o apelido abre portas


Em muitas sociedades, a desigualdade é económica: uns têm mais, outros têm menos. Na China contemporânea, além dessa desigualdade, há uma desigualdade anterior — a desigualdade de acesso. E o acesso, muitas vezes, tem rosto familiar. Não é uma história de pessoas “melhores” ou “piores”. É uma história de portas. Quem nasce com a chave não discute com a fechadura.


A palavra ocidental para isto é “nepotismo”. A palavra chinesa relevante, quando se quer falar de redes, é outra: guanxi — ligações, relações, favores, reciprocidade, dívida social. Mas, neste ensaio, interessa menos o vocabulário do que a mecânica: como é que um Estado-partido, que nasceu a prometer igualdade, produz uma aristocracia prática?


A resposta não é moral. É estrutural.


Um sistema que concentra decisão, propriedade e fiscalização no mesmo eixo cria um recurso raro: autorização. E quando autorização é recurso raro, torna-se capital. O capital não é apenas dinheiro; é a capacidade de transformar uma decisão numa oportunidade. Em economias onde o Estado domina sectores estratégicos, crédito e licenciamento, o recurso mais valioso não é a ideia. É a permissão.


Nessa arquitetura, o mercado nunca é totalmente “mercado”. É um mercado condicionado, onde certas trajetórias são mais fáceis porque passam por corredores protegidos. E é aí que entram os clãs.


“Princelings” é o termo que, fora da China, se popularizou para designar descendentes de figuras históricas do Partido — herdeiros simbólicos e, em muitos casos, herdeiros reais de influência.


A imagem, para o leitor europeu, é tentadora: príncipes numa república. Mas a palavra corre o risco de simplificar demasiado. Não se trata de uma monarquia com coroas. Trata-se de um ecossistema de vantagens: acesso a informação, acesso a crédito, acesso a sectores, acesso a proteção.


E, acima de tudo, acesso a impunidade.


A impunidade, aqui, não tem de ser escandalosa. Pode ser apenas a ausência de fricção.


O projecto que passa, o terreno que muda de destino, o concorrente que perde o tempo certo, a auditoria que não chega, o processo que é arquivado antes de ganhar corpo. Na vida de quem empreende, a fricção é custo. Na vida de quem governa, a fricção é ameaça.


Na vida de quem tem acesso, a fricção é uma coisa que acontece aos outros.


Este é um ponto onde a análise ocidental costuma tropeçar em duas tentações opostas.

A primeira é a tentação romântica: acreditar que a China, por ser meritocrática em algumas dimensões (exames, percurso burocrático, disciplina administrativa), é meritocrática como sistema. A segunda é a tentação cínica: acreditar que tudo se resume a roubo e crime.


Nenhuma serve. A realidade é mais competente e mais sombria.


A máquina chinesa é capaz de produzir quadros tecnicamente fortes, projectos gigantescos e uma capacidade de execução que as democracias, muitas vezes, invejam. Mas essa competência convive com uma hierarquia de acesso que não se vê. E a hierarquia de acesso é precisamente aquilo que torna o sistema tão resiliente: ela cria uma elite com demasiado a perder numa abertura real.


A elite económica, noutros países, pode sobreviver a alternância política. Troca-se o governo, os negócios adaptam-se. Na China, em muitos sectores, a elite é parte do próprio Estado-partido — ou vive encostada a ele como um órgão vital. Não é apenas “capitalismo com Estado”. É um capitalismo onde o Estado escolhe quem pode ser grande sem ser esmagado.


O resultado é uma forma particular de aristocracia: não aristocracia de títulos, mas aristocracia de corredores. O herdeiro não recebe apenas património; recebe mapa. Sabe que portas não se tentam, que portas se pedem, que portas se abrem em silêncio.

E isto muda, de forma profunda, a relação do cidadão comum com a ideia de futuro.

Porque o futuro deixa de ser um horizonte de esforço e passa a ser um jogo de redes. Há talentos que vencem, sim. Há empreendedores que conseguem subir pela competência e por sorte. Mas, quando um país se convence de que o mérito é subordinado à linhagem, o mérito torna-se amargo: mesmo quando funciona, parece exceção. E uma sociedade que vive de exceções vive com raiva.


A pergunta, então, não é “existem princelings?”. Existem. A pergunta é: por que razão um sistema os produz como peça funcional?


Aqui, convém olhar para o Estado como organismo.


Mao transformou a propriedade privada em propriedade estatal e disciplinou uma sociedade por via da política e do medo. Deng e a reforma económica abriram espaço para riqueza e iniciativa, mas sem abrir o núcleo político. Isso criou uma tensão: como permitir enriquecimento sem permitir autonomia? A solução mais eficiente é amarrar riqueza a lealdade. E amarrar riqueza a lealdade faz-se melhor por redes familiares e partidárias do que por mercado aberto.


Uma economia aberta demais produz actores independentes. E actores independentes produzem política. O Partido tolera muitas coisas; não tolera concorrência de soberania. Por isso, a riqueza “segura” é a riqueza que não pode existir sem o Partido. A riqueza que, se o Partido cair, cai com ele.


Essa é a lógica que transforma alguns sectores em feudos modernos: energia, telecomunicações, banca, logística, infraestruturas, tecnologia sensível. Mesmo quando há empresas privadas, há sempre uma linha invisível: a linha do aceitável. A linha do que não ameaça. A linha do que não cria poder paralelo.


E, quando se cria uma elite económica que depende do Partido para existir, cria-se um seguro político.


É por isso que o discurso anticorrupção, por vezes, é mais útil para eliminar desvios dentro da elite do que para destruir o princípio da elite. O sistema pode punir um homem. Não pode punir a sua própria engrenagem sem se punir a si mesmo.


Esta engrenagem tem consequências no quotidiano.


O empreendedor “sem ligações”, por exemplo, entra no mercado com uma inocência perigosa: acha que competir é apresentar melhor produto, preço e serviço. Aprende depressa que, em certos sectores, competir é sobreviver a atrasos, auditorias, licenças, interpretações flexíveis da regra. Aprende que a regra é elástica para quem tem padrinho.


Aprende que o mérito é necessário, mas raramente suficiente.


E o funcionário intermédio — aquele que não é príncipe nem camponês — aprende outra lição: o seu lugar no sistema depende de obedecer e de não se expor. Se denuncia, perde. Se resiste, perde. Se pergunta demais, perde. A prudência torna-se virtude. A prudência, num país com medo, é uma forma de inteligência.


A aristocracia do acesso, portanto, não é apenas um privilégio económico. É um molde psicológico. Ensina as pessoas a baixar a voz. Ensina-as a procurar padrinhos. Ensina-as a ver o Estado não como árbitro, mas como dono do jogo.


E, no entanto, este sistema não é estático. Tem contradições que o corroem por dentro.

Primeira contradição: eficiência versus protecção. A protecção de clãs tende a produzir ineficiências, porque privilegia relações em vez de desempenho. Isso pode ser tolerável em tempos de crescimento rápido, quando há margem e tudo parece subir. Mas quando o crescimento abranda, a ineficiência pesa como chumbo. E então o centro reage com campanhas, reformas parciais, reestruturações, auditorias. O sistema tenta, de tempos a tempos, corrigir a sua própria gordura sem cortar o osso.


Segunda contradição: mobilidade social versus estabilidade política. Uma sociedade aceita elites quando acredita que pode subir. Mas quando a mobilidade se transforma em mito, a elite deixa de ser “natural” e passa a ser ofensiva. O ressentimento cresce, e o regime, para o conter, precisa de mais controlo, mais propaganda, mais policiamento do discurso. Ou seja: a aristocracia do acesso pede, no fim, um Estado mais duro.

Terceira contradição: nacionalismo versus privilégio. O Partido usa o discurso nacionalista como cimento moral: a China como projeto civilizacional, como destino, como reparação histórica. Mas o privilégio de clãs é uma ferida nesse discurso: o país pede sacrifícios, mas vê alguns a viver como se estivessem acima do sacrifício. Em muitos regimes, isto é o princípio do colapso moral: o momento em que a população percebe que a virtude é exigida apenas aos fracos.


É por isso que a questão dos princelings não é folclore. É política profunda. É a forma como um regime, ao tentar proteger-se, fabrica as condições do seu próprio desgaste moral.


O leitor pode perguntar: e o que acontece quando uma aristocracia destas se encontra com uma campanha anticorrupção agressiva?


Acontece uma coisa paradoxal: a campanha pode assustar os níveis intermédios, reduzir ostentação e travar abusos mais grosseiros, mas tende a reforçar o núcleo. Porque o núcleo — por definição — é o lugar onde o poder pode punir sem se autodestruir. A campanha, assim, pode tornar o sistema mais disciplinado sem o tornar mais justo.


E justiça é um conceito perigoso para regimes que vivem de autorização.


A justiça, quando é real, cria expetativas. E expectativas criam política.

Um Estado pode gerir desigualdade por algum tempo. Pode gerir silêncio por muito tempo. O que não consegue gerir indefinidamente é a sensação coletiva de que as regras existem apenas para justificar o privilégio. A sensação de que o futuro depende de um apelido. A sensação de que a lei é instrumento, não limite.


O que torna tudo isto mais delicado é que a China não é apenas uma potência económica. É uma potência de imaginação política. A sua história recente apresenta-se ao mundo como alternativa: “crescimento sem caos, modernização sem liberalismo”.


Esse modelo tem resultados visíveis — e tem também custos invisíveis.


O custo invisível é este: uma sociedade onde o acesso é hereditário, mesmo que a competência seja real, acaba por degradar a ideia de comunidade. A comunidade deixa de ser “nós”. Passa a ser “eles” e “nós”. E quando um regime precisa de unir “nós” para sobreviver, a existência de “eles” privilegiados é dinamite lenta.


Não se escreve isto para anunciar um colapso. Escreve-se para compreender a fragilidade escondida.


A aristocracia do acesso é, ao mesmo tempo, força e fraqueza. Força, porque cria lealdades e protege o regime. Fraqueza, porque corrói legitimidade e bloqueia reforma real. O Partido sabe disso. Por isso oscila: protege o núcleo, castiga a periferia, reorganiza o topo quando precisa, e mantém o princípio intacto.


A grande pergunta, no fundo, é se um país pode sustentar modernidade tecnológica com uma estrutura social que, no que importa, ainda se comporta como uma corte.


Talvez possa — durante muito tempo. Mas paga-se sempre um preço: o preço de uma sociedade que aprende a não acreditar no seu próprio esforço.


E, quando uma sociedade deixa de acreditar no esforço, só lhe resta acreditar no medo.


Nota editorial (série): Quarto ensaio do Caderno Chinês no Atlantic Lisbon. Seguem-se: o mercado como autorização; e 1989 como política do silêncio.


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