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O General Que Esperou Dois Anos Pelo Golpe Fatal


HISTÓRIA · Atlantic Lisbon · Portugal/Espanha · Conspiração.


Lisboa, 26 de abril de 1934, manhã.


O navio holandês Baloeran chega de Gibraltar e encosta ao cais. Não é um desembarque de rotina. Há gente à espera. Portugueses. Espanhóis já instalados em Portugal. Curiosos e simpatizantes misturados, sem uma fronteira nítida entre o folclore do momento e a política que o alimenta.


O General Que Esperou Dois Anos Pelo Golpe Que o Mataria.


Do convés descem José Sanjurjo y Sacanell, a esposa, os filhos Justo e Pepe, e Ricardo Goizueta, amigo. O general não aparece como visitante. Aparece como um homem que foi preso, amnistiado, e que escolheu este lado da fronteira para viver enquanto a outra metade da Península fervilha.


O jornalista Félix Correia, do Diário de Lisboa, descreveria anos depois a atmosfera dessa chegada num pequeno livro publicado em 1940.


Na sua memória, o cais não foi apenas um lugar de passagem. Foi palco. Houve “vivas”. “Vivas” a Espanha. “Vivas” ao general. E a palavra “general”, ali, não era simples etiqueta. Era um sinal.


Sanjurjo tinha 62 anos.


Trazia consigo dois anos de prisão e uma tentativa falhada de golpe de Estado. Trazia também a reputação de ser uma das figuras mais importantes do campo que, desde 1931, olhava para a República espanhola como se olhasse para uma usurpação.


O país que deixara para trás vivia desde 14 de abril de 1931 sob a Segunda República. No centro do novo regime destacavam-se nomes como Manuel Azaña e Niceto Alcalá-Zamora.


A coligação republicano-socialista empurrou reformas e escolhas que dividiram Espanha: laicismo e anticlericalismo, reformas financeiras e de propriedade, reconfigurações na hierarquia militar, e cedências às autonomias catalã, basca e galega.


Para monárquicos, católicos, latifundiários e parte dos militares, o conflito deixou de ser abstrato. Tornou-se método, e o método tinha uma gramática: conspiração, tentativa, recuo, nova tentativa.


Sanjurjo não era um recém-chegado à máquina do Estado. Era um homem que a conhecia por dentro.


Nasceu em Pamplona, em março de 1872, ainda no clima político que antecede a chamada Restauração Bourbon. Serviu no reinado de Afonso XIII e alinhou-se com a ditadura de Miguel Primo de Rivera a partir de 1923. Entre 1928 e 1932, ocupou o cargo de diretor-geral da Guardia Civil — um posto que, na Espanha desse tempo, significava ter nas mãos um instrumento decisivo da ordem pública.


Nos primeiros meses da Segunda República, Sanjurjo não foi imediatamente empurrado para fora. Continuou a exercer funções e chegou a ser nomeado Alto-Comissário em Marrocos pelo ministro da Guerra — o próprio Azaña.


Mas o texto histórico que serve de base a esta narrativa descreve uma erosão rápida. Ao longo de 1931 surgem divergências.


O general reage ao desencadear de perseguições religiosas, à repressão dirigida a companheiros associados ao período ditatorial anterior e a assassinatos que agravam a tensão social. A destituição da direção da Guardia Civil cristaliza a rutura: Sanjurjo deixa de ser homem do regime e passa a ser homem contra ele.


A 10 de agosto de 1932, lidera uma revolta em Sevilha contra o governo republicano-socialista dirigido por Azaña.


O episódio ficaria conhecido como Sanjurjada. Havia, segundo o mesmo texto, a ideia de uma operação com alcance maior: ofensivas em Madrid como distração e movimentos simultâneos em cinco guarnições — Valladolid, Pamplona, Sevilha, Granada e Cádis — para depois marcharem sobre Madrid. A ambição era militar, e a lógica era a de impor uma cadeia de factos consumados.


Mas a realidade foi mais pobre do que o plano.


Avançaram apenas Madrid e Sevilha.


A falta de coordenação e a adesão limitada condenaram a intentona.


Em Sevilha, Sanjurjo decretou o estado de guerra e apresentou-se como alguém que procurava justiça, denunciando abusos e imoralidades do regime. Contou com o apoio da Guardia Civil local. Não chegou. As forças governamentais dominaram o movimento com relativa facilidade.


O que acontece a seguir é revelador da proximidade mental — e física — da fronteira portuguesa para este tipo de derrotados.


O texto histórico refere que Sanjurjo terá ponderado fugir para Portugal, mas decide entregar-se no dia seguinte em Huelva. No entanto, a imprensa portuguesa publicou uma versão distinta.


O Diário de Lisboa avançou que o general não se entregou por vontade própria: teria sido detido quando tentava, de facto, alcançar a via de fuga.


Segundo essa notícia, Sanjurjo estaria acompanhado pelo filho Justo e pelo general García de la Herrán.


De madrugada, procurava informações junto de um civil sobre como chegar a Ayamonte.


Um guarda civil reconhece-o e declara prisão. Sanjurjo não resiste. Por volta das oito da manhã, segue escoltado de Huelva para Madrid.


Há, aqui, uma primeira imagem que fica: a da fronteira como hipótese imediata. E, por detrás, a ideia de que Portugal — mesmo antes de receber — já era considerado um possível abrigo.


Sanjurjo foi julgado e condenado à morte, mas acabou indultado. Foi enviado para o penal de El Dueso, na Cantábria, onde permaneceu quase dois anos.


Um dos textos científicos que acolhemos sublinha um ponto que, na política, pesa como uma decisão: a reclusão não foi particularmente dura. Pelo contrário, foi descrita como benigna, e essa brandura não funcionou como aviso dissuasor. Funcionou como sinal para o campo conservador de que a conspiração podia falhar sem fechar, para sempre, o caminho.


Não admira que figuras da própria República tenham visto aí um erro. O texto menciona o socialista Juan Negrín, que considerou que o indulto fora uma falha grave: ao poupar Sanjurjo, a República facilitava futuras conspirações.


Entre o final de 1933 e o início de 1934, a conjuntura espanhola muda.


Forma-se um governo liderado por Alejandro Lerroux, com a direita a dominar a maioria das pastas.


A posição reforça-se quando Lerroux procura apoio junto da CEDA de José María Gil Robles.


Este período manter-se-á até fevereiro de 1936, quando a vitória eleitoral da Frente Popular devolverá a esquerda ao poder. Mas, no intervalo, acontece o ponto que altera a vida de Sanjurjo — e altera também o mapa político do seu exílio.


A 24 de abril de 1934, é promulgada uma amnistia destinada aos conspiradores ligados à intentona de agosto de 1932. Sanjurjo é libertado no dia seguinte.


A imprensa portuguesa acompanha o assunto antes de ele se consumar.


O Diário de Lisboa noticiou, já a 21 de abril, um ambiente de festa em Cádis, com hotéis sobrelotados de familiares e amigos à espera. Naquele momento, o destino final do general era objeto de especulação: Lisboa ou Tânger. Dois dias depois, a imprensa mostrava maior convicção: Sanjurjo já teria passaporte para seguir para Portugal, em direção ao Estoril, aguardando apenas o decreto final para sair de Espanha, devidamente escoltado, rumo a Gibraltar — e de Gibraltar para Lisboa.


O movimento torna-se mais claro quando se sabe que, a partir desse território britânico, Sanjurjo contacta espanhóis já instalados no Estoril para informar local e hora de chegada. Isso ajuda a explicar por que razão o desembarque de 26 de abril tem “aparatosa” visibilidade. E ajuda a explicar também por que surgem amigos vindos de Espanha para o receber: antigos oficiais como Emílio Esteban-Infantes Martín e Luiz Pelaz La Torre.


A imprensa registou que ambos apreciaram o acolhimento das autoridades portuguesas e as facilidades concedidas pelo governo.


É aqui que a história deixa de ser apenas biografia de um general espanhol e passa a ser um capítulo ibérico, com Lisboa e o Estoril a entrarem como cenário de um período de preparação.


O Estoril não era uma folha em branco. Era uma região com tradição de acolhimento de estrangeiros, sobretudo de classes abastadas que aí faziam veraneio. Mas também era, já então, um espaço onde se fixavam refugiados e exilados — incluindo espanhóis que tinham chegado após a implantação da República e após o falhanço do golpe de 1932.


Esse pano de fundo importa: cria redes, hábitos, sociabilidades. Permite que um homem como Sanjurjo não chegue a um deserto. Chega a um lugar onde há gente que o entende, gente que o protege, gente que o reconhece.


O texto histórico aponta ainda a moldura política que torna esse acolhimento possível.


Portugal vivia uma situação favorável à direita espanhola: primeiro sob a Ditadura Militar e depois, a partir de 1933, sob o autodenominado Estado Novo. Esse quadro seria propício aos intentos da direita espanhola e ao desenvolvimento de atividades conspirativas — até ao início da Guerra Civil.


Há também um dado mais antigo, menos dramático e mais estrutural: a longa tradição de mobilidades ibéricas.


Movimentos por trabalho, por lazer, por contrabando, por deslocações forçadas.


Mais tarde, a guerra civil produziria fluxos de refugiados em grande escala. Mas o corredor humano e logístico entre países já existia. A história, aqui, não precisa de ornamentação: basta reconhecer que, para certos homens, atravessar a fronteira nunca foi um ato excecional. Foi uma técnica de sobrevivência política.


Entre 1934 e 1936, a residência de Sanjurjo no Estoril ganha peso na leitura do período.


O texto-base é explícito no objetivo: analisar o acolhimento dado pelo governo português e pela população local e compreender como a presença do general contribuiu para que Portugal, e aquela zona em particular, passassem a ser percepcionados como um centro de conspiração da direita espanhola. Esse é o ponto decisivo.


A presença de uma figura de alto perfil — libertada por amnistia, recebida com aparato, instalada numa zona com redes de exilados — não é uma nota de rodapé. É um elemento que participa na forma como a conspiração se organiza e é entendida.


A própria direita espanhola, depois do falhanço de 1932, retira lições operacionais.


O texto refere conclusões concretas: necessidade do apoio da Guardia Civil e da Guardia de Asalto; importância de neutralizar autoridades municipais republicanas e líderes sindicais; e urgência de avançar apenas com planificação bem definida.


Percebe-se também que o Estado republicano era mais forte do que parte dos conspiradores supunha e que a oposição ativa no terreno estava limitada a grupos pequenos, unidos sobretudo por aversão comum ao regime. A Sanjurjada, mesmo derrotada, funcionou como ensaio. E os ensaios, em política, raramente desaparecem sem deixar método.


Durante a revolta, Sanjurjo não se limitou ao gesto militar. O texto menciona as ideias que apresentou à audiência de Sevilha: libertar Espanha do que considerava prejuízos morais e materiais do governo republicano, convocar novas Cortes Constituintes para definir a forma de governo, assegurar eleições livres. Ao mesmo tempo, acusou o governo de “tirania sectária”, de danos económicos e de aumento da criminalidade. Há uma contradição intrínseca neste tipo de discurso — a promessa de liberdade por via do ato de força — e é precisamente essa contradição que ajuda a perceber por que figuras como Sanjurjo podiam ser, ao mesmo tempo, militares de carreira e símbolos de uma política de derrube.


O arco fecha-se com uma ironia factual, sem necessidade de exagero.


A 18 de julho de 1936, deflagra o golpe militar contra a República.


Sanjurjo preparava-se para regressar a Espanha e liderar a operação. Mas a 20 de julho de 1936, morre em Cascais, num acidente aéreo, quando se preparava para seguir viagem.


O homem que atravessara fronteiras para conspirar contra a República, que passara dois anos no Estoril após ser libertado, que sobrevivera à prisão e ao indulto, morre antes de chegar ao centro do palco para o qual se preparava.


A sua estada em Portugal não foi um parêntesis. Foi antecâmara. E, na leitura que o texto histórico propõe, foi também parte da fase de preparação: Portugal como apoio relevante não apenas durante a guerra civil, mas na arquitetura que a antecede.


Nota final: Este texto é uma narrativa jornalística construída exclusivamente a partir dos excertos históricos fornecidos (incluindo as referências à imprensa portuguesa citada e às obras consultadas). (Referências no fim da imagem)


Ilustração de capa estilo editorial: general espanhol José Sanjurjo em destaque, associada à conspiração de 1934-1936 entre Portugal e Espanha.
Capa — O General Que Esperou Dois Anos Pelo Golpe Fatal

Referências bibliográficas

  1. Sacanell Ruiz de Apodaca, Enrique — El general Sanjurjo, héroe y víctima. El militar que pudo evitar la dictadura franquista. Madrid: La Esfera de los Libros, 2004.

  2. Esteban-Infante, Emilio — General Sanjurjo (Un laureado en el penal del Dueso). Madrid: Editorial AHR, 1957.

  3. Sacanell Ruiz de Apodaca, Enrique — 1936. La conspiración. Madrid: Síntesis, 2008.

  4. Ruiz, David — Octubre de 1934. Madrid: Síntesis, 2008.

  5. Márquez Hidalgo, Francisco — Las sublevaciones contra la Segunda República. Madrid: Síntesis, 2010.

  6. Alía Miranda, Francisco — Julio de 1936. Conspiración y alzamiento contra la II República. Barcelona: Crítica, 2011.

  7. Viñas, Ángel — La Alemania nazi y el 18 de julio. Madrid: Alianza, 1977.

  8. Payne, Stanley G. — El colapso de la República. Los orígenes de la Guerra Civil (1933-1936). Madrid: La Esfera de los Libros, 2005.

  9. Payne, Stanley G. — El camino al 18 de julio. La erosión de la democracia en España (diciembre de 1935-julio de 1936). Madrid: Espasa, 2016.

  10. Ranzato, Gabriele — El eclipse de la democracia. La guerra civil española y sus orígenes, 1931-1939. Madrid: Siglo XXI, 2006.

  11. Oliveira, César — Portugal e a II República de Espanha, 1931-1936. Lisboa: Perspetivas & Realidades, 1985.

  12. Álvarez Rey, Leandro (coord.) — La Segunda República Española, 90 años después. Balances y perspectivas. Madrid: Centro de Estudios Políticos y Constitucionales, 2022.

  13. Martínez Bande, José Manuel — Los años críticos: República, conspiración, revolución y alzamiento. Madrid: Ediciones Encuentro, 2007.

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  19. Correia, Félix — Quem vem lá? Gente de paz! Gente de guerra... Lisboa: Edição do autor, 1940.

Imprensa periódica citada no texto-base

  1. Diário de Lisboa — 10 de agosto de 1932, p. 4.

  2. Diário de Lisboa — 11 de agosto de 1932, p. 5 e p. 8.

  3. Diário de Lisboa — reportagem sobre a detenção e escolta (11 de agosto de 1932), p. 5.

  4. Diário da Manhã — 27 de abril de 1934, p. 1.

  5. Diário de Lisboa — notícia sobre a amnistia e ambiente em Cádis (data indicada no texto-base: 21 de agosto de 1934), p. 12.

  6. Diário de Lisboa — notícia sobre passaporte e destino Estoril (data indicada no texto-base: 23 de agosto de 1934), p. 8.


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