top of page

A Palavra Que Reduz

Na tarde em que isto começou a ganhar forma, o Chiado estava húmido como um casaco que alguém pendurou sem o sacudir.


Balcão de madeira gasto numa loja de livros antigos em Lisboa, com revistas empilhadas e lombadas envelhecidas ao fundo.
Uma loja de livros usados como lugar de resistência à frase fácil.

A rua tinha esse brilho baço que Lisboa aprende nos dias em que não chove de facto, mas tudo parece ter sido molhado por dentro.


Entrei numa loja de livros usados — uma daquelas em que a campainha não toca: suspira.


O balcão range quando se pousa uma mão, e as prateleiras têm pequenas falhas de madeira, como dentes partidos, que nos dizem: já houve muitas urgências aqui.


Havia um homem a folhear uma revista antiga com a paciência de quem procura uma fotografia de família.


O papel tinha aquela cor que não é bem amarelo; é o tom que o tempo dá às coisas que não foram feitas para durar. Ao fundo, atrás de uma pilha de lombadas inclinadas, alguém tossiu duas vezes — não como doença, mas como presença. E, por qualquer razão, pensei no ruído particular que se faz quando se fala de alguém que já não está: o modo como as frases ganham velocidade, como se a ausência fosse uma autorização.


Não vim ali procurar nada em especial. Foi isso que pensei, pelo menos. Mas há sempre uma parte de nós que mente com educação. Eu tinha vindo para não trabalhar. E, mesmo assim, encontrei-me a trabalhar: a puxar um fio de pensamento que não pedi e que, quando aparece, vem com a teimosia de uma coisa íntima.


No balcão, havia um recorte de jornal emoldurado com fita-cola. Uma coluna curta, uma nota de época, o tipo de peça que hoje se leria num ecrã sem lhe dar tempo de secar.


O texto descrevia um homem conhecido — não pelo trabalho, mas pela forma como as pessoas falavam dele. Não era um elogio directo. Não era um ataque. Era um retrato em que o narrador, em vez de explicar, tropeçava.


Havia ironia, mas era uma ironia cansada, como quem já ouviu tudo e ainda assim continua a ouvir. Havia carinho, mas não tinha a doçura que absolve. E, sobretudo, havia a sensação desconfortável de que o público, quando quer uma figura, inventa-a; depois exige que essa figura se comporte de acordo com a invenção.


Li de pé. Voltei a ler.


E a coisa começou a mexer comigo de uma maneira que não era só intelectual. Era mais baixa. Mais física. Como uma irritação discreta que fica no corpo quando se escuta alguém a reduzir outra pessoa a uma palavra e, ao mesmo tempo, se reconhece: eu também faço isto. Eu também adoro a palavra que resolve.


Há um tipo de conversa — muito portuguesa, mas provavelmente universal — em que se avalia alguém com um gesto breve, como se se provasse fruta no mercado. “Ele é isto.” “Ela é aquilo.” E a frase vem com o prazer de quem fecha uma janela para não entrar frio.


Na política, na cultura, na vida íntima. Ninguém quer, verdadeiramente, carregar uma pessoa completa. É pesado. Uma pessoa completa contradiz-se, muda, falha, insiste, recomeça. Uma palavra não.


Não estou a dizer isto para moralizar. Estou a dizer porque o sinto em mim com uma nitidez que me incomoda.


Há dias em que a complexidade alheia me parece quase uma agressão — como se o outro tivesse a ousadia de não caber na minha pressa. E então acontece a coisa mais vulgar: eu escolho um detalhe, um vício, uma frase dita num jantar, um episódio que dá para contar. E esse detalhe torna-se o rosto todo. Depois, por milagre, já sei quem a pessoa é. Já posso respirar. Já posso ficar do meu lado.


Lisboa facilita isto. Lisboa é uma cidade onde as pessoas se encontram vezes demais para poderem ser apenas desconhecidas, e vezes de menos para serem verdadeiramente íntimas.


Há um meio-termo que parece socialmente confortável: saber o suficiente para comentar, não saber o suficiente para ter responsabilidade.


A cidade tem clubes, jantares, cerimónias, lançamentos, inaugurações. Tem salas com tectos altos onde se aprende a rir no momento certo. E tem também mesas pequenas onde se fala baixinho, como se a baixidão fosse sinónimo de verdade.


Numa noite, no Grémio Literário, ouvi alguém dizer sobre um poeta morto: “Agora já se pode gostar dele.” A frase saiu sem crueldade. Foi pior: saiu com alívio. Como se o problema daquele poeta tivesse sido estar vivo — com os seus erros e as suas arestas — e a morte, finalmente, tivesse resolvido o incómodo. Ninguém respondeu. Alguém fez um pequeno gesto com a mão, a confirmar. E eu fiquei a olhar para o copo de água como quem olha para um espelho. Não porque estivesse chocado. Porque reconheci o mecanismo: a morte como licença de simplificação.


Quando uma pessoa morre — ou quando fica longe, ou quando se torna demasiado famosa — o público trata-a como tratamos as casas dos outros vistas da rua: inventa a planta. A imaginação faz o resto.


Se houver um boato, melhor: boatos são atalhos emocionais. Se houver uma fotografia, melhor ainda: a fotografia dá-nos a sensação de que já estivemos lá dentro. E, a partir desse momento, o trabalho desaparece.


Ou, mais exatamente: o trabalho deixa de ser nomeado.


Talvez seja isto o que mais me inquieta: não a mentira explícita, mas a substituição silenciosa.


O esforço vira “talento”.


A repetição vira “instinto”.


A reescrita vira “génio”.


A disciplina vira “dom”.


Não sei se isto é injustiça ou apenas preguiça. Sei que é confortável. E o conforto, em matéria de cultura, costuma ser um anestésico.


Há uma ideia romântica — vendida a retalho e a grosso — de que certas obras nascem como nascem as árvores: quase sozinhas, inevitáveis, naturais.


É uma fantasia bonita, mas tem um efeito secundário perverso: apaga a parte humana, a parte feia, a parte insistente.


Apaga as manhãs em que nada sai.


Apaga as páginas riscadas.


Apaga a vergonha.


Apaga a perseverança sem glamour.


E, ao apagar isso, cria uma espécie de injustiça retroactiva: como se quem não consegue produzir com facilidade estivesse, por definição, menos destinado.


Mas há outra razão — talvez mais amarga — para o público preferir o “dom” ao “trabalho”.


O trabalho é demasiado democrático.


Se admitimos que o melhor também é fruto de repetição, de teimosia, de desconforto, então a distância entre o “eu” e o “ele” diminui. E isso é desconfortável. O mito protege-nos: permite admirar sem obrigação de imitar. Permite a veneração sem o peso da disciplina.


Na loja, o homem da revista antiga levantou os olhos e perguntou ao empregado quanto custava.


Disse a frase com respeito, como quem pede licença para levar um pedaço de tempo para casa.


O empregado respondeu com a serenidade de quem já aprendeu a não discutir valores com quem não quer ser contrariado. E, de repente, achei que aquilo era uma espécie de metáfora involuntária do que fazemos com as figuras públicas: queremos comprá-las baratas.


Queremos um preço baixo por uma pessoa inteira. E, se possível, com desconto.


Saí da loja e fui até ao café mais próximo. Sentei-me numa mesa onde a madeira tinha pequenas marcas circulares de copos antigos. O empregado pôs a chávena com um gesto exato, sem olhar muito.


Ao lado, duas pessoas falavam de alguém conhecido.


A conversa era rápida, confiante. Havia uma certeza quase alegre em cada frase. A pessoa de quem falavam parecia não ter corpo — era apenas um conjunto de traços. “Ele é assim.” “Ele faz isto.” “Ele sempre foi.” Sempre.


Esse “sempre” é uma das palavras mais perigosas que se usam sobre seres humanos. Eu já a usei muitas vezes. E não estou livre de a voltar a usar. Mas, quando a ouço, sinto uma pequena contração: como se a língua tivesse escolhido a facilidade em vez da verdade.


Porque ninguém é “sempre”.


Nem os melhores, nem os piores.


Nem os que admiramos, nem os que odiamos.


O “sempre” é uma forma de descansar.


E a cultura, quando descansa demasiado, transforma-se em consumo.


Não digo isto como sentença. Digo como hipótese que me assusta. Porque é muito fácil confundir a leitura com a posse.


É muito fácil confundir a curiosidade com a familiaridade.


E é muito fácil confundir uma anedota com um carácter.


A anedota tem a vantagem de caber numa frase. O carácter exige tempo. E tempo é a moeda mais disputada do nosso momento.


Há quem pense que este mecanismo é apenas fofoca, uma coisa leve, social, sem consequências. Eu não tenho a certeza. Acho que ele tem efeitos políticos, mesmo quando não fala de política.


Um público treinado a reduzir pessoas a um traço é um público treinado a aceitar slogans. Um público que exige simplicidade em tudo acaba por desejar líderes simples — ou, pelo menos, líderes que falem como se o mundo fosse simples. E isso é uma tentação perigosa: a de trocar a complexidade real por uma clareza falsa.


Mas não quero transformar isto num sermão.


Há um risco, nestes temas, de subir para um púlpito imaginário e começar a distribuir culpas com a facilidade de quem já se absolveu.


Eu não me absolvo.


Eu estou incluído.


Eu também gosto de frases fechadas.


Eu também me irrito com o que demora.


Eu também, às vezes, preferia que as pessoas fossem mais previsíveis.


É por isso que o texto antigo me ficou a roer: porque, por detrás do humor e do retrato, havia um desconforto moral que não era exibido como virtude. Era mostrado como doença leve.


O narrador parecia dizer: vocês querem uma figura e eu posso dar-vos uma, mas não garanto que seja verdade. E, ao mesmo tempo, parecia confessar: eu também estou preso nesta máquina. Eu também sou atraído pela facilidade do mito. Só que, ao menos, não finjo que não.


A certa altura, reparei numa coisa pequena: o texto não se orgulhava do “génio”.


O texto falava, repetidamente, de trabalho. De reescrita. De desconforto. Não como heroísmo, mas como rotina. E isso, num tempo que adora o brilho instantâneo, é quase subversivo.


Porque o trabalho tem uma qualidade que o mito não tem: resiste ao aplauso.


O trabalho não se alimenta de rumor.


O trabalho não melhora com legendas.


O trabalho, na verdade, muitas vezes fica pior quando é observado.


Há uma solidão estrutural no ato de fazer bem. E talvez seja isso que torna as figuras públicas tão apetecíveis para o consumo: são pessoas que trabalham em público, e isso dá ao público a ilusão de participação.


No caminho de volta, atravessei a Rua Garrett com o cuidado distraído de quem já atravessou mil vezes.


A montra de uma loja refletiu-me por um instante e eu vi, no reflexo, um homem que parecia mais certo de si do que eu me sentia.


A cidade faz isto: dá-nos versões de nós mesmos a cada esquina. E talvez seja por isso que gostamos tanto de reduzir os outros: porque a própria vida já nos reduz sem pedir autorização.


Passei novamente pela loja de livros usados.


A campainha suspirou outra vez quando alguém entrou. Fiquei do lado de fora, só a olhar. O balcão rangeu. A pessoa lá dentro riu. E, por um segundo, pensei no que é mais difícil hoje: não é admirar alguém. É resistir à tentação de o transformar numa palavra.


A palavra reduz.


A palavra torna portátil.


A palavra dá-nos a sensação de que compreendemos.


E, no entanto, o que vale a pena — uma obra, uma vida, uma cidade, até um amor — raramente cabe no tamanho confortável de uma palavra.


Talvez a maturidade cultural seja isto: aguentar o peso sem o transformar logo em etiqueta. Ou, pelo menos, falhar nisso com alguma consciência.


Não sei.


Continuo a achar estranho que precisemos tanto do mito. Talvez seja medo. Talvez seja cansaço. Talvez seja apenas uma forma de economizar atenção num mundo que nos pede atenção a toda a hora.


Mas, quando penso naquele papel envelhecido e naquela insistência no trabalho, no desconforto, na teimosia, há uma coisa que me fica: a grandeza, quando é real, não precisa de ser limpa. E, quando tentamos limpá-la demais, o que estamos a fazer — sem o admitir — é torná-la nossa.


Subscrever a Newsletter

2 comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Maria Dores Lopes
há 16 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente texto, parece um poema. Toca aspetos que me são caros. Bem haja.

Curtir
Alberto Carvalho
Alberto Carvalho
há 8 horas
Respondendo a

Estimada Maria Dores Lopes, muito obrigado. Leio as suas palavras como quem recebe uma vela acesa: com cuidado e gratidão. Bem haja. Muito obrigado.

Curtir
bottom of page