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EUA - O recuo do meme: poder, racismo e silêncio

ANÁLISE · Mundo · EUA · Política e Discurso Público


Há um gesto moderno que parece pequeno, quase doméstico, e no entanto deixa rasto: a página atualiza, o feed reorganiza-se, e aquilo que estava ali — um post, um vídeo, uma provocação — deixa de estar. Não fica uma marca, não fica um carimbo oficial. Fica apenas um vazio no lugar exacto onde, segundos antes, existia uma peça de comunicação. E esse vazio, em política, não é neutro. É uma decisão.


Na noite de 6 de Fevereiro de 2026, Donald Trump partilhou na Truth Social um vídeo de teor político. O vídeo incluía, no seu final, um excerto que representava de forma racialmente ofensiva Barack Obama e Michelle Obama, recorrendo a um vídeo historicamente racista.


Houve reação pública imediata e condenação, e essa reação incluiu figuras do partido do presidente a pedir que a publicação fosse retirada. Antes de a remoção acontecer, a White House desvalorizou as críticas e enquadrou o conteúdo como “meme” ou “indignação”.


Duas matrioskas em primeiro plano com retratos pintados, rodeadas por outras peças semelhantes ao fundo.
Matrioskas decoradas com os retratos de Vladimir Putin e Donald Trump expostas numa banca.

Ao longo de sexta-feira, a publicação foi removida do feed presidencial.


No mesmo ciclo noticioso, não houve uma explicação pública direta do presidente sobre a partilha e a eliminação.


Circulou, por parte de aliados, a versão de que teria havido erro operacional ou de equipa, sem clarificação pública do processo de validação.


O episódio foi descrito como parte de uma estratégia de comunicação política que usa conteúdos virais e memes — incluindo material gerado por inteligência artificial — como arma de ataque e ridicularização.


Este conjunto de factos é suficiente para uma análise longa — não porque seja “um caso isolado”, mas porque contém, comprimidos num único dia, vários elementos que definem um sistema sob pressão: a transformação do insulto em método; a confusão deliberada entre brincadeira e poder; a relação instável entre comunicação oficial e cultura de plataforma; e, sobretudo, a pergunta que ninguém gosta de responder quando um post desaparece: quem manda, exatamente, quando a política se comporta como feed?


O “meme” como forma de governo


Um meme não é apenas uma imagem engraçada. Não é apenas uma piada. No ecossistema digital contemporâneo, o meme é um modo de condensar uma visão do mundo: simplifica pessoas em personagens, converte conflitos complexos em símbolos primários, substitui argumentação por reação imediata. E, quando entra no coração do poder, o meme torna-se outra coisa: torna-se um instrumento de governo informal.


Chamar “meme” a um conteúdo racista não é um detalhe retórico. É uma técnica de imunização. Serve para duas coisas ao mesmo tempo: (1) normalizar o conteúdo (“é só internet”), (2) desqualificar a crítica (“não percebem humor”).


A operação é conhecida e eficaz, porque desloca o debate do objeto (o que foi publicado) para o temperamento de quem reage (quem se ofende).


O conteúdo passa a ser um teste de personalidade pública: quem condena é “frágil”; quem tolera é “forte”. A política fica reduzida à coreografia da reação.


Mas há um problema estrutural quando o meme entra na comunicação presidencial: a fronteira entre o informal e o institucional deixa de ser uma fronteira.


A mesma conta que anuncia decisões políticas pode, no mesmo fluxo, partilhar material que humilha, desumaniza e alimenta grupos racistas. A pergunta deixa de ser “foi uma piada?” e passa a ser: que tipo de poder precisa de se mascarar de piada para dizer aquilo que quer dizer?


O meme, quando usado como arma, é um dispositivo de desresponsabilização com duas saídas. Se resulta, produz o efeito desejado: atenção, humilhação do alvo, mobilização do público que aplaude. Se falha, recua para a categoria de “brincadeira”. É uma comunicação com pára-quedas integrado. E isso — a existência do pára-quedas — muda o comportamento do poder. Torna-o mais disponível para o risco moral, porque o custo político pode ser renegociado no minuto seguinte.


Aqui, o custo não foi renegociável. E isso é, em si, um sinal.


Porque este episódio obrigou a recuar


Há um traço recorrente nos sistemas políticos que se habituam a operar por choque: quanto mais se normaliza o extremo, mais se depende do próximo extremo para manter a atenção.


A escalada torna-se uma mecânica. Mas qualquer mecânica tem limites. Nem todos os choques produzem o mesmo tipo de dano.


Boné vermelho com a frase “MAKE AMERICA GREAT AGAIN” pousado sobre um livro aberto, com mapa desfocado ao fundo.
Boné com o slogan “Make America Great Again” colocado sobre um livro aberto

A representação racista dos Obamas recorre a um engano com longa história de desumanização. Não é “apenas ofensivo” no sentido vago da palavra. É um tipo de imagem que carrega um passado — e, por isso, tem um potencial de estilhaço particular: não atinge só o alvo, atinge a instituição que permite que tal coisa circule.


Quando uma estrutura oficial tenta desvalorizar esse tipo de conteúdo como “meme”, a desvalorização não é inocente: é uma declaração sobre o que o poder considera aceitável como entretenimento político.


O que torna este episódio politicamente distinto não é apenas a existência do conteúdo; é a combinação de três movimentos no mesmo dia:


  1. publicação de um excerto racista num canal presidencial,

  2. defesa/normalização inicial por parte da comunicação institucional,

  3. remoção posterior após reação — incluindo reação dentro do partido.


Este triplo movimento expõe uma fissura: a máquina de comunicação estava preparada para aguentar a crítica externa, mas não estava preparada para uma crítica interna com visibilidade.


Quando figuras do próprio campo político do presidente pedem remoção, o problema deixa de ser “uma polémica”. Passa a ser um risco para a disciplina do bloco. E, em política, a disciplina é o cimento.


O recuo, aqui, é um ato de gestão de danos. Não é uma confissão. Não é uma mudança moral. É um reconhecimento táctico: a publicação não era sustentável naquele contexto, com aquela reação.


Por isso, a remoção não resolve o essencial. Apenas desloca a pergunta: se foi removido por pressão, o que é que teria acontecido se não houvesse pressão interna?


A dança entre a Casa Branca e a conta presidencial


Num sistema democrático moderno, a comunicação oficial tem uma função: informar, enquadrar, prestar contas.


Quando a comunicação oficial entra no regime do meme — quando responde a um caso destes com desdém e acusação de “indignação” — está a fazer outra coisa. Está a proteger a figura do presidente por via de um mecanismo cultural: a ridicularização de quem exige um mínimo.


O detalhe mais revelador não é a remoção em si; é a sequência “defesa → remoção”. Porque essa sequência sugere descoordenação ou, pelo menos, conflito de prioridades.


Se a comunicação oficial desvaloriza e, poucas horas depois, o conteúdo desaparece, a instituição fica com uma aparência de improviso. E improviso é caro em poder: transmite a ideia de que o sistema reage mais aos resultados do que a regras.


Há também um ponto mais sensível: quando uma conta presidencial funciona como canal central e, ao mesmo tempo, como espaço de partilha de conteúdos virais, a questão da autoria deixa de ser apenas curiosidade jornalística. Torna-se uma questão de responsabilidade institucional.


A versão de “erro operacional” ou “erro de equipa” é um padrão em crises digitais. Mas, sem clarificação do processo, essa versão tem uma consequência paradoxal: em vez de proteger o centro, pode fragilizá-lo. Porque um sistema que admite que um conteúdo racista pode ser publicado “por engano” num canal presidencial está, involuntariamente, a admitir que não existe um filtro robusto — ou que esse filtro é irrelevante face à vontade de publicar rapidamente.


Em ambos os casos, a instituição perde densidade. E, para um Estado, perder densidade é perder previsibilidade. E perder previsibilidade é perder autoridade.


O racismo como linguagem e como teste


Há duas formas de racismo na comunicação pública. Uma é explícita e assume-se como ideologia. A outra apresenta-se como “humor”, “provocação”, “liberdade de expressão” — e depende, para sobreviver, da capacidade de transformar vítimas em alvos legítimos e críticos em inimigos do riso.


O sistema racista usado contra os Obamas não é um acaso estético. É uma linguagem com efeitos. A desumanização não serve apenas para humilhar; serve para rebaixar a legitimidade do outro. Quando se reduz uma figura pública a uma caricatura desumanizante, a mensagem implícita é: esta pessoa não merece ser tratada com as regras normais do conflito democrático. E quando isso é feito contra figuras negras, a mensagem tem uma camada adicional: reabre um arquivo histórico que muitos prefeririam manter fechado, mas que é reativado sempre que uma parte do debate político decide que certos limites são “exageros”.


Neste sentido, o episódio funciona como teste em várias direções:


  • Teste ao público: quem acha aceitável? quem acha intolerável?

  • Teste ao partido: quem fala? quem fica calado?

  • Teste à instituição: quem defende? quem recua?

  • Teste ao próprio presidente: há custo para este tipo de conteúdo ou não há?


A remoção indica que houve custo. Mas não indica qual é a regra. A regra continua ausente. E a ausência de regra é terreno fértil para repetição.


A política como feed e o Estado como algoritmo


Há uma mudança silenciosa no modo como o poder opera quando se adapta à lógica das plataformas.


A política deixa de ser apenas decisão e passa a ser também performance. O ciclo já não é “ato → debate → consequência”. É “ato → reação → ajuste”.


O feed é um espaço em que o tempo é curto e a memória é frágil. Publica-se, mede-se, apaga-se. O que interessa não é a consistência; é o impacto. E isso tem um efeito corrosivo sobre a responsabilidade: se o post desaparece, desaparece também a obrigação de o defender formalmente.


A política aproxima-se da lógica do “foi só um post”. Mas um post presidencial não é só um post. É uma extensão do Estado.


Quando um conteúdo racista é tratado como “meme”, o Estado está a tratar as pessoas com uma ideia perigosa: a de que a sua comunicação é uma zona de jogo sem consequências. Só que as consequências existem, mesmo quando não há comunicado.


Existem na percepção pública, na cultura institucional e no comportamento das equipas.

A cultura interna aprende depressa. Aprende qual é o limite real. Aprende que tipo de conteúdo é tolerado. Aprende se a instituição protege quem publica ou se sacrifica alguém abaixo para salvar a figura central. E aprende, sobretudo, que a velocidade é mais importante do que o julgamento.


Essa aprendizagem é um mecanismo. E mecanismos repetem-se.


A fricção interna como sinal de fragilidade — e de sobrevivência


A reação de figuras do partido do presidente americano tem duas leituras possíveis, e ambas são relevantes.


A primeira leitura é pragmática: não se trata de moralidade; trata-se de custo eleitoral e reputacional. Uma publicação racista explícita pode ser politicamente tóxico para sectores do partido, pode atrair um tipo de atenção que desorganiza agendas e pode gerar um problema que não se resolve com “indignação” acusatória. Nesse sentido, pedir a remoção é uma forma de proteger o bloco e reduzir o dano.


A segunda leitura é institucional: a fricção interna é, por vezes, o último travão quando os travões externos já não funcionam. Num ambiente em que a crítica da oposição é previsível e, por isso, facilmente desqualificada como “política”, a crítica interna tem outra qualidade: não pode ser descartada com a mesma facilidade sem criar fissuras mais graves.


O que este episódio sugere é que o sistema ainda responde a certos sinais internos. Isso pode ser lido como fragilidade (o presidente recua quando pressionado) mas também como mecanismo de sobrevivência do partido e do próprio sistema (há limites que, quando ultrapassados, geram reação).


A questão, porém, é a seguinte: que limites são esses? São limites morais? Ou são limites de gestão de crise?


A diferença importa. Porque um limite moral tende a ser estável; um limite táctico tende a ser móvel. E, se for móvel, o mesmo mecanismo pode produzir, amanhã, outro conteúdo limite — até encontrar de novo uma resistência suficiente.


O silêncio como parte do método


A remoção foi um ato. A ausência de explicação pública direta, no mesmo ciclo, é outro ato. O silêncio, aqui, não é apenas omissão. É estratégia.


Num episódio destes, há três hipóteses de resposta institucional:


  1. assumir, pedir desculpa, estabelecer regra (“isto não volta a acontecer”),

  2. defender, atacar críticos, transformar em guerra cultural,

  3. apagar e seguir.


A terceira hipótese é a mais útil quando o objetivo é reduzir a duração do dano sem entrar numa admissão formal. “Apagar e seguir” tenta transformar o caso numa nota de rodapé do feed.


Mas o apagamento tem um custo: o silêncio deixa um buraco interpretativo. E buracos interpretativos são preenchidos por narrativas concorrentes — inclusive por narrativas internas (“foi um staffer”, “foi um engano”, “foi exagero”).


Quando o centro não fala, as periferias falam. E as periferias tendem a produzir versões que protegem o centro sem proteger a instituição. Isso enfraquece o Estado, porque o Estado passa a depender de versões informais para gerir um ato público.


O silêncio, portanto, não é neutro. É um modo de governar crises como se fossem tendências de rede.


Inteligência artificial, velocidade e irresponsabilidade


O episódio foi descrito como integrado num ecossistema de memes e conteúdos gerados por inteligência artificial usados para ataque político. Mesmo sem entrar em pormenores técnicos, há aqui um ponto que interessa ao Estado: a inteligência artificial aumenta a capacidade de produzir “peças” de propaganda em escala, com custo baixo, e com uma aparência de criatividade que pode mascarar brutalidade.


Quando um sistema político adopta este tipo de material como parte da sua dieta comunicacional, três coisas tendem a acontecer:


  • A fronteira entre real e fabricado torna-se menos relevante para a mobilização;

  • A degradação simbólica do adversário torna-se rotina;

  • A responsabilidade dispersa-se: é “da internet”, “do meme”, “da equipa”, “do algoritmo”.


A dispersão é o ponto central. Porque a democracia depende de um princípio simples: alguém responde por aquilo que é feito em nome do Estado. Quando a comunicação se organiza para que ninguém responda plenamente — nem o presidente, nem a equipa, nem a instituição — o sistema enfraquece. Pode ganhar velocidade, mas perde legitimidade.


E a legitimidade, ao contrário da velocidade, não se recupera com um refresh.


O custo real: normalização e erosão


O que é que um episódio destes “faz” ao sistema? Faz várias coisas ao mesmo tempo, e nem todas são visíveis no dia seguinte.


  1. Normaliza o inaceitável: mesmo quando é removido, o simples facto de ter sido publicado num canal presidencial desloca a janela do aceitável.

  2. Testa a resistência: mede-se quanto barulho é preciso para recuar.

  3. Desgasta a instituição: a defesa inicial pela comunicação oficial e a remoção posterior criam percepção de improviso.

  4. Treina o público: o público aprende que a política é isto — um feed onde se publica, apaga, segue.

  5. Treina a máquina: equipas aprendem que o risco pode ser tentado, porque o recuo é possível sem confissão.


O custo, portanto, não é apenas reputacional. É estrutural. É a erosão lenta da ideia de que há um mínimo comum de humanidade no conflito democrático. Quando esse mínimo se perde, o conflito torna-se mais barato e mais cruel. E, quando o conflito é barato, há incentivo para o repetir.


A pergunta que fica, mesmo depois do post desaparecer


O post foi removido. A crise imediata foi, em parte, contida. Mas a pergunta permanece — e é uma pergunta de arquitetura institucional, não de moralidade individual:


Que sistema é este em que um conteúdo racista pode surgir num canal presidencial, ser defendido como “meme”, e depois desaparecer por pressão, sem explicação pública direta?


Há várias respostas possíveis, e todas são desconfortáveis.


  • Ou o sistema aceita a cultura do meme como forma legítima de comunicação, e só recua quando a fricção interna ameaça a disciplina;

  • Ou o sistema não controla plenamente o que publica, e isso significa fragilidade operacional no centro;

  • Ou o sistema controla, mas escolhe a ambiguidade porque a ambiguidade permite colher benefícios sem assumir custos.


Em qualquer destas hipóteses, a conclusão não é moralista. É funcional: o Estado fica mais dependente da lógica de plataforma, e a lógica de plataforma não foi desenhada para responsabilidade democrática. Foi desenhada para atenção.

E a atenção, por definição, não se preocupa com o que deixa para trás.


Um fecho simples, e por isso mais duro


No fim, o que há é isto: um conteúdo racista foi publicado num canal presidencial, foi inicialmente desvalorizado pela estrutura institucional, e foi depois removido sob pressão — incluindo pressão interna. O gesto de apagar não apaga o facto de o conteúdo ter existido, nem apaga o mecanismo que o tornou publicável, nem apaga o reflexo institucional que o tentou normalizar.


Um Estado pode sobreviver a um post. O que não pode é habituar-se a governar como se cada post fosse descartável. Porque, quando tudo é descartável, a responsabilidade também é.


E a responsabilidade, em democracia, é a última coisa que devia desaparecer do feed.


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