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A Religião do PIB

Há um momento, banal e decisivo, na vida de um quadro local na China: o instante em que a carreira se torna uma folha. Não é uma metáfora, é mesmo uma folha — uma grelha de avaliação, uma coluna de metas, um número que sobe ou desce, e ao lado a palavra que ninguém pronuncia em público como se pronuncia no íntimo: futuro.


Capa conceptual sobre a China: números de PIB e carimbo oficial
Quando o crescimento se torna critério de carreira, a estatística passa a governar. Crédito: Imagem original (Atlantic Lisbon)

China: o PIB como critério de poder


Na superfície, é administração. Um ritual moderno, com tabelas e carimbos. Por baixo, é sobrevivência.


O crescimento, durante décadas, foi mais do que um objetivo. Foi uma linguagem de legitimidade. Quando a política perde o conforto de se justificar por ideologia, descobre a tentação de se justificar por estatística. A promessa não é justiça; é velocidade. Não é igualdade; é melhoria visível. Um país, dizem, não se governa com poesia. Governa-se com estradas, pontes, fábricas, luzes acesas à noite.


E, em boa medida, foi isso que aconteceu. Mas o preço de transformar um número em critério moral costuma ser pago em moeda impura.


A ciência política e a economia, com a sua frieza útil, deram nome àquilo que muitos observavam sem conseguir fixar: um “torneio” de promoções, onde os responsáveis provinciais competem entre si e os vencedores sobem.


Há trabalhos clássicos que encontraram relação entre desempenho económico e promoções/saídas de líderes provinciais no período pós-reforma, sugerindo que o controlo de pessoal funciona como incentivo.


Se isto for verdade — e tudo indica que foi, pelo menos como tendência — então uma parte do “milagre” chinês não nasceu de virtude coletiva, mas de um desenho de incentivos: fazer do crescimento um currículo.


O problema é que, quando um sistema coloca a salvação num número, começa a produzir comportamentos que protegem o número. Nem todos são criminosos. Nem todos são corruptos. Mas quase todos se tornam previsíveis: preferem o que é mensurável ao que é necessário; preferem a obra que inaugura ao serviço que mantém; preferem o investimento que aparece no relatório ao cuidado que não cabe numa coluna.


O Estado passa a ter uma fé. E a fé exige sacrifícios.


Durante algum tempo, a liturgia do PIB parecia perfeita. O país crescia, a pobreza recuava, as cidades subiam como se o betão fosse uma estação do ano. O centro via números; os territórios viam oportunidades. E, numa administração hierárquica, um território que promete números promete lealdade. Não há instrumento mais dócil do que um quadro que sabe que a próxima etapa depende de bater uma meta.


Isto ajuda a explicar uma característica da China contemporânea que, vista de fora, parece paradoxo: a combinação de uma máquina estatal forte com uma economia que, em momentos críticos, se comporta como uma corrida. A corrida não é uma metáfora estética. É um mecanismo.


Quando o mecanismo é esse, a corrupção deixa de ser apenas um desvio moral individual. Passa a ser, muitas vezes, uma consequência lateral de um jogo em que o poder local controla acesso, licenças, terrenos, contratação pública, autorizações ambientais, fiscalização. Mesmo quando não há envelopes, há favores; mesmo quando não há suborno explícito, há “preço da previsibilidade”. O mercado deixa de ser um espaço neutro. Torna-se uma sucessão de portas.


O centro não precisa de ordenar a corrupção para colher os seus efeitos. Basta desenhar um sistema em que a carreira depende do que se consegue mostrar.


E aqui entra um segundo fenómeno, igualmente bem estudado, que completa a fotografia: quando as promoções e a reputação política se amarram a métricas como o PIB, cresce também a tentação da manipulação — não apenas por vaidade estatística, mas por sobrevivência competitiva.


Há investigação recente dedicada precisamente ao problema da misreporting do PIB sob incentivos de carreira e competição entre líderes locais.


Num regime onde “errar números” pode ser interpretado como “falhar politicamente”, o número ganha um estatuto quase litúrgico. E quando o número ganha esse estatuto, ele tende a produzir duas coisas: aceleração e cegueira.


A aceleração é óbvia: mais investimento, mais obra, mais atividade. A cegueira é mais lenta: solos degradados, água envenenada, dívida empurrada, cidades onde o brilho não corresponde a vida, projetos que existem para o relatório e não para as pessoas.


Há uma terceira consequência, mais humana: a ansiedade administrativa.


Um quadro local pode ser, ao mesmo tempo, patriota, trabalhador, eficaz — e ainda assim viver refém de um modelo que o obriga a escolher sempre o que sobe o indicador.


Um hospital novo aparece numa fotografia. Uma rede de cuidados continuados não aparece. Um parque industrial dá números. Um sistema de queixas e transparência dá problemas.


Numa cultura política que valoriza estabilidade, há algo de ironicamente instável nesta dinâmica: a estabilidade passa a depender de manter o motor sempre em rotação. E quando o motor abranda, o pânico entra no edifício.


Nos últimos anos, esse abrandamento tornou-se mais visível, sobretudo por causa do imobiliário e do financiamento local. As vendas de terrenos — um pilar das receitas de muitos governos locais — enfrentaram quedas e fragilidade, segundo dados oficiais reportados internacionalmente, com descidas em 2025 em vários recortes temporais.


Isto é crucial para compreender a moral do crescimento.


Quando um município ou uma província depende de receitas extraordinárias associadas a terrenos e construção, a tentação de continuar a produzir “atividade” não desaparece com a necessidade; intensifica-se com ela.


A mesma lógica que premiava a obra, em época de expansão, pode premiar a obra, em época de aperto — agora não para crescer, mas para evitar colapso orçamental, desemprego e protestos.


O indicador, nesse momento, já não é apenas ambição. É contenção do medo.


É aqui que a corrupção, a distorção e a propaganda se tocam. Porque a propaganda precisa de resultados; e os resultados, muitas vezes, precisam de atalhos. E os atalhos criam beneficiários: empresas próximas, intermediários úteis, redes capazes de transformar autorização em lucro. A corrupção, vista assim, não é um acidente ocasional. É um risco estrutural que emerge quando o Estado é, simultaneamente, legislador, proprietário e juiz — e quando a carreira depende de resultados contáveis.


A pergunta importante não é “há corrupção?”. A pergunta é “o sistema consegue não produzir?”.


É nesse quadro que a famosa campanha anticorrupção do período de Xi Jinping deve ser lida: não como simples cruzada moral, mas como tentativa de disciplinar uma máquina que, por desenho, produz zonas cinzentas.


A fórmula “tigers and flies” tornou-se o slogan público da promessa de limpeza, articulada a partir de 2013, com ecos internacionais imediatos.


Mas a própria existência de uma campanha deste tamanho é, por si, um sinal: quando a corrupção se torna endémica, o poder tem duas escolhas — aceitar a decadência ou reorganizar a disciplina. O que não pode fazer é fingir que o problema é apenas carácter.


Um sistema que concentra decisão e recompensa números cria, inevitavelmente, incentivos para transacionar decisão.


A religião do PIB, porém, tem uma particularidade: ela substitui um debate político por uma competição administrativa. E, quando isso acontece, a sociedade civil passa a ser vista como ruído indesejado — não porque esteja errada, mas porque atrasa. Fiscalização atrasa. Transparência atrasa. Media livres atrasam. Tribunais independentes atrasam. Associações autónomas atrasam.


Num regime que mede sucesso por velocidade, a liberdade é, quase sempre, um travão.


Este é o ponto em que um olhar europeu tende a cair numa armadilha: imaginar que “crescimento” é um objetivo neutro e que as distorções são defeitos corrigíveis.


Em sistemas onde há alternância e fiscalização forte, muitas vezes são. Em sistemas onde o poder é monolítico e a carreira depende de metas, as distorções são parte da engrenagem.


O país pode enriquecer. E enriqueceu. Mas o mecanismo que enriquece pode também envenenar a política.


Há um debate académico e empírico sobre o grau em que o “torneio” é incentivo puro, seleção, ou uma combinação dos dois — e sobre como varia por épocas e por níveis administrativos.


Essa nuance é importante: a China não é um bloco único, e os incentivos mudam conforme o centro muda de prioridades (crescimento, estabilidade, tecnologia, segurança).


Ainda assim, mesmo com nuances, a ideia central permanece operacional: quando a carreira depende de indicadores, o indicador governa. E quando o indicador governa, aparecem duas China ao mesmo tempo.


A China da eficácia: linhas de comboio, fábricas, portos, tecnologia, capacidade de mobilização.


E a China da tensão: dívida local, projetos vazios, desigualdade de oportunidades, ressentimento silencioso, ecossistemas degradados, e um Estado que, para controlar o efeito colateral, precisa de mais controlo.


Se este ensaio tem uma ambição, é apenas esta: recusar a explicação moralista e fácil.


Não se trata de dizer que “os chineses são assim” ou que “o Partido é naturalmente corrupto” como se fosse um traço cultural. Trata-se de olhar para o desenho do poder e para os seus incentivos, e aceitar que sistemas produzem comportamentos.


O PIB, quando vira religião, não mede apenas produção. Mede obediência.


E isso ajuda a compreender por que razão certas campanhas de “limpeza” acabam por reforçar o mesmo edifício que dizem purificar. O edifício depende da estatística como legitimidade; e depende do controlo como método; e depende da disciplina para manter o motor a funcionar.


Quando um regime substitui a política por números, o futuro torna-se contabilidade. E a contabilidade, um dia, cobra.


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