O Futuro Não Eleito da Inteligência Artificial
- Aurelian Draven

- 4 de jan.
- 8 min de leitura
Naquela tarde de 9 de dezembro de 2025, o Senado dos Estados Unidos tinha o seu ar habitual de catedral laica: madeira polida, bandeiras, uma solenidade que parece pedir sempre uma frase bem vestida. O que se ouviu, porém, não foi um discurso bem vestido. Foi uma sequência de perguntas ditas com a voz de quem já não tem paciência para cerimónias — nem para o tipo de optimismo tecnológico que se vende como se fosse sabonete: “lava tudo, resolve tudo, cheira bem”.
Bernie Sanders subiu à tribuna como sobe há décadas: sem encanto, sem treino de televisão, sem sorriso calculado.
Um homem com mais de oitenta anos, cabelo desalinhado, cara de quem dorme pouco e carrega demasiados países dentro da cabeça. Em teoria, Sanders é uma peça antiga. Na prática, o momento que vivemos é tão novo — e tão mal governado — que um homem antigo pode, de repente, soar como a única pessoa na sala a não estar a fingir.
Sanders não foi ali falar dos seus temas de sempre, ou pelo menos não os trouxe pelo caminho habitual. Não fez o sermão clássico sobre Wall Street, não se limitou a repetir que o salário mínimo é indecente. Falou de inteligência artificial. E falou dela como se fala de poder — não como se fala de gadgets. Porque o problema, o bruto problema, é este: estamos a construir uma estrutura que vai mandar na vida de toda a gente, e estamos a fazê-lo com uma leveza moral que mete medo.
Ele fez sete perguntas. Não no sentido escolar, de “vamos lá ver se a turma aprendeu”. No sentido de um diagnóstico: quando alguém não sabe o que está a fazer, começa a narrar. Quando alguém sabe que está a entrar numa zona perigosa, pergunta. E há perguntas que são uma forma de travão de mão.
A primeira, a mais incómoda, foi a que deveria estar colada na porta de cada laboratório, de cada conselho de administração, de cada palco de conferência tech: quem controla a inteligência artificial? Quem está, de facto, a escrever as regras invisíveis do futuro?
A conversa pública sobre IA tem sido uma coisa estranha.
Por um lado, é tudo inevitável: “vai acontecer”, “não dá para parar”, “é como a electricidade”, “é como a internet”. Por outro, quem decide quase tudo são meia dúzia de pessoas e empresas. Isto é o truque. Dizem-nos que é inevitável para nos calarmos; depois, fazem as escolhas em privado como se fossem proprietários do destino humano.
Sanders apontou nomes que já nem precisam de apresentação: Elon Musk, Jeff Bezos, Bill Gates, Larry Ellison — gente que tem dinheiro suficiente para comprar tempo, comprar influência, comprar portas. Gente que, em alguns casos, diz abertamente que despreza reguladores e que vê o Estado como um incómodo. O que Sanders perguntou — sem floreados — foi se é aceitável que esta elite molde a próxima etapa da vida coletiva sem prestar contas a ninguém.
A pergunta é simples e, por isso mesmo, brutal: desde quando é que o futuro deixou de precisar de eleições?
Desde quando aceitamos que decisões que afetam trabalho, informação, vigilância, intimidade, saúde, educação e guerra sejam tomadas como se fossem decisões de produto?
Depois veio a pergunta que cai em cima do estômago, porque tem a ver com o que paga a renda e o que põe comida na mesa: o que acontece ao trabalho?
Não ao “emprego do futuro” num slide bonito, mas ao trabalho real — o trabalho que tem horários, chefes, turnos, dores nas costas, e que termina com alguém a abrir a carteira no supermercado e a fazer contas.
Sanders levou números. E os números, nestas coisas, não são profecia, são aviso. A automação e a robótica podem empurrar para fora do mercado dezenas de milhões de postos. As estimativas variam — e há sempre quem diga “não vai ser assim”, “vai criar novos empregos”, “foi assim na revolução industrial”. Tudo isso pode ser verdade em parte. Mas a escala e a velocidade são diferentes, e o tipo de substituição também.
Havia percentagens duras no que ele referiu: uma fatia enorme do fast food, parte relevante de camionistas, contabilistas, assistentes educativos, um pedaço grande da enfermagem.
Não interessa aqui discutir se o número exato é 40% ou 35% ou 45%. O que interessa é o mecanismo: quando uma tecnologia promete eficiência, a primeira coisa que corta é gente. E a segunda coisa que corta é poder negocial. Porque um trabalhador que sente que pode ser substituído amanhã trabalha hoje com medo. E o medo é uma forma de governo.
É aqui que a conversa costuma ficar cínica. Dizem: “é o progresso”. Mas progresso para quem? Se a produtividade aumenta e os lucros disparam, mas o cidadão comum perde estabilidade, perde salário, perde tempo, perde dignidade, então não estamos a falar de progresso. Estamos a falar de um saque — um saque com ar de modernidade.
Depois Sanders entrou na democracia. E aqui a rudeza é necessária, porque há um tipo de discurso tecnológico que se comporta como se a democracia fosse um detalhe irritante. “Depois logo vemos.” “Não travem a inovação.” “Não compliquem.” É exatamente assim que as coisas descarrilam: primeiro chamam “complicação” às regras; depois chamam “inevitável” ao abuso.
A pergunta foi: o que acontece à democracia num mundo de vigilância algorítmica?
Sanders invocou ideias associadas a Larry Ellison sobre vigilância em tempo real: sistemas capazes de registar e analisar movimentos, palavras, compras, deslocações, interações. O panóptico, só que sem torre e sem carcereiro visível. Um panóptico onde o carcereiro é um sistema, e onde a punição nem precisa de ser prisão: basta ser classificação, exclusão, predição, manipulação.
A palavra “privacidade” já anda com ar de peça de museu.
O nosso tempo tem uma habilidade especial para normalizar o que devia causar alarme. Sentimos aquela inquietação leve quando um anúncio parece saber demais, mas passamos à frente como quem espanta uma mosca. O problema é que uma mosca hoje é um enxame amanhã. E, quando damos por ela, a democracia está sentada numa cadeira a olhar para o chão, porque percebe que deixou de controlar as condições básicas da liberdade.
Democracia não é só votar de quatro em quatro anos. É ter margem para discordar, para mudar de ideias, para experimentar sem ser imediatamente punido. É poder existir sem ser um ficheiro. Se tudo é rastreado e tudo é analisado, a dissidência torna-se estatística. E uma dissidência estatística é uma dissidência controlável.
Depois ele foi ao ponto que mais gente tenta evitar, porque é o ponto que obriga a falar de fragilidade humana sem ironia: o que acontece à nossa humanidade?
Sanders falou de solidão. Falou de adolescentes que já recorrem a “companheiros” de IA como forma de companhia. Os números citados em estudos recentes são esmagadores. E, mesmo que o número exato mude de estudo para estudo, o fenómeno é real: há miúdos a conversar com máquinas para não conversarem com pessoas. Há jovens a preferirem o conforto do algoritmo à fricção humana.
Aqui convém abandonar a pose. Isto não é uma curiosidade sociológica. Isto é um sinal. Quando uma geração cresce a treinar a intimidade com uma entidade que nunca se zanga, nunca se afasta, nunca tem dias maus, nunca diz “agora não me apetece”, nós estamos a educar seres humanos para um tipo de relação que não existe. Estamos a ensinar que o outro deve ser sempre disponível, sempre gentil, sempre útil. E, depois, quando a vida real aparece — com pessoas reais, com limites reais — a vida real parece defeituosa. Parece “menos boa”. Parece “menos eficiente”. E é aí que começa uma espécie de miséria afetiva que não se resolve com tecnologia nenhuma.
Sanders citou John Donne (“nenhum homem é uma ilha”) para lembrar a interdependência. Eu diria isto de forma menos elegante: sem relação humana a sério, ficamos mais burros e mais cruéis. Porque a empatia não nasce de discursos. Nasce de choques, de reconciliações, de aprender a lidar com alguém que não é programado para nos agradar.
Depois veio o tema que os evangelistas da “nuvem” detestam: o chão. Qual é o custo ambiental disto tudo? A “nuvem” é uma mentira semântica confortável. Sugere leveza. Sugere invisibilidade. Sugere que nada pesa. Mas a IA pesa. Pesa muito. Pesa em energia, em água, em metais, em território, em infraestruturas gigantescas, em centros de dados que precisam de arrefecimento constante.
Sanders falou de consumo eléctrico comparável ao de dezenas de milhares de casas e, em projetos maiores, de centenas de milhares. E, mais importante do que o número, é a lógica: a tecnologia não é etérea; é material. Ela ocupa terra, exige recursos, gera conflitos locais. E quem paga isso raramente é quem beneficia mais.
Há comunidades que ficam com o ruído, a pressão sobre redes eléctricas e hídricas, a transformação do território; e há acionistas que ficam com a valorização. Isto é velho como o mundo, apenas mudou a embalagem.
A seguir veio a pergunta que muita gente evita porque estraga o almoço: como é que isto muda a guerra?
A guerra, tal como a conhecemos, tem um travão político essencial: os mortos próprios. Um governo pensa duas vezes quando sabe que vai mandar jovens para morrer e que isso vai ter consequências internas.
Mas se o combate se fizer com drones, sistemas autónomos, “robôs-soldado”, se o custo humano directo for menor para quem ataca, então o travão moral e político enfraquece. A tentação aumenta. A guerra torna-se mais “administrável”. E uma guerra administrável é uma guerra mais provável.
Isto não é alarmismo. É só olhar para a história com olhos limpos. Os Estados fazem o que conseguem justificar. Se a tecnologia lhes facilitar a justificação — “não morremos nós”, “é cirúrgico”, “é preciso” — então o mundo fica mais perigoso. Não necessariamente porque os líderes se tornam mais maus; mas porque o custo de ser mau diminui.
Por fim, Sanders entrou na pergunta mais profunda e mais fácil de ridicularizar — e por isso mesmo mais importante: podemos perder o controlo? Ele citou Geoffrey Hinton, figura central da IA moderna, que alertou publicamente para riscos de sistemas ultrapassarem a nossa capacidade de supervisão. E invocou o imaginário de 2001: A Space Odyssey, com HAL a virar-se contra os criadores.
É tentador tratar isto como cinema. Mas o risco real não é o robô assassino com voz calma. O risco real é mais prosaico e mais aterrador: é dependermos de sistemas que ninguém entende totalmente, que ninguém consegue auditar por inteiro, e que, mesmo assim, passam a decidir coisas vitais. É a civilização a operar com caixa negra.
E, quando a caixa é negra, o poder desloca-se. Desloca-se para quem controla a caixa, para quem sabe mexer nela, para quem tem acesso aos dados, para quem tem o direito de desligar ou ligar. Desloca-se, muitas vezes, para fora do espaço democrático.
No meio destas sete perguntas, há um fio que as cose: o poder. Não a IA como fenómeno técnico, mas a IA como reorganização de poder.
Sanders não está a dizer “parem a tecnologia”. Está a dizer “parem a estupidez política”. Parem de agir como se o futuro fosse uma questão privada. Parem de confundir inovação com inevitabilidade. Parem de chamar “liberdade” ao direito de meia dúzia de empresas rearranjarem a vida dos outros sem discussão pública.
Há um tipo de conversa que domina a nossa época e que é, francamente, covarde: “isto vai acontecer, portanto adaptem-se.” É a conversa de quem quer o conforto de não decidir. Mas um futuro que “vai acontecer” sem decisão coletiva é um futuro tomado. É um futuro apropriado.
O que Sanders fez naquele dia, no Senado, foi recusar essa apropriação como se fosse normal. E isso, neste tempo de propaganda optimista e de medo silencioso, é um ato político raro. Um homem velho a lembrar que democracia não é um adereço. É o mecanismo — frágil, irritante, lento — que impede que o futuro seja capturado por quem tem mais dinheiro e menos escrúpulos.
No fim, tudo isto pode ser dito numa frase que não tem glamour nenhum: o futuro é demasiado importante para ser deixado aos donos da tecnologia. E é precisamente por não ter glamour que a frase serve. O glamour, nestes assuntos, costuma ser a antecâmara da fraude.
Talvez a esperança — se é que a palavra ainda pode ser usada sem cinismo — esteja mesmo nesta insistência pouco elegante de Sanders. Não porque ele tenha respostas perfeitas. Mas porque ele se recusa a aceitar a pergunta falsa que nos empurram: “o que pode a IA fazer?” A pergunta verdadeira é outra: quem manda, quem paga e quem fica de fora?
O resto é conversa bonita. E, nesta fase, já tivemos conversa bonita suficiente para uma vida inteira.
Autor: Aurelian Draven
#AtlanticLisbon #AurelianDraven #InteligenciaArtificial #IA #Tecnologia #Democracia #Poder #VigilanciaDigital #Privacidade #Trabalho #Automacao #Robots #DataCenters #Ambiente #Geopolitica #Futuro




Um artigo bem esclarecedor das maleitas da IA, mas difícil de encaixar por muitos, novos e velhos, pois se deliciam com os resultados sérios e brincalhões que a IA lhes oferece. Estes resultados são paliativos da realidade da IA, para nosso mal. Um mal de que ainda não estamos conscientes. Felizmente vão aparecendo artigos como este, e conferências de estudiosos da IA na área da ciência política e Social que mostram as fragilidades desta nova tecnologia e de quanto não nos devemos fiar nela.
Bom texto
Este texto já tinha lido ontem! Sim, com mais dificuldade, no telemóvel. Mais um obrigada.
Que grande texto. 👏👏👏