A Sala Estava Quase Vazia
- O Caderno

- há 22 minutos
- 7 min de leitura
Atualizado: há 4 minutos
A Livraria Lello fechou às sete, como sempre, mas havia uma luz numa sala lateral no segundo andar.
As janelas ficam no segundo andar, virada para a Rua das Carmelitas. Quem passa vê a luz.

Dentro, doze cadeiras dobráveis, dispostas em meia-lua. Dez estavam ocupadas. Estamos a 3 de fevereiro, uma terça-feira sem nada de especial exceto isto: Rui Barroso ia ler.
Rui Barroso não lê em público há seis anos. Escreve — isso toda a gente sabe porque os livros aparecem, impressos por uma editora minúscula em Matosinhos, distribuídos por algumas livrarias no Porto e uma em Lisboa, e depois desaparecem, comprados por pessoas que não os discutem em redes sociais nem os recomendam em cafés. Circulam.
Mas ele não aparece. Não dá entrevistas, não vai a feiras, não assina exemplares, não tem fotografia na contracapa.
A última vez que alguém o viu a falar sobre o trabalho foi há anos, numa biblioteca municipal em Gaia, e a sessão terminou quando uma senhora de meia-idade lhe perguntou se as personagens eram baseados em pessoas reais. Ele levantou-se, disse "obrigado pela presença", e saiu.
Agora estava ali, sentado numa cadeira igual às outras, com um livro fechado no colo.
Usava uma camisola de lã cinzenta, calças de ganga lavadas demais, sapatos de camurça gastos no calcanhar.
Tinha cinquenta e tal anos mas parecia mais velho — não pela cara, que era comum e atenta, mas pela forma como segurava as coisas: com cuidado excessivo, como se tudo pudesse partir-se.
Quem organizou a leitura foi a Helena Sá, uma das gestoras da livraria há quase 20 anos. Conhece-o desde sempre — foram vizinhos em Ramalde nos anos 1980, quando os pais dele ainda viviam e a mãe dela vendia peixe numa rua perto de Serralves. Não são amigos. Mas ela tem os números dele, que mudam de tempos a tempos, e desta vez ligou-lhe e disse: "Tens um livro novo, vens ler dez páginas, convido dez pessoas, ninguém grava, acabou."
Ele não respondeu durante semanas.
Depois enviou uma mensagem: "Terça, 19h30."
As dez pessoas não foram escolhidas por ela. Foi ele quem fez a lista: nomes de gente que comprou os livros anteriores, que ele conhece apenas pelas fichas de venda que a Helena lhe mostra quando ele aparece, sem avisar, de meses a meses.
Havia professores de liceus diferentes.
Duas pessoas que trabalhavam em escritórios.
Um enfermeiro.
Uma reformada que tinha sido costureira, um estudante, uma mulher que geria um café em Leça, e um homem que apareceu com meia hora de atraso, pediu desculpa baixinho, e sentou-se ao fundo sem tirar o casaco.
Não havia jornalistas.
A Helena tinha contactado alguns — incluindo alguém de um jornal diário e uma crítica que escreve para revistas culturais. Todos confirmaram interesse. Ela não voltou a responder. Deixou os emails por ler. Quando um deles insistiu por telefone, disse que a sala era pequena e que já estava cheia.
Rui Barroso abriu o livro às 19h37. Não disse nada antes. Leu durante doze minutos. Eram três páginas e meia de um romance que ainda não tem título definitivo mas que a editora vai chamar Casa Fechada quando sair em Junho.
A voz era baixa, uniforme, sem inflexão dramática.
Contava a história de um homem que vive sozinho num prédio em demolição na Baixa do Porto e que passa os dias a catalogar objetos deixados pelos antigos moradores: chaves sem fechaduras, calendários velhos, uma boneca sem cabeça, postais nunca enviados.
A certa altura, a personagem encontra um caderno com uma única frase repetida em todas as páginas: "Não me esqueças." Ele não sabe quem escreveu. Copia a frase para o seu próprio caderno, fecha o original, e nunca mais o abre.
Quando o Rui terminou, fechou o livro e disse: "Obrigado." Levantou-se.
A Helena perguntou se alguém tinha perguntas. Ninguém tinha. Ou tinham, mas não fizeram. Ele ficou de pé durante talvez um minuto — tempo suficiente para que uma das professoras, de nome Carla, dissesse "gostei muito", e ele respondesse "obrigado" outra vez.
O homem que tinha chegado atrasado levantou a mão como se fosse dizer alguma coisa, mas depois deixou-a cair. O Rui saiu.
A sala ficou com as dez pessoas e a Helena, que serviu vinho tinto e queijo da serra.
Falaram do texto durante alguns minutos. Depois falaram de Rui Barroso durante bem mais tempo.
Há histórias sobre ele.
Não do tipo que se publica — do tipo que circula em conversas de três pessoas que conhecem alguém que conhece alguém.
Que viveu anos em Berlim e voltou sem dizer porquê.
Que teve um filho que morreu pequeno, e a mulher deixou-o, e ele nunca mais falou nisso.
Que escreve à mão, em cadernos comprados na mesma papelaria, e queima as primeiras versões.
Que uma vez um editor de Lisboa lhe ofereceu um contrato com adiantamento generoso e ele recusou porque não queria "ter essa dívida".
Que trabalha num arquivo municipal a organizar documentos antigos, e que ganha pouco mais de mil euros por mês. Que vive sozinho num apartamento em Paranhos, sem televisão, sem internet, com uma estante de livros que vai do chão ao teto.
Nenhuma destas coisas é verificável porque ninguém lhe pergunta diretamente e ele não corrige.
A Helena sabe algumas. Outras ouviu e não confirmou. O que ela sabe com certeza é isto: ele escreve todos os dias, cedo, antes de ir trabalhar.
Tem cinco livros publicados ao longo de doze anos. Vende, em média, algumas centenas de exemplares de cada. Nunca pediu apoio público, nunca concorreu a prémios, nunca enviou manuscritos a editoras grandes.
A primeira vez que publicou foi porque apareceu na editora de Matosinhos — que na altura era só uma sala alugada acima de uma mercearia — com o livro impresso em casa, encadernado como podia, e perguntou se eles o queriam publicar "a sério". Publicaram. Vendeu pouco no primeiro ano. Ele não quis saber das vendas. Só voltou quando tinha o segundo.
A Helena conhece os leitores porque reconhece os nomes nas encomendas. Há um núcleo de talvez 50 pessoas que compram todos os livros. Outros aparecem e desaparecem. Nenhum é famoso. Nenhum escreve sobre os livros online. Alguns enviam cartas para a editora, que encaminha para a Helena, que as guarda numa caixa. Ela nunca lhe perguntou se quer lê-las. Ele nunca perguntou se há cartas.
Uma vez, há uns anos, um estudante de mestrado da Faculdade de Letras pediu para entrevistá-lo para uma tese sobre "escrita fora do circuito comercial".
A Helena passou o pedido. Ele não respondeu.
O estudante apareceu na livraria, deixou o contacto, disse que só precisava de vinte minutos. A Helena transmitiu de novo a mensagem. O Rui enviou uma mensagem: "Diz-lhe que os livros já têm tudo o que tenho para dizer."
O que os livros têm é isto: lugares reconhecíveis — ruas do Porto descritas com precisão topográfica, cafés que existem, autocarros com números reais — habitados por pessoas que fazem coisas pequenas e irremediáveis.
No primeiro, Água Parada, um homem perde o emprego e passa meses a fingir que vai trabalhar, saindo de casa às 8h e voltando às 18h, sentando-se em bancos de jardim, entrando em igrejas, bebendo café sozinho. A mulher descobre. Ele não explica porquê. Separam-se.
No segundo, O Peso das Malas, uma mulher de sessenta e tal anos que vende a casa onde viveu décadas e muda-se para um estúdio em Campanhã. Passa o livro inteiro a decidir o que leva e o que deixa. No final, leva quase tudo. Não cabe. Dorme no chão, rodeada de caixas que nunca abre.
Não há revelações. Não há catarses. Não há personagens que "aprendem" ou "crescem". Há peso. Tempo. Silêncios que não são interrompidos. Gestos repetidos até se tornarem rituais vazios. E uma atenção quase insuportável ao detalhe: a forma como alguém dobra um guardanapo, o som de um frigorífico velho, a cor exata de uma parede em Miragaia às 17h de uma tarde de Inverno.
Os poucos críticos literários que o leram escreveram variações da mesma coisa: "prosa austera", "realismo minimalista", "influências de Carver e Handke mas com voz própria".
Uma vez alguém chamou-lhe "o oposto do Saramago": "onde Saramago acrescenta, Barroso remove; onde Saramago explica, Barroso cala." Ele não leu essas coisas. A Helena leu e guardou os recortes numa pasta que nunca lhe mostrou.
Quando a sessão na Lello terminou, a professora Carla ficou para trás. Ajudou a Helena a arrumar as cadeiras. Perguntou: "Ele vai voltar?"
"Não sei," disse a Helena. "Provavelmente não."
"Pena."
"Porquê pena?"
Carla parou, com uma cadeira dobrada nas mãos. Ficou uns segundos sem dizer nada. Depois: "Porque é bom ouvir alguém que não está a tentar impressionar."
A Helena não respondeu logo.
Guardou a última cadeira, apagou as luzes da sala, fechou a porta. Desceram juntas. Lá fora, a Rua das Carmelitas estava quase vazia exceto por dois turistas perdidos e um cão vadio. Carla despediu-se, virou à esquerda, desapareceu.
A Helena ficou. Acendeu um cigarro — fuma alguns por dia, sempre depois das 20h. Olhou para uma janela do segundo andar, onde afinal havia uma luz acesa, embora a sala estivesse vazia. Tinha-se esquecido de desligar um interruptor lá dentro. Pensou em voltar. Não voltou.
Rui Barroso tinha ido embora há vinte minutos ou mais. Não disse para onde. Provavelmente apanhou o metro em São Bento, mudou na Trindade, saiu algures, caminhou até casa.
Amanhã acorda às 6h, escreve durante duas horas, vai trabalhar. O livro sai em junho. Vai vender algumas centenas de exemplares, talvez mais se houver sorte. Ninguém vai entrevistá-lo. Ninguém vai pedi-lhe para ler em festivais.
A vida continua exatamente como antes, exceto que agora há mais um livro no mundo e uma sala que esteve cheia durante doze minutos.
A Helena apagou o cigarro, trancou a porta da livraria, foi para casa. No bolso do casaco levava uma folha dobrada que o Rui lhe tinha deixado em cima da cadeira antes de sair. Só a viu quando arrumou a sala. Abriu-a no metro. Dizia, em letra manuscrita: "Obrigado por isto. Não volto a pedir."
Ela guardou a folha.
Quando chegou a casa, guardou-a dentro de um livro — Água Parada, primeira edição, com a dedicatória que ele lhe escreveu anos antes: "Para a Helena, que não desiste."
Imagem: - albertocarvalho.com / Atlantic Lisbon
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Li isto duas vezes. Gostei bué. O homem que escreve mas não quer aparecer. Conheço pessoas assim. O meu tio era assim com as coisas dele. A parte em que ele lê e sai logo achei muito real. E a Helena pareceboa pessoa sem tar sempre a dizer. A frase que mais gostei: "agora há mais um livro no mundo". É verdade. As coisas acontecem e ninguem vê. Obrigado.