O país que não recebia armas tornou-se fornecedor dos que as tinham
- Helena Vale

- há 22 horas
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Num campo de treino algures nos Emirados Árabes Unidos, em março de 2026, instrutores ucranianos ensinavam militares do Golfo a abater drones com interceptores que custam dez mil dólares. Os drones que estavam a ser simulados custavam entre oitenta mil e cento e trinta mil dólares cada. A diferença de preço não era um detalhe técnico. Era o argumento de venda.
Ucrânia vende drones ao Golfo: o mercado que a guerra do Irão criou.
A Ucrânia tinha chegado ao Golfo com algo que nenhum dos fornecedores habituais de armamento conseguia oferecer: quatro anos de experiência operacional real contra exatamente o tipo de ameaça que o Irão acabara de demonstrar ser capaz de lançar em escala industrial. Não era teoria. Não era simulação. Era o conhecimento acumulado de quem aprendeu a sobreviver em condições que os países do Golfo estavam agora a descobrir pela primeira vez.
O Irão fechou o Estreito de Ormuz em fevereiro de 2026 com uma combinação de mísseis balísticos e drones Shahed que rapidamente se tornou o padrão tático do conflito.
Os países do Golfo, que tinham sistemas Patriot instalados nos seus territórios mas viram esses sistemas a ser reorientados para prioridades americanas, perceberam com a brutalidade dos factos consumados que a defesa contra drones baratos e em volume é um problema diferente da defesa contra mísseis convencionais. Exige outra doutrina, outros equipamentos, outra cadeia de decisão. Exige, acima de tudo, experiência que não se compra num catálogo de armamento.
A Ucrânia tinha essa experiência. Tinha-a construído pela necessidade — o tipo de necessidade que não admite erro porque o erro custa vidas — durante quatro anos de guerra contra uma força que usava os mesmos Shaheds iranianos, comprados por Moscovo e integrados na sua doutrina de ataque a infraestruturas civis. Quando o Golfo começou a procurar quem pudesse ensinar o que sabia, havia um único país com credenciais operacionais verificadas e disponibilidade imediata.
A guerra do Irão privou a Ucrânia de interceptores Patriot e criou-lhe um mercado no Golfo que Washington não controla e não antecipou.
Zelensky assinou acordos de defesa com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar. Os acordos incluíam fornecimento de drones, construção de linhas de produção no próprio Golfo, formação de pessoal e transferência de tecnologia de contra-drone. Por março de 2026, mais de duzentos especialistas militares ucranianos estavam no terreno em países do Golfo Pérsico. Não como conselheiros. Como instrutores com experiência direta do que estavam a ensinar.
A mesma guerra que reduziu o fornecimento de interceptores Patriot à Ucrânia — porque os Estados Unidos os redirecionaram para as operações no Golfo — criou as condições para que a Ucrânia encontrasse um mercado que não dependia dos Estados Unidos para existir. A escassez que Washington impôs a Kyiv tornou o conhecimento ucraniano mais valioso, não menos. O país que estava a ser privado de armamento ocidental tornou-se fornecedor de segurança para os países que esse armamento estava a proteger em vez dela.
Portugal reconhece esta geometria, ainda que em versão mais antiga e menos dramática. Durante séculos, o valor estratégico de um país pequeno não dependeu do seu tamanho mas da sua posição — o que controlava, o que sabia, o que outros precisavam de atravessar para chegar ao que queriam. Sagres não era uma base militar. Era o ponto onde o conhecimento náutico português se tornava indispensável para qualquer projeto de expansão atlântica.
As Lajes não eram território americano. Eram o sítio sem o qual a logística americana no Atlântico não funcionava. A Ucrânia está a fazer algo estruturalmente semelhante — a transformar competência adquirida em condições extremas num ativo estratégico que outros países precisam e não têm.
O Golfo não pode esperar décadas. Precisa agora.
Os acordos com os três países do Golfo não são apenas transações comerciais. São o início de uma arquitetura de relações bilaterais que a Ucrânia não tinha antes da guerra e que a guerra do Irão acelerou de forma que nenhum planeamento estratégico teria conseguido antecipar.
A Arábia Saudita, os Emirados e o Qatar são atores com capacidade financeira, influência diplomática e posições em fóruns multilaterais que a Ucrânia tem interesse em cultivar independentemente de qualquer acordo de armamento. O drone é o produto. A relação é o investimento.
Orysia Lutsevych, do Chatham House, formulou-o com precisão: a Ucrânia quer mostrar que é "a linha da frente de uma revolução tecnológica militar" e que acordos de segurança com Kiev tornam os parceiros "mais seguros". É uma narrativa de posicionamento — a Ucrânia não como país em guerra à procura de apoio, mas como potência tecnológica de nicho com algo concreto a oferecer. A distinção importa porque muda a natureza da relação.
Um país que pede apoio depende da generosidade do outro. Um país que vende competência tem alavancagem.
Esta transformação não apaga os custos da guerra nem resolve o problema central de Kiev — que continua a ser a Rússia, que continua a atacar, que continua a beneficiar dos preços do petróleo inflacionados pelo fechamento do Estreito. O que muda é a posição relativa da Ucrânia num sistema internacional que estava a tratá-la crescentemente como um problema de gestão humanitária em vez de como um ator com interesses e capacidades próprias.
Há um número que ilustra a distância entre os dois mundos que a Ucrânia habita simultaneamente.
Os Estados Unidos utilizaram cerca de oitocentos interceptores Patriot nos primeiros três dias da guerra com o Irão — mais do que a Ucrânia recebeu em quatro anos de conflito. No mesmo período, a Ucrânia declarava capacidade de produzir dois mil interceptores próprios por dia, metade dos quais disponíveis para exportação. O país que não recebia Patriot suficientes estava a tornar-se fornecedor dos que os tinham.
A assimetria não é apenas económica. É doutrinária. Os sistemas ocidentais foram desenhados para ameaças convencionais de alta intensidade — mísseis balísticos, aviões de combate, blindados.
O drone barato e em volume é uma ameaça diferente, que exige respostas diferentes, que a Ucrânia desenvolveu por necessidade enquanto o Ocidente continuava a investir nos sistemas que conhecia.
Quando o Golfo descobriu que o Patriot não é a resposta certa para uma nuvem de Shaheds, a Ucrânia já tinha a resposta. Tinha-a há anos. Tinha-a porque não havia alternativa.
A guerra continua. Kiev continua a receber mísseis balísticos e drones noturnos. A atenção americana continua desviada para o Golfo. As garantias de segurança ocidentais continuam a ser uma promessa cujo cumprimento depende de calendários políticos que a Ucrânia não controla.
Ao mesmo tempo, os instrutores ucranianos ensinam nos Emirados. As linhas de produção de drones estão a ser construídas na Arábia Saudita com tecnologia ucraniana. O Qatar assinou. A lista pode crescer.
Não é o fim da guerra. Não é sequer o começo do fim. É a Ucrânia a perceber, pela experiência direta e sem alternativa, que a sobrevivência de um país pequeno num sistema internacional instável raramente depende apenas de quem o apoia. Depende também do que tem para oferecer quando os outros precisam.
Por agora, o que tem para oferecer são drones que custam dez mil dólares e a memória operacional de como se usa um deles para abater outro que custa dez vezes mais.
Fontes: reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026.
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