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O acordo existe. Trump é que não o consegue assinar

A 26 de fevereiro de 2026, em Genebra, Steve Witkoff e Jared Kushner sentaram-se em frente à delegação iraniana. Tinham voado para a Suíça sem equipas de especialistas, sem cadernos de posições preparados, sem o aparato técnico que qualquer negociação desta escala normalmente exige. A mensagem que transmitiram foi simples: não precisamos de peritos, não precisamos de detalhes, precisamos apenas que aceitem os nossos termos.

A reunião terminou sem acordo.


Por que as negociações com o Irão não chegam a acordo?

Imagem conceptual para “O acordo existe. Trump é que não o consegue assinar”, mostrando um acordo pronto, mas ainda em branco, como metáfora do bloqueio político nas negociações com o Irão.
O impasse não está na inexistência de um acordo possível, mas na incapacidade política de Trump em aceitar uma solução que permita ao Irão assinar sem parecer derrotado.

Há guerras que terminam por esgotamento militar. Esta não vai terminar assim. O Irão tem reservas para dois a três meses de bloqueio. Os Estados Unidos têm um calendário político que os iranianos calculam ser ainda mais curto — semanas, não meses, antes que o preço do petróleo, a falta de combustível para aviões e a pressão económica acumulada tornem o custo doméstico insuportável para uma administração que chegou ao poder prometendo exatamente o contrário. Nenhum dos dois lados vai dobrar o outro pela força. Ambos sabem disso.


A questão não é se haverá acordo. É se o homem que teria de o assinar consegue fazê-lo sem destruir a possibilidade no próprio ato de a criar.


Trump construiu a sua identidade política à volta de uma ideia de vitória que exige a visibilidade da derrota do outro. Não basta ganhar — é preciso que o outro seja visto a perder. Esta não é uma preferência estilística. É uma limitação estrutural quando aplicada a negociações com um regime que sobreviveu quarenta anos de pressão externa precisamente porque aprendeu a nunca parecer dobrado. O Irão não assina o que pareça rendição — não porque os seus líderes sejam irracionais, são calculistas e pragmáticos dentro dos seus próprios parâmetros, mas porque a legitimidade interna do regime depende da perceção de que resistiu onde outros teriam cedido.


A diplomacia, na sua forma mais exigente, é a arte de construir acordos em que cada parte pode apresentar o resultado aos seus como uma vitória. Ou pelo menos como não uma derrota. "Unconditional surrender" foi a formulação que Trump usou nos primeiros dias da guerra. É a formulação que os iranianos ouviram. E é a formulação que torna o acordo estruturalmente mais difícil cada vez que é repetida, porque obriga a contraparte a provar, para consumo interno, que não foi isso que aconteceu.


Enquanto Witkoff e Kushner esperavam em Genebra que os iranianos aceitassem os seus termos, as delegações iranianas percorriam o mundo. Islamabade, para as conversações com os paquistaneses. Mascate, para os omanis. Moscovo, para discutir com os russos o que fazer com as reservas de urânio enriquecido. Três capitais em dias.


Ambos os lados sabem o que é preciso. O obstáculo não é o Irão — é a prática política de um presidente que só reconhece a vitória quando o adversário aparece visivelmente derrotado.


E é o comportamento de um regime que está a construir a arquitetura de uma saída que não pareça uma saída — que está a criar, com a paciência de quem tem décadas de experiência em sobreviver à pressão externa, as condições para que um eventual acordo possa ser apresentado em Teerão como algo diferente de capitulação. Os americanos, neste mesmo período, não se moveram. Ficaram à espera. A assimetria não é de poder. É de método que aplicam.


Portugal tem uma memória longa sobre o que acontece quando um ator com mais força não percebe que a força não é o instrumento certo. Durante treze anos, o Estado Novo travou guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau contra movimentos de independência que não podiam vencer militarmente mas que também não podiam ser derrotados por meios militares. O impasse não foi resolvido pela força de nenhum dos lados. Foi resolvido quando, dentro do próprio exército português, oficiais que tinham servido nessas guerras chegaram à conclusão de que a continuidade era impossível — e construíram uma saída que preservou a dignidade de quem saía. O 25 de Abril não foi uma derrota. Foi uma retirada com arquitetura suficiente para não parecer uma fuga.

A administração Trump não está a construir essa arquitetura. Está a insistir na formulação que a torna impossível.


As condições para um acordo existem e são conhecidas. Do lado iraniano: algum grau de enriquecimento de urânio reconhecido, levantamento das sanções, acesso a mercados. Do lado americano: garantias de não proliferação, reabertura do Estreito de Ormuz, alguma forma de supervisão internacional. Nenhuma destas posições é irreconciliável com a da outra parte. O que não existe é uma formulação que permita a Trump apresentar o resultado como rendição iraniana e aos Guardiães apresentá-lo como vitória estratégica.


Há uma solução técnica possível para o Estreito — um consórcio internacional, um sistema de portagens partilhado, uma supervisão multilateral que retire ao Irão o controlo exclusivo sem o obrigar a ceder formalmente a soberania. A solução técnica só funciona se o contexto político a deixar funcionar — se nenhuma das partes precisar de a apresentar como derrota da outra. Com a gramática atual de Washington, esse contexto não existe.


Vaez formulou-o com uma precisão que poucos analistas conseguem: Trump poderia ter tido, na sua primeira presidência, um acordo melhor do que o que Obama assinou. Tinha a alavancagem económica, tinha o contexto, tinha a disposição iraniana. O que não tinha era a capacidade de deixar o outro lado sair sem humilhação. E sem isso, não há acordo — não com os iranianos, não com ninguém que tenha aprendido a tratar a dignidade como recurso estratégico.


A guerra continua. O Estreito permanece fechado. O petróleo sobe. As companhias aéreas cancelam voos por falta de combustível. O Campeonato do Mundo está marcado para os Estados Unidos e começam a haver dúvidas sobre a logística de um torneio sem querosene suficiente para os aviões dos adeptos.


Trump declarou em Truth Social que tem "todo o tempo do mundo". É o tipo de frase que se diz quando se perdeu o controlo do calendário. O Irão sabe que o tempo americano é mais curto do que o seu. Os mercados sabem. Os aliados europeus, que se recusaram a abrir as bases para as operações americanas e que continuam a ver o custo económico do conflito a subir, sabem.


As negociações continuam. Os iranianos continuam a viajar. Os americanos continuam à espera que o outro lado aceite os seus termos.


Em Genebra, a 26 de fevereiro, Witkoff e Kushner tinham dito que não precisavam de peritos. Tinham razão num sentido que não pretendiam: o problema não é técnico. É a questão mais antiga da diplomacia — como se constrói um acordo em que ambos os lados podem olhar para o resultado e chamar-lhe vitória. É uma arte. E há homens que simplesmente não a aprenderam.


Fontes: entrevista de Ali Vaez ao The New Yorker, abril de 2026; reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026.


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