O acordo existe. Trump é que não o consegue assinar
- Helena Vale

- há 11 horas
- 5 min de leitura
A 26 de fevereiro de 2026, em Genebra, Steve Witkoff e Jared Kushner sentaram-se em frente à delegação iraniana. Tinham voado para a Suíça sem equipas de especialistas, sem cadernos de posições preparados, sem o aparato técnico que qualquer negociação desta escala normalmente exige. A mensagem que transmitiram foi simples: não precisamos de peritos, não precisamos de detalhes, precisamos apenas que aceitem os nossos termos.
A reunião terminou sem acordo.
Por que as negociações com o Irão não chegam a acordo?

Há guerras que terminam por esgotamento militar. Esta não vai terminar assim. O Irão tem reservas para dois a três meses de bloqueio. Os Estados Unidos têm um calendário político que os iranianos calculam ser ainda mais curto — semanas, não meses, antes que o preço do petróleo, a falta de combustível para aviões e a pressão económica acumulada tornem o custo doméstico insuportável para uma administração que chegou ao poder prometendo exatamente o contrário. Nenhum dos dois lados vai dobrar o outro pela força. Ambos sabem disso.
A questão não é se haverá acordo. É se o homem que teria de o assinar consegue fazê-lo sem destruir a possibilidade no próprio ato de a criar.
Trump construiu a sua identidade política à volta de uma ideia de vitória que exige a visibilidade da derrota do outro. Não basta ganhar — é preciso que o outro seja visto a perder. Esta não é uma preferência estilística. É uma limitação estrutural quando aplicada a negociações com um regime que sobreviveu quarenta anos de pressão externa precisamente porque aprendeu a nunca parecer dobrado. O Irão não assina o que pareça rendição — não porque os seus líderes sejam irracionais, são calculistas e pragmáticos dentro dos seus próprios parâmetros, mas porque a legitimidade interna do regime depende da perceção de que resistiu onde outros teriam cedido.
A diplomacia, na sua forma mais exigente, é a arte de construir acordos em que cada parte pode apresentar o resultado aos seus como uma vitória. Ou pelo menos como não uma derrota. "Unconditional surrender" foi a formulação que Trump usou nos primeiros dias da guerra. É a formulação que os iranianos ouviram. E é a formulação que torna o acordo estruturalmente mais difícil cada vez que é repetida, porque obriga a contraparte a provar, para consumo interno, que não foi isso que aconteceu.
Enquanto Witkoff e Kushner esperavam em Genebra que os iranianos aceitassem os seus termos, as delegações iranianas percorriam o mundo. Islamabade, para as conversações com os paquistaneses. Mascate, para os omanis. Moscovo, para discutir com os russos o que fazer com as reservas de urânio enriquecido. Três capitais em dias.
Ambos os lados sabem o que é preciso. O obstáculo não é o Irão — é a prática política de um presidente que só reconhece a vitória quando o adversário aparece visivelmente derrotado.
E é o comportamento de um regime que está a construir a arquitetura de uma saída que não pareça uma saída — que está a criar, com a paciência de quem tem décadas de experiência em sobreviver à pressão externa, as condições para que um eventual acordo possa ser apresentado em Teerão como algo diferente de capitulação. Os americanos, neste mesmo período, não se moveram. Ficaram à espera. A assimetria não é de poder. É de método que aplicam.
Portugal tem uma memória longa sobre o que acontece quando um ator com mais força não percebe que a força não é o instrumento certo. Durante treze anos, o Estado Novo travou guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau contra movimentos de independência que não podiam vencer militarmente mas que também não podiam ser derrotados por meios militares. O impasse não foi resolvido pela força de nenhum dos lados. Foi resolvido quando, dentro do próprio exército português, oficiais que tinham servido nessas guerras chegaram à conclusão de que a continuidade era impossível — e construíram uma saída que preservou a dignidade de quem saía. O 25 de Abril não foi uma derrota. Foi uma retirada com arquitetura suficiente para não parecer uma fuga.
A administração Trump não está a construir essa arquitetura. Está a insistir na formulação que a torna impossível.
As condições para um acordo existem e são conhecidas. Do lado iraniano: algum grau de enriquecimento de urânio reconhecido, levantamento das sanções, acesso a mercados. Do lado americano: garantias de não proliferação, reabertura do Estreito de Ormuz, alguma forma de supervisão internacional. Nenhuma destas posições é irreconciliável com a da outra parte. O que não existe é uma formulação que permita a Trump apresentar o resultado como rendição iraniana e aos Guardiães apresentá-lo como vitória estratégica.
Há uma solução técnica possível para o Estreito — um consórcio internacional, um sistema de portagens partilhado, uma supervisão multilateral que retire ao Irão o controlo exclusivo sem o obrigar a ceder formalmente a soberania. A solução técnica só funciona se o contexto político a deixar funcionar — se nenhuma das partes precisar de a apresentar como derrota da outra. Com a gramática atual de Washington, esse contexto não existe.
Vaez formulou-o com uma precisão que poucos analistas conseguem: Trump poderia ter tido, na sua primeira presidência, um acordo melhor do que o que Obama assinou. Tinha a alavancagem económica, tinha o contexto, tinha a disposição iraniana. O que não tinha era a capacidade de deixar o outro lado sair sem humilhação. E sem isso, não há acordo — não com os iranianos, não com ninguém que tenha aprendido a tratar a dignidade como recurso estratégico.
A guerra continua. O Estreito permanece fechado. O petróleo sobe. As companhias aéreas cancelam voos por falta de combustível. O Campeonato do Mundo está marcado para os Estados Unidos e começam a haver dúvidas sobre a logística de um torneio sem querosene suficiente para os aviões dos adeptos.
Trump declarou em Truth Social que tem "todo o tempo do mundo". É o tipo de frase que se diz quando se perdeu o controlo do calendário. O Irão sabe que o tempo americano é mais curto do que o seu. Os mercados sabem. Os aliados europeus, que se recusaram a abrir as bases para as operações americanas e que continuam a ver o custo económico do conflito a subir, sabem.
As negociações continuam. Os iranianos continuam a viajar. Os americanos continuam à espera que o outro lado aceite os seus termos.
Em Genebra, a 26 de fevereiro, Witkoff e Kushner tinham dito que não precisavam de peritos. Tinham razão num sentido que não pretendiam: o problema não é técnico. É a questão mais antiga da diplomacia — como se constrói um acordo em que ambos os lados podem olhar para o resultado e chamar-lhe vitória. É uma arte. E há homens que simplesmente não a aprenderam.
Fontes: entrevista de Ali Vaez ao The New Yorker, abril de 2026; reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026.
#GuerraDoIrão #Trump #Negociações #Irão #Diplomacia #EstreitorDeOrmuz #Geopolítica #AtlanticLisbon #MédioOriente #Acordo #PolíticaExterna



Comentários