Guerra do Irão: o que as bases dos EUA não protegem
- Helena Vale

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Atualizado: há 10 minutos
Trinta e três quilómetros. Na estrangulação mais apertada do Estreito de Ormuz, é essa a distância entre as costas iranianas e a península de Musandam, no sultanato de Omã.
Uma hora de travessia a velocidade de cruzeiro para um navio-tanque. Tempo suficiente para transportar uma fração do petróleo e do gás liquefeito que, durante décadas, fluiu por ali sem que o mundo prestasse grande atenção ao que tornava aquela passagem possível — e ao que seria necessário para a fechar.
Por que as bases militares dos EUA no Golfo não protegem os seus anfitriões.
Em março de 2026, esse corredor tornou-se o ponto de convergência de uma equação que ninguém tinha querido formular em voz alta: o Irão decidira fechá-lo, e nenhum dos países com bases militares americanas instaladas ao longo de toda a costa sul do Golfo Pérsico estava em condições de o reabrir. Não por falta de meios. Por falta de um cálculo que valesse a pena fazer — ou que alguém com poder de decisão estivesse disposto a assumir publicamente.
O que falhou não foi a capacidade militar. Foi a premissa.
Durante cinquenta anos, a presença americana no Golfo assentou numa lógica que raramente precisou de ser articulada, precisamente porque nunca tinha sido testada com esta brutalidade. A base era a garantia. O porta-aviões ancorado ao largo, os interceptores Patriot estacionados nos arredores de Riade e Abu Dhabi, os militares americanos a circular nos centros comerciais de Doha — tudo isso dizia, sem precisar de dizer: estamos aqui, portanto estão protegidos. Os países do Golfo aceitaram este argumento durante décadas, pagaram-no em contratos de armamento avaliados em centenas de milhares de milhões de dólares e em cooperação política que incluía silêncios convenientes sobre políticas domésticas, e construíram sobre ele a sua arquitetura de segurança. A condição não estava escrita — funcionava enquanto o Irão respeitasse a dissuasão.
O Irão deixou de a respeitar — e a revelação teve uma crueldade específica para quem estava dentro do sistema. Os Emirados Árabes Unidos, que acolhem a maior base aérea americana do Médio Oriente, foram o país do Golfo mais duramente atingido pelos ataques iranianos. A escolha não foi aleatória. Teerão construiu deliberadamente uma estrutura de incentivos para punir qualquer aproximação a Israel: atacar o anfitrião mais visível da presença americana era a mensagem, escrita em mísseis balísticos sobre instalações portuárias e de dessalinização. A base não protegeu os Emirados. Tornou-os alvo preferencial, com a precisão de quem quer que o exemplo seja lido corretamente pelos vizinhos.
Dania Thafer, diretora do Gulf International Forum, nomeou o mecanismo com precisão: existe "uma preocupação real sobre uma hierarquia de aliança entre os EUA e Israel, e os EUA e os Estados do Golfo, com Israel mais acima nessa hierarquia." Qualquer analista do Médio Oriente teria subscrito esta formulação em 2018, ou em 2010, ou em 1990. O que a guerra fez foi torná-la indisfarçável.
Há uma memória em Lisboa sobre este mecanismo que Washington parece ter esquecido, ou nunca aprendido direito.
Em outubro de 1973, quando a guerra de Yom Kippur ameaçava destruir as forças israelitas no Sinai e no Golã, a administração Nixon precisava com urgência de uma ponte aérea para Telavive. A rota mais direta passava pelos Açores. Portugal, governado então por Marcelo Caetano e em negociação longa e difícil com Washington sobre a renovação dos acordos de utilização das Lajes, acabou por ceder à pressão americana — a base foi disponibilizada, os voos de reabastecimento partiram da Terceira a partir de 13 de outubro, e a operação ajudou a virar o equilíbrio militar no terreno.
As consequências chegaram em semanas. Os países árabes produtores de petróleo incluíram Portugal no embargo que lançaram contra os que tinham apoiado Israel, diretamente ou por facilitar a logística americana. Uma economia já fragilizada, a menos de seis meses da revolução que poria fim ao Estado Novo, pagou o preço de uma estratégia que não tinha desenhado e de uma guerra em que não tinha nenhuma posição própria. Portugal assinou um acordo de utilização com cláusulas escritas — e recebeu as cláusulas não escritas conforme chegaram, sem aviso prévio e sem direito de veto.
Segundo Zelensky, os Estados Unidos utilizaram cerca de oitocentos interceptores Patriot nos primeiros três dias da guerra com o Irão — mais do que a Ucrânia recebeu em quatro anos de conflito contra uma força que usa os mesmos drones iranianos comprados por Moscovo.
Os países do Golfo viram os sistemas instalados nos seus territórios, apresentados publicamente como escudo da sua segurança, a ser reorientados para uma prioridade diferente sem que ninguém se tivesse dado ao trabalho de lhes explicar a lógica operacional. A base estava lá. O que ela estava a proteger tinha mudado.
No topo da hierarquia que se tornou visível não estavam os Emirados, nem a Arábia Saudita, nem o Qatar — aliados comprados a peso de ouro e de silêncio diplomático durante décadas. Estava a operação militar americana no estreito, e dentro dessa operação a segurança de Israel e a batalha pelo preço do barril numa economia americana já fragilizada pela desorganização tarifária dos meses anteriores.
Os países do Golfo já sabiam, em abstrato, que Washington tinha interesses próprios que nem sempre coincidiam com os seus. Saber isso com portos atacados e sistemas Patriot redirecionados é uma informação de outra ordem — operacional, mensurável, documentada em interceptores por dia.
A Arábia Saudita aprofundou o acordo de defesa com o Paquistão, que ganhou credibilidade adicional como mediador entre Washington e Teerão. O Qatar consolida os laços com a Turquia, que tem os seus próprios cálculos em relação à NATO e à Rússia e que não é, por isso, uma âncora simples.
A China, com relações comerciais densas com o Irão e interesses diretos na estabilidade do corredor de Ormuz para as suas importações energéticas, posiciona-se como o ator com credenciais de mediação que Washington erodiu. Fala-se de arquiteturas regionais de segurança coletiva, de um "NATO árabe", de consórcios internacionais para a gestão dos corredores marítimos do Golfo — ideias que circulavam em conferências académicas há quinze anos e que a guerra trouxe para negociações concretas.
O problema com estas alternativas não é a sua incoerência. É que replicam, em versão mais fragmentada e com menos recursos, a mesma premissa que acabou de ser testada até ao ponto de ruptura: uma arquitetura de segurança assente em garantias mútuas funciona enquanto a ameaça aceitar ser dissuadida.
O Irão que fechou Ormuz após ter absorvido ataques que mataram o seu líder supremo, decimaram a sua liderança política e destruíram parte substancial da sua infraestrutura militar demonstrou que essa condição tem limites que nem a presença de um porta-aviões americano foi capaz de fixar. Se uma arquitetura alternativa, construída sobre interesses parcialmente contraditórios entre a Turquia, o Paquistão, a China e os próprios países do Golfo, estaria em melhor posição para lidar com esse Irão — é uma pergunta que ninguém em Abu Dhabi ou Riade consegue responder com convicção, porque a convicção exigiria um grau de confiança nos novos parceiros que ainda não foi construído. O que existe é menos dependência de uma única garantia. Não é uma estratégia acabada, mas é o único terreno disponível depois de o anterior ter cedido.
Do outro lado do mundo, a Europa assistia a um espelho do mesmo problema, com variações que tornavam o reflexo mais incómodo do que a imagem original.
Trump exigiu que os aliados da NATO abrissem as suas bases para as operações americanas contra o Irão. Vários recusaram ou limitaram o acesso.
A resposta de Washington foi imediata: "NATO WASN'T THERE WHEN WE NEEDED THEM, AND THEY WON'T BE THERE IF WE NEED THEM AGAIN." Moscovo tratou a fratura como confirmação do argumento que alimentara durante anos sobre a fragilidade estrutural do sistema de alianças ocidentais.
O enviado presidencial russo Kirill Dmitriev escreveu que os europeus tinham finalmente revelado o seu verdadeiro rosto — o comentário de um ator que beneficia diretamente do ruído que gera, e que o sabe.
A recusa europeia não foi um abandono da aliança. Foi a aplicação da mesma lógica que os países do Golfo tinham aplicado, com a diferença de que os europeus têm parlamentos e opiniões públicas que tornam impossível a aceitação silenciosa. Acolher uma base americana não equivale a uma carta branca para todas as guerras que o seu proprietário decida travar.
Os europeus tinham reservas sobre a guerra com o Irão — expressas em reuniões do Conselho Europeu, em declarações de chefes de governo, em análises de serviços de informações que não partilhavam o otimismo de Washington sobre a rapidez com que o regime iraniano capitularia — e essas reservas foram ignoradas durante o planeamento da operação. Recusar o uso das bases foi a única forma de as exprimir que ainda estava disponível depois de a guerra ter começado.
Trump leu isto como traição. Os europeus leram como diferença legítima de avaliação estratégica sobre uma guerra em que não tinham sido consultados. Moscovo leu como oportunidade de exploração.
A Rússia é o único ator para quem as três leituras são simultaneamente verdadeiras — e que se beneficia precisamente dessa simultaneidade.
Os meses que se seguiram confirmaram o encadeamento. Com o preço do petróleo disparado pelo fechamento do estreito, a administração americana emitiu uma isenção temporária que suspendeu parcialmente as sanções ao petróleo russo para aliviar a pressão nos mercados energéticos ocidentais. As receitas russas de petróleo subiram de 9,7 mil milhões de dólares em fevereiro para 19 mil milhões em março.
A atenção americana e os interceptores Patriot estavam no Golfo, e a Ucrânia continuava a receber, noite após noite, vagas de mísseis balísticos e drones Shahed — construídos com componentes russos, baseados em tecnologia iraniana, montados em fábricas que os dois países tinham desenvolvido em conjunto durante os anos em que o mundo estava a olhar para outro lado.
Na madrugada de 15 de abril, a Rússia lançou sobre a Ucrânia três mísseis balísticos e trezentos e vinte e quatro drones de ataque, incluindo duzentos e cinquenta Shaheds. Na noite seguinte, dezanove mísseis balísticos, vinte e cinco mísseis de cruzeiro e seiscentos e cinquenta e nove drones. Morreram pelo menos dezassete pessoas. Foi um dos maiores ataques aéreos dos quatro anos de guerra.
A base em Rammstein, a base em Aviano, a base em Mildenhall: continuavam lá. Serviam uma prioridade diferente. A palavra "aliança" cobre mais território do que qualquer tratado descreve — e parte desse território só se torna visível quando alguém precisa de o atravessar.
Há um detalhe nas negociações de Islamabade que vale a pena registar com cuidado, porque é fácil de sobrecarregar de sentido.
Mohammad Bagher Ghalibaf, que liderou a delegação iraniana nas vinte e uma horas de conversações que terminaram sem acordo, construiu parte da sua reputação pública como modernizador pragmático.
Em 2008, quando era presidente da câmara de Teerão e frequentava o Fórum Económico Mundial em Davos, disse ao New York Times que o Irão não queria construir armas nucleares, que o diálogo com Washington era possível, e que a condição era simples: ser tratado como parceiro, não como réu. A entrevista foi publicada com o subtítulo de "authoritarian modernizer". Dezoito anos depois, o mesmo homem sentava-se do outro lado da mesa numa tentativa de pôr fim a uma guerra que começara com a morte do líder supremo do seu país em ataques aéreos guiados por informações americanas.
O que Ghalibaf disse em Davos e o que disse em Islamabade não são posições contraditórias — são a mesma posição em contextos de poder radicalmente diferentes. Em 2008, o Irão precisava de ser ouvido e não tinha alavancagem suficiente para exigir que o ouvissem.
Em 2026, o Irão controlava o corredor por onde fluía um quinto do petróleo mundial, e a delegação americana que veio a Islamabade incluía o vice-presidente J. D. Vance.
A diferença entre ser tratado como parceiro e ser tratado como problema nunca esteve nas declarações de intenção de nenhuma das partes. Estava na presença ou ausência de alavancagem — e a alavancagem, neste caso, não vinha dos anos de resistência às sanções nem da retórica revolucionária. Vinha de trinta e três quilómetros de água e da decisão de os fechar.
Suzanne Maloney, do Brookings Institution, disse-o de forma direta: os iranianos "acreditam que ganharam a guerra" e "ainda detêm o trunfo do controlo sobre o estreito."
Enquanto isso for verdade — e continua a ser, com o estreito largamente fechado — não há incentivo estrutural para a capitulação que Trump descreveu publicamente como o modelo venezuelano. A Venezuela funcionou porque Maduro não tinha Ormuz. O Irão tem.




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