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A Identidade - A história de Frédéric Bourdin

Atualizado: 5 de jan.

HISTÓRIA · Atlantic Lisbon · EUA/França · Identidade.


Em maio de 2005, num abrigo para jovens perto dos Pirenéus, em França, chegou um rapaz de quinze anos. Dizia chamar-se Francisco Hernandez Fernandez. Tinha documentos de identificação espanhóis. Os pais e o irmão tinham morrido num acidente de carro, explicou. Ele sobrevivera, mas ficara em coma. Depois fora viver com um tio que o maltratava. Fugiu.


A História do Homem Que Passou Cinco Meses Como Filho de Outra Pessoa - A história de Frédéric Bourdin


A história era convincente. O rapaz era magro, pálido, trémulo. Usava boné puxado sobre os olhos e cachecol a tapar boa parte da cara. Dizia que tinha cicatrizes do acidente. Não queria que ninguém as visse.


Francisco foi matriculado numa escola local. Adaptou-se rapidamente. Tornou-se popular. Dançava como Michael Jackson nos espetáculos de talentos. Ajudava os colegas com os trabalhos. Conhecia gírias americanas. Tinha carisma.


Até que uma administradora da escola viu um programa de televisão sobre impostores famosos. E reconheceu Francisco.


Não era Francisco. Era Frédéric Bourdin. Tinha trinta anos. E passara a última década e meia a fingir ser criança.


O Rei dos Impostores


Quando a polícia o deteve, Bourdin admitiu tudo.


Nos quinze anos anteriores, tinha inventado dezenas de identidades. Em mais de quinze países. Cinco línguas. Benjamin Kent. Jimmy Morins. Alex Dole. Giovanni Petrullo. Michelangelo Martini.


Quase sempre a mesma personagem: uma criança abandonada ou maltratada.


Infiltrou-se em abrigos, orfanatos, lares de acolhimento, escolas, hospitais pediátricos. Na Espanha, Alemanha, Bélgica, Inglaterra, Irlanda, Itália, Suíça, Bósnia, Portugal, Áustria, França, Suécia, Dinamarca. E na América.


Era extraordinariamente hábil a transformar a aparência. Depilava-se meticulosamente. Mudava o peso. Mudava o andar. Mudava o maneirismos. "Posso tornar-me no que quiser", dizia.


Em 2004, fingiu ser um rapaz francês de catorze anos em Grenoble. Um médico examinou-o a pedido das autoridades e concluiu que era, de facto, adolescente.


Um capitão da polícia em Pau observou: "Quando falava espanhol, tornava-se espanhol. Quando falava inglês, era inglês."


As autoridades nunca encontraram motivação sexual. Nunca encontraram motivação financeira. "Em vinte e dois anos de profissão, nunca vi um caso assim", disse o procurador Eric Maurel. "Normalmente as pessoas enganam por dinheiro. O lucro dele parecia ser puramente emocional."


No antebraço direito tinha uma tatuagem: "caméléon nantais" — Camaleão de Nantes.


O Caso Americano (Ou: Quando o Impostor Roubou Uma Identidade Real)


Em outubro de 1997, Bourdin estava num lar de jovens em Linares, Espanha.


Uma juíza de proteção de menores tinha-lhe dado vinte e quatro horas para provar que era adolescente. Caso contrário, recolheria impressões digitais, que estavam registadas na Interpol.


Bourdin sabia que, como adulto com cadastro criminal, enfrentaria prisão.


E fez algo que ultrapassou todos os limites anteriores. Em vez de inventar uma identidade, roubou uma. Assumiu a pessoa de um rapaz de dezasseis anos desaparecido do Texas.


Ligou para o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas, em Alexandria, Virgínia. Fingiu ser o diretor do abrigo. Disse que tinha lá um rapaz assustado que falava inglês com sotaque americano, mas não revelava a identidade. Descreveu-se a si próprio.


A mulher do centro procurou na base de dados. Disse que podia ser Nicholas Barclay. Desaparecido em San Antonio a 13 de junho de 1994, aos treze anos.


Bourdin pediu mais informação. A mulher enviou por fax uma fotocópia do cartaz de desaparecido. A imagem era tão fraca que mal se via. Mas Bourdin pensou: "Consigo fazer isto."


Ligou de volta, fingindo ser um polícia espanhol. Disse que Nicholas Barclay tinha sido encontrado.


No dia seguinte chegou uma cópia limpa do cartaz. Bourdin abriu o envelope.

A fotografia mostrava um rapaz pequeno, pele clara, olhos azuis, cabelo castanho tão claro que parecia quase louro. O cartaz listava características identificadoras: uma cruz tatuada entre o indicador e o polegar direitos.


Bourdin olhou para a imagem. Disse a si próprio: "Estou morto."


Não tinha a tatuagem. Os seus olhos eram castanho-escuros e o cabelo, castanho-escuro.


Queimou o cartaz no pátio do abrigo. Descolorou o cabelo na casa de banho. Pediu a um amigo que lhe fizesse uma tatuagem improvisada com agulha e tinta de caneta.


Mas havia o problema dos olhos. Inventou uma história: tinha sido raptado por uma rede de tráfico sexual de crianças. Levado para a Europa. Torturado, abusado, experimentado.


Os sequestradores tinham-lhe injetado químicos nas pupilas. Por isso os olhos castanhos. Tinha perdido o sotaque texano porque, durante mais de três anos de cativeiro, fora proibido de falar inglês.


Era uma história louca. Violava a sua própria máxima: "Mantém simples." Mas teria de servir.


A Família Que Quis Acreditar


Dias depois, tocou o telefone. Era Carey Gibson, meia-irmã de Nicholas, de trinta e um anos. "Meu Deus, Nicky, és tu?"


Bourdin não sabia como responder. Adotou voz abafada. Disse: "Sim, sou eu."


A mãe de Nicholas, Beverly, falou depois. Trabalhava num turno noturno numa Dunkin' Donuts em San Antonio sete noites por semana. Era viciada em heroína, agora em metadona. Nunca casara com o pai de Nicholas. Criara Nicholas com os dois filhos mais velhos, Carey e Jason.


Quando a voz infantil do outro lado disse que queria voltar para casa, Beverly ficou "aturdida e arrasada".


Carey voou para Espanha. Quando chegou ao abrigo, Bourdin estava num quarto, a cara embrulhada num cachecol, boné, óculos de sol. Tinha a certeza de que Carey perceberia imediatamente que não era o irmão.


Em vez disso, ela correu para ele e abraçou-o.


Carey era, em muitos sentidos, a vítima ideal. Nunca viajara fora dos EUA exceto para festas em Tijuana. Não estava familiarizada com sotaques europeus. Depois do desaparecimento de Nicholas, assistira frequentemente a programas televisivos sobre raptos de crianças.


E tinha o fardo de decidir, como representante da família, se este era o irmão há muito desaparecido.


Embora Bourdin lhe chamasse "Carey" em vez de "mana" (como Nicholas sempre fizera), embora tivesse um traço de sotaque francês, Carey disse que teve poucas dúvidas. Não quando ele podia atribuir qualquer inconsistência à provação indescritível. Não quando o nariz parecia tanto com o do tio Pat. Não quando tinha a mesma tatuagem que Nicholas e parecia saber tantos detalhes sobre a família.


"O coração assume o controlo e queres acreditar", diz Carey.


Nem as autoridades americanas nem as espanholas levantaram questões depois de Carey ter confirmado.


Nicholas desaparecera há apenas três anos. O FBI não estava preparado para suspeitar de alguém que alegava ser criança desaparecida.


Foi-lhe concedido um passaporte americano a Bourdin. No dia seguinte estava num voo para San Antonio.



Cinco Meses Como Filho de Outra Pessoa


Em 18 de outubro de 1997, membros da família de Nicholas esperavam-no no aeroporto.


Beverly, a mãe. Bryan Gibson, marido de Carey. Codey e Chantel, filhos de Carey e Bryan. Apenas Jason, irmão de Nicholas, estava ausente.


Todos correram a abraçá-lo. Exceto Beverly. "Ela simplesmente não parecia entusiasmada", lembra Chantel.


Bourdin perguntou se Beverly duvidava que fosse Nicholas. Mas, naturalmente, ela também o cumprimentou.


Foram todos no Lincoln Town Car de Carey. Pararam num McDonald's. Bourdin ficou a viver com Carey e Bryan numa casa móvel/reboque habitável numa área arborizada desolada em Spring Branch, 55 quilómetros a norte de San Antonio.


A casa móvel/reboque era apertada não era exatamente a visão da América que Bourdin imaginara dos filmes. Partilhava o quarto com Codey. Dormia num colchão de espuma no chão.


Para se tornar Nicholas, Bourdin tinha de aprender tudo sobre ele. Começou a recolher informação secretamente. Vasculhou gavetas, álbuns de fotografias, viu vídeos caseiros.


Quando descobria um detalhe sobre o passado de Nicholas através de um membro da família, repetia-o a outro. Beverly reparou que Bourdin se ajoelhava em frente à televisão. Como Nicholas fazia.


Quando Bourdin parecia mais distante do que Nicholas ou falava com sotaque estranho, vários membros da família disseram que assumia ser por causa do tratamento terrível que dissera ter sofrido.


À medida que Bourdin habitava a vida de Nicholas, ficou surpreendido com o que considerava serem semelhanças estranhas entre eles. Nicholas desaparecera no aniversário de Bourdin. Ambos vinham de famílias pobres e desfeitas. Nicholas era miúdo doce, solitário, combustível, que ansiava atenção e estava frequentemente em sarilhos na escola. Era fã incondicional de Michael Jackson quando jovem.


Segundo Beverly, Bourdin rapidamente "fundiu-se". Foi matriculado no liceu. Jogava Nintendo com Codey. Quando via Beverly, abraçava-a e dizia: "Olá, mãe." "Era mesmo simpático", lembra Chantel. "Muito amigável."


O Detetive Que Não Acreditou


Charlie Parker, investigador privado em San Antonio, foi contratado por um programa televisivo para investigar o extraordinário regresso de Nicholas Barclay.


Parker foi à casa/móvel/reboque habitável com o produtor e a equipa de câmara. Ouviu atentamente enquanto o jovem relatava a história arrepiante. "Estava calmo como pepino", disse-me Parker. "Sem desviar o olhar, sem linguagem corporal. Nada." Mas ficou intrigado com o sotaque curioso.


Parker viu uma fotografia numa prateleira de Nicholas Barclay em criança. Continuou a olhar para ela e para a pessoa à sua frente. Pensou que algo estava errado.


Tendo lido uma vez que as orelhas são distintas, como impressões digitais, sussurrou ao operador de câmara: "Dá um zoom nas orelhas dele. O mais perto que conseguires."


Parker enfiou a fotografia de Nicholas Barclay no bolso. Mais tarde, no escritório, digitalizou-a e comparou com o vídeo da entrevista. "As orelhas eram parecidas, mas não coincidiam", diz.


Parker ligou a oftalmologistas. Perguntou se olhos podiam mudar de azul para castanho com injeção de químicos. Os médicos disseram que não.


Parker telefonou a Beverly. Disse-lhe o que descobrira. Como recorda a conversa na pesquisa efetuada: "Não é ele, senhora. Não é ele."


"Como assim não é ele?"


Parker explicou sobre as orelhas, os olhos, o sotaque. Nos seus ficheiros, escreveu: "Família está perturbada mas mantém que acreditam ser o filho deles."


Parker começou a seguir Bourdin quando este visitava Beverly. "Instalava-me no apartamento e via-o sair. Caminhava até à paragem de autocarro, usando o Walkman e fazendo os movimentos de Michael Jackson."


O Colapso


Após dois meses nos Estados Unidos, Bourdin começou a desmoronar-se. Estava taciturno e distante. Parou de assistir às aulas. Em dezembro, levou o carro de Bryan e Carey e conduziu até Oklahoma, com as janelas abertas, a ouvir a canção de Michael Jackson "Scream": "Cansado dos esquemas / As mentiras são repugnantes... / Alguém por favor tenha piedade / Porque simplesmente não aguento."


A polícia parou-o por excesso de velocidade. Foi detido.


Pouco antes do Natal, Bourdin foi à casa de banho e olhou-se ao espelho. Olhos castanhos. Cabelo descolorado. Agarrou uma navalha e começou a mutilar a cara. Foi internado na ala psiquiátrica de um hospital local durante vários dias de observação.


Mais tarde, escreveu num caderno: "Quando combates monstros, tem cuidado para que no processo não te tornes num."


A Verdade


Nancy Fisher, agente veterana do FBI, tinha entrevistado Bourdin semanas depois de chegar aos Estados Unidos. Imediatamente, disse-me, "cheirou a rato": "O cabelo era escuro mas descolorado em louro e as raízes eram bastante óbvias."


Parker partilhava as suas suspeitas com Fisher. Conduziram investigações paralelas.


Em fevereiro, quatro meses depois de Bourdin chegar aos Estados Unidos, Fisher obteve mandados para o forçar a cooperar. "Vou a casa dela buscar amostra de sangue, e ela deita-se no chão e diz que não se vai levantar", diz Fisher. "Eu disse: 'Sim, vai.'" "Beverly defendeu-me", diz Bourdin. "Fez o melhor para pará-los."


Junto com o sangue, Fisher obteve impressões digitais de Bourdin. Enviou-as ao Departamento de Estado para ver se havia correspondência com a Interpol.


A 5 de março de 1998, com as autoridades a concentrarem-se sobre Bourdin, Beverly ligou a Parker e disse que acreditava que Bourdin era um impostor. Na manhã seguinte, Parker levou-o a um restaurante.


Pediram panquecas. Depois de quase cinco meses a fingir ser Nicholas Barclay, Bourdin estava psiquicamente esgotado. Segundo Parker, quando lhe disse que tinha perturbado a "mãe", o jovem soltou: "Ela não é minha mãe, e sabe disso."

-"Vais dizer-me quem és?"

-"Sou Frédéric Bourdin e sou procurado pela Interpol."


Parker foi à casa de banho e ligou a Nancy Fisher. Ela acabara de receber a mesma informação da Interpol. "Estamos a tentar obter um mandado agora. Retém-no."


Quando Parker o levou de volta ao apartamento de Beverly, Fisher e as autoridades já estavam a chegar. Rendeu-se calmamente.


Beverly virou-se e gritou para Fisher: "O que vos demorou tanto?"


A Questão Que Ficou


Estando sobe custódia, Bourdin contou uma história que parecia tão fantasiosa quanto o conto de ser Nicholas Barclay.


Alegou que Beverly e Jason podiam ter sido cúmplices no desaparecimento de Nicholas. Que sabiam desde o início que Bourdin estava a mentir.


"Sou bom impostor, mas não sou assim tão bom", disse Bourdin.


Claro que as autoridades não podiam confiar na versão de um mentiroso patológico conhecido. Mas tinham as suas próprias suspeitas.


Jack Stick, procurador federal na altura, e Fisher questionavam-se por que Beverly resistira a tentativas do FBI de investigar o alegado rapto de Bourdin. E depois de descobrir o engano. Questionavam-se por que Beverly não levara Bourdin de volta para viver consigo.


Segundo Fisher, Carey disse-lhe que era porque era "demasiado perturbador" para Beverly. O que, pelo menos para Fisher e Stick, parecia estranho. "Ficarias tão feliz por ter o filho de volta", diz Fisher.


Houve perturbações na casa de Beverly depois de Nicholas ter desaparecido. Relatórios policiais mostravam Beverly a gritar com Jason sobre o desaparecimento de Nicholas.


Depois havia a alegação de Jason de que testemunhara Nicholas a arrombar a casa. Nenhuma prova podia ser encontrada para apoiar esta história surpreendente.


Stick e Fisher começaram a aproximar-se de uma investigação de homicídio. "Queria saber o que acontecera àquela criança", recorda Stick. Mas não havia evidência. Sem testemunhas. Sem ADN. As autoridades nem sequer podiam dizer se Nicholas estava morto.


Várias semanas depois de Fisher e Parker questionarem Jason, Parker conduzia pelo centro de San Antonio e viu Beverly no passeio. Ofereceu-lhe boleia. Quando ela entrou, disse-lhe que Jason morrera de overdose de cocaína.


Parker, que sabia que Jason estava sem drogas há mais de um ano, perguntou se achava que ele tirara a vida propositadamente. Ela disse: "Não sei."


Stick, Fisher e Parker suspeitam que foi suicídio.


No Fim


Beverly parou de usar drogas e mudou-se para Spring Branch, onde vive numa casa móvel/reboque habitável.


A 9 de setembro de 1998, Frédéric Bourdin compareceu num tribunal de San Antonio e declarou-se culpado de perjúrio e de obter e possuir documentos falsos.


Desta vez, a alegação de que procurava apenas amor provocou indignação. O juiz comparou o que Bourdin fizera — dar a uma família a esperança de que o filho perdido estava vivo e depois despedaçá-la — a homicídio.


A única pessoa que parecia ter alguma simpatia por Bourdin era Beverly. Disse na altura: "Tenho pena dele. Sabe, conhecemo-lo, e este miúdo passou pelo inferno."


O juiz condenou Bourdin a seis anos. Mais três vezes que o recomendado pelas diretrizes de condenação.


Bourdin disse ao tribunal: "Peço desculpa a todas as pessoas no meu passado, pelo que fiz. Desejo, desejo que acreditem em mim, mas sei que é impossível." Estivesse na prisão ou não, acrescentou, "Sou prisioneiro de mim próprio."


Meses depois de ser libertado da prisão nos Estados Unidos e deportado para França, em outubro de 2003, Bourdin retomou o papel de criança. Até roubou a identidade de rapaz francês desaparecido de catorze anos chamado Léo Balley.


Desta vez, a polícia fez um teste de ADN que rapidamente revelou que Bourdin estava a mentir.


Um psiquiatra que o avaliou concluiu: "O prognóstico parece mais do que preocupante. Somos muito pessimistas sobre modificar estes traços de personalidade."


Mas Bourdin casou-se. Teve uma filha. Chamaram-lhe Athena, pela deusa grega.


Autor: Redação do Atlantic Lisbon


Capa do artigo O Camaleão sobre Frédéric Bourdin e o caso Nicholas Barclay — impostor que viveu cinco meses como filho de outra família (Atlantic Lisbon, albertocarvalho.com).
Capa — O Camaleão (Atlantic Lisbon)


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