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O Cartaz Fala Sozinho | Cartoon

Há cartazes que anunciam um filme. E há cartazes que anunciam uma época.


O que circulou esta semana — simples, quase infantil no traço, brutal na frase — não precisava de explicações para funcionar.


Ilustração a lápis de figura sentada com frase “I really don’t care, do u?” em destaque
Ilustração a lápis retoma uma frase tornada símbolo de indiferença política, deslocando-a do episódio original para o espaço da memória pública

Uma imagem fixa, colada a um muro. Um rosto reconhecível, sentado, imóvel. E por cima, escrito à pressa, como vandalismo ou confissão: I really don’t care, do u?


Não é apenas uma frase. É uma memória política condensada.


O poder contemporâneo aprendeu uma coisa essencial: não precisa de convencer, basta repetir gestos.


Um casaco usado num momento específico, uma expressão dita fora de microfone, uma ausência de reação — tudo isso, quando reapresentado, deixa de ser episódio e passa a ser linguagem.


O cartaz não inventa nada. Limita-se a devolver à superfície algo que nunca desapareceu.


É por isso que ele incomoda.


Durante anos, a figura da primeira-dama norte-americana foi tratada como enigma estético.


O silêncio interpretado como reserva.


A distância como elegância.


A rigidez como escolha pessoal.


Criou-se uma narrativa confortável: a de que ali não havia política, apenas estilo. O cartaz rasga essa ilusão com violência mínima. Não acusa. Não explica. Recorda.


E recordar, neste caso, é mais corrosivo do que denunciar.


A frase — conhecida, documentada, dita num contexto preciso — tornou-se uma espécie de assinatura involuntária. Não porque defina uma pessoa inteira, mas porque cristaliza um modo de estar no mundo: a recusa explícita de empatia como resposta legítima ao sofrimento alheio.


Quando reaparece agora, anos depois, colada a uma imagem imóvel, ganha outra função. Já não é comentário. É síntese.


O poder adora sínteses quando lhe são favoráveis. Detesta-as quando não controla o enquadramento.


O cartaz funciona porque não disputa factos. Não entra em debate. Não pede adesão.


Limita-se a existir num espaço público onde tudo o resto grita. É uma imagem muda num ambiente saturado de palavras. E isso dá-lhe vantagem.


Há algo de profundamente contemporâneo neste mecanismo: o regresso do passado como artefato visual. Não para explicar o presente, mas para o desestabilizar.


O cartoon não está a dizer “lembrem-se disto”. Está a perguntar, em silêncio: e agora, mudou alguma coisa?


É aqui que a imagem se torna politicamente sofisticada. Não aponta o dedo ao eleitor. Não moraliza. Não constrói um argumento. Coloca o espectador numa posição desconfortável: a de reconhecer algo que já sabe. O choque não vem da revelação, mas da familiaridade.


O poder, quando regressa, gosta de se apresentar como novidade. Fala em recomeços, em redenção, em versões melhoradas de si mesmo. Mas as imagens antigas — sobretudo as que não foram encenadas para durar — resistem a esse esforço. Voltam como fantasmas mal resolvidos. Não pedem autorização.


Há uma discreta no facto de este cartaz circular num momento em que se discute, outra vez, a construção de uma imagem pública mais controlada, mais “humana”, mais narrativa.


O cartoon desmonta essa tentativa ao escolher precisamente o contrário do glamour: uma cadeira, um corpo imóvel, um fundo neutro. Nada acontece ali. E, no entanto, tudo acontece.


Porque o que está em causa não é a pessoa retratada. É o tipo de poder que se torna possível quando a indiferença deixa de ser falha moral e passa a ser posição política.


Quando o “não me importo” deixa de ser lapso e passa a ser programa.


O cartaz não precisa de dizer isso. O espectador completa o raciocínio sozinho. É essa a sua força.


Há também algo de profundamente americano — e simultaneamente universal — nesta forma de crítica. Não é panfletária. Não é violenta. É gráfica.


Usa o espaço público como espelho.


Quem passa decide se olha ou se desvia. Não há algoritmo a empurrar a imagem. Não há call to action.


Há apenas um muro, um desenho e uma pergunta que não foi feita agora.


E talvez seja isso que mais incomoda: a sensação de que o tempo não apagou nada. Que certas frases não envelhecem porque nunca foram resolvidas. Que certas imagens voltam porque continuam a explicar demasiado.


O cartoon, tal como o bom ensaio, não fecha sentidos. Abre fissuras. E esta fissura específica atravessa algo maior do que uma figura pública ou um episódio antigo. Atravessa a normalização da indiferença como traço aceitável do poder.


Não se trata de nostalgia crítica. Trata-se de memória ativa.


O cartaz fala sozinho porque sabe que o silêncio, neste momento, diz tudo.


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