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O advogado que aprendeu o mundo na cela

Atualizado: há 1 dia

ANÁLISE · Mundo · Sri Lanka/EUA · Direitos Humanos e Diplomacia.


Numa fotografia de arquivo, ele está demasiado perto do microfone para que a imagem seja neutra. Vê-se a lã de um cachecol azul, a boca aberta a meio de uma frase, e aquele gesto particular — comum em quem passou a vida a falar em salas que não lhe pertencem — de inclinar o corpo para a frente, como se o som precisasse de atravessar resistência.


A sala não aparece, mas adivinha-se: uma mesa comprida, pessoas a ouvir com distância profissional, papéis, relógios, um país a pedir “detalhes”.


Retrato a lápis, a preto e branco, de T. Kumar a falar ao microfone, com cachecol e casaco, em ambiente exterior desfocado.

De prisioneiro a advogado do mundo.


O curioso é que, para muitos dos que o escutavam, o detalhe essencial estava fora de enquadramento.


Durante anos, a Amnesty International colocou-o onde se colocam os que sabem traduzir o sofrimento sem o transformar em espetáculo: em comissões do Congresso, em painéis internacionais, em corredores da United Nations, em reuniões onde as palavras têm de carregar prova, mas não podem carregar sangue.


Ele falava de violações de direitos cometidas por governos e sistemas prisionais — na China, no Vietname, no Afeganistão — e insistia num ponto que parece simples, mas que, na diplomacia, é explosivo: o Estado pode chamar “lei” ao que é abuso; pode chamar “ordem” ao que é humilhação; pode chamar “processo” ao que é, apenas, medo com carimbo.


Poucos sabiam — ou poucos se lembravam enquanto ele falava — que aquela insistência não era uma pose moral. Era biografia.


Ele chamava-se Thambithurai Muthukumarasamy, mas era conhecido como T. Kumar.


Morreu a 19 de janeiro, aos 76 anos.


A confirmação foi feita pela Amnesty International, onde trabalhou mais de duas décadas, incluindo funções de direção ligadas à advocacia internacional e à Ásia. A causa, segundo a família, foram complicações de "sarcoidose" — uma condição inflamatória — e vivia na zona de Washington, D.C..


A morte é um ponto final, mas nem sempre é o melhor começo para entender uma vida.


No caso de Kumar, o começo está num lugar onde o tempo perde as suas unidades normais: uma cela pequena, repetida, e a sensação de que o Estado tem uma forma de nos mover sem sair do sítio — de cadeia em cadeia, de interrogatório em interrogatório, como se a geografia servisse para gastar uma pessoa.


A forma como um Estado se explica quando prende


A história pública de Kumar tem uma particularidade que interessa à geopolítica e ao Atlantic Lisbon: não é apenas a história de um ativista que denunciou regimes. É a história de como um homem aprende que o mundo internacional não começa nas fronteiras, mas naquilo que acontece quando um governo decide que um cidadão é dispensável.


Na juventude, no Sri Lanka, ele foi um líder estudantil ligado à minoria tamil hindu — descrita como perseguida — e passou mais de cinco anos, em diferentes períodos, em prisões do seu país.


Foi preso repetidamente, espancado e transferido entre estabelecimentos.


A sua condição de “estudante” não o protegeu; pelo contrário, agravou o incómodo que representava: um jovem com discurso, numa sociedade onde o acesso à educação superior começava a ser restringido por critérios étnicos.


É importante notar o detalhe que o próprio relato deixa: os protestos eram pacíficos.


A violência não nasce aqui de uma “ameaça armada” — pelo menos não é isso que os factos fornecidos e públicos permitem afirmar — mas de um mecanismo típico de Estados sob tensão: quando um protesto é pacífico, o Estado, para justificar repressão, precisa de deslocar o conflito do espaço político para o espaço da polícia. E quando esse deslocamento acontece, a prisão torna-se uma linguagem: não é apenas castigo; é um recado para os que observam.


Kumar foi associado à formação de um conselho estudantil que, segundo uma leitura posterior, transformou a resistência espontânea em atividade política organizada.


É fácil, décadas depois, ler isto como “prenúncio” de guerra civil.


Mas, na altura, para quem lá estava, o que existe é uma sequência muito mais banal e muito mais assustadora: restrição, discurso, vigilância, interrogatórios, detenção sem acusação.


Em determinado momento, foi encarcerado no Forte Hammenhiel — descrito como uma estrutura com cerca de 300 anos — sob detenção administrativa, sem acusação formal.


Há um tipo de violência própria nesta figura jurídica: ela tenta apresentar a prisão como ato de gestão, não como ato de poder. E é precisamente aí que a experiência de Kumar se torna politicamente relevante: ele percebeu, por dentro, como um Estado se pode esconder atrás de procedimentos para fazer coisas que, no fundo, são simples — calar e isolar.


O ponto de viragem: quando uma ONG faz o Estado ouvir o mundo


Há um instante na sua trajetória que merece ser lido como um mecanismo — não como milagre.


A Amnesty International designou-o prisioneiro de consciência e organizou uma campanha global pela sua libertação. A atenção internacional contribuiu para que fosse libertado ao fim de seis meses.


Para uma organização de direitos humanos, isto é “advocacia”. Para um Estado, é interferência. Para um prisioneiro, é uma revelação: existe um sistema externo ao Estado nacional capaz de impor custo reputacional.


E esse sistema, mesmo quando não tem poder coercivo, tem uma capacidade que os regimes temem: a capacidade de fixar nomes, ligar datas, criar memória.


É aqui que a história deixa de ser apenas “Sri Lanka” e passa a ser geopolítica pura.


A política internacional contemporânea vive de redes de atenção e de legitimidade.


Um governo que prende sem acusação não teme apenas a fuga de um preso; teme a fixação de um precedente que outros atores podem usar. Uma campanha internacional transforma o prisioneiro num símbolo e, ao fazê-lo, transforma a prisão num evento diplomático.


Mais tarde, já como profissional, Kumar acabaria por trabalhar nesse exato espaço: o lugar onde a dor individual é convertida em linguagem capaz de circular por comissões, por instituições multilaterais, por parlamentos estrangeiros.


O que ele aprendeu como prisioneiro — que a luz externa altera o cálculo do Estado — tornou-se método.


A segunda prisão: quando o mapa interno muda e a proteção desaparece


Depois da libertação, ele continuou a falar e foi preso de novo.


Desta vez, segundo o próprio relato disponível a que acedemos, foi encarcerado no sul do país, longe de casa.


O pormenor que surge é pequeno mas decisivo: já não havia guardas tamis a olhá-lo como “um dos nossos”. O tratamento degradou-se: descreve abuso, tortura, espancamento.


Há uma dimensão estratégica nesta deslocação geográfica.


Os Estados que reprimem minorias aprendem cedo que não basta prender: é preciso reconfigurar o ambiente. Tirar o detido da rede linguística, cultural e comunitária que poderia suavizar a violência, mesmo que marginalmente. Isolar é, também, mudar o lugar.


Foi nesse contexto que ele se tornou mais religioso e começou a concentrar-se no estudo do direito.


Este pormenor — estudar direito dentro de uma cela — não é apenas “determinação pessoal”. É uma resposta racional ao tipo de violência que estava a viver.


Quando a violência é administrada em nome da lei, a forma mais direta de lhe responder é tentar dominar a lei, ou pelo menos a linguagem da lei. Não para acreditar que a lei é pura, mas para impedir que a lei seja usada sem contestação.


Kumar fez greve de fome e foi libertado após mais de dois anos, segundo o seu próprio livro de memórias.


Seguiram-se novas atividades, nova prisão, e um detalhe jurídico particularmente revelador: quando foi admitido em Direito ainda sob detenção, membros do parlamento argumentaram a favor da sua libertação, sublinhando que, tecnicamente, estava sob detenção administrativa.


Isto é o Estado a tropeçar na própria encenação. Quando o prisioneiro passa a caber dentro de uma figura reconhecível — “estudante de Direito”, “futuro advogado” — o custo de o manter como “inimigo” aumenta. E é nessa fricção que se vê como as instituições, mesmo imperfeitas, por vezes criam aberturas: não por bondade, mas porque a coerência do sistema começa a falhar.


O que significa “crer no direito” depois de o direito falhar


Várias pessoas o descreveram como alguém com fé intensa no Estado de direito e na justiça.


Há uma tentação fácil — e sentimental — de ler isto como redenção: ele sofreu, portanto escolheu o caminho nobre. Mas, para que isto seja útil como análise para o Atlantic Lisbon, convém ser mais duro: o que significa “crer no direito” depois de se ter visto o direito a servir repressão?


Significa, provavelmente, duas coisas simultâneas.


Primeiro: uma recusa de aceitar que a violência é inevitável. O direito, mesmo capturado, é uma arena. Uma arena pode estar inclinada, mas ainda é arena: tem regras, tem forma, e a forma permite contestação.


Segundo: uma compreensão de que, sem linguagem jurídica, o sofrimento fica preso à condição de “relato”. E relatos, no mercado internacional de atenção, são facilmente descartados como propaganda.


A linguagem jurídica dá estrutura ao relato: obriga o ouvinte a confrontar procedimentos, evidências, contradições.


Foi essa estrutura que Kumar levou para fora do Sri Lanka.


Concluiu estudos, entrou em prática privada e dedicou-se a defender tamis. A repressão intensificada obrigou-o a fugir: passou pela Malásia e por África, ficando com familiares, até obter um visto para os Estados Unidos — com apoio de um embaixador americano descrito como “simpático” no Botsuana.


Já nos Estados Unidos, frequentou a Faculdade de Direito da University of Pennsylvania, obteve grau no início dos anos 1990, e iniciou o trabalho com a Amnesty International. Mais tarde, leccionou no Foreign Service Institute e monitorizou eleições com o antigo presidente Jimmy Carter.


A trajetória, vista do exterior, parece uma escalada linear: preso → advogado → defensor global. Mas a chave está no mecanismo invisível: a prisão ensinou-lhe o que os fóruns internacionais precisam para acreditar. Ele não “contava histórias”; ele construía argumentos que cabiam em audições, relatórios, resoluções e briefings.


A advocacia como profissão e como risco


É aqui que se pode colocar um ponto de fricção — necessário, se queremos que o texto exista para lá do obituário.


Um sobrevivente que se torna profissional da denúncia enfrenta um risco específico: o risco de a sua vida ser constantemente convocada como credencial.


A credencial abre portas, mas cobra um preço. Obriga a repetir, em linguagem aceitável, aquilo que foi vivido em linguagem inaceitável. Obriga a domesticar a raiva. Obriga a transformar trauma em disciplina.


Um colega descreveu-o como alguém com graça e força para continuar a lutar sem medo ou amargura, moldando quem o encontrava.


A descrição é bela, mas também diz algo sobre o ecossistema em que ele operou: instituições internacionais preferem defensores que não desestabilizem a sala. A legitimidade, muitas vezes, vem com etiqueta.


E, ainda assim, ele parece ter usado essa etiqueta como arma. Em testemunhos no Congresso, falou contra práticas repressivas e punições degradantes em diferentes contextos.


Em 2017, descreveu tortura e maus-tratos a prisioneiros de consciência no Vietname e a existência de julgamentos injustos.


Depois dos ataques de 11 de Setembro, denunciou punições cruéis impostas por tribunais e polícia religiosa sob os talibãs no Afeganistão.


O ponto não é “ele criticou A, B e C”. O ponto é: ele insistiu num padrão. Sempre que um Estado — ou uma autoridade de facto — tenta converter violência em norma moral, a linguagem dos direitos humanos serve para interromper a conversão. Não impede a violência por si só. Mas impede que a violência passe sem contestação.


Um país como origem e como metáfora (sem saudades)


O Sri Lanka aparece nesta história como lugar de origem, mas também como laboratório de algo que o mundo conhece bem: a forma como conflitos identitários e repressão estatal produzem diásporas politizadas, e como essas diásporas passam a operar em arenas externas — universidades, ONGs, organismos internacionais, capitais estrangeiras.


Kumar nasceu em Thirunelveli e, em criança, viveu em Jaffna, Batticaloa, Kandy e Colombo, mudando-se devido ao trabalho do pai, juiz sénior itinerante no circuito judicial.


Este detalhe — o pai como homem do sistema judicial — acrescenta uma camada irónica: o Estado que mais tarde o prendeu era, em parte, o Estado que ele conheceu por dentro desde a infância. Não era um monstro abstrato. Era uma máquina familiar, com linguagem própria.


A sua consciência política, segundo o livro de memórias publicado em 2025 (“From Political Prisoner to U.N. Advocate: The Extraordinary Story of T. Kumar”, escrito com Omar Ahmed), terá sido despertada pela observação de discriminação contra tamis desde cedo.


Aqui convém manter a prudência: não temos, no material fornecido e consultado, detalhe suficiente para reconstruir as políticas exactas ou os episódios concretos que ele testemunhou quando criança. Mas temos o essencial: a percepção de que a discriminação não era um rumor; era ambiente. E ambientes são, muitas vezes, o que empurra pessoas para a política: não um momento épico, mas a repetição diária de pequenos sinais.


O que a vida dele nos diz sobre “advocacia internacional”


O mundo dos direitos humanos, sobretudo após as décadas finais do século XX, habituou-se a uma figura: o advogado ativista, capaz de circular entre a dor local e as instituições globais.


Kumar foi uma versão especialmente literal dessa figura, porque carregava a experiência de prisão e a disciplina do direito.

Mas o que significa, hoje, “advocacia internacional” num sistema onde as grandes potências usam direitos humanos como instrumento e, simultaneamente, se ressentem quando o instrumento lhes é aplicado?


A resposta honesta é desconfortável: significa trabalhar em terreno minado.


Quem denuncia violações em países autoritários é acusado por uns e acusado de servir agendas por outros.


Quem defende vítimas pode ser apresentado como “agente estrangeiro”. Quem insiste no Estado de direito pode ser acusado de ingenuidade. E, no entanto, sem insistência, a repressão ganha uma vantagem decisiva: a normalização.


O que Kumar parece ter feito, ao longo de décadas, foi recusar a normalização com a arma mais eficaz que tinha: a linguagem do processo e da prova. Não é glamour. É persistência. É repetir, em salas bem iluminadas, aquilo que regimes preferem manter na sombra.


O facto de ter trabalhado mais de vinte anos na Amnesty International não é apenas “carreira”; é uma escolha de método.


Uma ONG transnacional tem limitações óbvias — não tem polícia, não tem exército, não tem tribunais próprios. Mas tem aquilo que, muitas vezes, é o primeiro passo para qualquer custo político: documentação, reputação e persistência.


A vida de Kumar mostra como um indivíduo pode tornar-se interface entre três mundos:


  1. O mundo das vítimas, que precisa de linguagem para ser ouvido sem ser reduzido a lamento.

  2. O mundo do Estado, que tenta enquadrar a violência como legalidade.

  3. O mundo internacional, que finge neutralidade mas funciona por hierarquias de atenção.


Ele não aboliu essas hierarquias. Mas parece ter aprendido a operar dentro delas.


A última nota: a ambição de não se tornar cínico


Há pessoas que saem da prisão com cinismo total. Outras saem com um elogio total.


Kumar, pelo retrato que o material que cedemos, parece ter escolhido uma terceira via: acreditar no direito sem fingir que o direito é inocente.


É uma posição difícil de manter. Requer memória — para não ser enganado — e requer disciplina — para não se afogar em ressentimento.


Um colega descreveu-o como alguém sem medo nem amargura. Não sabemos, com a honestidade que a análise exige, o que isso significava na intimidade. Mas sabemos o que significava em público: significava conseguir falar com eficácia em salas onde a emoção pura é descartada como “excesso”.


No fim, talvez o mais geopolítico nesta vida não sejam os nomes dos países denunciados, mas a arquitetura humana que ela revela: um prisioneiro transforma-se em advogado; um advogado transforma-se em interlocutor do mundo; e o mundo, que muitas vezes parece incapaz de responder, é forçado pelo menos a ouvir.


Num tempo em que a palavra “direitos humanos” é, tantas vezes, usada como bandeira de conveniência, a figura de alguém que aprendeu a lei numa cela funciona como uma lembrança incómoda: há quem tenha precisado de sofrer para entender o que uma norma vale quando o Estado decide que a norma não vale nada.


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1 comentário

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Maria Dores Lopes
há 14 horas
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Como todos estamos prisioneiros de um mundo de interesses e hierarquias! Quantos não são precisos como este!!!

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