O Aliado Incerto
- Alberto Carvalho - Narrador

- 24 de jan.
- 7 min de leitura
Há momentos em que uma aliança não se rompe com um gesto visível, mas com uma alteração quase imperceptível no tom. Não é preciso uma retirada formal, nem um tratado rasgado. Basta que a confiança deixe de ser pressuposta e passe a ser negociada. Quando isso acontece, tudo o resto — comércio, defesa, diplomacia, até a linguagem — muda de função.

A aliança quando deixa de ser promessa.
Nos últimos meses, a relação transatlântica entrou nesse território ambíguo. Não porque tenha surgido um novo inimigo externo, mas porque o interior do sistema começou a comportar-se como se a lealdade fosse contingente.
A Europa habituara-se a pensar o risco como algo que vinha de fora: Moscovo, Pequim, instabilidade no flanco oriental, guerras por procuração. O que agora se tornou evidente é outra coisa: a pressão pode vir do centro do próprio dispositivo de segurança.
Não se trata apenas de declarações mal intencionadas ou de episódios isolados.
O que está em curso é uma reorganização silenciosa da hierarquia implícita dentro da aliança.
Durante décadas, a assimetria entre os Estados Unidos e a Europa foi aceite porque vinha acompanhada de previsibilidade. Havia dependência, mas também havia garantias. Hoje, essa equação deixou de ser estável.
A obsessão americana com a Gronelândia não é o núcleo do problema; é o sintoma.
O que verdadeiramente desestabiliza não é a hipótese, improvável, de uma anexação formal, mas o método: a utilização aberta da coerção — económica, simbólica, estratégica — como linguagem legítima entre aliados.
Quando isso acontece, a aliança deixa de ser um quadro normativo e passa a ser um campo de testes.
Durante muito tempo, os líderes europeus acreditaram que o carácter transacional da política americana permitiria uma gestão pragmática das divergências. A ideia era simples: negociar, ceder em pontos secundários, ganhar tempo. Essa leitura partia de um pressuposto que hoje se revela frágil — o de que não havia uma ideologia por detrás do gesto, apenas improvisação e cálculo eleitoral.
O que se tornou claro é que existe, sim, uma visão do mundo em jogo. Não uma doutrina articulada, mas uma convicção persistente: a de que estruturas multilaterais, especialmente quando produzem bem-estar fora dos Estados Unidos, representam um erro histórico a corrigir.
A União Europeia, nesse quadro, não é apenas um parceiro difícil; é um obstáculo conceptual.
A sua própria existência contradiz uma leitura do poder baseada em vencedores claros e subordinados reconhecidos.
É aqui que a Gronelândia adquire um peso que excede largamente a sua dimensão geográfica. Não porque seja decisiva em termos militares — essa discussão é conhecida e, em larga medida, exagerada — mas porque se tornou um objeto simbólico.
Ao insistir na posse, e não apenas no acesso ou na cooperação, a administração americana desloca a questão do plano estratégico para o plano da soberania. E soberania, na Europa, não é um detalhe técnico; é um nervo histórico.
A reação europeia a este deslocamento foi inicialmente defensiva e contida. Havia receio de escalar o conflito, medo de retaliações económicas, e, sobretudo, consciência da dependência militar num contexto em que a guerra na Ucrânia continua a exigir recursos e coordenação.
Mas há limites para a ambiguidade.
Quando a integridade territorial de um Estado europeu é tratada como moeda de troca, até os sectores mais alinhados com Washington se vêem forçados a recuar.
Este é um ponto raramente sublinhado: a pressão americana não fragmentou a Europa ao longo das linhas habituais. Pelo contrário, produziu um raro momento de convergência entre governos centrais e forças políticas que, noutros contextos, teriam preferido a acomodação.
Ao escolher um alvo que não permite divisões confortáveis, a estratégia revelou um erro de cálculo.
Há também uma dimensão económica que não pode ser ignorada.
A ameaça de tarifas, apresentada como instrumento de negociação, desloca o comércio do domínio da técnica para o da punição.
A União Europeia possui mecanismos para responder, mas sempre evitou ativá-los contra os Estados Unidos, não por incapacidade, mas por prudência estratégica.
O dilema atual é simples e desconfortável: não responder fragiliza a legitimidade interna dos governos; responder pode acelerar uma ruptura que ninguém deseja plenamente.
É neste contexto que o conceito de “fraqueza europeia” merece ser revisto. Sim, a Europa é lenta, fragmentada, excessivamente procedimental. Mas essa mesma fragilidade gera, em momentos extremos, uma forma específica de determinação: quando não há margem para a inação, o custo político de não agir torna-se superior ao risco da resposta. Não é bravura; é sobrevivência institucional.
O impacto desta tensão vai muito além do eixo atlântico.
Uma Europa tratada como ator secundário tenderá a procurar amortecedores. A China observa com atenção, não tanto para intervir diretamente, mas para ocupar o espaço psicológico deixado pela erosão da confiança transatlântica.
Não se trata de uma viragem súbita de alianças, mas de um deslizamento gradual de expectativas.
Um continente que deixa de acreditar na solidez das garantias procura alternativas — mesmo que imperfeitas.
A Rússia, por sua vez, beneficia menos do que se imagina.
O ganho não está no Ártico nem na redistribuição territorial, mas no precedente. Cada fissura na arquitetura de segurança ocidental valida a narrativa de que as regras são contingentes e a força volta a ser o árbitro final. Nesse sentido, o dano é mais conceptual do que estratégico.
Há quem argumente que tudo isto faz parte de um teatro político destinado ao consumo interno americano.
Essa leitura subestima um fator decisivo: a persistência.
O problema não é a ameaça isolada, mas a repetição. Quando a coerção se normaliza, deixa de ser bluff. Mesmo que nunca seja executada, reconfigura expectativas, comportamentos e cálculos.
O risco maior para a Europa não é uma ruptura súbita, mas uma adaptação silenciosa a um novo normal em que a aliança já não é um dado, mas uma concessão revogável.
Nesse cenário, cada decisão passa a ser avaliada não apenas pelo seu mérito, mas pelo seu potencial de provocar reações punitivas.
A autonomia estratégica, tão discutida e tão pouco concretizada, deixa de ser ambição e passa a ser necessidade.
No centro de tudo isto está uma pergunta desconfortável: o que acontece a uma aliança quando deixa de acreditar na sua própria narrativa fundadora?
Durante décadas, o vínculo transatlântico foi apresentado como mais do que um arranjo de interesses — era uma comunidade de valores, uma herança histórica, quase uma promessa moral.
Hoje, essa linguagem soa cada vez mais frágil perante práticas que privilegiam a vantagem imediata e a demonstração de força.
Nada disto implica que a relação esteja condenada.
As alianças sobrevivem a crises profundas.
Mas sobrevivem apenas quando reconhecem o momento em que estão a ser testadas.
Fingir normalidade é, neste caso, a forma mais rápida de a perder.
A Europa enfrenta, assim, uma escolha difícil e inevitável.
Não entre submissão e confronto, mas entre lucidez e negação.
Reconhecer que o sistema entrou numa fase de pressão interna não é ceder ao pânico; é ajustar o olhar.
As decisões que se seguem — em comércio, defesa, diplomacia — serão menos sobre fidelidade e mais sobre credibilidade.
E talvez seja essa a verdadeira mudança do nosso tempo: as alianças já não se mantêm por hábito, nem por memória. Mantêm-se apenas se forem capazes de justificar, todos os dias, a razão pela qual continuam a existir.
Há, contudo, um efeito menos visível e mais corrosivo desta transformação: a erosão do tempo político.
Uma aliança baseada na previsibilidade permite planeamento, compromisso e cedência gradual. Uma aliança sujeita à coerção permanente vive em regime de urgência.
Cada decisão passa a ser tomada com o horizonte encurtado, não em função do que constrói estabilidade, mas do que evita punição imediata. O curto prazo deixa de ser uma contingência; torna-se método.
É neste ponto que a dependência se transforma em vulnerabilidade estrutural. Não porque a Europa seja incapaz de se defender — essa discussão é muitas vezes exagerada — mas porque é forçada a decidir sob ameaça difusa.
Não há ultimato formal, não há rutura declarada, apenas a sensação persistente de que qualquer gesto pode ter custo. Essa ambiguidade é, em si mesma, uma forma de poder.
O mais inquietante é que este modelo não exige execução plena para funcionar. Basta que seja credível. Basta que seja repetido. Basta que não seja claramente contestado.
A coerção moderna não precisa de tanques nem de tratados rasgados; precisa apenas de memória. A lembrança de que, da última vez, houve consequências.
É aqui que a Europa enfrenta o seu verdadeiro teste. Não um teste militar, nem económico, mas narrativo.
Durante décadas, o vínculo transatlântico foi apresentado como irreversível, quase natural, como se estivesse fora da história.
Essa narrativa permitiu adiar escolhas difíceis, justificar dependências e desvalorizar a necessidade de autonomia. Hoje, essa mesma narrativa funciona como anestesia.
Porque, quando se acredita que algo é garantido, deixa-se de o proteger.
A autonomia estratégica, tantas vezes invocada e tão pouco concretizada, não falhou por falta de diagnósticos. Falhou porque nunca foi tratada como inevitável.
Era uma ambição retórica, não uma urgência política.
O que muda agora não é o conceito, mas o contexto: a autonomia deixa de ser um projeto europeu e passa a ser uma condição de sobrevivência institucional.
Isso terá custos. Custos económicos, custos políticos, custos sociais.
Exigirá escolhas impopulares, revisão de prioridades, confronto com eleitorados fatigados. Mas a alternativa — a adaptação silenciosa a uma hierarquia instável — tem um preço maior, ainda que menos visível: a perda gradual da capacidade de decidir sem pedir autorização implícita.
Nada disto significa que a relação transatlântica esteja condenada. Significa algo mais simples e mais duro: entrou numa fase em que já não pode ser sustentada por inércia.
As alianças, como as instituições, não sobrevivem apenas porque existem. Sobrevivem porque conseguem demonstrar, em contextos adversos, que ainda fazem sentido.
O perigo não está na ruptura aberta, mas na normalização de uma relação em que a lealdade é avaliada em função da utilidade momentânea e da docilidade estratégica.
Quando isso acontece, a aliança deixa de ser um compromisso entre iguais imperfeitos e passa a ser um contrato revogável, gerido pelo medo de desagradar.
Talvez seja este o ponto mais difícil de aceitar: o problema já não é apenas externo.
Não é Moscovo, nem Pequim, nem o Ártico. É a forma como o próprio sistema de segurança ocidental passou a tolerar a instabilidade como ferramenta legítima.
Reconhecer isto não é sinal de fraqueza. É o primeiro passo para recuperar margem de manobra.
A Europa não está perante uma escolha entre submissão e confronto, mas entre lucidez e conforto narrativo. Continuar a falar como se nada tivesse mudado é, hoje, a opção mais arriscada de todas.
As alianças que resistem ao tempo não são as que se repetem por hábito, mas as que se reformulam quando a realidade deixa de confirmar a promessa original.
E essa reformulação, goste-se ou não, já começou.
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