Guardiães do Irão: por que a nova liderança é mais dura
- Helena Vale

- há 3 dias
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Atualizado: há 9 horas
A 18 de julho de 1994, uma carrinha armadilhada explodiu em frente ao edifício da Associação Mutual Israelita Argentina, em Buenos Aires. Morreram oitenta e cinco pessoas. Foi o maior atentado terrorista da história da América Latina, e continua por julgar.
A Argentina emitiu mandados de captura internacionais para vários suspeitos. Um deles era Ahmad Vahidi, então oficial da força de elite Al-Quds dos Guardiões da Revolução Islâmica. Vahidi nunca foi extraditado. Negou o envolvimento. Fez carreira.
Por que a morte de Khamenei tornou o regime iraniano mais perigoso.
Em março de 2026, foi nomeado comandante dos Guardiães da Revolução Islâmica — o cargo mais poderoso das forças armadas iranianas — depois de os dois titulares anteriores terem sido mortos em ataques israelitas. O mandado de Buenos Aires continua ativo.
Quando Washington e Telavive decidiram eliminar a cúpula do regime iraniano, o argumento implícito era que a liderança seguinte seria mais fraca, mais pragmática, mais disposta a negociar. A lógica: remover os rostos do poder obriga o sistema a improvisar com o que sobrou, e o que sobrou seria menos coeso e menos capaz.
O que sobrou foi Vahidi, Mohammad Bagher Zolghadr e Mohammad Bagher Ghalibaf.
Os três formaram-se durante a guerra Irão-Iraque dos anos oitenta, na estrutura dos Guardiões da Revolução, numa época em que o regime estava a aprender a sobreviver contra um inimigo convencional com apoio ocidental. O que aquela guerra de oito anos produziu naquela geração não foi moderação — foi a certeza operacional de que a sobrevivência do regime depende da recusa em ceder.
Os ataques americanos e israelitas removeram a camada que ainda tinha memória de um Irão anterior à República Islâmica, que negociava com o vocabulário da política e não apenas com o vocabulário da guerra, e que funcionava para os Guardiões como contrapeso institucional — por vezes incómodo, por vezes paralisante. Khamenei era um homem cauteloso. Ali Vaez, diretor do Projeto Irão no International Crisis Group, disse-o sem rodeios: a estratégia de "ir a fundo" — atacar todos os vizinhos, fechar o estreito, responder sem moderação — foi desenhada sob o pai, mas os Guardiães têm agora "muito mais liberdade de manobra e muito menos constrangimentos" do que teriam se ele ainda estivesse vivo.
As potências ocidentais pensam a decapitação de regimes com uma sequência que o século XX desmentiu repetidamente: o líder é o regime; sem o líder, o regime perde coerência; a incoerência produz abertura; a abertura produz negociação.
Os casos em que a remoção de um líder moderou o regime dependem de condições específicas que raramente estão presentes — uma oposição organizada capaz de preencher o vácuo, uma estrutura de poder descentralizada que permite a emergência de fações reformistas, ou um colapso económico tão profundo que torna a continuidade impossível.
O Irão de 2026 não tem oposição organizada. Tem uma estrutura de poder descentralizada em que a descentralização favorece os Guardiões, não os reformistas. E tem uma economia danificada, não colapsada: Vaez estima dois a três meses de reservas suficientes para absorver o bloqueio, e os Guardiões acreditam que o calendário político americano é mais curto do que o seu.
Washington encontrou em Islamabade um regime reorganizado em torno do seu núcleo mais duro, com o Estreito de Ormuz como alavanca e com a convicção — partilhada, segundo Vaez, pela maioria da liderança atual — de que a guerra já foi ganha em termos estratégicos, independentemente do resultado das negociações.
Ghalibaf em Davos, em 2008, disse ao New York Times que o Irão não queria construir armas nucleares e que o diálogo com Washington era possível se os Estados Unidos tratassem Teerão como parceiro.
A entrevista foi publicada com o subtítulo "modernizador autoritário". A formulação tinha os dois termos certos mas invertia a ordem de importância. Dezoito anos depois, o mesmo homem sentou-se em Islamabade como representante de um regime que fechara um dos corredores marítimos mais estratégicos do mundo e que não mostrou, ao longo de vinte e uma horas de negociações, disposição para o reabrir nas condições que Washington exigia.
A sua visibilidade nas negociações é produto da sua experiência em contextos internacionais. É um rosto que Washington consegue ler. O que Danny Citrinowicz, ex-oficial de informações militares israelita, escreveu imediatamente após as declarações de Vance é a informação que importa: Ghalibaf "chegou a qualquer negociação com limites claramente definidos em Teerão. Não está habilitado nem inclinado a comprometer em questões estratégicas nucleares."
Os limites foram definidos por Zolghadr e Vahidi. O primeiro dirige o Conselho Supremo de Segurança Nacional; o segundo comanda os Guardiões. Ghalibaf representa — no sentido literal do termo — o que aqueles dois homens decidiram que era negociável.
Zolghadr foi sancionado pelo Conselho de Segurança da ONU em 2007 pelo seu papel no desenvolvimento do programa de mísseis iraniano. Em 2023, o Reino Unido sancionou-o por envolvimento em "atividade nuclear".
O seu antecessor no Conselho Supremo de Segurança Nacional era Ali Larijani — descrito nos documentos disponíveis como pragmático e mais moderado. Larijani foi morto num ataque aéreo israelita. Zolghadr substituiu-o.
A substituição não foi neutra. Foi, nas palavras de Behnam Ben Taleblu, analista da Foundation for Defense of Democracies, "mais prova da consolidação militar dos Guardiões" — uma linha de desenvolvimento que a guerra não criou mas acelerou de forma irreversível.
O regime iraniano tinha, antes de fevereiro de 2026, uma estrutura em que o poder do líder supremo funcionava como árbitro entre fações — Khamenei era o ponto de convergência de tensões entre pragmatistas, conservadores e militares, e a sua autoridade derivava precisamente da capacidade de gerir essa tensão sem deixar que nenhuma fação dominasse completamente. Quando essa função arbitral desapareceu, o vácuo não foi preenchido por consenso. Foi preenchido pela fação que tinha as armas, a inteligência e a memória operacional de como o regime sobrevive.
O Estado Novo durou quarenta e oito anos. Sobreviveu à morte de Salazar, à transição para Caetano, a guerras coloniais em três frentes simultâneas, a pressão diplomática crescente, a uma economia em deterioração. O que o derrubou não foi uma crise de liderança nem um ataque externo à sua cúpula. Foi um golpe interno conduzido por oficiais militares que tinham servido nas guerras coloniais e que tinham chegado à conclusão, pela experiência direta, de que o regime não tinha saída — e essa decisão demorou décadas a amadurecer dentro da própria estrutura militar que o sustentava.
No Irão de 2026, os homens que detêm os meios de força chegaram à conclusão oposta. Os danos da guerra são reais — extensos, possivelmente mais profundos do que os da guerra com o Iraque, segundo Vaez. Mas não produziram a clivagem interna que Washington antecipou. Produziram coesão em torno dos Guardiões e a certeza partilhada de que qualquer sinal de cedência seria lido, dentro e fora do regime, como o início do fim.
A questão nuclear espelha esta dinâmica. Vaez argumenta que nenhum dos dois lados pode aceitar as condições do outro na sua formulação atual: os Estados Unidos não podem reconhecer oficialmente o direito iraniano ao enriquecimento de urânio; o Irão não pode aceitar a desnuclearização completa sem perder o único ativo que garante que Washington não tenta novamente o que tentou em fevereiro. O enriquecimento é, para os Guardiões, a lição de Ormuz escrita em centrifugadoras — a dissuasão exige que o custo de um ataque seja insuportável.
Trump declarou em Truth Social que o regime mudou porque "o anterior foi dizimado, destruído, estão todos mortos. O próximo regime está maioritariamente morto. E o terceiro regime — estamos a lidar com pessoas diferentes." São pessoas diferentes. São mais duras, mais militaristas e com menos constrangimentos do que as anteriores.
Vahidi comanda os Guardiães com um mandado de captura internacional ativo desde 1994. Buenos Aires ficou por julgar. O Estreito de Ormuz continua fechado. A negociação continua em curso com homens que aprenderam, há quarenta anos, que a única coisa que um regime não pode fazer é mostrar que pode ser dobrado.
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