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O Silêncio Que Já Não Obedece | Irão

ANÁLISE · Mundo · Irão · Regime e Protestos


O país que o mundo viu em 2022 — jovens mulheres a empurrar uma fronteira moral, não apenas política, depois da morte de Mahsa Amini — não desapareceu quando as ruas esvaziaram. Ficou, sobretudo, na memória de quem percebeu que há protestos que terminam e há protestos que ficam a trabalhar por dentro, como uma febre que aprende a esconder-se.


Manifestação nocturna vista de trás da multidão, com luz de um telemóvel destacada no meio da escuridão urbana.
Ilustração a preto e branco de um grande protesto noturno. Uma multidão compacta ocupa a rua diante de edifícios iluminados ao fundo. No centro da imagem, uma figura ergue um telemóvel aceso, criando um foco de luz isolado no meio da massa escura. O contraste sublinha a tensão entre anonimato coletivo e gesto individual, vigilância e exposição, medo e desafio.

É tentador contar o Irão por datas, como se a história se resolvesse numa linha contínua: uma eleição contestada, um choque de preços, uma morte que acende um grito, um novo abalo.


Mas a sensação, quando se lê o que nos chega de Teerão e de tantas outras cidades, é menos a de uma linha e mais a de um conjunto de camadas. Camadas de medo, de economia, de humilhação, de fé cansada, de hábito social, de desejo de normalidade. E, por baixo dessas camadas, uma pergunta que volta sempre: quanto tempo pode uma revolução governar por inércia, quando a promessa já não paga a renda nem o pão?


Os números citados pelas pessoas são, nesse sentido, menos dados do que retratos. A moeda a cair para valores que deixam de ser “câmbio” e passam a ser “desorientação”, a inflação acima de quarenta por cento, a escalada dramática no preço dos alimentos.


O detalhe de um país onde, décadas atrás, um dólar era trocado por dezenas de riais e onde agora se fala em milhões por dólar é mais do que uma curiosidade histórica: é a prova de que o quotidiano se tornou um terreno móvel.


E o quotidiano móvel é um inimigo do poder, porque o poder vive de previsibilidade — mesmo quando vive de repressão.


A economia, aqui, não é apenas pano de fundo. É uma gramática. Quando o dinheiro perde sentido, as hierarquias perdem coerência. O que era “prudência” passa a parecer “submissão”. O que era “resistência” passa a parecer “insistência num erro”. Há um ponto em que a conversa política deixa de ser ideológica e se torna doméstica: como é que se compra comida, como é que se paga casa, como é que se mantém a família a flutuar. A partir daí, a legitimidade do Estado já não se mede pelo que proclama, mas pelo que consegue entregar.


É por isso que episódios como o fecho de lojas no Grande Bazar — que o texto-base coloca como detonador de protestos recentes, no contexto de queda acelerada da moeda — têm uma força simbólica particular. Não é apenas “um protesto”. É um sinal de que sectores habituados a sobreviver por adaptação (e, muitas vezes, por silêncio) deixam de acreditar que a adaptação chega.


Quando os comerciantes fecham, não estão a escrever um manifesto; estão a dizer que o cálculo de risco mudou.


Se 2022 foi um abalo moral, 2009 foi um abalo de confiança. E os protestos ligados ao custo de vida, em múltiplas cidades, foram um abalo de sobrevivência.


O importante não é recitar a lista como calendário; é perceber o efeito acumulado: cada vaga ensina duas lições, uma à sociedade e outra ao Estado. A sociedade aprende o preço e aprende as fissuras. O Estado aprende como esmagar e aprende, também, que esmagar não resolve o que está a apodrecer.


Regimes autoritários vivem de isolamento: cada um teme sozinho, cada um calcula sozinho, cada um acha que é minoria.


Quando a massa se torna visível — quando o medo deixa de ser íntimo e passa a ser partilhado — a psicologia do risco altera-se. A coragem, muitas vezes, não nasce de heroísmo; nasce de reconhecimento.


A repressão descrita no Irão é, por isso, tão central.


Não apenas pelo horror, mas pela intenção. Corpos, morgues, feridos graves, relatos de mutilações e de cegueira: não são só “consequências”. São mensagens.


O Estado tenta manter a sociedade no regime antigo do cálculo: “sai e pagas”.


O problema é que, num ecossistema digital, essas mensagens também circulam sem controlo, e o efeito pode inverter-se: a intimidação torna-se prova; a prova torna-se raiva; a raiva torna-se persistência.


É neste ponto que as forças de segurança entram como variável decisiva — não no sentido romântico de “um dia mudam de lado”, mas no sentido mais frio: que tipo de obediência é sustentável quando o país inteiro está economicamente pressionado e quando a repressão deixa marcas que as próprias famílias vêem.


Muitos dos homens que compõem a máquina de segurança não são uma elite fechada; vêm da sociedade, vivem as mesmas dificuldades, têm pais, irmãos, vizinhos. Num país em que o serviço militar é obrigatório para quase todos os homens, o “aparelho” não é uma ilha. É um espelho deformado da população: diverso, desigual, por vezes crente, por vezes cínico, por vezes apenas exausto.


Em situações destas, o ponto não é saber quantos “acreditam” no regime iraniano, mas quantos estão dispostos a carregar, por tempo indefinido, o peso psicológico e social de fazer cumprir ordens que geram mortos e feridos dentro da sua própria comunidade.


A lealdade não se mede só por ideologia; mede-se por capacidade de viver com o que se fez. E isso abre uma zona rara de fricção: a fricção entre disciplina e reputação, entre ordem e vergonha, entre sobrevivência económica e risco futuro — porque há regimes que caem e há regimes que ficam, mas, em ambos os casos, quem executou a violência continua a viver ali.


É aqui que o tema do “regime em modo defensivo” ganha consistência. Quando um Estado começa a depender mais da capacidade de punir do que da capacidade de governar, a sua própria base estreita-se. E quanto mais se estreita, mais precisa de punir.

É um ciclo que pode durar muito tempo, sim. Mas é um ciclo que muda o carácter do poder: deixa de ser um projeto e passa a ser uma contenção.


No exterior, o regime beneficia e sofre com a mesma coisa: a forma como as grandes potências falam sobre ele.


As mensagens de Donald Trump e de figuras republicanas — promessas de ajuda, frases grandiosas sobre liberdade iminente, bênçãos religiosas dirigidas aos manifestantes — têm uma utilidade óbvia para Teerão: permitem colar a contestação a um guião de interferência, reforçar a narrativa de cerco e justificar endurecimento.


Mas há uma segunda camada que não convém ignorar: mesmo quando a retórica é performativa, ela altera o ambiente diplomático.


Pode aumentar a percepção de risco, acelerar lógicas de sanção, intensificar a sensação de “nada a perder” dentro do regime, ou incentivar decisões de curto prazo para mostrar força. Isto não “ajuda” automaticamente a oposição e não “salva” ninguém; pode, inclusive, piorar o terreno. O ponto é que, quando Washington escreve frases para consumo interno, Teerão pode usá-las para consumo interno — e, no meio, a vida dos iranianos fica mais vulnerável, não menos.


Ao mesmo tempo, um movimento sem infra-estrutura e sem liderança centralizada enfrenta um problema que é quase táctico.


A ausência de liderança pode impedir a decapitação. Mas também impede a negociação, impede a formulação de alternativa, impede o trabalho de transição. A rua, por si só, é uma força; raramente é um plano.


E regimes experientes sobrevivem, muitas vezes, porque apostam exatamente nesse vazio: endurecem até o cansaço chegar e apostam no facto de a sociedade saber o que rejeita, mas hesitar sobre o que construir.


E, no entanto, há sinais que não dependem de programas. Dependem de adesão. Para o Atlantic Lisbon, o declínio gradual de participação em espaços simbólicos do regime: o mausoléu do fundador, as orações de sexta-feira num espaço universitário onde o poder se expõe em forma de sermão.


Esse declínio, quando acontece, é mais perigoso do que uma manchete. Porque a legitimidade, ao contrário do medo, precisa de público. E um público que envelhece e encolhe diz uma coisa muito clara: a revolução deixou de ser herança viva e tornou-se museu.


Por isso, o cemitério — a Paradise of Zahra, Behesht-e Zahra — não é apenas cenário. É um termómetro.


Ali, durante décadas, o Estado organizou a sua pedagogia moral: a guerra, os “mártires”, a justiça prometida, o sacrifício como coluna vertebral. Se agora funerais de mortos recentes — mortos da contestação — entram nesse espaço com palavras de ordem contra o líder supremo, o regime enfrenta um desafio que não se resolve com polícia: enfrenta a disputa pelo seu próprio vocabulário.


Num país onde o martírio é parte constitutiva da identidade política e religiosa, perder o monopólio do martírio é perder uma arma central.


O Estado pode continuar a mandar. Pode continuar a punir. Pode continuar a produzir medo. Mas começa a perder aquilo que nenhuma força de segurança substitui: a capacidade de fazer com que o sofrimento trabalhe a seu favor.


É possível que o regime resista mais tempo do que muitos desejam ou preveem. E é possível que a contestação demore a encontrar forma.


Mas também deixa uma evidência que não depende de futurologia: quando a economia deixa de sustentar a vida, quando os símbolos deixam de mobilizar, quando os mortos deixam de obedecer ao guião do poder, a República Islâmica entra numa fase em que já não governa para crescer — governa para durar.


E, por vezes, “durar” é apenas uma palavra elegante para “adiar”.



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