A Presidência Não é um Troféu
- Alberto Carvalho - Narrador

- há 5 dias
- 6 min de leitura
ANÁLISE · Portugal · Presidenciais · Dinâmicas de Poder.
Há um momento, antes do voto, em que não existe ideologia nenhuma a salvar-nos. Existe apenas um gesto: o de escolher. É um gesto pequeno, doméstico, quase banal. Mas a democracia vive de gestos pequenos. E por isso mesmo se torna tão vulnerável quando alguém decide transformá-la num palco para outra coisa.
Numa segunda volta presidencial, o país é comprimido.
A variedade de razões, biografias, hesitações e esperanças que cabem numa primeira volta é empurrada para um corredor estreito. De um lado, a ideia de continuidade; do outro, a promessa de ruptura. Até aqui, dir-se-á, nada de novo: as segundas voltas existem para decidir, não para contemplar.
O problema começa quando essa compressão deixa de ser apenas uma regra eleitoral e passa a ser uma técnica política: não se pede ao cidadão que escolha; pede-se que alinhe. Não se pede que pense; pede-se que obedeça ao pânico do dia.
O debate degrada-se num moralismo apressado — e, do outro lado, num cinismo calculado.
É nesse desfiladeiro que a extrema-direita prospera: alimenta-se do cansaço e do ressentimento, mas sobretudo de uma coisa mais silenciosa — a sensação de que as instituições já não falam a mesma língua que as pessoas.
Uma candidatura presidencial de extrema-direita não é apenas “mais uma” candidatura.
A Presidência, em Portugal, não é um ministério. É um símbolo com chave. É o lugar que nomeia, que dissolve, que veta, que convoca referendos, que arbitra crises, que marca o ritmo moral do regime.
Quem ocupa Belém não governa sozinho, mas dá o tom. E o tom, em política, é metade do poder.
Por isso importa não fingir neutralidade: quando um candidato vem do extremo, e quando já declarou que não será “presidente de todos os portugueses”, o país não está apenas a escolher um estilo. Está a escolher se aceita que a chefia do Estado se torne uma extensão partidária, um megafone de divisão, uma forma de seleção moral entre portugueses “bons” e “maus”, “legítimos” e “suspeitos”. Não é uma nuance. É uma mudança de natureza.
É aqui que surge a grande tentação do sistema: pedir “indicações”. Pedir a antigos candidatos, a figuras públicas, a gente com prestígio acumulado, que diga a frase final — a frase que liberta o eleitor do peso da escolha.
Como se a democracia precisasse de tutor. Como se a responsabilidade fosse demasiado pesada para ser carregada a sós.
Esse mecanismo parece inofensivo, até elegante: a política como concerto de consciências.
Na verdade, é um sinal de stress institucional.
Quando um regime saudável chega a uma segunda volta, quer ganhar — mas aceita perder com regras e com linguagem comum.
Um regime sob pressão faz outra coisa: tenta converter adesões em disciplina, medo em obediência, e prudência em silêncio.
E é precisamente aí que a extrema-direita obtém vantagem estratégica.
Porque ela não joga apenas para vencer a eleição. Joga para reconfigurar o terreno.
Se perde, grita fraude moral e reforça o cerco identitário. Se ganha, ocupa o símbolo e dá-lhe uma função nova: a de legitimar o seu partido como “nação verdadeira”.
A Presidência passa a ser um pódio permanente. O “partido” começa a falar como “povo”. E tudo o que não é partido passa a ser descrito como desvio.
O que torna este risco mais perigoso é a sensação, instalada em muitos sectores, de que a alternativa democrática é sempre apresentada como “mal menor”.
Essa expressão, repetida, tem um efeito corrosivo: não mobiliza; anestesia. O cidadão não é convidado a desejar — é convidado a evitar. Não se pede confiança; pede-se resignação.
Ora, a resignação é um combustível paradoxal. Pode travar um desastre imediato, mas desgasta o vínculo ao longo do tempo.
E quanto mais um país vota por exaustão, mais se torna susceptível a quem promete “limpar”, “varrer”, “pôr ordem”, “acabar com isto”. Não porque as pessoas tenham, de repente, deixado de ser democratas, mas porque passaram a duvidar de que a democracia lhes pertença.
Há também um segundo problema, mais crítico: a transformação da política em teatro de prova moral.
A cada segunda volta, o espaço público exige demonstrações — quem se demarca, quem apoia, quem “fica em cima do muro”, quem “não pode ser neutro”.
Essa linguagem é compreensível num tempo de risco. Mas tem efeitos colaterais: empurra para fora da conversa quem não suporta estes pensamentos, e empurra para dentro do ressentimento quem sente que está a ser tratado como criança.
Quando alguém diz, com honestidade, “não consigo olhar para aquele boletim”, não está apenas a falar de candidatos. Está a falar de saturação. Está a descrever um ponto em que o acto cívico deixou de parecer liberdade e passou a parecer agressão emocional. E uma democracia não se pode dar ao luxo de perder cidadãos para o exílio interior — porque, quando isso acontece, o campo fica livre para os mais ruidosos e os mais disciplinados.
É aqui que a frase “não serei presidente de todos os portugueses” deve ser tratada como aquilo que é: um aviso programático.
A Presidência, por definição constitucional e por tradição democrática, existe para representar a unidade e a pluralidade do país — não para escolher “os seus”.
Quando um candidato recusa esse princípio, está a anunciar que pretende governar o símbolo como arma cultural. Mesmo que respeite formalmente as regras, altera o espírito: normaliza a ideia de que há portugueses “fora” do abraço institucional.
E quando o símbolo se parte, tudo o resto fica mais fácil de partir.
A seguir vêm os hábitos: a forma de falar da imprensa, dos tribunais, das escolas, das universidades, das associações, das minorias. Vêm os “listados”, os “inimigos internos”, os “traidores”, os “parasitas”, os “não merecedores”. Não é fatalismo; é mecânica.
A extrema-direita não precisa de abolir a democracia para a degradar. Basta-lhe colonizar a linguagem que descreve quem pertence.
Por isso, nesta segunda volta, o ponto decisivo não é apenas quem ganha. É o que o país está disposto a autorizar como estilo de poder.
Um Presidente pode não governar o quotidiano, mas governa o clima. E o clima político, quando envenenado, entra em casa: nas escolas, nos serviços, nos locais de trabalho, nas conversas familiares, no modo como se olha para o outro na rua.
A responsabilidade democrática, aqui, tem duas faces.
A primeira é clara: quem se opõe à extrema-direita não pode fazê-lo apenas por reflexo moral ou por medo do ridículo internacional. Tem de o fazer com verdade, sem teatro. Tem de reconhecer o que falhou — a distância entre instituições e vida real, a precariedade, a desigualdade, a arrogância de certos discursos, a indiferença perante a humilhação social. Se não reconhecer isso, limita-se a pedir ao eleitor que escolha “o mal menor” e, depois, esquece-o. E esse esquecimento prepara a próxima crise.
A segunda face é mais dura: não há elegância nenhuma em fingir que “são dois candidatos como os outros”. Não são. Um deles é de extrema-direita. E a extrema-direita, quando se aproxima do topo do Estado, não pede licença: pede normalização.
Um voto não é apenas uma preferência — é uma autorização.
Quem vota autoriza; quem se abstém, muitas vezes, também autoriza por omissão. Não por maldade, mas por cansaço. E a política do cansaço é o corredor de serviço do autoritarismo.
Nada disto exige histeria. Exige lucidez.
A lucidez tem um custo: obriga-nos a escolher com o corpo inteiro, sem a fantasia de pureza. Obriga-nos a perceber que, num momento destes, a democracia não se defende com frases bonitas — defende-se com o acto simples de recusar que a Presidência seja transformada num prolongamento partidário e numa máquina de exclusão.
A segunda volta não é um concurso de virtudes. É um teste de estrutura. E o que está em teste é isto: se o país aceita que o chefe do Estado diga, implícita ou explicitamente, que há portugueses a mais. Se aceita que a unidade constitucional seja substituída por uma unidade tribal.
Quando a democracia chega a este ponto, a pergunta essencial deixa de ser “quem me representa melhor?”. Passa a ser “o que estou a permitir que a República se torne?”.
E essa pergunta — sem dramatismo, sem moralismo — é, por si só, um ato de resistência.
Imagem: - Gleen Carrie
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