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A máquina que não obedece

Em Março de 2020, quando os governos europeus começaram a impor confinamentos nacionais, a justificação era sempre a mesma: os modelos epidemiológicos previam o colapso hospitalar iminente se nada fosse feito. Os gráficos mostravam curvas exponenciais; projeções computorizadas indicavam datas precisas para a saturação de cuidados intensivos; os especialistas apresentavam cenários com três casas decimais.


A promessa implícita era reconfortante: sabemos o que vai acontecer, sabemos quando, e sabemos como evitar. A política transformara-se em engenharia de saúde pública. Bastava seguir os números.


Capa gráfica em tons azul-escuro com textura de circuitos e engrenagens; ao centro, o título “A Máquina Que Não Obedece”; em baixo, “Atlantic Lisbon” e “albertocarvalho.com”.
Capa do ensaio “A Máquina Que Não Obedece”, publicado no Atlantic Lisbon (albertocarvalho.com): uma composição noturna, em azuis e negros, onde se insinuam mapas de circuitos, traços de engrenagens e uma textura quase mineral. O desenho sugere uma ideia central do texto — a tentação moderna de tratar a vida coletiva como um mecanismo previsível — e o choque recorrente com aquilo que não se deixa modelar: comportamento humano, contingência, falhas de previsão, limites da técnica. Uma imagem de promessa e fricção: cálculo por um lado, imprevisível por outro.

Dezoito meses depois, os mesmos governos admitiam que grande parte das previsões falhara — não por erro de cálculo, mas porque a realidade social não se comporta como sistema fechado.


As pessoas adaptam-se, resistem, improvisam.


A curva que deveria subir verticalmente achatou-se em lugares inesperados e disparou onde não era previsto. O vírus não leu os modelos.


O que colapsou não foi apenas a previsão epidemiológica. Foi a confiança numa ideia mais profunda: a de que a razão técnica pode governar a vida coletiva como um engenheiro governa uma máquina.


Essa promessa — a de controlo racional sobre a contingência humana — é a arquitetura invisível das democracias liberais contemporâneas. E é essa promessa que está hoje em crise.


A substituição silenciosa


Há algo específico que distingue a política moderna de todas as formas anteriores de governo. Não é a democracia — Atenas tinha assembleias populares dois mil anos antes de Rousseau. Não é a liberdade individual — cidades medievais italianas conheciam autonomia municipal. Não é sequer o constitucionalismo — tratados entre reis e barões limitavam poder muito antes de Montesquieu.


O que muda é a fonte de legitimidade.


Durante séculos, o poder justificava-se por origem divina, linhagem heróica ou tradição imemorial.


Um rei governava porque Deus o escolhera, porque descendia de conquistadores, ou porque "sempre fora assim". A pergunta política fundamental era: quem tem direito a mandar?


A modernidade inverte isto.


A pergunta deixa de ser sobre direito e passa a ser sobre capacidade. Não importa quem governa, importa se governa bem. A legitimidade desloca-se de transcendência para performance.


Este deslizamento não foi acidental. Foi deliberado.


Quando Hobbes escreveu o Leviatã (Leviathan) - Leviathan, or The Matter, Forme and Power of a Common-wealth Ecclesiasticall and Civil - em 1651, no rescaldo da guerra civil inglesa, a sua proposta é brutal na clareza: o poder existe para produzir paz, não para encarnar a verdade eterna.


Se um soberano garante segurança, merece obediência. Se falha, perde o título. A autoridade mede-se por resultados.


Isto parece razoável. Mas tem uma implicação que só se torna visível séculos depois: se a política se justifica por eficácia, então qualquer falha técnica mina o próprio sistema.


Um rei que perde uma batalha pode invocar a vontade divina, infortúnio ou traição. Um Estado que promete controlo racional e falha não tem essa saída. Falhou no único critério que importa.


A modernidade pôs todos os ovos no mesmo cesto. Se o sistema produz resultados, merece obediência. Se falha, perde fundamento. Não há plano B.


A engenharia da vontade geral


Um dos dispositivos centrais deste sistema é a representação política. Não no sentido trivial de votar a cada quatro anos, mas no sentido filosófico: a ideia de que o poder exercido pelo Estado é, em última análise, poder do próprio povo.


A operação é engenhosa.


As pessoas detestam ser governadas.


Mas aceitam ser governadas se acreditarem que governam através de representantes eleitos. O conflito entre autoridade e autonomia dissolve-se — pelo menos em teoria.

O problema é escala.


Numa assembleia ateniense com seis mil cidadãos reunidos fisicamente, a distância entre vontade individual e decisão coletiva é curta.


Num Estado-nação com cinquenta milhões de habitantes espalhados por centenas de milhares de quilómetros quadrados, essa distância torna-se abismo.


A representação moderna funciona através de múltiplas camadas de abstração: o voto transforma-se em mandato, o mandato transforma-se em coligação, a coligação transforma-se em governo, o governo transforma-se em lei, a lei transforma-se em regulamento, o regulamento transforma-se em decisão administrativa executada por funcionários que ninguém elegeu.


No final desta cadeia, o cidadão individual olha para a decisão que o afeta e não reconhece nela a sua vontade. Mas também não a pode rejeitar legitimamente, porque foi "democraticamente decidida".


A representação torna-se ficção funcional.


Enquanto produz resultados aceitáveis — crescimento económico, segurança, serviços públicos —, a ficção aguenta. Quando os resultados falham, a legitimidade desmorona-se.


E aqui está o paradoxo: quanto mais o Estado promete controlar, maior a probabilidade de falhar em alguma dimensão. E quanto maior a falha, mais frágil a legitimidade.


Prosperidade como substituto de sentido


Há também uma aposta económica no centro deste edifício, e assenta numa ideia ousada: o crescimento material pacifica.


A lógica é simples.


Se a produção de bens aumenta continuamente, a disputa pelo que existe diminui. Em vez de lutar por território fixo, as sociedades competem por expansão de riqueza. o Comércio substitui A conquista. a Inovação substitui a pilhagem. O conflito não desaparece — é redirecionado para arenas menos sangrentas.


Durante três séculos, funcionou extraordinariamente bem.


Entre 1800 e 2000, a produção global multiplicou-se por um fator de cinquenta. Dizem-nos que a esperança de vida duplicou. Que a pobreza extrema caiu de 90% para menos de 10% da população mundial.


Mas este sucesso gerou dependência estrutural.


Se a paz social depende de crescimento contínuo, qualquer estagnação torna-se ameaça existencial. O sistema não tolera pausa. E quando o crescimento abranda — como em 2008, ou durante crises energéticas, ou sob a pressão ambiental —, a pacificação económica revela-se frágil.


Há também um custo antropológico.


Quando a prosperidade material se torna substituto no sentido coletivo, a política esvazia-se. Votar transforma-se em escolher gestores de crescimento. Governar transforma-se em administrar o PIB. A pergunta deixa de ser "como devemos viver?" e passa a ser "quanto vamos crescer?".


A economia liberta as sociedades da violência crónica. Mas aprisiona-as numa corrida sem linha de chegada.


O obstáculo que nunca foi resolvido


E há ainda um obstáculo que a modernidade nunca resolveu completamente: a religião.


O problema não é que a fé seja irracional — muitas tradições religiosas desenvolveram a teologia sofisticada. O problema é que a religião introduz fonte de autoridade que escapa ao controlo humano.


Se o mundo está submetido à vontade divina independente, o domínio técnico tem limite intrínseco. Há coisas que não podem ser calculadas, optimizadas ou geridas. Há autoridade que não se delega nem se revoga.


A modernidade responde de duas formas.


Uma é reinterpretar a religião como questão privada. A fé torna-se escolha individual, não estrutura pública. O Estado tolera-a desde que não interfira na gestão colectiva. Deus retira-se para o espaço interior; a política governa o espaço comum.


A outra é substituir a transcendência religiosa por transcendência secular: direitos humanos universais, progresso histórico inevitável, razão como autoridade final. O conteúdo muda; a estrutura — algo que está acima da vontade humana imediata — mantém-se.


Ambas as estratégias funcionaram durante séculos. Mas deixaram um vazio metafísico.


Quando a religião deixa de fornecer sentido coletivo partilhado e a política se reduz a gestão técnica, resta apenas o indivíduo isolado procurando significado onde conseguir.


Este vazio não é estável. Preenche-se com substitutos: identidades tribais, ideologias totalizantes, movimentos messiânicos seculares.


A modernidade pensou que podia dispensar o sagrado. Descobriu que o sagrado regressa sob formas menos domesticáveis.


Quando a razão se volta contra si mesma


A crise contemporânea do controlo racional não vem de fora. Vem de dentro.


Durante o século XX, filósofos, sociólogos e historiadores começaram a interrogar o próprio conceito de razão. E descobriram algo incómodo: aquilo que uma época considera "racional" depende de contextos históricos, estruturas sociais e relações de poder.


Se a razão é produto histórico variável, então o "controlo racional" não é fundamento estável — é fase transitória num processo que pode mudar de direção.


Este deslizamento do conceito produziu duas reações opostas, ambas destrutivas para o equilíbrio liberal.


Uma tenta radicalizar o controlo: mais dados, mais algoritmos, mais planeamento científico da sociedade. A promessa é que a tecnologia suficientemente avançada eliminará incerteza. A Inteligência Artificial preverá o crime, os modelos climáticos guiarão a política energética, a análise de big data otimizará a saúde pública.


A China contemporânea levou esta lógica ao extremo com sistemas de crédito social que monitorizam o comportamento individual em tempo real, atribuem pontuações e ajustam o acesso a serviços públicos conforme a sua conformidade. O sistema foi desenhado para ser racional, previsível, justo. Mas produziu efeitos que nenhum modelo previu: a simulação da virtude, ansiedade crónica de vigilância, colapso de confiança interpessoal. As pessoas adaptaram-se ao sistema que o próprio sistema não conseguiu antecipar.


O problema é que quanto mais sofisticado o sistema de controlo, maior o custo de falha. E falha sempre ocorre — porque a realidade social não é sistema fechado.


A outra reação rejeita completamente o projeto. Se a razão é construção histórica arbitrária, então não há critério objetivo para escolher entre alternativas. Sobra a vontade, identidade, autenticidade. A política torna-se afirmação tribal, não deliberação racional.


Ambas as respostas são filhas da mesma crise: a promessa moderna de controlo racional já não convence, mas nada a substituiu de forma coerente.


O paradoxo da eficácia total


As democracias liberais enfrentam hoje uma armadilha que elas próprias construíram.


O controlo racional foi suficientemente bem-sucedido para gerar expectativas de gestão total. Os Estados prometem não apenas a segurança externa, mas a saúde pública, estabilidade financeira, proteção ambiental, equilíbrio social, progresso tecnológico e até bem-estar emocional.


Cada promessa amplia o perímetro do controlável. E cada ampliação aumenta a superfície de falha potencial.


Quando uma pandemia expõe limites da medicina preventiva, quando uma crise financeira revela a fragilidade dos modelos económicos, quando as alterações climáticas demonstram incapacidade de gerir os sistemas planetários — cada evento transforma-se em crise de legitimidade.


Se a política se justifica por eficácia técnica, qualquer ineficácia técnica questiona a própria política.


O cidadão contemporâneo sente-se simultaneamente protegido e impotente. Protegido porque o Estado garante a segurança sem precedente histórico. Impotente porque a escala de decisões que o afetam ultrapassa qualquer capacidade individual de influência.


Este paradoxo alimenta o ressentimento difuso. Não contra a injustiça específica, mas contra o sistema que promete controlo total e entrega controlo parcial.


Contra-argumento: o progresso é inegável


A objeção mais forte a esta análise é evidente, e seria desonesto ignorá-la.


O projeto moderno de controlo racional produziu ganhos tangíveis sem paralelo histórico. Dizem que a Esperança de vida aumentou de 30 para 75 anos em dois séculos. Que a Mortalidade infantil caiu 95%. Que a Pobreza extrema diminuiu de maioria absoluta para minoria global. Que o Acesso à educação, saúde, informação expandiu-se para biliões de pessoas.


Negar estes avanços seria irresponsável intelectualmente.


Mas o ponto não é negar o progresso. É questionar a sustentabilidade política da promessa que o gerou.


Um sistema que se legitima através da eficácia crescente cria vulnerabilidade estrutural: cada crise — sanitária, financeira, climática — transforma-se em teste existencial. Se a política é técnica, o erro técnico mina fundamento.


E erro técnico é inevitável. Não por incompetência, mas porque a realidade social contém irredutível imprevisibilidade.


O que resta quando a máquina falha


O debate contemporâneo não é entre razão e irracionalidade. É entre dois modelos de razão.


Um modelo vê a razão como instrumento de domínio: conhecer para controlar. Outro vê a razão como instrumento de compreensão: conhecer para aceitar limites.


O primeiro produz eficiência e expansão. O segundo produz moderação e prudência.


A modernidade escolheu o primeiro. O século XXI confronta-se com as consequências dessa escolha.


Os Estados que continuem a prometer controlo total — climático, económico, sanitário, social — ampliam o risco de desilusão colectiva. Não porque sejam incompetentes, mas porque prometem o impossível.


A política não é máquina. Governar não é engenharia. E quando se trata a contingência humana como problema técnico solucionável, cria-se a expetativa que nenhum sistema consegue satisfazer indefinidamente.


O desafio não é abandonar a razão. É abandonar a fantasia de omnipotência racional.


Num mundo saturado de dados, algoritmos e gestão em tempo real, a tentação do controlo absoluto cresce. Mas quanto mais sofisticadas as ferramentas, mais visível se torna o que elas não conseguem capturar: escolha moral, sentido partilhado, contingência irredutível.


A crise das democracias liberais não é económica, cultural ou tecnológica. É filosófica. É a tensão entre uma promessa de engenharia social e a persistência teimosa do imprevisível.


E o imprevisível — ao contrário do que a modernidade apostou — não desaparece com mais cálculo. Persiste. E exige resposta política que a técnica sozinha não pode dar.

A questão não é se devemos usar a razão. É se devemos confiar que a razão elimina tragédia.


A máquina não obedece. Talvez nunca tenha obedecido realmente, e o que funcionou durante três séculos foi apenas coincidência favorável de condições — crescimento fácil, energia abundante, expectativas contidas.

Quando essas condições mudam, o que parecia controlo racional revela-se aposta sem cobertura.

E continuar a dobrar essa aposta não é racionalidade. É fé disfarçada de técnica.


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