A Fuga de Cuba
- Alberto Carvalho - Narrador

- 18 de dez. de 2025
- 9 min de leitura
Atualizado: 21 de dez. de 2025
Há cidades que se esvaziam com estrondo — sirenes, tanques, gritos, bandeiras a arder — e há cidades que se esvaziam como um corpo que perde sangue devagar. Havana, hoje, tem muito desta segunda espécie: uma espécie de hemorragia mansa, insistente, que não faz manchetes todos os dias mas muda tudo, pedra a pedra, rua a rua, olhar a olhar.
Quando se fala de Cuba, em Portugal, ainda se fala muitas vezes como quem abre uma gaveta antiga: sai de lá um cheiro de cartaz, um resto de canção, a ideia vaga de um romance político.
O problema é que o romance terminou há muito e, no lugar dele, ficou uma vida dura, de sobrevivência prática, feita de faltas sucessivas. Falta luz. Falta gasolina. Falta comida. Falta futuro. E quando o futuro falta, as pessoas não “partem”: fogem. Mesmo quando vão de avião. Mesmo quando levam uma mala pequena. Mesmo quando não correm.
Há um símbolo que me ficou preso (e eu desconfio sempre de símbolos, porque são a matéria preferida de quem manda): uma torre.
Um hotel alto, brilhante, de vidro e aço, erguido durante anos, como se o país estivesse a construir um milagre. Um edifício com centenas de quartos que a maioria dos cubanos nunca poderá pagar, nem sequer uma noite, nem sequer uma bebida no bar. Um pedaço de modernidade plantado num lugar onde o quotidiano voltou a ter filas e apagões, e onde a elegância, para muita gente, é apenas a arte de disfarçar a fome.
O edifício existe para quem chega com moeda estrangeira e para quem manda, claro. Existe também como recado: “aqui manda quem constrói”. E, numa ilha onde o Estado se confundiu durante décadas com a vida inteira, há poucas entidades mais temidas do que as que controlam o dinheiro, os hotéis, os portos, as importações, as saídas e as entradas.
A torre, por isso, não é só um hotel. É um modo de dizer: o país pode estar de joelhos, mas o poder mantém-se de pé.
Há um problema: uma torre não enche sozinha. E as torres, quando não enchem, tornam-se aquilo que ninguém quer admitir — monumentos ao vazio.
Aquilo que deveria ser “futuro” transforma-se em cenário. Há piscinas sem risos, varandas sem conversas, luzes acesas para ninguém. Um luxo sem corpo dentro. Um palco sem atores.
E Cuba, neste momento, é muito isto: um palco onde os actores se foram embora.
Não porque deixaram de existir turistas. Há turistas, sempre houve, haverá. O turismo, aliás, é uma das últimas torneiras que ainda pinga moeda. O que mudou é outra coisa: a população.
A fuga não é um fenómeno lateral; é o centro da história. A ilha não está apenas pobre. Está a perder gente. E quando um país perde gente — jovens, profissionais, famílias inteiras — perde também o músculo que poderia endireitá-lo.
Há quem atravesse o mar em embarcações improvisadas, com a coragem de quem já não tem nada para perder. Há quem morra. Há quem desapareça sem sequer deixar uma notícia decente. E há quem faça o caminho “legal” e, por isso mesmo, mais caro: vender a casa, pedir dinheiro emprestado, pagar a intermediários, comprar um bilhete para um país que serve de passagem, e depois subir, devagar, por estradas e redes de contrabando.
Uma peregrinação ao contrário, em que o “prometido” não é uma terra santa, é um posto de fronteira.
Eu não gosto de escrever isto. Aliás, quem gosta de escrever sobre uma fuga nunca fugiu. A fuga é uma forma de amputação. Parte-se um pedaço de si e espera-se que o resto sobreviva.
Conheci, uma vez, um homem que saiu de Cuba com a mulher grávida e um filho pequeno. Chamemos-lhe Aldo, porque às vezes é preciso um nome simples para dizer uma vida complicada.
Falou-me como se estivesse a pedir desculpa por existir. E a certa altura disse uma frase que me ficou: “Havia uma febre. Toda a gente estava a ir.”
A febre é uma imagem certeira. Não é entusiasmo, não é aventura. É corpo em alarme. É instinto. É a ideia de que ficar é adoecer.
O que me impressiona nestas histórias não é a travessia. É o momento em que chegam ao outro lado e descobrem que o outro lado também está doente, só que de outra maneira.
Durante décadas, o imaginário cubano construiu os Estados Unidos como um lugar de justiça, um lugar de regras claras, um lugar onde a palavra “direitos” tinha espinha.
Para quem viveu com medo de dizer uma frase no sítio errado, a ideia de um Estado de Direito funciona como um oásis.
O problema é que, quando chegam, encontram um país onde o discurso político aprendeu a usar o medo como ferramenta de gestão. E isso — para um cubano — tem uma ressonância muito particular. É como sair de uma casa a arder e entrar numa casa onde o fumo ainda não se vê, mas já se sente.
Em Miami, então, a história ganha uma ironia que às vezes dói.
Há uma “Pequena Havana” com cafés e lojas e memórias. Há parques onde homens jogam dominó com a seriedade de quem está a proteger uma pátria imaginária. Há ruas e avenidas com nomes de figuras cubanas, algumas heroicas, outras controversas, todas usadas para construir um altar de identidade. Miami é, para muitos, a extensão emocional da ilha.
Uma ilha com ar condicionado.
E, no entanto, há uma parte importante dessa comunidade que se agarrou — com entusiasmo — a uma política americana que promete dureza contra imigrantes. Isto parece absurdo, mas é mais humano do que parece.
O exilado, muitas vezes, precisa de um salvador. Precisa de acreditar que alguém, finalmente, fará o que ele sonhou: derrubar o regime de Havana, humilhar os homens do poder, reescrever a história.
Se esse alguém fala em “mudança de regime” com voz grossa e frases simples, melhor. O problema é o preço. E o preço, quase sempre, é pago pelos que chegam depois.
Há, dentro das comunidades migrantes, uma crueldade que raramente se diz em voz alta: a tentação de fechar a porta depois de entrar. “Eu mereci.” “Eu sofri.” “Eu vim como deve ser.” E, portanto, “estes de agora” são menos dignos, mais suspeitos, mais incómodos. Isto repete-se em todo o lado, em todas as diásporas. E repete-se com uma eficácia triste.
Enquanto isso, a máquina do Estado americano — que, em muitos momentos, é uma máquina cega — trata as pessoas como números. Há centros de detenção. Há audiências adiadas por anos. Há filas dentro de filas. Há advogados que pedem provas impossíveis, como se a perseguição, para ser real, precisasse de carimbo. E há uma realidade nova, muito concreta: agentes à porta dos tribunais, pessoas presas no momento em que vão “cumprir a lei”, famílias a viverem com o pânico de uma carta, de uma notificação, de um erro.
Um país que aprendeu a celebrar a liberdade, de repente, começa a parecer-se com aquilo de que muitos fugiram.
E isto é o ponto que me interessa: a simetria sombria.
Cuba, durante anos, foi o exemplo clássico de um sistema que pede obediência e chama-lhe “povo”.
Os Estados Unidos, hoje, têm sectores políticos que pedem obediência e chamam-lhe “segurança”.
Mudam as palavras.
O mecanismo tem semelhanças.
E depois há aquilo que me parece mais grave: o gosto pelo espetáculo.
Há um tipo de política que não governa — encena. Precisa de imagens. Precisa de fotografias em frente a grades. Precisa de mapas com setas, de slogans, de nomes inventados para lugares inventados. Precisa de um “Alcatraz” numa zona de pântano, por exemplo, porque a crueldade, quando é filmável, dá votos. O pântano, os insetos, o calor, o improviso: tudo serve, desde que comunique a mesma mensagem. “Não venham.” E, sobretudo, “nós mandamos.”
Quando a política chega a esse ponto, não está a gerir fronteiras. Está a gerir sentimentos. E o sentimento escolhido é sempre o mesmo: medo.
O que acontece, então, a um cubano que fugiu do medo? Acontece que volta a viver com medo — só que agora o medo tem outra bandeira. E o pior medo é sempre este: o medo que nos faz agradecer por migalhas.
“Ao menos não me bateram.” “Ao menos não me insultaram.” “Ao menos ainda não fui chamado.” A dignidade, lentamente, vai sendo trocada por alívio.
Se eu falar da ilha outra vez, é para dizer uma coisa simples: um país não colapsa apenas por causa de um embargo ou de uma sanção. Isso é uma parte da história, sim. Mas há uma parte que costuma ser ignorada pelos fiéis: o estrago interno.
A economia que não alimenta. A burocracia que castiga. A desconfiança como método. O medo como cultura.
A insistência em prometer o mesmo quando a vida mostra o contrário.
Há uma palavra cubana que eu gosto — resolver. Não no sentido bonito de “resolver um problema” com calma. No sentido de sobrevivência. Resolver comida. Resolver luz.
Resolver um remédio. Resolver gasolina. Resolver um lugar na fila.
É um verbo que, dito assim, parece prático e até admirável. Mas há uma humilhação escondida nele: quando a vida se torna apenas resolução de urgências, deixa de haver projeto. Deixa de haver horizonte. E sem horizonte, a juventude vai-se embora. Não por ideologia. Por instinto.
A fuga de Cuba, por isso, não é um episódio. É uma resposta coletiva ao esgotamento.
E depois há as figuras que ficam. As mães velhas. Os avós. Os que já não podem atravessar selvas e rios. Os que não podem vender uma casa porque a casa já vale quase nada. Os que dependem de remessas de filhos que agora vivem em quartos pequenos, em bairros periféricos, a trabalhar em coisas que nunca imaginaram. Esses, os que ficam, são o retrato mais cruel de um país em perda: um país de velhos e de ausências.
Há quem diga: “Que colapse.”
Há quem acredite que apertar o cerco, cortar remessas, tornar a vida impossível, vai produzir uma revolta e, depois, uma democracia. Isto é uma fantasia perigosa.
A história mostra-nos que regimes autoritários, quando caem, nem sempre dão lugar a democracias. Muitas vezes dão lugar a mafias, a milícias, a caos.
Um país com fome não se torna automaticamente virtuoso. Um povo exausto não é, por definição, um povo livre.
E, mesmo que a queda viesse, há uma pergunta que ninguém parece querer enfrentar com honestidade: quem paga o “tratamento”? Quem sofre o “remédio”?
Os que mandam raramente passam fome. Os que mandam têm sempre portas. Os que mandam têm sempre torres.
O que me leva, de novo, à imagem inicial.
Uma torre de vidro e aço, erguida como se fosse progresso, num país onde o progresso foi substituído pela saída.
O poder gosta de construir símbolos porque os símbolos parecem eternos. Mas há uma coisa que nenhum símbolo consegue conter: a vontade de partir.
E aqui há uma lição que não é apenas cubana.
É universal.
Um Estado pode controlar jornais, polícias, tribunais, fronteiras. Pode controlar hotéis. Pode controlar importações. Pode controlar a narrativa.
O que não consegue controlar, por muito tempo, é a sensação íntima de que a vida não tem amanhã.
Quando essa sensação se instala, o país começa a esvaziar. E nenhum vidro, nenhum aço, nenhum cartaz consegue impedir isso.
Também não nos iludamos do lado de lá.
Os Estados Unidos, quando usam a detenção como teatro, quando transformam pessoas em “casos”, quando falam de imigração como se fosse praga, estão a fabricar uma doença própria. Uma doença moral. E essa doença, como todas, não fica confinada ao alvo. Espalha-se. Normaliza-se.
Um dia, atinge outros. E quando se dá por ela, já não é só o imigrante que tem medo. É a sociedade inteira que vive de sobressalto.
É por isso que a história de Cuba, hoje, me parece tão relevante: porque é uma história de fuga, sim, mas também é uma história de espelhos. O exilado que troca um regime por outro tipo de dureza.
A cidade que perde gente enquanto ergue edifícios para estrangeiros. A comunidade que, tendo sido salva por políticas de acolhimento no passado, apoia políticas de expulsão no presente. O país que se constrói contra um inimigo e acaba a precisar desse inimigo para existir.
E, no meio disto, há pessoas concretas: um homem com um filho pela mão, uma mala, um medo antigo e um medo novo.
Há mulheres que esperam cartas. Há idosos que esperam remessas. Há jovens que esperam um visto. Há quem espere o fim do regime.
Há quem espere o fim de uma audiência em tribunal. E há, sobretudo, este cansaço, que é a matéria de todas as fugas: a certeza de que ficar é morrer devagar.
Eu gostava de terminar com uma frase redonda, mas não tenho. Há histórias que não deixam espaço para grandeza literária. Deixam, quando muito, um apelo simples: que não nos habituemos.
Que não nos habituemos a países vazios, a torres vazias, a cidades sem juventude. Que não nos habituemos a prisões feitas para fotografia. Que não nos habituemos a discursos que tratam pessoas como lixo. Porque aquilo que começa por ser “excepção” acaba por ser norma. E a norma, quando se instala, já não pede autorização.
Cuba foge, e o mundo observa.
Mas talvez o mais inquietante seja isto: enquanto olhamos para a ilha a esvaziar-se, há outras ilhas a formar-se dentro dos países que se dizem livres.
Ilhas de medo. Ilhas de silêncio. Ilhas onde a lei não serve para proteger, serve para mostrar força.
E isso — isso sim — é o princípio de um colapso.
AC




Estive em Cuba este ano, como os russos e os canadianos. O que vi, entristeceu-me. Por todo o lado as pessoas pedem para poderem comer. Quase não podem ir ao supermercado. Pediram me para lhes pagar as compras de comida. Uma grávida pedia os champoos do hotel para o bebé. Uma idosa aceitou a minha Sandwich do pequeno almoço. A comida está racionada. Sim, com senhas. A electricidade falta todos os dias mais de metade do dia. Uma pasta dos dentes, quando há, custa um ordenado. As farmácias não têm medicamentos, estão embargados. São centenas de animais abandonados. A qualidade do ensino decresce vertiginosamente. Sim, toda a gente quer fugir da ilha que é maior que Portugal.
Não me chocaram…
Como em todos os textos que tenho lido do AC, há uma análise tão lúcida, que é impossível ficar indiferente. Há muitos anos tive a sorte de viajar até Cuba, visitei Havana e também as praias de Varadero e, de facto, as assimetrias eram gritantes. Em Havana, crianças empurravam -se para conseguirem uma esferográfica oferecida por um turista, mulheres imploravam a oferta de um sabonete...
Mas o que mais me impressionou foi ver gente cultíssima, que se alimentava com pouco mais do que arroz e feijão.
O próprio mundo se tornou em várias Cuba!! Uns mais outros menos, mas todos a seguir o mesmo rumo! Sinto-me, como muitos, a caminhar para um país, em certos aspetos, como Cuba! O mundo, hoje, caminha para uma gigante CUBA, onde o medo, a dor, a fome e sofrimento cada vez se torna real. Belíssimo texto. Obrigada AC, pelos seus textos e sobre assuntos tão pertinentes. Um Santo Natal.
Se me fosse possivel dar um titulo chamar-lhe -ia A fuga do medo e o abraço do ódio.
Na realidade a fuga aumentou em todo o mundo onde a miséria se instalou como um dado adquirido dos que, sendo donos do mundo, se consideraram donos de todos nós. E os homens pensaram que, do outro lado, não era preciso fugir e havia sempre trabalho e pão. Mas esqueceram-se que os poderosos estavam lá também, à espera de escravizarem quem, à procura duma Riviera Maia, tivesse de se sujeitar ao medo, à fome e à injustiça.
Mais ainda: do outro lado encontraram o ódio, a fome e a solidão.
Cada um devia ter direito à terra onde nasceu e devia crescer…
Que privilégio é mergulhar numa escrita tão humana e adorável! É verdadeiramente fabuloso poder aceder a uma revista com este nível de qualidade literária de forma gratuita. O trabalho do Alberto Carvalho é um presente para quem ama as letras. Parabéns por manterem a chama da cultura viva e acessível!