2027 Não É Um Ano, É Um Método
- Helena Vale

- 25 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
OPINIÃO · Mundo · China/Taiwan · Segurança
A mais recente avaliação do Pentágono descreve uma China que já não se limita a modernizar equipamento: está a consolidar, passo a passo, a capacidade de operar longe do continente e de sustentar operações prolongadas — um ponto particularmente sensível quando se olha para Taiwan e para o equilíbrio no Indo-Pacífico.
O relatório é claro num aspecto e ambivalente noutro. Claro, porque identifica progressos consistentes: mais meios, mais treino, mais opções operacionais.
Ambivalente, porque assinala que, no final do ano passado, Pequim ainda não tinha a certeza de conseguir executar com sucesso uma operação de invasão e ocupação da ilha — apesar de Xi Jinping ter fixado 2027 como horizonte para dotar o Exército Popular de Libertação (EPL) das capacidades necessárias para tomar Taiwan pela força. A intenção permanece; a convicção operacional, não é apresentada como garantida.
Essa tensão aparece também na formulação do próprio documento: o EPL “continua a refinar” várias vias para impor a unificação pela coerção, mas a liderança chinesa “permanece insegura” quanto ao grau de prontidão para uma tomada efectiva de Taiwan.
Traduzindo em termos práticos: o planeamento existe, o treino intensifica-se, mas há dúvidas — sobre coordenação, execução, perdas aceitáveis, resposta externa e, sobretudo, sobre a diferença entre capacidade declarada e capacidade demonstrada.
Enquanto a grande decisão não acontece, a pressão faz-se no quotidiano.
O Pentágono aponta para um aumento forte de actividade chinesa nas imediações de Taiwan, por via aérea e marítima, com incidência particular na zona de identificação de defesa aérea (ADIZ).
A escalada é quantificada: mais de 60% de subida, de 1.703 incidentes em 2023 para 2.771 no ano passado.
Não é um padrão de “crise” episódica; é um regime de desgaste que normaliza a presença e testa rotinas de resposta.
No mar, a tendência é semelhante.
O relatório indica intensificação de operações de navios de guerra no Estreito de Taiwan, reforçando a mensagem de permanência: a presença torna-se instrumento político e militar, independentemente de haver ou não um confronto aberto.
Do lado de Pequim, o enunciado político não mudou: Taiwan é considerada parte do território chinês e o uso da força continua declarado como opção possível. A diferença, sublinha o Pentágono, é que o país dispõe hoje de músculo militar muito superior ao de décadas anteriores — e esse músculo é posto à prova em exercícios.
Em 2024, segundo o relatório, as forças chinesas realizaram treinos para validar “componentes essenciais” de um conjunto de cenários: invasão anfíbia, ataques de fogo e bloqueio marítimo. São peças distintas de um mesmo tabuleiro. E, quando ensaiadas, deixam de ser apenas linguagem política: tornam-se procedimento.
A reacção norte-americana, tal como descrita no documento, mistura reforço material e gestão de risco.
Na semana passada, a administração Trump aprovou um pacote de vendas de armas a Taiwan de 11 mil milhões de dólares, com lançadores de mísseis montados em camiões, mísseis anti-tanque, artilharia e drones. Em simultâneo, Trump desvalorizou publicamente a probabilidade de Pequim recorrer à força num horizonte próximo e sinalizou intenção de aprofundar canais com Xi, com uma cimeira prevista para Abril. A combinação é típica: endurece-se a capacidade de dissuasão de Taiwan, mas evita-se fechar a porta à diplomacia com Pequim.
O relatório acrescenta que Washington pretende ampliar comunicações militares com a China e insistir em mecanismos para clarificar “intenções pacíficas”. Só que essa expressão tem elasticidade: o que para os EUA é prevenção de escalada, para Pequim pode ser interpretado como espaço para avançar com pressão gradual, sem ultrapassar a linha da guerra formal.
A política norte-americana tradicional é enquadrada pelo Pentágono como continuidade da chamada ambiguidade estratégica: manter a China na incerteza quanto a uma intervenção directa, mas também conter iniciativas unilaterais de independência formal de Taiwan que poderiam precipitar um conflito.
O problema, sugere o texto, é que a margem de manobra diminui à medida que a actividade militar se torna mais frequente e a região mais nervosa.
Há, ainda, uma nota sobre o próprio estilo do documento. Esta é a primeira avaliação do segundo mandato de Trump e surge após a divulgação de uma estratégia de segurança nacional que dá primazia à defesa do Hemisfério Ocidental.
O Pentágono apela a cooperação mais estreita com parceiros do Pacífico para dissuadir tentativas de tomada de Taiwan, mas menciona a China poucas vezes e, quando o faz, tende a fazê-lo em chave económica. Menos dramatização, mais pragmatismo — sem que isso reduza a gravidade das conclusões.
O relatório tem cerca de 100 páginas, aproximadamente metade do comprimento do documento publicado no ano anterior pela administração Biden. E inclui uma frase pesada: a “acumulação militar histórica” da China está a tornar o território dos EUA “cada vez mais vulnerável”. Tom Karako, do CSIS, notou precisamente essa mudança: menos detalhe técnico sobre equipamento e um sublinhado inesperado de melhoria de relações e de cooperação militar EUA–China, algo que contrasta com a leitura de confronto inevitável presente noutros anos.
Nos objectivos estratégicos atribuídos ao EPL, o Pentágono enumera três grandes linhas rumo a 2027: capacidade para alcançar uma “vitória decisiva estratégica” sobre Taiwan; capacidade de “contrabalanço estratégico” face aos EUA em domínios nucleares e outros estratégicos; e capacidade de “dissuasão e controlo” sobre actores regionais. Não são metas pequenas — e têm implicações directas para a estabilidade.
No capítulo nuclear, o relatório estima que a China já terá mais de 600 ogivas. O texto sugere um ritmo de crescimento mais lento do que em anos recentes, mas insiste que a trajectória continua expansiva, com projecção para ultrapassar 1.000 ogivas até 2030. Pequim, por sua vez, mantém a recusa de conversações de controlo de armas nos termos propostos por Washington, argumentando que pretende aproximar-se do nível de EUA e Rússia e que são essas potências que deveriam reduzir primeiro.
No mar, o documento aponta um plano ambicioso: seis porta-aviões até 2035, totalizando nove. A marinha chinesa concluiu ensaios marítimos do seu terceiro porta-aviões, o primeiro concebido internamente. O Fujian aproxima-se do desenho de convés plano usado pelos EUA e inclui sistema de lançamento electromagnético, semelhante ao dos porta-aviões norte-americanos da classe Ford.
Ryan Fedasiuk, do American Enterprise Institute, sublinhou que o relatório clarifica este objectivo de nove porta-aviões, o que colocaria a frota chinesa imediatamente atrás da americana. Os EUA operam com 11.
Por fim, o Pentágono volta a insistir na dimensão global da projecção chinesa. O relatório refere a inauguração, em Abril, de um centro de logística e treino numa base naval no Camboja e recorda a presença chinesa em Djibuti, junto ao Mar Vermelho. A mensagem é simples: o eixo de ambição não se esgota no Estreito de Taiwan. Está a desenhar-se uma arquitectura de alcance mais largo — e é isso que, no fundo, transforma este dossier numa questão sistémica, não apenas regional.
Autor: Helena Vale




China tem vindo a crescer paulatinamente. Na última década deixou de ser tão fechada e na cooperação internacional deixou de ser o doador e passou a ser o fazedor. Eu a olhar para a "África Chinesa"