top of page

O vidro, o ecrã, o segundo antes da morte

Há um instante — meio técnico, meio humano — em que a imagem ainda não decidiu o que é. Um dedo arrasta a linha do tempo num telemóvel. O som está desligado. A rua cabe dentro de um retângulo luminoso. Um reflexo no vidro duplica figuras. E, quando o vídeo é retomado, o mundo não entra: cai.


A bala não ganha ao vídeo.


Foi assim que uma morte se tornou pública em Minneapolis, num movimento que não deixou tempo para o país respirar nem para a história esperar por relatórios.


Agentes federais detêm um homem numa rua com neve, enquanto outras pessoas observam ao fundo.
Agentes federais durante uma intervenção em Minneapolis, num episódio registado em vídeo e amplamente partilhado nas redes sociais.

Primeiro, um registo filmado ao nível da rua, visto através de um vidro: agentes do ICE e da Border Patrol rodeiam um homem no chão; a tensão cresce; ouve-se um disparo; o corpo deixa de reagir. Alguém, perto de quem grava, reage com incredulidade — não como quem comenta política, mas como quem testemunha o impossível a tornar-se banal.


O homem chamava-se Alex Pretti, tinha 37 anos e trabalhava como enfermeiro de cuidados intensivos no sistema de saúde dos Veteranos (Veterans Administration Health System). Mas o nome demorou a chegar. A cena chegou primeiro. Chegou com a velocidade própria do horror filmado: uma coisa que não pede autorização para existir.


Desde o início, não foi apenas um caso de violência. Foi um caso de violência com prova imediata, e de prova imediata com múltiplas versões. Uma morte que, antes de ser notícia, já era um ficheiro partilhado; antes de ser investigada, já era discutida; antes de ser enquadrada, já era disputada.


Essa sequência é mais do que um detalhe. É a estrutura.


Quando a “testemunha” deixa de ser uma pessoa e passa a ser uma rede


Há uma mudança silenciosa na vida pública: a testemunha já não é apenas alguém que esteve lá e será chamado. A testemunha é também — cada vez mais — quem esteve lá e enviou.


O gesto de apontar uma câmara não é apenas registo; é um pedido de confirmação ao mundo. Um apelo curto: “vês isto também?”


No caso de Pretti, os vídeos multiplicaram-se por ângulos, e a multiplicação produziu um efeito estranho: aproximou milhões de pessoas de um local onde não estavam, como se a distância geográfica fosse irrelevante quando a prova é portátil.


O que antes era “ouvi dizer” passou a ser “vi”. E, quando muitos viram, começou outra coisa: a prova tornou-se um hábito coletivo.


Pessoas que não se conhecem alinham pormenores como se montassem uma reconstituição: a posição do corpo, a ordem dos gestos, a presença de coletes e botas, a direção de um empurrão, o instante em que uma arma aparece. Mesmo quando a linguagem é emocional, o padrão é quase forense. Não por virtude. Por necessidade. Porque a disputa já não é apenas sobre o que aconteceu; é sobre se nos deixam aceitar o que aconteceu.


Essa mudança — prova como hábito coletivo — tem duas consequências simultâneas:


  1. reduz a margem para o apagamento puro;

  2. aumenta a margem para um fenómeno mais sofisticado: a guerra pela interpretação.


Quando a prova é inegável, o conflito desloca-se. Já não se pergunta “aconteceu?” Pergunta-se “como devemos ler o que aconteceu?”


O segundo vídeo e a alteração do sentido


A circulação de um primeiro vídeo pode produzir indignação; a circulação de um segundo vídeo pode produzir algo mais perigoso para o poder: clareza.


Segundo descrições de gravações que circularam online, um dos ângulos adicionais mostrou um detalhe que muda a leitura do episódio: Pretti também estaria a filmar com o telemóvel.


No plano, surge uma mulher do outro lado da rua, com um casaco de cor viva, mais perto do confronto, também a gravar. Durante horas, pessoas procuraram “o outro ângulo” — como se a verdade, numa época de câmaras, fosse uma questão de encontrar o plano certo.


Nesse ângulo, segundo relatos associados à circulação do vídeo, um agente terá empurrado uma mulher ao chão. Pretti tenta ajudá-la a levantar-se. É atingido com spray pimenta. É arrastado para o centro do grupo de agentes. E, num ponto decisivo, um agente descobre a arma de Pretti — o porte aberto é permitido em Minnesota com licença, e o chefe da polícia de Minneapolis, Brian O’Hara, afirmou que Pretti teria licença — e essa arma é retirada e levada para fora do círculo.


Aqui a análise tem de ser prudente: os detalhes finais e as sequências exatas dependem do material disponível e do que venha a ser confirmado por investigação formal. Ainda assim, há uma linha que, segundo a descrição do vídeo, se impõe pela sua lógica visual: nos segundos anteriores ao primeiro disparo, Pretti segura o telefone, não uma arma.

E esse pormenor — caso seja confirmado pela justiça — é devastador por uma razão simples: retira ao Estado a explicação automática que procura oferecer quando a violência é filmada. Porque um homem a segurar um telemóvel é, por definição, um problema político.


Um telemóvel não ameaça um corpo. Ameaça uma versão.


A legenda oficial: como se mata duas vezes


Quando existe imagem crua, o poder tem duas opções. Ou assume. Ou reinterpreta.


No caso de Pretti, a linha escolhida por figuras do topo da cadeia federal foi a da reinterpretação agressiva.


Greg Bovino, chefe da Border Patrol, afirmou numa entrevista que Pretti queria “massacrar” as forças de segurança, elogiando a atuação dos agentes por o terem “neutralizado”.


Kristi Noem, secretária de Segurança Interna, declarou que Pretti teria reagido “violentamente” nos instantes anteriores à morte.


E J. D. Vance partilhou nas redes sociais uma imagem da arma de Pretti, associando-a a um apelo para que lideranças políticas do Minnesota colaborassem com o ICE, para evitar que “situações no terreno” saíssem do controlo.


Estas intervenções não discutem o vídeo. Tentam discutir o olhar.


É um movimento que funciona como uma espécie de crítica de arte perversa: pega-se numa sequência filmada, recorta-se um objeto, cola-se uma intenção, e pede-se ao público que aceite a intenção como chave final.


A arma fotografada fora do contexto torna-se explicação total. O “poderia ter” substitui o “foi”. A hipótese substitui a prova.


Há aqui uma técnica recorrente: transformar um episódio filmado num ensaio sobre intenção. Não se discute o gesto. Discute-se uma intenção atribuída (“queria massacrar”), impossível de verificar nos frames, mas útil para justificar o resultado. É uma forma de matar duas vezes: primeiro o corpo; depois a credibilidade da vítima.


E é também uma forma de medir o público. Porque a pergunta implícita é sempre a mesma: até onde aceitam uma narrativa que contraria o que os olhos viram?


A administração e as imagens: quando a fotografia é propaganda


Não é coincidência que a disputa se faça com imagens e por imagens. O mesmo aparelho político que defende operações duras do ICE tem mostrado apetência por transformar visualidade em instrumento de poder: imagens manipuladas, estética kitsch, propaganda de redes sociais, uma espécie de entretenimento do domínio.


Um exemplo recente descreve bem o mecanismo: a conta oficial da Casa Branca na rede X partilhou uma imagem distorcida de Nekima Levy Armstrong, uma mulher negra detida após protestar numa igreja em Minneapolis.


Na imagem partilhada, aparece a chorar de forma descontrolada. Noutras imagens do momento, ela surge com as mãos algemadas e expressão firme. A alteração não é subtil. É funcional: tenta produzir humilhação e vitória emocional para um público.


Este é o ponto central: o poder gosta de imagens quando controla a fabricação e a legenda.


Quando a imagem nasce de baixo — de um telemóvel, de um vidro, de um transeunte — torna-se ameaça. E, se não consegue desaparecer com ela, tenta recodificá-la.

A imagem crua não é só prova. É um limite ao cinismo.


Um Estado que disputa o que os olhos viram


Há uma frase que se repete em conversas privadas sempre que um vídeo destes circula: “não estou louco, pois não?”


É uma pergunta estranha, mas revela o núcleo do problema. Quando a política se torna uma máquina de negar o óbvio, o cidadão começa a duvidar do próprio senso comum. O vídeo, então, não é apenas prova de um ato. É prova de sanidade.


O que ameaça o poder não é o clip. É o consenso espontâneo que o clip produz. O consenso de que, sim, aconteceu. E de que, sim, foi aquilo que parece ter sido.


A partir daí, a disputa passa a ser sobre o controlo da história. Quem manda não quer apenas mandar em factos; quer mandar em como os factos entram na memória pública.


A linguagem “defensiva” da administração — a insistência em que a vítima era perigosa, a insistência em que a violência era necessária — é, no fundo, uma tentativa de construir uma segunda realidade, paralela, na qual o vídeo existe mas já não prova nada.


É aqui que o sistema revela o que é: um sistema sob pressão. Quando a legitimidade enfraquece, a força não se limita a agir; tenta justificar-se antes de ser julgada. Tenta antecipar o tribunal público e contaminá-lo.


A arma, o telemóvel e o deslocamento da culpa


Há outro detalhe — quase banal na América contemporânea — que se transforma em peça de engenharia narrativa: a arma legal.


Minnesota permite porte aberto com licença. Esse facto, em si, não determina o comportamento de um homem num confronto. Mas, usado como símbolo, torna-se uma alavanca perfeita: basta mostrar a arma para insinuar intenção homicida, mesmo que o vídeo descreva outra coisa.


O efeito é conhecido: o objeto substitui o contexto. O objeto substitui a sequência de gestos. O objeto substitui o instante em que alguém tenta levantar uma mulher do chão. O objeto substitui o telefone na mão.


O que se faz, com essa substituição, é uma operação moral: desloca-se a culpa para a vítima. A vítima não é alguém morto; é alguém morto que “podia ter sido” algo pior. A hipótese passa a ser argumento suficiente para absolver o ato real.


Quando um Estado aceita esse deslocamento como prática comunicacional, a regra deixa de ser “o que se prova” e passa a ser “o que se imagina”.


E um sistema governado por imaginação, quando tem armas e autoridade, é um sistema estruturalmente perigoso.


O que acontece quando a prova não pode entrar


O vídeo aproxima. Mas não entra onde o poder quer que não entre.


É aqui que nasce a pergunta mais inquietante, aquela que aparece sempre no fim destas histórias e que, ainda assim, continua a funcionar como choque: se isto acontece quando há câmaras, o que acontece onde não há?


Há lugares onde a prova não entra por definição: veículos de transporte, instalações fechadas, zonas de detenção, corredores administrativos, salas sem janelas, aviões, carrinhas, centros de retenção. Mesmo quando há processos e fiscalização, a experiência do cidadão comum não tem acesso direto ao que sucede nesses espaços. E, por isso, cada morte filmada em público não é apenas um caso isolado. É um aviso sobre a parte do sistema que permanece invisível.


O poder sabe disso. Por isso, a disputa pelo sentido do vídeo é tão feroz. Não é apenas para salvar a reputação de uma operação. É para evitar que a pergunta se espalhe como praga lógica.


O mecanismo que se repete: violência, prova, reinterpretação


Há uma cadência moderna no modo como estes casos se desenrolam:


  • acontece um ato de força;

  • surge prova por telemóvel;

  • a prova circula rápido;

  • surge uma narrativa oficial que tenta reprogramar o olhar;

  • o público divide-se entre quem aceita o que viu e quem aceita o que lhe disseram que viu;

  • o episódio passa a ser usado como peça política.


No caso de Pretti, essa cadência parece ter sido acelerada por uma circunstância particular: a abundância de ângulos. Quando a prova é múltipla, torna-se mais difícil negar. E, quando é difícil negar, torna-se mais urgente reinterpretar.


É por isso que as declarações de Bovino e Noem, e a partilha de Vance, não são apenas reações. São instrumentos. Funcionam como manual de leitura para quem quer continuar a acreditar na autoridade sem desconforto.


A pergunta decisiva não é “quem tem razão?” A pergunta decisiva, numa democracia, é outra: quem tem o direito de impor a leitura final de uma morte filmada?


O risco institucional: quando o Estado testa os limites do consenso


Um sistema político forte não precisa de esmagar a evidência. Um sistema confiante não precisa de chamar “violento” a quem, nas imagens, está desarmado e a segurar um telefone. Um sistema legítimo não precisa de governar por sugestão de massacre para justificar um disparo.


Quando se assiste ao contrário, não se está apenas perante brutalidade. Está-se perante uma forma de governar que testa limites: testa quanto se pode distorcer sem quebrar o consenso; testa quanto se pode mentir sem pagar o preço; testa quantas vezes se pode fazer isto até o público se habituar.


E habituar é a palavra mais perigosa.


Um país pode sobreviver a uma crise. Mas um país que se habitua à distorção pode perder a capacidade de se reconhecer.


É por isso que as câmaras importam. Não porque resolvem tudo. Mas porque interrompem o processo de habituação. Criam fricção. Forçam o olhar a insistir.


Fecho: a prova como último território


No fim, o tema não é Minneapolis. Nem é apenas ICE. Nem é uma discussão abstrata sobre redes sociais. O tema é mais concreto: o território da prova.


Durante muito tempo, a prova pertenceu a instituições: tribunais, polícias, imprensa, arquivos.


Hoje, parte dela pertence ao bolso de qualquer pessoa. Isso não garante justiça. Mas impede, em certos instantes, a mentira total.


Um telemóvel não derruba um Estado. Mas pode impedir um Estado de dizer que nada aconteceu.


E isso, num sistema sob pressão, é suficiente para desencadear o reflexo mais antigo do poder: tentar governar não apenas os factos, mas a forma como os factos serão lembrados.


A prova é o último território. É por isso que a disputa é tão violenta.


NOTA PESSOAL:


Há mortes que não cabem na notícia. Ficam a doer noutro sítio — no lugar onde a vida era útil, discreta, necessária. Alex Pretti era enfermeiro. Há qualquer coisa de insuportável nisso: alguém que passou dias a segurar outros à beira do fim, e que acaba reduzido a segundos de vídeo, a um debate, a um pretexto.

Não escrevo estas linhas para acrescentar moral à tragédia. Escrevo para deixar um nome inteiro no fim, quando tudo o resto tenta partir um homem em versões.

Que a memória dele não seja apenas a prova. Que seja luto. E que o luto — ao menos o nosso — não se deixe administrar.

Subscrever a Newsletter


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page