A Política Como Técnica de Domínio
- A Equipa Atlantic Lisbon

- há 14 horas
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A pandemia não expôs apenas fragilidades sanitárias. Expôs uma crença política: a de que sociedades complexas podem ser administradas como sistemas técnicos, se houver dados suficientes e decisores competentes.
Durante meses, os governos apresentaram-se como centros de cálculo. Modelos epidemiológicos orientavam os confinamentos; os gráficos legitimavam restrições; os indicadores substituíam juízos prudenciais. O discurso era inequívoco: controlaríamos o vírus se seguíssemos a razão.

A Ilusão do Controlo.
O problema não foi a utilização da ciência. Foi a promessa implícita de controlo total.
A tecnocracia contemporânea parte de uma premissa clara: qualquer fenómeno social é, em última instância, susceptível de modelação. Se recolhermos informação suficiente, poderemos antecipar comportamentos, mitigar riscos e otimizar resultados. A política torna-se gestão de variáveis. O conflito é traduzido em parâmetros; a incerteza, em margem de erro.
Este impulso não surgiu com a Covid-19. Está inscrito na própria arquitetura do Estado moderno.
Mas a pandemia concentrou-o num laboratório à escala global. Subitamente, a autoridade política justificava-se quase exclusivamente pela competência técnica. Não se discutia o sentido das decisões; discutia-se a eficácia das medidas.
O mecanismo é simples. A tecnocracia legitima-se pela promessa de previsibilidade. Quanto mais precisa for a previsão, mais forte é a autoridade. O cidadão não obedece porque acredita num princípio transcendente, mas porque confia na perícia dos especialistas.
Essa confiança, porém, tem uma condição silenciosa: a eficácia deve confirmar a promessa.
Quando os modelos falham, quando as previsões são revistas, quando as orientações mudam — como inevitavelmente acontece em cenários inéditos — a percepção pública não distingue entre a prudência científica e a incoerência política. O que estava apresentado como cálculo exato revela-se contingente.
A tecnocracia sofre então daquilo que poderíamos chamar um problema de sobre-promessa estrutural.
Para assegurar a obediência rápida, comunica certeza. Para manter a legitimidade duradoura, precisaria de comunicar o limite. O equilíbrio é raro.
Durante a pandemia, vimos este dilema repetir-se. Várias medidas apresentadas como necessárias tornaram-se discutíveis meses depois. As Estratégias anunciadas como definitivas foram revistas. Nada disto é anómalo em ciência aplicada.
Mas num sistema que se legitima pela ideia de controlo racional, a revisão constante fragiliza a autoridade.
Não se trata de incompetência. Trata-se de estrutura.
A política tecnocrática tende a reduzir as decisões normativas a decisões técnicas. Encerrar as escolas, limitar a circulação, impor os passaportes sanitários — tudo isto envolve juízos morais sobre o risco, liberdade e bem-estar coletivo.
Ao apresentar essas escolhas como simples aplicações de dados, o poder desloca o debate para um terreno aparentemente neutro. Quem contesta é acusado de ignorar a ciência.
Contudo, a ciência não decide prioridades sociais; fornece informação sobre as consequências prováveis. A decisão permanece política.
Aqui emerge a fricção.
Se a política abdica de assumir o seu carácter normativo e se esconde atrás da técnica, o desacordo transforma-se em suspeita.
O cidadão que discorda não é visto como adversário político legítimo, mas como irracional.
Esse padrão não se limita à saúde pública.
A transição energética, a regulação digital, a política monetária — todas são frequentemente apresentadas como problemas técnicos com solução optimizada. A linguagem da necessidade substitui a linguagem da escolha.
O resultado é uma tensão crescente entre governantes e governados. Não porque as pessoas rejeitem a razão, mas porque intuem que a promessa de controlo absoluto é ilusória.
As sociedades são sistemas abertos, permeáveis a fatores imprevistos, condicionadas por valores divergentes.
A tecnocracia oferece estabilidade enquanto produz resultados visíveis. Quando esses resultados são ambíguos ou distribuídos de forma desigual, a confiança esvai-se rapidamente.
A objeção mais forte a esta crítica é evidente: sem recurso intensivo a conhecimento técnico, a pandemia teria sido mais devastadora. A coordenação científica salvou vidas.
A modelação permitiu evitar colapsos hospitalares. Ignorar especialistas teria sido irresponsável.
Isto é verdade.
A alternativa à tecnocracia não é o improviso populista. O problema não está no uso da razão, mas na sua absolutização política.
Quando o poder comunica que domina plenamente a situação, assume uma responsabilidade impossível de cumprir. Em vez de enquadrar decisões como escolhas sob incerteza, apresenta-as como respostas necessárias. Essa retórica elimina a margem de debate legítimo.
A consequência é paradoxal.
Quanto mais a política promete controlo racional, mais severa será a reação quando o controlo falha.
A crise de confiança não decorre de erro técnico isolado; decorre da perceção de que o sistema prometeu mais do que podia entregar.
No pós-pandemia, essa desconfiança manifesta-se de várias formas: polarização, rejeição de autoridades, procura de narrativas alternativas. Não se trata apenas de ignorância ou radicalização. É, em parte, resposta a uma expectativa frustrada.
O projeto moderno sempre aspirou a substituir incerteza por cálculo.
A tecnocracia contemporânea é a sua expressão mais avançada. Mas há um limite intrínseco: a vida coletiva envolve contingência irredutível. Nem todos os riscos podem ser modelados; nem todas as reações humanas são previsíveis.
Se a política quiser preservar a legitimidade num mundo saturado de dados, terá de reaprender a linguagem do limite. Em vez de prometer controlo total, terá de explicar escolhas sob incerteza. Em vez de se esconder atrás de gráficos, terá de assumir a responsabilidade normativa.
A questão decisiva não é se devemos usar a razão para governar. É se estamos dispostos a aceitar que a razão não elimina a tragédia.
Enquanto a tecnocracia continuar a apresentar-se como engenharia social perfeita, cada falha futura — seja sanitária, climática ou económica — será interpretada como prova de falência sistémica.
A implicação é clara: o risco maior não está no erro técnico, mas na erosão cumulativa de confiança.
Os Governos que insistem em comunicar domínio absoluto podem, inadvertidamente, alimentar o próprio ceticismo que desejam conter.
Num tempo em que algoritmos prometem prever comportamentos e os modelos simulam sociedades inteiras, a tentação de controlo cresce. Mas a política continua a ser feita por humanos, para humanos, num mundo contingente.
A modernidade prometeu substituir o destino por gestão. A pandemia recordou que a gestão não substitui o destino — apenas o administra, provisoriamente.
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