O vidro, o ecrã, o segundo antes da morte
- Alberto Carvalho - Narrador

- há 6 dias
- 9 min de leitura
Há um instante — meio técnico, meio humano — em que a imagem ainda não decidiu o que é. Um dedo arrasta a linha do tempo num telemóvel. O som está desligado. A rua cabe dentro de um retângulo luminoso. Um reflexo no vidro duplica figuras. E, quando o vídeo é retomado, o mundo não entra: cai.
A bala não ganha ao vídeo.
Foi assim que uma morte se tornou pública em Minneapolis, num movimento que não deixou tempo para o país respirar nem para a história esperar por relatórios.
Primeiro, um registo filmado ao nível da rua, visto através de um vidro: agentes do ICE e da Border Patrol rodeiam um homem no chão; a tensão cresce; ouve-se um disparo; o corpo deixa de reagir. Alguém, perto de quem grava, reage com incredulidade — não como quem comenta política, mas como quem testemunha o impossível a tornar-se banal.
O homem chamava-se Alex Pretti, tinha 37 anos e trabalhava como enfermeiro de cuidados intensivos no sistema de saúde dos Veteranos (Veterans Administration Health System). Mas o nome demorou a chegar. A cena chegou primeiro. Chegou com a velocidade própria do horror filmado: uma coisa que não pede autorização para existir.
Desde o início, não foi apenas um caso de violência. Foi um caso de violência com prova imediata, e de prova imediata com múltiplas versões. Uma morte que, antes de ser notícia, já era um ficheiro partilhado; antes de ser investigada, já era discutida; antes de ser enquadrada, já era disputada.
Essa sequência é mais do que um detalhe. É a estrutura.
Quando a “testemunha” deixa de ser uma pessoa e passa a ser uma rede
Há uma mudança silenciosa na vida pública: a testemunha já não é apenas alguém que esteve lá e será chamado. A testemunha é também — cada vez mais — quem esteve lá e enviou.
O gesto de apontar uma câmara não é apenas registo; é um pedido de confirmação ao mundo. Um apelo curto: “vês isto também?”
No caso de Pretti, os vídeos multiplicaram-se por ângulos, e a multiplicação produziu um efeito estranho: aproximou milhões de pessoas de um local onde não estavam, como se a distância geográfica fosse irrelevante quando a prova é portátil.
O que antes era “ouvi dizer” passou a ser “vi”. E, quando muitos viram, começou outra coisa: a prova tornou-se um hábito coletivo.
Pessoas que não se conhecem alinham pormenores como se montassem uma reconstituição: a posição do corpo, a ordem dos gestos, a presença de coletes e botas, a direção de um empurrão, o instante em que uma arma aparece. Mesmo quando a linguagem é emocional, o padrão é quase forense. Não por virtude. Por necessidade. Porque a disputa já não é apenas sobre o que aconteceu; é sobre se nos deixam aceitar o que aconteceu.
Essa mudança — prova como hábito coletivo — tem duas consequências simultâneas:
reduz a margem para o apagamento puro;
aumenta a margem para um fenómeno mais sofisticado: a guerra pela interpretação.
Quando a prova é inegável, o conflito desloca-se. Já não se pergunta “aconteceu?” Pergunta-se “como devemos ler o que aconteceu?”
O segundo vídeo e a alteração do sentido
A circulação de um primeiro vídeo pode produzir indignação; a circulação de um segundo vídeo pode produzir algo mais perigoso para o poder: clareza.
Segundo descrições de gravações que circularam online, um dos ângulos adicionais mostrou um detalhe que muda a leitura do episódio: Pretti também estaria a filmar com o telemóvel.
No plano, surge uma mulher do outro lado da rua, com um casaco de cor viva, mais perto do confronto, também a gravar. Durante horas, pessoas procuraram “o outro ângulo” — como se a verdade, numa época de câmaras, fosse uma questão de encontrar o plano certo.
Nesse ângulo, segundo relatos associados à circulação do vídeo, um agente terá empurrado uma mulher ao chão. Pretti tenta ajudá-la a levantar-se. É atingido com spray pimenta. É arrastado para o centro do grupo de agentes. E, num ponto decisivo, um agente descobre a arma de Pretti — o porte aberto é permitido em Minnesota com licença, e o chefe da polícia de Minneapolis, Brian O’Hara, afirmou que Pretti teria licença — e essa arma é retirada e levada para fora do círculo.
Aqui a análise tem de ser prudente: os detalhes finais e as sequências exatas dependem do material disponível e do que venha a ser confirmado por investigação formal. Ainda assim, há uma linha que, segundo a descrição do vídeo, se impõe pela sua lógica visual: nos segundos anteriores ao primeiro disparo, Pretti segura o telefone, não uma arma.
E esse pormenor — caso seja confirmado pela justiça — é devastador por uma razão simples: retira ao Estado a explicação automática que procura oferecer quando a violência é filmada. Porque um homem a segurar um telemóvel é, por definição, um problema político.
Um telemóvel não ameaça um corpo. Ameaça uma versão.
A legenda oficial: como se mata duas vezes
Quando existe imagem crua, o poder tem duas opções. Ou assume. Ou reinterpreta.
No caso de Pretti, a linha escolhida por figuras do topo da cadeia federal foi a da reinterpretação agressiva.
Greg Bovino, chefe da Border Patrol, afirmou numa entrevista que Pretti queria “massacrar” as forças de segurança, elogiando a atuação dos agentes por o terem “neutralizado”.
Kristi Noem, secretária de Segurança Interna, declarou que Pretti teria reagido “violentamente” nos instantes anteriores à morte.
E J. D. Vance partilhou nas redes sociais uma imagem da arma de Pretti, associando-a a um apelo para que lideranças políticas do Minnesota colaborassem com o ICE, para evitar que “situações no terreno” saíssem do controlo.
Estas intervenções não discutem o vídeo. Tentam discutir o olhar.
É um movimento que funciona como uma espécie de crítica de arte perversa: pega-se numa sequência filmada, recorta-se um objeto, cola-se uma intenção, e pede-se ao público que aceite a intenção como chave final.
A arma fotografada fora do contexto torna-se explicação total. O “poderia ter” substitui o “foi”. A hipótese substitui a prova.
Há aqui uma técnica recorrente: transformar um episódio filmado num ensaio sobre intenção. Não se discute o gesto. Discute-se uma intenção atribuída (“queria massacrar”), impossível de verificar nos frames, mas útil para justificar o resultado. É uma forma de matar duas vezes: primeiro o corpo; depois a credibilidade da vítima.
E é também uma forma de medir o público. Porque a pergunta implícita é sempre a mesma: até onde aceitam uma narrativa que contraria o que os olhos viram?
A administração e as imagens: quando a fotografia é propaganda
Não é coincidência que a disputa se faça com imagens e por imagens. O mesmo aparelho político que defende operações duras do ICE tem mostrado apetência por transformar visualidade em instrumento de poder: imagens manipuladas, estética kitsch, propaganda de redes sociais, uma espécie de entretenimento do domínio.
Um exemplo recente descreve bem o mecanismo: a conta oficial da Casa Branca na rede X partilhou uma imagem distorcida de Nekima Levy Armstrong, uma mulher negra detida após protestar numa igreja em Minneapolis.
Na imagem partilhada, aparece a chorar de forma descontrolada. Noutras imagens do momento, ela surge com as mãos algemadas e expressão firme. A alteração não é subtil. É funcional: tenta produzir humilhação e vitória emocional para um público.
Este é o ponto central: o poder gosta de imagens quando controla a fabricação e a legenda.
Quando a imagem nasce de baixo — de um telemóvel, de um vidro, de um transeunte — torna-se ameaça. E, se não consegue desaparecer com ela, tenta recodificá-la.
A imagem crua não é só prova. É um limite ao cinismo.
Um Estado que disputa o que os olhos viram
Há uma frase que se repete em conversas privadas sempre que um vídeo destes circula: “não estou louco, pois não?”
É uma pergunta estranha, mas revela o núcleo do problema. Quando a política se torna uma máquina de negar o óbvio, o cidadão começa a duvidar do próprio senso comum. O vídeo, então, não é apenas prova de um ato. É prova de sanidade.
O que ameaça o poder não é o clip. É o consenso espontâneo que o clip produz. O consenso de que, sim, aconteceu. E de que, sim, foi aquilo que parece ter sido.
A partir daí, a disputa passa a ser sobre o controlo da história. Quem manda não quer apenas mandar em factos; quer mandar em como os factos entram na memória pública.
A linguagem “defensiva” da administração — a insistência em que a vítima era perigosa, a insistência em que a violência era necessária — é, no fundo, uma tentativa de construir uma segunda realidade, paralela, na qual o vídeo existe mas já não prova nada.
É aqui que o sistema revela o que é: um sistema sob pressão. Quando a legitimidade enfraquece, a força não se limita a agir; tenta justificar-se antes de ser julgada. Tenta antecipar o tribunal público e contaminá-lo.
A arma, o telemóvel e o deslocamento da culpa
Há outro detalhe — quase banal na América contemporânea — que se transforma em peça de engenharia narrativa: a arma legal.
Minnesota permite porte aberto com licença. Esse facto, em si, não determina o comportamento de um homem num confronto. Mas, usado como símbolo, torna-se uma alavanca perfeita: basta mostrar a arma para insinuar intenção homicida, mesmo que o vídeo descreva outra coisa.
O efeito é conhecido: o objeto substitui o contexto. O objeto substitui a sequência de gestos. O objeto substitui o instante em que alguém tenta levantar uma mulher do chão. O objeto substitui o telefone na mão.
O que se faz, com essa substituição, é uma operação moral: desloca-se a culpa para a vítima. A vítima não é alguém morto; é alguém morto que “podia ter sido” algo pior. A hipótese passa a ser argumento suficiente para absolver o ato real.
Quando um Estado aceita esse deslocamento como prática comunicacional, a regra deixa de ser “o que se prova” e passa a ser “o que se imagina”.
E um sistema governado por imaginação, quando tem armas e autoridade, é um sistema estruturalmente perigoso.
O que acontece quando a prova não pode entrar
O vídeo aproxima. Mas não entra onde o poder quer que não entre.
É aqui que nasce a pergunta mais inquietante, aquela que aparece sempre no fim destas histórias e que, ainda assim, continua a funcionar como choque: se isto acontece quando há câmaras, o que acontece onde não há?
Há lugares onde a prova não entra por definição: veículos de transporte, instalações fechadas, zonas de detenção, corredores administrativos, salas sem janelas, aviões, carrinhas, centros de retenção. Mesmo quando há processos e fiscalização, a experiência do cidadão comum não tem acesso direto ao que sucede nesses espaços. E, por isso, cada morte filmada em público não é apenas um caso isolado. É um aviso sobre a parte do sistema que permanece invisível.
O poder sabe disso. Por isso, a disputa pelo sentido do vídeo é tão feroz. Não é apenas para salvar a reputação de uma operação. É para evitar que a pergunta se espalhe como praga lógica.
O mecanismo que se repete: violência, prova, reinterpretação
Há uma cadência moderna no modo como estes casos se desenrolam:
acontece um ato de força;
surge prova por telemóvel;
a prova circula rápido;
surge uma narrativa oficial que tenta reprogramar o olhar;
o público divide-se entre quem aceita o que viu e quem aceita o que lhe disseram que viu;
o episódio passa a ser usado como peça política.
No caso de Pretti, essa cadência parece ter sido acelerada por uma circunstância particular: a abundância de ângulos. Quando a prova é múltipla, torna-se mais difícil negar. E, quando é difícil negar, torna-se mais urgente reinterpretar.
É por isso que as declarações de Bovino e Noem, e a partilha de Vance, não são apenas reações. São instrumentos. Funcionam como manual de leitura para quem quer continuar a acreditar na autoridade sem desconforto.
A pergunta decisiva não é “quem tem razão?” A pergunta decisiva, numa democracia, é outra: quem tem o direito de impor a leitura final de uma morte filmada?
O risco institucional: quando o Estado testa os limites do consenso
Um sistema político forte não precisa de esmagar a evidência. Um sistema confiante não precisa de chamar “violento” a quem, nas imagens, está desarmado e a segurar um telefone. Um sistema legítimo não precisa de governar por sugestão de massacre para justificar um disparo.
Quando se assiste ao contrário, não se está apenas perante brutalidade. Está-se perante uma forma de governar que testa limites: testa quanto se pode distorcer sem quebrar o consenso; testa quanto se pode mentir sem pagar o preço; testa quantas vezes se pode fazer isto até o público se habituar.
E habituar é a palavra mais perigosa.
Um país pode sobreviver a uma crise. Mas um país que se habitua à distorção pode perder a capacidade de se reconhecer.
É por isso que as câmaras importam. Não porque resolvem tudo. Mas porque interrompem o processo de habituação. Criam fricção. Forçam o olhar a insistir.
Fecho: a prova como último território
No fim, o tema não é Minneapolis. Nem é apenas ICE. Nem é uma discussão abstrata sobre redes sociais. O tema é mais concreto: o território da prova.
Durante muito tempo, a prova pertenceu a instituições: tribunais, polícias, imprensa, arquivos.
Hoje, parte dela pertence ao bolso de qualquer pessoa. Isso não garante justiça. Mas impede, em certos instantes, a mentira total.
Um telemóvel não derruba um Estado. Mas pode impedir um Estado de dizer que nada aconteceu.
E isso, num sistema sob pressão, é suficiente para desencadear o reflexo mais antigo do poder: tentar governar não apenas os factos, mas a forma como os factos serão lembrados.
A prova é o último território. É por isso que a disputa é tão violenta.
NOTA PESSOAL:
Há mortes que não cabem na notícia. Ficam a doer noutro sítio — no lugar onde a vida era útil, discreta, necessária. Alex Pretti era enfermeiro. Há qualquer coisa de insuportável nisso: alguém que passou dias a segurar outros à beira do fim, e que acaba reduzido a segundos de vídeo, a um debate, a um pretexto.
Não escrevo estas linhas para acrescentar moral à tragédia. Escrevo para deixar um nome inteiro no fim, quando tudo o resto tenta partir um homem em versões.
Que a memória dele não seja apenas a prova. Que seja luto. E que o luto — ao menos o nosso — não se deixe administrar.
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