Irão - O cenário perfeito foi perfeito uma vez. Desta não.
- Helena Vale
- há 6 horas
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Em março de 2026, Donald Trump disse ao New York Times que o que os Estados Unidos tinham feito na Venezuela era "o cenário perfeito". Capturaram Nicolás Maduro numa operação noturna de forças especiais, negociaram com Delcy Rodríguez a continuidade de um governo funcional, garantiram acesso às reservas de petróleo e declararam vitória. Na sua cabeça, o método parecia limpo: remove-se o chefe, fala-se com quem fica, conserva-se o aparelho mínimo do Estado e controla-se o recurso que interessa.
Meses depois, Trump tentou transportar essa fórmula para o Irão.
O problema é que o Irão não é a Venezuela.
Trump removeu o líder iraniano com o manual de Caracas. Mas o Irão não tem Delcy Rodríguez, não tem petróleo controlável e não tem regime sem alternativa — tem Ormuz

A Venezuela de Maduro era um Estado concentrado à volta de uma figura. Hugo Chávez tinha feito do culto político uma arquitetura de poder, e Maduro herdara essa forma de governo como quem herda uma casa já construída: os símbolos, os aparelhos de lealdade, o partido, os militares, a dependência quase absoluta do petróleo. Havia, claro, fações, interesses e medos. Mas o regime estava organizado à volta de uma centralidade visível. Quando essa centralidade foi retirada, o que ficou procurou sobreviver.
Delcy Rodríguez tinha poder suficiente para negociar porque o regime precisava de alguém que negociasse. Não era uma chefe alternativa com base autónoma, nem uma comandante de uma estrutura militar capaz de redesenhar o Estado à sua imagem. Tinha margem porque o acordo lhe oferecia uma continuação possível. Sem acordo, a sobrevivência do aparelho era muito mais duvidosa.
Trump olhou para esse caso e viu uma regra. Talvez tenha sido esse o erro inicial. O que acontecera na Venezuela não era uma receita diplomática universal — era uma coincidência rara de circunstâncias favoráveis: uma liderança removível, um recurso físico fácil de identificar, uma sucessora com incentivo para cooperar e um regime sem grandes alternativas externas. Tudo isso existia em Caracas. Quase nada disso existia em Teerão.
O poder iraniano nunca dependeu de um só homem da forma como o poder venezuelano dependia de Maduro. Khamenei era indispensável, mas não era apenas um chefe sentado no vértice de uma pirâmide obediente. Era árbitro. A sua autoridade vinha da capacidade de equilibrar os Guardiães da Revolução, o clero, o parlamento, os serviços de informações, os tribunais e as várias famílias ideológicas da República Islâmica. Mantinha o sistema unido não por eliminar todas as tensões, mas por as administrar.
Quando os ataques americanos e israelitas mataram Khamenei e atingiram a liderança política iraniana, não apareceu uma Delcy Rodríguez persa, pronta a assinar a continuidade do regime em troca de um acordo. O que avançou para ocupar o espaço foi a estrutura mais armada, mais disciplinada e menos inclinada a concessões: os Guardiães da Revolução.
Mohammad Bagher Ghalibaf, em Islamabade, não era uma figura solta à procura de margem. Era o rosto diplomático possível de uma linha definida por outros. Chegou às negociações com os limites traçados por Mohammad Bagher Zolghadr e Ahmad Vahidi — homens cuja autoridade não dependia da simpatia ocidental nem da necessidade de agradar a Washington. Vance terá saído das conversações convencido de que Ghalibaf queria um acordo. Talvez quisesse. Mas querer um acordo não é o mesmo que poder fazê-lo. Danny Citrinowicz, antigo oficial de informações israelita, resumiu melhor o problema: Ghalibaf não estava habilitado nem inclinado a ceder nas questões nucleares estratégicas.
Na Venezuela, o recurso estava nos campos petrolíferos, nos oleodutos, nas refinarias. Podia ser supervisionado, condicionado, auditado, integrado num arranjo de transição. Era matéria física, infraestrutura, produção. O petróleo venezuelano precisava de um Estado funcional para continuar a sair.
No Irão, o recurso decisivo não é apenas petróleo. É Ormuz.
E Ormuz não se gere como uma refinaria. Não se coloca simplesmente sob supervisão técnica, nem se transforma num ativo controlável por uma equipa de transição. O Estreito abre ou fecha porque Teerão decide abri-lo ou fechá-lo. Enquanto o Irão conseguir sustentar essa decisão, a alavancagem está do lado iraniano. Não apenas sobre o Golfo, mas sobre o preço mundial da energia, sobre os aliados dos Estados Unidos, sobre a Rússia, sobre a Europa, sobre a própria economia americana.
A Venezuela tinha petróleo. O Irão tem uma passagem por onde o mundo precisa de continuar a passar.
Portugal conhece, por experiência histórica, a diferença entre possuir força e compreender o terreno onde ela se aplica. Durante treze anos, o Estado Novo insistiu em África num modelo que já não correspondia ao mundo real: administração, tropa, polícia e tempo. Partiu do princípio de que os movimentos independentistas eram perturbações locais, sem legitimidade própria nem capacidade de desgaste. Não eram. Angola, Moçambique e Guiné-Bissau tinham dinâmicas próprias, aliados, populações mobilizadas e geografias difíceis. O regime não corrigiu o erro quando percebeu que o modelo falhava. Reforçou-o. No fim, o colapso veio de dentro do próprio exército, já incapaz de acreditar na saída que lhe mandavam defender.
Trump não está a repetir a guerra colonial portuguesa. Mas está a repetir uma tentação antiga do poder: acreditar que um método bem-sucedido num lugar passa a servir em todos os lugares. Quando a realidade resiste, não se interroga o método. Aumenta-se a pressão.
No caso iraniano, essa pressão produz efeitos que o modelo venezuelano nunca teve de considerar. O Irão tem Rússia. Tem China. Tem redes regionais. Tem uma memória política construída em torno da resistência a pressões externas. Tem a experiência da guerra contra o Iraque, quando sobreviveu a oito anos de conflito contra um inimigo apoiado por grande parte do Ocidente. E tem, acima de tudo, a convicção de que ceder sob humilhação é mais perigoso para o regime do que prolongar a crise.
A pressão americana também não fica confinada ao Irão. Ao tentar aliviar o choque energético provocado pelo fecho de Ormuz, Washington emitiu isenções temporárias às sanções sobre o petróleo russo. O resultado foi imediato: as receitas petrolíferas de Moscovo subiram de 9,7 mil milhões de dólares em fevereiro para 19 mil milhões em março. A guerra que pretendia forçar Teerão a recuar acabou, por essa via, a dar oxigénio financeiro à Rússia.
Na Venezuela não havia uma potência rival a beneficiar diretamente da pressão exercida sobre o regime. Não havia um estreito capaz de perturbar a economia mundial. Não havia um sistema político em que a remoção do líder fortalecesse precisamente a fação mais dura.
Trump escreveu no Truth Social que o regime iraniano já tinha mudado, porque os antigos dirigentes estavam mortos e os novos eram "menos radicais" e "muito mais razoáveis". A frase é quase uma confissão involuntária do erro. Ahmad Vahidi, agora à frente dos Guardiães, tem desde 1994 um mandado de captura internacional ligado ao atentado contra a AMIA, em Buenos Aires. Zolghadr foi sancionado pela ONU pelo papel no programa de mísseis iraniano e pelo Reino Unido por atividade nuclear. Estes não são tecnocratas de transição à procura de um acordo que lhes garanta sobrevivência. São homens formados na lógica mais dura da segurança revolucionária iraniana.
O modelo exigia alguém semelhante a Delcy Rodríguez. A realidade entregou Vahidi e Zolghadr.
É possível que haja ainda um acordo. Quase sempre há, quando o custo da continuação se torna insuportável. Mas, se houver, não nascerá da fantasia de que o Irão se comportará como a Venezuela. Nascerá do reconhecimento tardio de que Teerão só assina algo que possa apresentar como resistência bem-sucedida, não como submissão. E nascerá, sobretudo, quando Washington perceber que a utilidade de uma vitória depende menos da encenação da derrota do adversário do que da capacidade de terminar a crise sem tornar a próxima inevitável.
O "cenário perfeito" foi perfeito uma vez, num lugar concreto, com condições que não se repetiram. Transformá-lo em doutrina não foi génio estratégico. Foi preguiça de olhar para o mapa.
E o mapa, desta vez, não passava por Caracas. Passava por Teerão, por Ormuz, por Moscovo, por Pequim, por Riade, por Islamabade — e por todos os lugares onde uma decisão tomada com demasiada confiança acaba por cobrar o preço daquilo que não quis compreender.
Fontes: reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026; entrevista de Ali Vaez ao The New Yorker, abril de 2026.
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