A Conta do Petróleo
- Alberto Carvalho - Narrador

- há 6 dias
- 5 min de leitura
Há frases que, por si só, revelam um modelo de poder. Não precisam de decreto, nem de papel timbrado. Basta a forma como alguém escolhe o pronome.
O petróleo como cofre e a confusão entre o Estado e o Presidente.
Quando um Presidente americano escreve que o dinheiro “será controlado por mim”, não está apenas a prometer eficácia. Está a deslocar o centro de gravidade do Estado para a sua pessoa. Está a sugerir — mesmo que não o diga assim — que a soberania pode ter conta bancária com assinatura única.
E quando essa frase aparece ligada ao petróleo de um país estrangeiro, a questão deixa de ser apenas geopolítica. Passa a ser também moral. E, num regime constitucional, passa a ser inevitavelmente institucional.
Nos últimos dias, a Venezuela voltou ao centro do mapa americano por uma via que, à primeira vista, parece “dura”: uma operação que retira do tabuleiro a figura máxima do regime e, logo a seguir, a exibição musculada de que as sanções “valem” no mar — com apreensões, bandeiras, navios e fotografias de prova.
Mas, quase ao mesmo tempo, a mesma administração anuncia outra coisa: a intenção de vender petróleo venezuelano e administrar o produto dessa venda sob controlo presidencial. Não é apenas uma contradição. É um sinal de que há duas narrativas a correr em paralelo — e que uma delas é mais antiga, mais instintiva e mais perigosa: a narrativa do petróleo como espólio.
A sanção, na sua forma clássica, serve para criar escassez e produzir pressão. Um embargo quer apertar. Quer fazer doer. Quer reduzir a margem de sobrevivência de um regime que depende do fluxo de receita.
O problema é que, quando se abre uma “válvula” — quando se transforma crude retido em receita desbloqueada — a pressão muda de natureza. Pode manter-se, pode até ficar mais sofisticada, mas deixa de ser linear. Passa a ser condicional. E, em política internacional, a condicional é sempre tentadora: “se fizerem isto, deixamos vender; se fizerem aquilo, deixamos importar; se cooperarem, a máquina não colapsa”.
Isto pode parecer racional. Pode até ser apresentado como “pragmatismo”.
Só que há um custo invisível: ao transformar o petróleo no mecanismo central de negociação, o objetivo político tende a afunilar-se. Em vez de democracia, instituições, transição e garantias, fica a pergunta curta: “quanto crude entra e quem controla a torneira?”.
E é aqui que entra o lado mais corrosivo da frase do “controlado por mim”. Porque a questão do controlo não é apenas venezuelana. É americana.
Uma coisa é um Estado gerir fundos, com regras, auditorias, escrutínio e limites claros.
Outra coisa — e politicamente muito diferente — é um Presidente apresentar esses fundos como se fossem extensão do seu poder direto, com a elasticidade própria de uma decisão pessoal. Mesmo que haja mecanismos formais no bastidor, a mensagem pública é esta: a política externa pode ter cofre privado.
Essa mensagem funciona sempre em duas direções. Para dentro, vende autoridade: “eu resolvo”. Para fora, envia uma instrução tácita aos regimes e aos intermediários: “não negociem com instituições; procurem o homem”.
Ora, o petróleo é um terreno especialmente fértil para esse vício porque tem a linguagem perfeita para a ilusão de controlo. Barris. Preço. Navios. “Vender ao valor de mercado”. Tudo parece contabilidade. Tudo parece técnico. Mas, no fundo, trata-se de soberania e de legitimidade — e isso nunca é apenas técnico.
Depois há a parte que a política costuma fingir que não existe: o tempo.
A indústria petrolífera não vive em ciclos eleitorais. Vive em ciclos de investimento que atravessam governos e, por vezes, atravessam regimes. Um campo não se reabilita com conferência de imprensa. Infraestruturas não se “reabrem” com entusiasmo. Poços degradados, refinarias envelhecidas, cadeias logísticas corroídas por anos de sanções e má gestão — tudo isso exige capital paciente, contratos fiáveis, segurança jurídica, e uma expectativa mínima de continuidade.
É por isso que a ideia de “trazer empresas americanas de volta” pode soar bem em Washington e soar irrealista no mundo empresarial. Não porque falte apetite por petróleo. Mas porque falta o que o petróleo, por si só, não compra: previsibilidade.
E quando a previsibilidade não existe, o capital escolhe outras geografias. Não por ideologia, mas por instinto de sobrevivência. Há sempre alternativas: bacias mais estáveis, jurisdições mais previsíveis, projetos menos expostos a reviravoltas políticas.
A Venezuela pode ter reservas imensas; isso não resolve, por magia, o problema que conta mais para quem assina cheques: “daqui a quinze anos, isto ainda é meu?”.
Este ponto é decisivo, porque desmonta uma fantasia recorrente na política de choque: a fantasia de que basta “mandar” para que o investimento aconteça. Pode coagir-se uma empresa a fazer um movimento tático; é muito mais difícil forçá-la a acreditar numa estratégia de décadas.
E depois há o risco final, o mais irónico: a pressão que se pretende exercer sobre Caracas pode acabar por salvar o sistema que se diz querer transformar.
Quando há crude acumulado e capacidade de armazenamento no limite, o regime não enfrenta apenas uma crise financeira; enfrenta uma crise operacional. A máquina para. A manutenção falha. A produção degrada-se. A receita evapora-se, e com ela evapora-se a capacidade de comprar lealdades e manter a estrutura em pé.
Se, nesse momento, surge uma solução que esvazia a pressão — mesmo temporariamente —, o regime ganha oxigénio. Talvez não ganhe legitimidade, mas ganha tempo. E tempo, em política autoritária, é muitas vezes a moeda mais valiosa.
É por isso que o critério de sucesso não pode ser “quantos barris circulam”. Barris medem fluxo. Não medem futuro.
A medida séria — a única que resiste ao tempo — é outra: a Venezuela emerge, ou não, como um país com instituições minimamente funcionais, regras minimamente críveis, e uma arquitetura política que não dependa de um homem, de um medo e de uma renda.
Se a resposta for não, então o petróleo terá servido apenas para uma coisa: para financiar uma transição inconclusa e alimentar a perceção externa de que, no fim, era sempre sobre petróleo.
E essa perceção tem consequências. Porque o mundo observa. E quando o mundo aprende que a forma de obter “apoio” americano é oferecer ativos — sobretudo ativos energéticos —, os Estados mais cínicos ajustam o comportamento. Não se aproximam por convergência. Aproximam-se por transação.
É aqui que a frase inicial volta, como boomerang institucional.
“Controlado por mim” não é apenas bravata. É um estilo de governação que, quando aplicado à política externa, transforma o interesse nacional numa propriedade temporária — e, ao fazê-lo, fragiliza exatamente aquilo que os Estados Unidos dizem querer exportar: a ideia de que o poder tem limites e de que a lei é superior ao homem.
O petróleo pode comprar muitas coisas. Pode comprar tempo. Pode comprar alianças táticas. Pode comprar silêncio. Às vezes compra até uma aparência de vitória.
O que não compra — nunca comprou — é legitimidade duradoura.
E, no fim, é isso que decide se uma intervenção cria um aliado ou apenas fabrica um devedor: não o barril, mas a regra. Não a captura do recurso, mas a construção do Estado. Não a conta do petróleo, mas a arquitetura do país que há de viver depois da urgência.
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