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Guerra do Irão: 32 milhões sem voz em Islamabade

O nitrato de amónia viaja por navio. A maior parte do que chega aos campos agrícolas do Sul da Ásia, da África Subsaariana e do Corno de África passa pelo Oceano Índico, pelo Golfo de Omã, por corredores marítimos que dependem da estabilidade do Estreito de Ormuz para funcionar com a regularidade que a agricultura industrial exige.


Qual o impacto da guerra do Irão nos países mais pobres?


Quando o Estreito fecha — ou quando o seguro marítimo sobe ao ponto de tornar a viagem economicamente inviável — o fertilizante ou não chega ou chega tarde. Uma estação agrícola perdida não se recupera na estação seguinte. Recupera-se, quando se recupera, ao longo de anos.


O fertilizante não chega. As negociações continuam.


A guerra do Irão fechou o Estreito em fevereiro de 2026. As negociações entre Washington e Teerão continuam. Os analistas discutem centrifugadoras, interceptores Patriot, calendários políticos americanos e a intransigência dos Guardiões. O nitrato de amónia está a não chegar.


Imagem conceptual para “Guerra do Irão: 32 milhões sem voz em Islamabade”, representando o impacto silencioso do bloqueio de Ormuz sobre a agricultura e a segurança alimentar no Sul Global.
A guerra do Irão ameaça transformar uma crise energética e diplomática numa crise alimentar silenciosa, empurrando milhões de pessoas para a pobreza sem que tenham voz nas negociações de Islamabade.

Alexander De Croo, secretário-geral adjunto das Nações Unidas que dirige o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, formulou o mecanismo com uma precisão que os mercados financeiros raramente conseguem: "A guerra é o desenvolvimento ao contrário. O que se constrói em décadas destrói-se em sete semanas de guerra." O PNUD estima que o aumento dos preços da energia, a disrupção dos sistemas alimentares e a desaceleração económica desencadeados pela guerra poderão empurrar até trinta e dois milhões de pessoas para a pobreza.


Trinta e dois milhões é um número que não cabe numa manchete sobre o Estreito de Ormuz. Não tem rosto, não tem capital, não tem delegação em Islamabade. Tem campos. Tem estações de sementeira. Tem crianças que vão comer menos proteína durante os próximos dois anos porque o preço do fertilizante subiu num mês mais do que subiu em toda a década anterior.


A guerra da Ucrânia fornece o precedente mais próximo. Quando a Rússia invadiu em 2022, os preços do trigo e dos fertilizantes dispararam. A Somália, que importava grande parte do seu trigo da Ucrânia, enfrentou uma crise alimentar que os números do PNUD já classificavam como catástrofe. A resposta internacional foi a Iniciativa dos Cereais do Mar Negro — um corredor humanitário negociado pela ONU que permitiu às exportações ucranianas continuar a fluir durante meses. De Croo disse-o de forma direta: "Encontrámos facilmente uma solução para fazer sair o grão da Ucrânia."


O problema da guerra do Irão é diferente em estrutura. Não é o grão que falta — são os ingredientes para produzir o grão.


O fertilizante, o combustível para os tratores, o querosene para os aviões que transportam medicamentos e equipamento agrícola. Coisas que não têm um corredor humanitário possível enquanto o Estreito estiver fechado, porque o Estreito não é uma exceção à rota — é a rota. A solução não depende de nenhum acordo entre a ONU e dois países beligerantes. Depende do fim de uma guerra que nenhuma das partes parece próxima de querer terminar nos termos que a outra aceita.


Portugal tem uma relação com esta geometria que não é abstrata. Durante cinco séculos, foi um dos atores que decidiu as rotas marítimas do mundo — quem passava, a que preço, em que condições. O que esse período deixou não foi apenas monumentos e língua. Deixou a memória, nos países que essas rotas atravessavam, de que o controlo das vias de comércio é sempre exercido por alguém e raramente por quem mais depende delas.


A disrupção do Estreito de Ormuz em 2026 tem uma lógica que Lisboa devia reconhecer: são os países mais distantes da negociação, mais dependentes do corredor, mais incapazes de influenciar o seu desfecho, os que pagam o preço mais alto e mais duradouro.


A Somália não tem assento em nenhuma das mesas onde o futuro do Estreito está a ser discutido. O Bangladesh também não. O Sahel também não. Pagam em preços de fertilizante, em estações agrícolas comprometidas, em crianças com menos proteína disponível, numa proporção que nenhum dos atores com assento nessas mesas vai ser obrigado a contabilizar quando o acordo for assinado.


A guerra do Irão é apresentada nos seus próprios termos como um conflito sobre nuclearização, sobre o Estreito, sobre a hegemonia regional americana e a sobrevivência do regime dos Guardiões. Esses termos são reais. Contudo, a cobertura que os segue produz uma narrativa com um ângulo de visão específico — o ângulo de Washington, de Teerão, de Riade, de Bruxelas. O ângulo das capitais com capacidade de agir sobre o conflito.


As perturbações de combustível que desencadearam violência, paragens de trabalho e especulação em partes da Ásia e de África não chegam às primeiras páginas dos jornais que cobrem as negociações de Islamabade. Não há nada de conspirativo nisto. É a lógica normal da atenção mediática: a crise que acontece onde há correspondentes e câmaras é a crise que existe. A crise que acontece onde não há é uma estatística do PNUD.

Trinta e dois milhões de pessoas é uma estatística do PNUD.


Fatih Birol, diretor da Agência Internacional de Energia, descreveu o impacto da guerra como "a maior ameaça à segurança energética global da história". A formulação é correta e é também enganadora — porque "segurança energética global" é uma categoria que pesa de forma diferente consoante o ponto de observação.


Para a Europa, significa preços do combustível e inflação. Para os Estados Unidos, significa pressão política e problemas de logística para o Campeonato do Mundo. Para o Sul Global, significa estações agrícolas perdidas e o tipo de fome que não tem fotografia porque acontece devagar, ao longo de meses, em lugares onde ninguém está a filmar.


De Croo acrescentou que o peso dos choques económicos "cai mais pesado sobre os que menos conseguem absorvê-lo". É um mecanismo tão antigo quanto o comércio internacional: as perturbações nas grandes rotas sempre custam mais aos atores mais pequenos, mais periféricos, mais dependentes. O que muda é a escala.


A negociação vai continuar. O Estreito vai reabrir, numa versão ou noutra, com um consórcio ou sem ele, com supervisão americana ou com outra arquitetura. Os mercados vão estabilizar. Os analistas vão escrever sobre o que cada lado ganhou e perdeu.


O que não vai aparecer nessa contabilidade é o custo da estação agrícola que o Bangladesh perdeu em março de 2026 porque o fertilizante não chegou a tempo. Nem o da Somália. Nem o do Sahel. Esse custo não tem linha nos acordos que forem assinados. Não tem cláusula de compensação. Não tem nome nos tratados.


Tem trinta e dois milhões de pessoas. E a memória, nessas regiões, de que as guerras das grandes potências sempre terminam com um acordo entre as grandes potências — e com a conta a pagar por quem não estava na sala.


Fontes: reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026; dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, abril de 2026.





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