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O Helicoide: do sonho moderno ao inferno político

A queda de Nicolás Maduro voltou a abrir uma porta que muitos venezuelanos tentaram empurrar durante anos: a porta das prisões políticas e, sobretudo, a porta do silêncio à volta delas.


Ilustração a grafite do Helicoide: estrutura em espiral com vários níveis e uma grande cúpula, com árvore em primeiro plano.
Ilustração a lápis do Helicoide, em Caracas: um edifício em espiral, coroado por uma cúpula geodésica, representado com sombreado e linhas de grafite, com vegetação em primeiro plano e montanha sugerida ao fundo.

O edifício que prometia futuro e acabou como máquina de medo


Nos dias seguintes à captura do homem que durante mais de uma década personificou o regime, começaram libertações pontuais — poucas, muito poucas, cautelosas, quase tímidas — como se o poder remanescente estivesse a medir, passo a passo, até onde pode ceder sem perder o chão.


E com essas libertações regressou ao centro da conversa um nome que, em Caracas, não precisa de explicação: o Helicoide.


O Helicoide é um daqueles lugares que contam uma história inteira num só edifício.


Concebido como ambição modernista, com a promessa de uma cidade a subir em espiral para dentro do consumo e da novidade, tornou-se, com o passar das décadas, uma estrutura associada aos serviços de segurança do Estado — e à detenção de opositores, ativistas, militares dissidentes, sindicalistas, jornalistas, gente sem perfil épico mas com a coragem suficiente para dizer “não”.


O que faz deste lugar um símbolo não é apenas a arquitetura estranha ou a presença física no mapa de Caracas. É a transformação moral: onde devia haver circulação, passou a haver contenção; onde devia haver luz de montras, passou a haver corredores de vigilância; onde devia haver uma ideia de prosperidade, passou a haver uma ideia de medo administrado.


As libertações recentes — ainda em número muito reduzido face ao total de detidos políticos referido por organizações de direitos humanos — estão a ser apresentadas como sinal de apaziguamento e de “normalização” num país que tenta encontrar uma nova forma de respirar.


Mas a palavra “normalização” tem aqui um problema: normal seria nunca ter sido necessário um lugar como o Helicoide para manter um regime de pé.


Há também uma segunda camada, mais incómoda, que acompanha quase sempre estes momentos: a tentação de transformar libertações em moeda diplomática.


Quando um poder enfraquecido tenta agradar a atores externos, a liberdade de pessoas concretas corre o risco de passar a ser tratada como ficha de negociação.


Uma saída hoje para comprar margem amanhã. Um gesto controlado para evitar uma rutura descontrolada.


E é por isso que a conversa sobre o Helicoide não é apenas venezuelana.


É universal, e serve de aviso.


A degradação institucional raramente começa com a palavra “tortura”. Começa com pequenas permissões: uma detenção “provisória” que não termina, um processo que se arrasta, uma acusação vaga que justifica tudo, um tribunal que perde autonomia, uma polícia que aprende que pode humilhar.


A partir daí, os edifícios adaptam-se. O medo instala-se. E o país entra naquele estado cinzento em que o cidadão passa a medir cada frase.


O futuro imediato da Venezuela continua em aberto — e é prudente manter essa frase sem romantismo.


A queda de um homem não garante a mudança de um sistema.


Um regime pode perder o rosto e manter os hábitos. Pode trocar de discurso e conservar a mesma engrenagem.


Por isso, a questão central não é apenas quantas pessoas saem esta semana, ou que nomes aparecem em listas parciais.


A questão é outra e é mais dura: o Estado venezuelano será capaz de voltar a existir sem precisar de um lugar destes como instrumento de governação?


Porque um edifício pode ser reocupado, limpo, rebatizado. O que é mais difícil é desocupar o medo.


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3 comentários

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há 2 dias

Sim, a certeza na incerteza!!!!

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há 4 dias
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Li-o de uma ponta à outra com a sensação rara de estar diante de uma escrita que não quer dar opinião, mas pôr ordem no que sentimos e não conseguimos dizer. Há ali uma lucidez serena e uma coragem discreta que ficam a ecoar depois de fechar a página.

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Alberto Carvalho
Alberto Carvalho
há 3 dias
Respondendo a

Li o seu comentário com muita atenção. Tocou num ponto que, para mim, é essencial: escrever não para impor uma opinião, mas para tentar dar forma ao que já anda confuso dentro de nós. Se o texto ajudou a pôr alguma ordem nesse território mais difícil de nomear, então cumpriu o seu papel. Obrigado por essa leitura completa e generosa. São comentários assim que fazem o texto continuar depois de fechado. Obrigado!

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