O Helicoide: do sonho moderno ao inferno político
- A Equipa Atlantic Lisbon

- há 4 dias
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A queda de Nicolás Maduro voltou a abrir uma porta que muitos venezuelanos tentaram empurrar durante anos: a porta das prisões políticas e, sobretudo, a porta do silêncio à volta delas.
O edifício que prometia futuro e acabou como máquina de medo
Nos dias seguintes à captura do homem que durante mais de uma década personificou o regime, começaram libertações pontuais — poucas, muito poucas, cautelosas, quase tímidas — como se o poder remanescente estivesse a medir, passo a passo, até onde pode ceder sem perder o chão.
E com essas libertações regressou ao centro da conversa um nome que, em Caracas, não precisa de explicação: o Helicoide.
O Helicoide é um daqueles lugares que contam uma história inteira num só edifício.
Concebido como ambição modernista, com a promessa de uma cidade a subir em espiral para dentro do consumo e da novidade, tornou-se, com o passar das décadas, uma estrutura associada aos serviços de segurança do Estado — e à detenção de opositores, ativistas, militares dissidentes, sindicalistas, jornalistas, gente sem perfil épico mas com a coragem suficiente para dizer “não”.
O que faz deste lugar um símbolo não é apenas a arquitetura estranha ou a presença física no mapa de Caracas. É a transformação moral: onde devia haver circulação, passou a haver contenção; onde devia haver luz de montras, passou a haver corredores de vigilância; onde devia haver uma ideia de prosperidade, passou a haver uma ideia de medo administrado.
As libertações recentes — ainda em número muito reduzido face ao total de detidos políticos referido por organizações de direitos humanos — estão a ser apresentadas como sinal de apaziguamento e de “normalização” num país que tenta encontrar uma nova forma de respirar.
Mas a palavra “normalização” tem aqui um problema: normal seria nunca ter sido necessário um lugar como o Helicoide para manter um regime de pé.
Há também uma segunda camada, mais incómoda, que acompanha quase sempre estes momentos: a tentação de transformar libertações em moeda diplomática.
Quando um poder enfraquecido tenta agradar a atores externos, a liberdade de pessoas concretas corre o risco de passar a ser tratada como ficha de negociação.
Uma saída hoje para comprar margem amanhã. Um gesto controlado para evitar uma rutura descontrolada.
E é por isso que a conversa sobre o Helicoide não é apenas venezuelana.
É universal, e serve de aviso.
A degradação institucional raramente começa com a palavra “tortura”. Começa com pequenas permissões: uma detenção “provisória” que não termina, um processo que se arrasta, uma acusação vaga que justifica tudo, um tribunal que perde autonomia, uma polícia que aprende que pode humilhar.
A partir daí, os edifícios adaptam-se. O medo instala-se. E o país entra naquele estado cinzento em que o cidadão passa a medir cada frase.
O futuro imediato da Venezuela continua em aberto — e é prudente manter essa frase sem romantismo.
A queda de um homem não garante a mudança de um sistema.
Um regime pode perder o rosto e manter os hábitos. Pode trocar de discurso e conservar a mesma engrenagem.
Por isso, a questão central não é apenas quantas pessoas saem esta semana, ou que nomes aparecem em listas parciais.
A questão é outra e é mais dura: o Estado venezuelano será capaz de voltar a existir sem precisar de um lugar destes como instrumento de governação?
Porque um edifício pode ser reocupado, limpo, rebatizado. O que é mais difícil é desocupar o medo.
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Sim, a certeza na incerteza!!!!
Li-o de uma ponta à outra com a sensação rara de estar diante de uma escrita que não quer dar opinião, mas pôr ordem no que sentimos e não conseguimos dizer. Há ali uma lucidez serena e uma coragem discreta que ficam a ecoar depois de fechar a página.