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Vidro Fumado

Havia um homem na praça — um homem comum, desses que não entram em fotografias oficiais — a vender laranjas num caixote azul, com as mãos manchadas de terra e o casaco fechado até ao queixo, porque o frio não pede licença.


A política moderna já não governa: transmite. E, quando tudo é transmissão, a verdade torna-se um intervalo.


Eu parei por hábito, não por fome. E foi ali, no tom neutro de quem fala do tempo, que ele disse a frase que me ficou: “Hoje em dia eles passam mais tempo a aparecer do que a fazer.”


Disse “eles”, como se dissesse “o vento”, ou “a chuva”. Um pronome que serve para tudo o que está longe e, ao mesmo tempo, manda.


Paguei as laranjas e fiquei a olhar para a praça como se ela fosse um palco antigo. Um palco sem cortina. Um palco onde a vida tem sempre figurantes, mas raramente tem protagonistas. E pensei no que fazemos, nós, quando pedimos a um governante que esteja sempre presente. Não presente no sentido antigo — o de estar ao lado, de escutar, de conhecer nomes e cheiros. Presente no sentido novo: visível. Repetível. Partilhável. Exportável em vídeo de quinze segundos.


Há um tipo de pobreza que não se mede por salário. Mede-se pelo que uma pessoa já não consegue exigir.


Exigir a um político que trabalhe é demasiado vago. Exigir que apareça é simples. E talvez por isso tenhamos chegado aqui: a política tornou-se uma indústria de prova visual. Uma oficina de demonstrações. “Estou aqui.” “Estou a ouvir.” “Estou a agir.” “Estou com vocês.” Tudo isso dito, redito, embalado, publicado, como se governar fosse um conjunto de sinais luminosos numa auto-estrada.


Quem vive dentro da máquina sabe o que isto custa. E, por vezes, sabe-o com vergonha.


Conheci, há anos, um assessor de um ministério — um homem inteligente, nada cínico, apenas cansado — que me disse isto como quem confessa uma doença: “Nós já não escrevemos para decidir. Escrevemos para justificar decisões que ainda não existem.”


Ri-me, porque achei exagero. Ele não riu. E explicou: a decisão, muitas vezes, nasce do calendário mediático.


Primeiro define-se o momento. Depois inventa-se a necessidade. Depois constrói-se o texto que dá a esse momento uma aparência de inevitabilidade. A política, assim, deixa de ser governo e passa a ser coreografia.


É aqui que o vidro fumado entra.


O vidro fumado é mais do que um objeto. É uma ética. Um modo de habitar o mundo sem ser tocado por ele.


As pessoas passam, os rostos existem, mas ficam distantes, achatados, como se fossem paisagem. Não é só o político que se isola; é o sistema que o empurra para o isolamento, porque o contacto verdadeiro é perigoso. O contacto verdadeiro é imprevisível. E a imprevisibilidade é o pecado mortal de uma comunicação que vive de controlo.


O que me intriga — e fere — não é que um político diga “não quero ver apenas o meu reflexo”.


O que me intriga é que precise de o dizer. Que isso seja tratado como virtude declarada. Como promessa. Como se a proximidade fosse uma inovação moral.


Quando é que a proximidade se tornou extraordinária?


Há uma explicação confortável: as redes sociais. A vigilância permanente. A velocidade. A guerra do ciclo noticioso.


Tudo isso é verdade, mas é a verdade superficial, a que cabe em conferência e em painel de especialistas.


A verdade mais incómoda é outra: nós participamos nisto com entusiasmo. Exigimos espectáculo e chamamos-lhe transparência. Exigimos presença e chamamos-lhe serviço. Exigimos reacção imediata e chamamos-lhe liderança.

Depois queixamo-nos de que não há pensamento.


Mas pensar — pensar a sério — é um ato lento. E o lento, hoje, é tratado como suspeito.


Há uma espécie de crueldade democrática nisto. A democracia pede governantes humanos, mas pune tudo o que é humano: a hesitação honesta, o tempo de maturação, a mudança de opinião quando os factos mudam, a frase incompleta que ainda está a nascer.


O governante que admite dúvida é atacado. O governante que responde sem dúvida é denunciado como impostor. E, no meio, o sistema aprende a única coisa que funciona: a performance de certeza.


Não é preciso inventar uma conspiração. Basta olhar para os incentivos.


Um político hoje vive num corredor estreito onde há sempre alguém a filmar: câmaras formais, telemóveis informais, microfones invisíveis, contas anónimas, recortes mal-intencionados, edições rápidas. Tudo pode ser transformado em arma — inclusive uma pausa. Inclusive um silêncio. Inclusive um “não sei”.


A consequência é previsível: tudo começa a ser ensaiado. E o ensaio, quando se prolonga, muda o corpo.


Tenho um amigo — um daqueles amigos que não aparecem em público porque preferem continuar a ter vida — que trabalhou em comunicação política muitos anos. Disse-me uma vez, com um desânimo quase íntimo: “O problema já não é mentir. É fabricar autenticidade.”


E explicou como se explica uma coisa feia: ensina-se um político a parecer espontâneo. Ensina-se um político a parecer simples. Ensina-se um político a parecer vulnerável. Há técnicas. Há treino. Há repetição. Há, por vezes, uma espécie de violência interior: pede-se a uma pessoa que exponha uma versão calibrada da sua intimidade, em doses suficientes para gerar confiança, mas nunca suficientes para gerar risco real.


A intimidade, assim, torna-se ferramenta.


E quando a intimidade se torna ferramenta, a confiança apodrece devagar.


É neste ponto que os cidadãos ficam com uma sensação estranha: estão a ver muito, mas a sentir pouco. Vêm o político a abraçar crianças, a visitar bairros, a entrar num autocarro, a comprar pão, a responder a mensagens. E, ainda assim, a distância cresce. Porque cada gesto vem com legenda. Cada gesto vem com enquadramento. Cada gesto vem com intenção visível, como aquelas notas de rodapé que estragam o poema.


A proximidade que é anunciada deixa de ser proximidade. Passa a ser prova de proximidade.


E a prova substitui a experiência.


Há um detalhe que raramente se diz, talvez por ser demasiado simples: a exposição permanente seleciona um certo tipo de pessoas. Não seleciona necessariamente os mais competentes. Seleciona os mais resistentes ao palco. Os que aguentam viver numa permanente avaliação. Os que conseguem existir como imagem sem se desmoronar. Os que suportam o desgaste sem quebrar em público.


Isto não é uma virtude de governo. É uma virtude de sobrevivência.


E, no entanto, é isso que passou a decidir quem chega mais longe.


Os melhores governantes que conheci — e não foram muitos, mas existiram — eram pessoas que preferiam o invisível: ler, ouvir, cruzar dados, discutir com seriedade, demorar-se numa questão sem se apaixonar pelo próprio desempenho. Tinham uma espécie de pudor. Um pudor que, hoje, seria interpretado como fraqueza comunicacional. Seriam esmagados. Ou transformados em caricatura. Ou empurrados para a irrelevância por falta de “presença”.


Quando o sistema penaliza pudor e recompensa histeria, é o sistema que está doente.

E aqui entra o ponto que, para mim, pertence à ERC e ao EEAT — não como siglas para enfeitar, mas como disciplina de escrita: é preciso distinguir entre o que sabemos e o que inferimos. Não sabemos o que se passa dentro da cabeça de um político. Não sabemos se um gesto é sincero ou calculado. O que sabemos é outra coisa: o formato em que ele é obrigado a existir. O tipo de linguagem. O tipo de tempo. O tipo de recompensa.


Podemos discutir intenções durante anos; o sistema continua a fabricar o mesmo resultado.


O resultado é este: uma política que fala demais e decide de menos, porque a decisão real não cabe no tempo do comentário. A decisão real exige concentração, e a concentração exige silêncio. O silêncio, hoje, parece um pecado contra o algoritmo.


O mais perverso é que este modelo é apresentado como modernização. Como se a política anterior fosse necessariamente melhor. Não era. Havia opacidade, havia abusos, havia impunidade. Mas havia uma coisa que se perdeu e que tem valor: o direito ao rascunho. O direito ao pensamento que ainda não é frase. O direito a errar em privado antes de se acertar em público.


Uma democracia adulta precisa desse direito. Sem ele, os governantes tornam-se actores de uma peça onde ninguém pode falhar. E, quando ninguém pode falhar, ninguém arrisca fazer o que é difícil.


Faz-se o que é seguro. O que é popular. O que é curto. O que é limpamente explicável.


É assim que a política se torna menor sem se dar conta.


Ao mesmo tempo, nós — o público — somos educados a confundir justiça com reacção.


A confundir seriedade com indignação. A confundir rigor com velocidade. Somos educados a achar que um governante que demora dois dias a pensar está a fugir. E a achar que um governante que responde em vinte minutos é competente.

Não é.


Às vezes é apenas impulsivo. Às vezes é apenas bem treinado. Às vezes é apenas prisioneiro do relógio.


E o relógio, na política moderna, manda mais do que a lei.


Há uma cena que imagino com frequência — não por romantismo, mas por necessidade de imaginar uma alternativa. Imagino um governante a fechar a porta do gabinete, a desligar o telefone, a sentar-se com um dossiê pesado, e a passar horas a ler sem ninguém saber.


Imagino-o a chamar duas pessoas que discordam entre si e a deixá-las discutir até aparecer uma solução. Imagino-o a escrever uma decisão e a reescrevê-la porque percebeu um erro. Imagino-o a mudar de ideia sem ser insultado. Imagino-o a admitir “não sei ainda” sem ser devorado.


Imagino isto e sinto que estou a imaginar uma heresia.


Porque o palco permanente não tolera heresias. Tolera apenas histórias.


E nós viciámo-nos em histórias.


A frase do vidro fumado — essa promessa de continuar a ver “pessoas reais” — é bonita, sim. Mas é também um sintoma: revela que já não acreditamos na normalidade do contacto. Já não acreditamos que o poder possa andar na rua sem que isso seja comunicado como feito extraordinário.


O que antes seria banal — um governante conhecer pessoas — passou a ser acto performativo.


É por isso que me inquieta.


Não por maldade, não por cinismo, não por desejo de destruir. Inquieta-me porque sinto que estamos a trocar o conteúdo pela demonstração. E quando se troca conteúdo por demonstração, o que vem a seguir é inevitável: mais demonstração.


A demonstração tem inflação. O gesto que hoje impressiona amanhã é obrigação. O “estar presente” de hoje amanhã é insuficiente. E assim, o político corre — corre literalmente, corre simbolicamente — para não ser apanhado pelo vazio.


Mas o vazio apanha-o na mesma.


Porque o vazio não é falta de imagem. É falta de tempo para pensar.


E, se a política perde o pensamento, perde a capacidade de servir qualquer pessoa que não seja o próprio mecanismo de sobrevivência.


No fim, volto à praça e ao homem das laranjas. Ele não tinha teoria. Não tinha vocabulário técnico. Tinha, apenas, uma perceção de rua: “aparecer” tornou-se trabalho. “Fazer” tornou-se intervalo.


E talvez a nossa tarefa, como leitores e cidadãos, seja recuperar a coragem do intervalo.


A coragem de exigir menos show e mais substância. A coragem de aceitar que o silêncio pode ser responsabilidade, não fuga. A coragem de deixar um governante trabalhar sem o obrigar a provar a cada hora que está vivo.


Porque uma democracia que exige palco permanente cria líderes viciados em aplauso. E líderes viciados em aplauso acabam por governar para a plateia, não para o país.


O país, esse, continua na praça — frio, concreto, real — à espera de decisões que não cabem numa transmissão.


Nome literário: João da Praça


Rubrica: Praças de Portugal


Praça portuguesa ao entardecer com uma banca de laranjas e pessoas anónimas, metáfora da realidade fora do palco político.
Política - Sociedade - Democracia



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27 de dez. de 2025
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