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A Idade em Que a Vida Começa a Falar Mais Alto

Há dias em que me sinto como se tivesse tropeçado numa idade nova sem ter dado por isso. Não é dramático, nem romanesco: é apenas o momento em que percebemos que já não pertencemos totalmente ao clube dos que ainda acreditam que tudo é recuperável.


Um dia acordamos e reparamos que o nosso guarda-roupa já não muda com as estações, que há amizades que ficaram num banco de jardim de há dez anos e que a cidade, tão barulhenta, nos devolve agora um eco mais nítido das nossas próprias inquietações.


Tenho pensado muito nisso desde que uma amiga, à mesa de um café da Baixa, me perguntou: “Quando é que foste adulta, afinal?” Fiquei a olhar para as chávenas, como se ali estivesse o oráculo.


Ela fez quarenta há pouco tempo e anda a partir as águas do quotidiano para ver se encontra um sentido escondido. E eu, a caminho, percebi que envelhecer não é um colapso: é uma espécie de revelação. Só que ninguém nos prepara para esta revelação ser tão cómica quanto solitária.


O mais curioso é que, nos últimos meses, me tenho cruzado com histórias de mulheres que decidiram transformar o caos da meia-idade em coreografia pública. Não conheço nenhuma delas pessoalmente; conheço, sim, aquela coragem improvisada que usamos quando a vida se rompe e precisamos de reinventar o corpo que ficou. Há quem faça disso canções, quem faça disso mudanças de casa, quem faça disso confissões a meio de um jantar. Cada uma encontra a sua forma de voltar a respirar.


O que me interessa nessas histórias não é a celebridade nem os dramas que alimentam cliques.


O que me interessa é a sinceridade inesperada que emerge quando deixamos cair o verniz.


A primeira vez que ouvi uma dessas músicas sobre separações tardias e recomeços imperfeitos, dei por mim a rir no elétrico 28, com a música nos auriculares, e a pensar que talvez toda a gente estivesse a passar pelo mesmo.


A verdade é que há uma altura da vida em que os nossos medos já não são discretos: andam connosco como sacos das compras esquecidos, pesados, visíveis, inevitáveis.


E depois há aquele detalhe íntimo, quase universal, de perceber que o corpo mudou. Não é tragédia; é geografia. A pele aprende a contar histórias, as rugas fazem sinais de trânsito, e a vontade de arrumar o rosto — de o “melhorar”, seja lá o que isso signifique — aparece sem ser convidada.


No outro dia, ouvi alguém dizer que “um pequeno ajuste resolve quase tudo”. Sorri com ternura. Porque sei que nenhum ajuste resolve o tempo, mas alguns ajudam a pôr-nos de pé enquanto pensamos no que é realmente importante.


As conversas com as minhas amigas têm sido um concerto de temas novos: pais que envelhecem depressa, filhos que crescem devagar, separações tardias, tentações de fuga, empregos que já não nos dão o nome inteiro, e aquela pergunta teimosa — e agora, o que faço com esta vida? Há sempre um momento em que alguém faz uma piada para aliviar o peso, e é nesse instante que percebo que todas estamos a aprender a rir do que antes nos assustava.


Talvez seja isso que me toca nestas figuras públicas que transformam o seu tumulto em espetáculo: não a exposição, mas a oferta involuntária de reconhecimento. A sensação de que alguém vocaliza, com luzes e câmaras, aquilo que nós sussurramos no caminho para casa. O que há de mais humano na meia-idade não é a crise: é a honestidade que ela exige. Ou nos escondemos dela, ou deixamos que ela nos abra uma porta.


Eu, que passo a vida a observar a cidade, percebo agora que os lugares onde antes via juventude desvairada — bares pequenos, passeios iluminados, esplanadas improváveis — são ocupados por pessoas que carregam dentro de si a mesma pergunta que eu. Estão a aprender a viver com a verdade inteira, sem filtros, sem aquele entusiasmo performativo dos vinte e poucos anos. E isso, ao contrário do que imaginávamos, tem uma beleza tranquila.


No fim de tudo, não sei se existe uma “crise da meia-idade” ou apenas um momento em que percebemos que já vivemos o suficiente para nos conhecermos a sério. A vida deixa de ser uma sucessão de possibilidades e passa a ser um território de escolhas. É mais estreito, sim. Mas é finalmente nosso.


E talvez seja por isso que, quando ouço alguém cantar sobre perdas, recomeços e a coragem de se mostrar partida, não sinto pena. Sinto companhia. Sinto que alguém, algures, encontrou uma forma de transformar a confusão dos quarenta em claridade. E penso que, se calhar, é disso que precisávamos: não de glamour ou de escândalo, mas de alguém que nos lembrasse que ainda podemos começar de novo — mesmo que a nova vida avance devagar e, às vezes, nos faça tropeçar.


Maria do Rio


Imagem urbana e contemplativa que acompanha um texto de Maria do Rio sobre a meia-idade e a descoberta de novas verdades interiores.
Retrato de Maturidade

2 comentários

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06 de dez. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Texto belíssimo, delicado e cheio de atenção ao detalhe. Sente-se que não há uma palavra a mais nem uma palavra a menos. Dá vontade de reler devagar.

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Alberto Carvalho
Alberto Carvalho
21 de dez. de 2025
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Que bom ler isto. Escrevi precisamente a pensar num leitor que não tenha pressa — e a sua frase ‘reler devagar’ paga o trabalho todo. Obrigado por ter passado por aqui.

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