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Quando o Presidente dos USA Pisca os Olhos

Eu estava no café da Praça, àquela hora indecisa entre a tarde e o princípio da noite, quando na televisão apareceu a imagem do presidente dos Estados Unidos. Não vinha com discursos inflamados nem com aquela energia teatral a que nos habituou. Vinha sentado, pesado, a lutar contra o sono no meio de uma reunião que parecia interminável.


Trump, o homem que faz da força um adereço, inclinava-se para a frente, fechava os olhos por segundos e regressava ao mundo com o sobressalto de quem nega o corpo.


A sala do café ficou em silêncio por um instante, como se todos tivéssemos assistido a algo proibido. Há qualquer coisa de íntima em ver alguém tão poderoso a piscar os olhos de cansaço. Não é só a idade — embora a idade tenha o hábito de cobrar juros inesperados. É o corpo, que não obedece à narrativa. É a vida, que se infiltra, mesmo onde as câmaras mandam.


A televisão repetia o momento em loop, cada vez mais ampliado, como se a América inteira estivesse a perguntar-se se o cansaço é um defeito ou uma ameaça. Mas para mim, sentada ao lado de uma chávena morna, o que sobressaiu foi outra coisa: a humanidade que escapa pelas fissuras do poder.


Há anos que Trump encena força, vitalidade, resistência, como se governar fosse um desporto de combate. Estar cansado — ou parecer cansado — não cabe no papel que escreveu para si. E talvez por isso a imagem tenha sido tão desconcertante. O corpo traiu o enredo.


Lá ao fundo, um senhor comentou: “É velho, coitado.” E logo outro respondeu: “Velho? Ele é presidente dos Estados Unidos!” Como se uma coisa anulasse a outra.


Observei aquela troca e percebi que ainda esperamos que os líderes sejam monumentos, não pessoas. Ainda acreditamos que quem manda não tem direito a fraquezas. E, no entanto, basta um piscar de olhos mais longo para revelar o óbvio: ninguém escapa ao peso dos dias. Nem Trump, que faz questão de repetir que está mais afiado do que nunca.


A cidade, vistas as coisas daqui, parece mais sábia. No mesmo café onde um homem adormece com a cabeça sobre o jornal, ninguém se escandaliza. No elétrico, as pessoas fecham os olhos duas ou três paragens, e ninguém lhes exige provas de vigor. Só aos que têm poder é que nos permitimos essa fantasia antiga: a de que o corpo deles não envelhece.


Talvez seja isso que me inquieta — não o facto de Trump fechar os olhos, mas a nossa incapacidade de aceitar que até os gigantes têm limites. E que o verdadeiro problema não é o cansaço, mas a encenação permanente de força que não permite reconhecer o que é evidente.


Há dias em que o mundo parece avançar depressa demais, e tudo o que esperamos é que alguém esteja plenamente acordado enquanto decide o que acontece connosco. Mas depois vejo aquela imagem — o presidente, o homem que construiu a sua mitologia sobre grandeza e domínio, a ceder por um instante ao corpo — e penso que, se calhar, é justamente nisso que devíamos reparar: no desconforto que sentimos quando percebemos que o poder também é humano.


Saí do café com essa ideia a acompanhar-me como sombra. Lá fora, os candeeiros acendiam-se um a um, meio sonolentos, como se também eles precisassem de um esforço para cumprir o seu papel. E eu, a caminhar devagar pela Praça, dei por mim a pensar que talvez não seja mau que o mundo veja, de vez em quando, um presidente a adormecer. É que só quando o poder baixa a guarda é que nos lembramos que somos todos, afinal, feitos do mesmo sono.


Maria do Rio


Vários balões decorativos em tons de vermelho, azul e branco, com estrelas estampadas, espalhados sobre um fundo claro com confettis.
Balões Festivos com Estrelas e com as Cores Americanas

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