A Regra do Templo pertence ao couro
- O Caderno

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Há papéis que, antes de dizerem alguma coisa, já disseram outra: disseram de onde vêm. Um papel pode cheirar a incenso — e então a leitura começa como uma cerimónia. Ou pode cheirar a couro — e então a leitura começa como um contacto, como a mão que passa numa superfície usada, guardada, transportada.

A Regra do Templo pertence ao couro.
Abre-se como se abre um baú que não guarda jóias, mas o seu contrário: guarda o que pesa. E, de repente, em vez de relíquias, surge uma enumeração.
Quatro cavalos.
Um sargento com dois.
Um valete com um.
Um intérprete “sarraceno”.
Dois peões.
Um cozinheiro.
A lista não é só lista; é um modo de entrar na guerra por uma porta que a imaginação raramente escolhe: a porta da contabilidade.
A guerra não começa no choque. Começa muito antes, num “quanto” e num “quem”.
Durante anos, foi cómodo imaginar os Templários num território quase exclusivamente simbólico: cruzes, votos, noites frias, a oração como cenário, a austeridade como figura. Uma espécie de teatro moral, onde tudo se decide no alto.
Mas a Regra não está no alto.
Está ao nível do chão. E essa é a sua intimidade: a intimidade de uma instituição que quer durar.
Quando uma instituição quer durar, faz uma coisa que a lenda detesta: escreve procedimentos. Escreve travões. Escreve pequenas proibições para impedir que o entusiasmo se torne arbitrariedade.
Faz o que o romantismo chama frieza, e que a experiência chama sobrevivência. O Mestre — palavra que, à primeira vista, chama a lenda — aparece aqui tratado como se fosse, hoje, um responsável com poderes cercados por um corpo colectivo.
O Mestre manda, sim, mas não começa a guerra nem faz tréguas sem consentimento do convento. Não decide certas nomeações sem autorização. Não recebe irmãos sem o capítulo.
A Regra parece saber, de antemão, aquilo que a história repete: a guerra tem um magnetismo especial para a vontade sem limites. E responde-lhe com o único instrumento que continua a funcionar quando a virtude falha: a forma. Depois vem o Senescal.
Na imaginação popular, uma figura decorativa. Aqui, não.
Segura o gonfanon bauçant — o estandarte — e, de repente, percebe-se que um pedaço de tecido não é ornamento: é centro.
Um pendão parece detalhe até ao instante em que tudo se dispersa e alguém precisa de saber onde está “o corpo”.
Sem um símbolo comum, um corpo dissolve-se depressa.
A bandeira, aqui, não é estética: é direção.
A seguir surge o Marechal, e com ele desaparece o brilho litúrgico.
O Marechal não é apresentado como o homem da bravura. É o homem da distribuição.
Armas, montadas, substituições, reparações.
Se um cavalo se perde, há um circuito.
Se uma peça falha, há outro.
No imaginário, a guerra decide-se num instante.
Na Regra, a guerra decide-se no que permite que o instante volte amanhã. E começa a formar-se uma impressão — estranha, quase moderna: não se descreve apenas uma ordem religiosa com espadas.
Descreve-se uma máquina. E uma máquina vive de pequenas peças e de pessoas que fazem trabalho invisível.
Quem transporta. Quem interpreta. Quem vigia. Quem sabe onde está a tenda certa. Quem mantém o ferro em condições de não trair o corpo.
A Regra insiste nesses pormenores com uma teimosia que não pede aplauso; pede atenção. Como se dissesse a cada irmão: a glória, se vier, não vem por encanto. Vem por disciplina. E há Jerusalém.
No plano simbólico, a cidade justifica tudo.
No plano da Regra, a cidade também tem uma logística própria.
Peregrinos chegam. As escoltas organizam-se.
Os objetos guardam-se.
Vigilâncias fazem-se dia e noite.
Quando a Vera Cruz é transportada, alguém dorme perto dela; alguém fica de guarda.
O sagrado, aqui, não flutua. Move-se. E, para se mover, precisa de mãos treinadas.
É neste ponto que a leitura começa a tocar um nervo contemporâneo: a força não é só peso.
Há os ligeiros, os rápidos, os úteis para reconhecimento e mensagens.
Os turcópolos aparecem como parte integrante do sistema.
Há até um cargo — o Turcopolier — que, na prática, gere os olhos e as pernas da Ordem.
Quando há alarme, não se sai aos gritos. Envia-se um ou dois à frente para ver o que acontece. Depois informa-se o Marechal.
A coragem, sem informação, não é heroísmo: é ruína antecipada.
A Regra não dramatiza isto. Diz-nos como quem descreve o óbvio: primeiro vê-se, depois avança-se. E, sem proclamar nenhuma teoria, o texto desfaz a ideia de uma Idade Média entregue ao impulso. Mostra uma racionalidade que pode ser devota, disciplinada, revestida de símbolos religiosos — e, ainda assim, racionalidade.
Isto incomoda um pouco o leitor moderno, porque nós gostamos de pensar o passado como excesso.
Dá-nos alívio: “nós somos melhores”.
A Regra tira-nos esse conforto.
Com os cavalos contados e os cargos definidos, deixa-nos menos espaço para a superioridade fácil.
Há ainda o dinheiro — ou, mais exatamente, o despojo e o circuito de bens.
Quem controla. Quem recebe. Quem distribui.
O que fica sob uma autoridade e o que passa para outra.
Não soa a cinismo.
Soa a prevenção.
Quem decide guerrear durante anos precisa de impedir que a guerra se transforme num mercado interno, numa soma de capturas privadas, num apetite que se justifica a si mesmo.
A Ordem, pelo menos no papel, tenta proteger a missão do seu próprio desgaste.
As regras parecem frias, mas talvez sejam, no fundo, uma tentativa de não deixar a finalidade dissolver-se no oportunismo.
No fim, o que fica não é o mistério que se procura nos Templários. Fica uma banalidade maior — e por isso mais desconfortável: a guerra precisa de administração. E a administração, quando é séria, não tem aura. Tem listas. Tem hierarquias. Tem rotinas. Tem pessoas.
Pessoas que não aparecem nas pinturas, mas sem as quais nada acontece. Talvez seja esta a lição mais dura do documento: a fé não substitui o método. Pode dar sentido, pode dar suporte, pode dar força — mas não garante funcionamento. E uma Ordem do Templo que quis sobreviver num mundo de morte comum e distância enorme escreveu o seu método como se escrevesse uma oração — com a diferença de que, aqui, quando alguém falhava, a consequência não era apenas moral. Era física.
A Regra do Templo não é um livro de lendas. É um livro de engrenagens. E quando a lenda se aproxima da engrenagem, recua um pouco — não por ser mentira, mas por ser insuficiente.
O couro continua.
O ferro também.
E algures no meio, um estandarte de duas cores a dizer ao corpo disperso: é aqui. É aqui que se volta.
Imagem: - Pascal Bernardon
Referências essenciais: Judith Upton-Ward (ed.), The Rule of the Templars; Matthew Bennett; Nicole Bériou & Philippe Josserand (orgs.), Prier et combattre; Alain Demurger.
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