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A Regra do Templo pertence ao couro

Há papéis que, antes de dizerem alguma coisa, já disseram outra: disseram de onde vêm. Um papel pode cheirar a incenso — e então a leitura começa como uma cerimónia. Ou pode cheirar a couro — e então a leitura começa como um contacto, como a mão que passa numa superfície usada, guardada, transportada.


Estátuas metálicas de um cavaleiro e de um rei com coroa e manto, em primeiro plano num jardim, com um edifício claro e janelas ao fundo.
Esculturas em bronze de um cavaleiro e de um rei coroado — imagem para o texto sobre a disciplina e as “engrenagens” da Regra do Templo. Foto: Pascal Bernardon.

A Regra do Templo pertence ao couro.


Abre-se como se abre um baú que não guarda jóias, mas o seu contrário: guarda o que pesa. E, de repente, em vez de relíquias, surge uma enumeração.


Quatro cavalos.


Um sargento com dois.


Um valete com um.


Um intérprete “sarraceno”.


Dois peões.


Um cozinheiro.


A lista não é só lista; é um modo de entrar na guerra por uma porta que a imaginação raramente escolhe: a porta da contabilidade.


A guerra não começa no choque. Começa muito antes, num “quanto” e num “quem”.


Durante anos, foi cómodo imaginar os Templários num território quase exclusivamente simbólico: cruzes, votos, noites frias, a oração como cenário, a austeridade como figura. Uma espécie de teatro moral, onde tudo se decide no alto.


Mas a Regra não está no alto.


Está ao nível do chão. E essa é a sua intimidade: a intimidade de uma instituição que quer durar.


Quando uma instituição quer durar, faz uma coisa que a lenda detesta: escreve procedimentos. Escreve travões. Escreve pequenas proibições para impedir que o entusiasmo se torne arbitrariedade.


Faz o que o romantismo chama frieza, e que a experiência chama sobrevivência. O Mestre — palavra que, à primeira vista, chama a lenda — aparece aqui tratado como se fosse, hoje, um responsável com poderes cercados por um corpo colectivo.


O Mestre manda, sim, mas não começa a guerra nem faz tréguas sem consentimento do convento. Não decide certas nomeações sem autorização. Não recebe irmãos sem o capítulo.


A Regra parece saber, de antemão, aquilo que a história repete: a guerra tem um magnetismo especial para a vontade sem limites. E responde-lhe com o único instrumento que continua a funcionar quando a virtude falha: a forma. Depois vem o Senescal.


Na imaginação popular, uma figura decorativa. Aqui, não.


Segura o gonfanon bauçant — o estandarte — e, de repente, percebe-se que um pedaço de tecido não é ornamento: é centro.


Um pendão parece detalhe até ao instante em que tudo se dispersa e alguém precisa de saber onde está “o corpo”.


Sem um símbolo comum, um corpo dissolve-se depressa.


A bandeira, aqui, não é estética: é direção.


A seguir surge o Marechal, e com ele desaparece o brilho litúrgico.


O Marechal não é apresentado como o homem da bravura. É o homem da distribuição.


Armas, montadas, substituições, reparações.


Se um cavalo se perde, há um circuito.


Se uma peça falha, há outro.


No imaginário, a guerra decide-se num instante.


Na Regra, a guerra decide-se no que permite que o instante volte amanhã. E começa a formar-se uma impressão — estranha, quase moderna: não se descreve apenas uma ordem religiosa com espadas.


Descreve-se uma máquina. E uma máquina vive de pequenas peças e de pessoas que fazem trabalho invisível.


Quem transporta. Quem interpreta. Quem vigia. Quem sabe onde está a tenda certa. Quem mantém o ferro em condições de não trair o corpo.


A Regra insiste nesses pormenores com uma teimosia que não pede aplauso; pede atenção. Como se dissesse a cada irmão: a glória, se vier, não vem por encanto. Vem por disciplina. E há Jerusalém.


No plano simbólico, a cidade justifica tudo.


No plano da Regra, a cidade também tem uma logística própria.


Peregrinos chegam. As escoltas organizam-se.


Os objetos guardam-se.


Vigilâncias fazem-se dia e noite.


Quando a Vera Cruz é transportada, alguém dorme perto dela; alguém fica de guarda.


O sagrado, aqui, não flutua. Move-se. E, para se mover, precisa de mãos treinadas.


É neste ponto que a leitura começa a tocar um nervo contemporâneo: a força não é só peso.


Há os ligeiros, os rápidos, os úteis para reconhecimento e mensagens.


Os turcópolos aparecem como parte integrante do sistema.


Há até um cargo — o Turcopolier — que, na prática, gere os olhos e as pernas da Ordem.


Quando há alarme, não se sai aos gritos. Envia-se um ou dois à frente para ver o que acontece. Depois informa-se o Marechal.


A coragem, sem informação, não é heroísmo: é ruína antecipada.


A Regra não dramatiza isto. Diz-nos como quem descreve o óbvio: primeiro vê-se, depois avança-se. E, sem proclamar nenhuma teoria, o texto desfaz a ideia de uma Idade Média entregue ao impulso. Mostra uma racionalidade que pode ser devota, disciplinada, revestida de símbolos religiosos — e, ainda assim, racionalidade.


Isto incomoda um pouco o leitor moderno, porque nós gostamos de pensar o passado como excesso.


Dá-nos alívio: “nós somos melhores”.


A Regra tira-nos esse conforto.


Com os cavalos contados e os cargos definidos, deixa-nos menos espaço para a superioridade fácil.


Há ainda o dinheiro — ou, mais exatamente, o despojo e o circuito de bens.


Quem controla. Quem recebe. Quem distribui.


O que fica sob uma autoridade e o que passa para outra.


Não soa a cinismo.


Soa a prevenção.


Quem decide guerrear durante anos precisa de impedir que a guerra se transforme num mercado interno, numa soma de capturas privadas, num apetite que se justifica a si mesmo.


A Ordem, pelo menos no papel, tenta proteger a missão do seu próprio desgaste.


As regras parecem frias, mas talvez sejam, no fundo, uma tentativa de não deixar a finalidade dissolver-se no oportunismo.


No fim, o que fica não é o mistério que se procura nos Templários. Fica uma banalidade maior — e por isso mais desconfortável: a guerra precisa de administração. E a administração, quando é séria, não tem aura. Tem listas. Tem hierarquias. Tem rotinas. Tem pessoas.


Pessoas que não aparecem nas pinturas, mas sem as quais nada acontece. Talvez seja esta a lição mais dura do documento: a fé não substitui o método. Pode dar sentido, pode dar suporte, pode dar força — mas não garante funcionamento. E uma Ordem do Templo que quis sobreviver num mundo de morte comum e distância enorme escreveu o seu método como se escrevesse uma oração — com a diferença de que, aqui, quando alguém falhava, a consequência não era apenas moral. Era física.


A Regra do Templo não é um livro de lendas. É um livro de engrenagens. E quando a lenda se aproxima da engrenagem, recua um pouco — não por ser mentira, mas por ser insuficiente.


O couro continua.


O ferro também.


E algures no meio, um estandarte de duas cores a dizer ao corpo disperso: é aqui. É aqui que se volta.


Imagem: - Pascal Bernardon


Referências essenciais: Judith Upton-Ward (ed.), The Rule of the Templars; Matthew Bennett; Nicole Bériou & Philippe Josserand (orgs.), Prier et combattre; Alain Demurger.



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