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Tiro e a Guerra do Líbano: Ficar É um Argumento Político

Durante décadas, o Litani existiu menos como acidente geográfico do que como linha diplomática. Nasce nas montanhas do Anti-Líbano, atravessa o vale da Bekaa e dobra para oeste antes de desaguar no Mediterrâneo a poucos quilómetros de Tiro. Não é um rio de grande escala — o seu caudal é modesto, as suas margens pouco dramáticas. Durante décadas, foi principalmente uma questão de gestão hídrica regional, objeto de negociações técnicas e de algum contencioso entre o Líbano, Israel e a Síria.


Por que razão os residentes de Tiro recusam evacuar mesmo com a guerra a intensificar-se?



Na resolução 1701 do Conselho de Segurança, aprovada após a guerra de 2006, o Litani foi consagrado como fronteira implícita: as forças do Hezbollah deveriam retirar-se para norte do rio, e as forças israelitas deveriam retirar-se do Líbano.


Nenhuma das partes cumpriu integralmente. O Hezbollah ficou a sul. Israel continuou a realizar operações aéreas. O rio manteve-se como linha simbólica num conflito que a simbologia nunca chegou a gerir.


O que mudou nas últimas semanas é que o Litani deixou de ser uma fronteira de segurança para se tornar uma fronteira demográfica. Quando Israel declarou que os residentes das zonas a sul do rio deviam evacuar, e quando o ministro da Defesa, Israel Katz, foi explícito ao dizer que os residentes xiitas que partissem não poderiam regressar enquanto a segurança do norte israelita não estivesse garantida, o rio mudou de natureza. Tornou-se a linha entre o que pode ser reocupado e o que pode não ser.


É esta transformação — de fronteira de segurança para fronteira de pertença — que permite ler o que está a acontecer em Tiro.


O aviso de evacuação é, neste conflito, um instrumento recorrente. Israel tem-no utilizado em várias formas ao longo de décadas de conflito: panfletos largados de aviões, mensagens de texto, chamadas automáticas, anúncios de rádio. A doutrina subjacente é que a notificação prévia de uma operação militar desobriga o atacante de parte da responsabilidade pelas vítimas civis — se os civis foram avisados e não partiram, a decisão de ficar é deles. Do ponto de vista do direito internacional humanitário, a questão é mais complexa: um aviso não substitui a obrigação de distinguir entre combatentes e não-combatentes, nem de evitar danos desproporcionais. Mas do ponto de vista da gestão da percepção, o aviso cumpre uma função política que vai além do âmbito jurídico. Transfere o ónus moral.


O problema é que um aviso de evacuação só é humanitário se houver um regresso garantido. Se não houver, é outra coisa.


A declaração de Katz não é ambígua: os residentes xiitas não podem regressar até que a segurança do norte israelita esteja assegurada. Esta condição tem uma característica peculiar: não tem critério objetivo de cumprimento. "Segurança assegurada" é uma condição política, não uma constatação técnica. Pode ser invocada indefinidamente por qualquer governo que queira invocá-la. O que significa, em termos práticos, que o regresso dos deslocados não depende de uma avaliação de segurança mas de uma decisão política israelita tomada num momento indeterminado do futuro. Se essa decisão nunca for tomada — ou for tomada sob condições que a tornam impraticável — a evacuação torna-se permanente.


Os residentes de Tiro perceberam isto antes de qualquer analista o articular formalmente. Não por acesso a relatórios de política externa, mas por experiência acumulada e por uma leitura direta do que Katz disse. Os números ajudam a perceber porquê: o dobro dos residentes que ficaram durante a escalada de 2024 escolheu ficar desta vez, apesar de a violência ser mais intensa. E cerca de vinte mil pessoas que fugiram das aldeias do sul escolheram ficar em Tiro — dentro da zona declarada de evacuação — em vez de atravessarem o Litani para norte. A lógica desta escolha não é irracional nem ideológica. É uma avaliação de risco de prazo longo sobre a qual o conflito em curso tem pouco a dizer: a probabilidade de poder regressar a uma casa que abandonaste é menor do que a probabilidade de poder ficar numa casa que não abandonaste, mesmo que o custo imediato seja mais elevado.


Numa guerra, as populações fazem cálculos que os analistas raramente modelam com precisão, porque envolvem variáveis que os modelos tendem a ignorar: a memória de situações análogas, a desconfiança acumulada em relação às garantias externas, e a percepção de que o despovoamento tem uma inércia própria — que uma casa vazia durante dois anos não é a mesma coisa que uma casa vazia durante dois meses.


O sul do Líbano tem uma história específica com este tipo de cálculo. Em 1948, aldeias palestinianas foram evacuadas sob pressão militar e os seus habitantes nunca regressaram — as aldeias foram demolidas ou reocupadas, e o direito de regresso tornou-se uma das questões centrais do conflito israelo-palestiniano ao longo de décadas. Os residentes do sul do Líbano conhecem esta história. Vivem geograficamente próximos dela. E as famílias xiitas que habitam aldeias a sul do Litani partilham frequentemente laços de parentesco, política e memória com comunidades que viveram deslocamentos anteriores. Quando Katz fala em não deixar regressar os residentes xiitas, está a falar numa língua que o sul do Líbano já ouviu antes, em versões anteriores.


Não se trata de equivalência histórica — as situações são distintas em contexto e em escala. Trata-se de uma leitura do padrão. E o padrão diz que quando alguém declara que a tua permanência num território está condicionada a uma decisão que só ele toma, partir é um risco existencial.


Israel, por seu lado, tem os seus próprios cálculos. A zona a sul do Litani — cerca de dez por cento do território libanês — passou a ser tratada, na prática, como espaço de controlo militar cuja reversibilidade permanece incerta no âmbito da operação terrestre. A experiência de ocupações anteriores — incluindo a ocupação do sul do Líbano entre 1985 e 2000, que terminou com uma retirada descrita por alguns analistas israelitas como uma derrota política — pesa sobre a decisão de como gerir o período pós-combate. A presença de uma população civil hostil numa zona de operações cria fricção; a ausência dessa população simplifica o controlo do terreno. Isto não significa que o despovoamento seja um objetivo declarado da operação israelita. Significa que é uma consequência que serve os objetivos operacionais imediatos, independentemente de qualquer declaração de intenção.


Num dia de outubro, mais de trezentas pessoas foram mortas em todo o Líbano num único dia — o número mais alto desde o início do conflito. Os ataques abrangeram múltiplas regiões e incluíram zonas densamente habitadas. Um nível de violência desta escala não é apenas um dado de casualidades: é uma comunicação. Diz às populações que nenhum lugar a sul de uma determinada linha é seguro o suficiente para nele permanecer. Esse é precisamente o efeito que a combinação de ataques aéreos e avisos de evacuação produz: uma pressão coordenada para o deslocamento, que não precisa de ser declarada como objetivo para funcionar como tal.


Os que ficam fazem-no conscientes desta pressão, não imunes a ela. A diferença entre os que ficam e os que partem não é a coragem — é a avaliação do que é menos mau num horizonte que nenhum dos dois grupos controla. Quem fica aceita um risco físico imediato elevado em troca de uma posição territorial que considera estrategicamente superior a longo prazo. Quem parte aceita um risco existencial de longo prazo em troca de segurança física imediata. São duas respostas racionais a uma situação irracional, e a guerra tende a transformar a escolha de quem ficou em heroísmo e a de quem partiu em fraqueza — o que é uma simplificação que serve narrativas mas não analisa nada.


O Hezbollah está presente em Tiro de forma declarada e territorialmente visível. Para perceber o que esta presença significa é necessário abandonar a pergunta errada, que é "os residentes apoiam o Hezbollah?", e fazer a pergunta certa, que é "que vazio o Hezbollah preenche que o Estado libanês deixou em aberto?"


O Estado libanês tem uma incapacidade estrutural crónica para exercer autoridade no sul do país. As razões são conhecidas e complexas: o sistema confessional que distribui o poder institucional por linhas sectárias e produz paralisia executiva; a ausência de um exército nacional capaz de impor soberania efectiva na fronteira sul; a dependência financeira de transferências externas que criam lealdades que atravessam as fronteiras do Estado. O resultado é que, durante décadas, o sul do Líbano foi governado por uma combinação de presença estatal nominal e autoridade efectiva do Hezbollah — nos serviços sociais, na segurança local, na arbitragem de conflitos, na representação política.


Quando os residentes de Tiro dizem que o Hezbollah é o único que os defende contra Israel, não estão necessariamente a expressar afinidade ideológica com o projeto político do Hezbollah ou com o Irão que o financia. Estão a descrever uma realidade de poder: na ausência de uma força alternativa capaz de opor resistência militar a Israel, o Hezbollah é a única organização presente que tem essa capacidade. Esta descrição não é aprovação. É o reconhecimento pragmático de uma estrutura de poder em que as populações civis do sul do Líbano não tiveram escolha significativa — porque o Estado que teoricamente as representa nunca criou as condições para essa escolha.


A guerra, paradoxalmente, reforça esta dinâmica. Cada ataque aéreo que não distingue entre infraestrutura militar e civil, cada declaração que condiciona o regresso dos residentes xiitas a critérios unilaterais, cada dia em que o governo libanês se mostra incapaz de intervir, consolida a narrativa de que a única proteção disponível é a que o Hezbollah oferece. Os factos fazem esse trabalho de forma mais eficiente do que qualquer propaganda. A guerra cria as condições para a legitimação do único ator presente.


A fragilidade mais difícil de analisar não é a militar nem a política — é a social. Tiro é uma cidade com uma composição sectária diversa: a maioria xiita coexiste com minorias cristãs e sunitas com graus variados de integração que foram construídos ao longo de décadas de vida comum. Mercados, escolas, redes profissionais, casamentos inter-comunais, o tipo de tecido que se forma quando pessoas de origens diferentes partilham um espaço suficientemente longo para desenvolverem dependências mútuas que ultrapassam a identidade sectária.


A guerra está a revelar o que este tecido sempre exigiu para funcionar: a ausência de risco diferencial. A coexistência funciona quando os riscos de estar com o outro são semelhantes aos de estar sozinho. Quando os ataques começam a ser percebidos como setorialmente dirigidos — quando os residentes não-xiitas percebem que proximidade com vizinhos xiitas pode aumentar o seu próprio risco de ser atingidos — a lógica da coexistência inverte-se. Não por hostilidade declarada, mas por cálculo de sobrevivência que acaba por produzir os mesmos efeitos que a hostilidade.


Este processo é mais difícil de reverter do que os danos materiais. Uma casa destrói-se em segundos e reconstrói-se em meses ou anos, com dinheiro suficiente. O hábito de confiar no vizinho, de aceitar um convite sem que esse gesto se transforme, antes de mais, num cálculo de risco, de partilhar um espaço sem que a presença do outro passe a carregar um peso estratégico — esse hábito, uma vez perdido, não se reconstrói por decreto nem por financiamento. Reconstrói-se, se for reconstruído, através de anos de vida comum sem ameaça. E para isso é necessária uma condição que a guerra, por definição, elimina.


O que está em causa em Tiro não é apenas uma cidade sitiada. É o teste de uma proposição que tem implicações que vão muito além do conflito israelo-libanês imediato: é possível declarar uma zona de evacuação "humanitária" com condições de regresso indefiníveis e não ser responsável pelas consequências demográficas permanentes dessa declaração?


A resposta jurídica é incerta — o direito internacional humanitário não foi concebido para lidar com estas situações de forma limpa. A resposta política depende de quem tem poder para a dar, e neste momento esse poder está distribuído entre atores — Israel, Hezbollah, Irão, as potências ocidentais que financiam o processo diplomático — cujos interesses convergem em poucos pontos e divergem nos que importam.


A resposta das populações é a única que não precisa de esperar por uma decisão exterior: fica quem acha que ficar vale o custo. E o facto de esse número ser, neste conflito, o dobro do que foi no anterior, sugere que a percepção do custo de partir aumentou mais do que a percepção do custo de ficar — mesmo com trezentos mortos num único dia, mesmo com o Litani a transformar-se numa linha que ninguém sabe quando, ou se, vai voltar a poder ser atravessada de sul para norte.


A linha que o Litani representa — agora menos hídrica do que política, menos geográfica do que demográfica — vai demorar mais a apagar do que qualquer conflito a que um acordo de cessar-fogo possa pôr fim.



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