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Férias da Páscoa sem o irmão: o que fica quando ele vai embora


As férias da Páscoa têm um cheiro específico. É o cheiro do chocolate — o melhor, o que a avó escolhe sempre para os três. É o cheiro da casa com janelas abertas de manhã cedo, quando ainda faz frio mas já há sol. É o cheiro de estar os três — nós e ele — sem escola, sem horários, sem ninguém a dizer que horas são.


Este ano não.


Eram 10h17 quando ele começou a sair do carro.


Imagem editorial do Atlantic Lisbon para um texto sobre separação entre irmãos nas férias, mostrando pequenos sapatos azuis isolados num espaço sombrio e silencioso.
Capa editorial do Atlantic Lisbon sobre a ausência de um irmão durante as férias da Páscoa, evocando o vazio doméstico, a memória dos gestos pequenos e o silêncio que fica quando uma criança parte.

Pôs o pé no jardim e ficou ali um momento, com a pasta pequena e o casaco azul que tinha ido buscar sozinho ao quarto porque já tem sete anos e já sabe fazer essas coisas.


À sua frente havia um jardim que dava para um passeio que dava para o local onde seria a entrega. Não era longe. Pareceu longe.


Não conseguiu falar. Não foi falta de palavras — foi que as palavras não saíam, ficavam presas algures entre o peito e a boca, e ele percebeu isso e desistiu de as tentar buscar.


Chorou enquanto percorria o jardim, com a pasta na mão e os passos curtos de quem quer ir mais devagar mas sabe que ir mais devagar não muda o que acontece a seguir.


A mais velha correu. Não foi uma decisão — foi o corpo a fazer o que o corpo faz quando não aceita que alguma coisa está a acontecer. Correu pela rua e gritou o nome dele sem pensar se havia alguém a ver. O carro tinha os vidros abertos e ela queria que ele percebesse que ainda estava ali, que ainda havia mais um bocado de rua antes de ele dobrar a curva.


A mais nova ficou no passeio. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto e ela deixou-as correr. Tentou uma vez dar um passo — os pés não foram.

Ele estava virado para o vidro de trás. A olhar sempre para trás.


Quando o carro dobrou a curva à esquerda e entrou noutra rua, a mais velha parou no meio da rua com a mão levantada para um carro que já não estava. Ficou assim mais tempo do que fazia sentido.


Quando voltou para o passeio, a mais nova ainda estava no mesmo sítio. Havia pombos. Havia um senhor mais velho a passear um cão. Havia sol, o que parecia uma descortesia do universo.


A mais velha disse: viste a cara dele quando se virou para a frente?


A mais nova disse: vi.


Não disseram mais nada sobre isso. Mas as duas tinham visto — o rosto tenso, os olhos baixos, a lágrima que ele não limpou porque estava a tentar ser corajoso da maneira que os adultos ensinam sem perceber que estão a ensinar.


Há um barulho específico que uma casa faz quando falta uma pessoa. Não é silêncio — o silêncio seria mais fácil. É uma espécie de ausência com textura, como quando se tira um móvel de um sítio onde estava há anos e fica a marca no chão e nos olhos, mesmo depois de já não estar lá.


Ele deixa marcas por todo o lado. No sofá, onde tem um lugar preferido que é tecnicamente o meio mas na prática é onde se enfiar mais perto de quem estiver a ver televisão. Na cozinha, onde tem o copo com o elefante que ninguém usa porque é o copo dele.


No corredor, onde há uma lista colada na parede com as coisas que quer fazer quando for grande — piloto, veterinário, vendedor de gelados, e a última entrada, acrescentada há três semanas com letra mais cuidadosa do que o costume: escritor, como as minhas irmãs.


A mais velha leu isso e não disse nada. A mais nova foi à casa de banho fingir que estava a lavar os dentes.


O primeiro dia foi o mais estranho. Acordámos tarde, o que devia ser bom e não foi. Um pequeno-almoço sem ninguém a perguntar se havia cereais. Uma manhã sem ninguém a interromper três vezes seguidas para mostrar um vídeo de um animal que fez uma coisa engraçada.


A mais velha tentou ler. Leu a mesma página quatro vezes.


A mais nova pôs música alta e depois desligou-a porque o barulho tornava a ausência mais óbvia, não menos.


À tarde fomos ao parque, não porque quiséssemos mas porque ficar em casa era pior. Havia um miúdo de talvez seis ou sete anos com o mesmo blusão cinzento e a mesma maneira de correr com os braços um pouco afastados do corpo, prestes a levantar voo.


A mais velha disse: parece ele.


A mais nova disse: não parece nada.


Ele é irritante. Interrompe filmes no momento errado. Come o último iogurte e deixa a embalagem no frigorífico como se isso contasse. Faz perguntas que não têm resposta e fica à espera de resposta na mesma. Quer sempre mais um jogo, mais uma história, mais cinco minutos.


Os cinco minutos a mais eram também cinco minutos de companhia. As perguntas sem resposta eram também conversas. O iogurte que faltava era também a prova de que alguém tinha estado ali.


Na noite do terceiro dia, a mais velha foi ao quarto dele buscar um livro que ele tinha pedido emprestado há semanas e nunca devolveu. Estava em cima da mesa de cabeceira com um marcador de cartolina cor-de-laranja onde ele tinha escrito, com a letra grande de quem ainda está a aprender: não tirar, estou a ler.


Ficou ali parada sem o apanhar.


A mais nova apareceu à porta e viu. Sentou-se na cama dele, que cheirava ainda ao champô que usa desde os quatro anos porque se recusa a mudar porque diz que o outro faz espuma a menos. Ficámos as duas ali um bocado no quarto pequeno cheio das coisas dele.


Ele volta na segunda-feira. Já contámos os dias — não em voz alta, porque isso seria admitir demasiado, mas contámos.


Quando chegar vai fazer barulho desde a entrada. Vai querer mostrar alguma coisa que trouxe ou que fez ou que aprendeu. Vai perguntar se ainda há cereais. Vai ocupar o meio do sofá e o copo com o elefante e o corredor com as listas coladas na parede.


Não vamos dizer-lhe nada disto. Mas vamos deixar-lhe os cereais.




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