Cinco e Vinte e Três
- O Caderno

- há 4 dias
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Leonor raspou com a unha a crosta de tinta seca presa ao aro do datador, bateu-lhe duas vezes no tampo e voltou a alinhar a pilha das requisições que já não iam seguir naquele dia.
O gesto saía-lhe sempre igual, com a pequena violência de quem não suporta que o papel fique torto. Na janela aberta, a persiana deixava entrar uma luz cor de farinha velha.
Do campo de jogos vinha o choque oco de uma bola mal pontapeada, depois um assobio, depois nada.
A escola, àquela hora, começava a esvaziar-se por dentro, não de uma vez, mas em pequenas desistências: uma porta que fechava, uma cadeira arrastada ao longe, um riso mais agudo no corredor e, de seguida, o silêncio a ocupar o lugar que sobrava.
Tirou os óculos, limpou-os à ponta da camisola e ia guardá-los na gaveta quando ouviu a palma da mão no vidro da porta, um toque tímido, de quem não sabe se ainda é tempo.
— Desculpe.
Ela voltou-se já com a expressão de quem responde não antes de ouvir o pedido.
O homem estava à entrada, de pasta debaixo do braço, camisa azul escura colada entre os ombros e o peito, manchas de suor junto às axilas.
Tinha o cabelo curto, com alguns fios brancos muito nítidos junto às têmporas, e aquela pele dos homens que trabalham ao ar livre sem trabalharem propriamente no campo: não era queimadura, era gasto.
Leonor olhou primeiro para a pasta, depois para os sapatos sujos de pó claro, depois para a cara.
Não o reconheceu logo. Reconheceu-lhe apenas qualquer coisa no modo de ficar imóvel depois de falar, como se já esperasse a recusa e preferisse recebê-la depressa.
— Os serviços fecharam às cinco — disse ela.
Ele olhou para o relógio do corredor, por cima do ombro, embora de onde estava nem sequer visse os ponteiros.
— Eu sei. Cheguei mesmo em cima. Vim de Miranda. O autocarro atrasou-se.
Leonor pousou os óculos na mesa.
— E então?
O homem entrou um passo, sem avançar demasiado, respeitando a linha invisível do balcão baixo que separava os outros da papelada, dos carimbos, do arquivo, de tudo o que dava ordem às coisas.
— Precisava de uma certidão de habilitações. Disseram-me que era aqui.
A resposta dela saiu sem esforço.
— É aqui. Segunda-feira de manhã.
Ele apertou a pasta contra o corpo, não por nervosismo, mas para a segurar enquanto pensava.
— Eu precisava mesmo hoje.
— Hoje já não.
— É para entregar na segunda, em Bragança. Tenho de sair cedo. Se levar isto na mão, entrego logo.
Leonor fez rodar a cadeira e puxou o livro de registos mais recente só para o fechar de novo, num gesto que não servia para nada, a não ser dar à conversa um chão administrativo.
— Se é para segunda, vem buscar segunda, à abertura.
— Não consigo.
Ela levantou os olhos para ele pela primeira vez de frente.
— Então faz o pedido e manda alguém buscar.
— Não tenho quem.
Aquilo irritou-a mais do que devia. Não o facto, mas a forma nua, quase limpa, com que ele o disse. “Não tenho quem.”
As pessoas diziam muitas vezes coisas desse género ao balcão, mas diziam-nas carregadas de explicação, com o prazer um pouco amargo de mostrar ao funcionário o peso da própria vida. Este não. Disse-a e ficou à espera, como quem põe uma carteira em cima da mesa.
Leonor puxou uma folha de requerimento.
— Nome completo.
Ele deu-lho.
A meio do apelido ela ergueu a cabeça.
— Valente?
— Sim.
Voltou a olhá-lo, desta vez com mais vagar. O maxilar forte, agora emagrecido. O vinco antigo junto ao canto da boca. Os olhos claros, mais pequenos do que ela recordava, ou então a memória tinha-lhe alargado os olhos a toda a gente.
— O senhor andou aqui.
Ele sorriu, sem mostrar os dentes.
— Andei.
— Pois andou.
Não disse mais nada durante alguns segundos. Continuou a preencher a folha devagar, como se o reconhecimento viesse da ponta da esferográfica e não da cara dele.
Marco Valente. Turma C. Mau aluno a Matemática, muito falador no oitavo ano, menos no nono, outra vez falador no décimo. Chegara a passar duas ou três vezes por aquele gabinete, chamado por faltas, por papéis em atraso, por uma assinatura do encarregado de educação. Uma vez com o lábio aberto. Outra com uma camisola roubada a outro rapaz, ou era ao contrário, já não sabia. Lembrava-se sobretudo de o ter visto sentado no banco do corredor, pernas abertas, cabeça baixa, ao lado de Duarte, o seu filho, ambos com o mesmo ar insolente de quem ainda acredita que nenhum desastre é definitivo.
— Preciso do número do cartão de cidadão — disse ela.
Marco tirou a carteira do bolso de trás e entregou-lhe o documento por cima do balcão. Ao receber o cartão, Leonor reparou nas mãos dele. Dorsos ásperos, unhas limpas demais para aquelas mãos, uma cicatriz branca junto ao polegar esquerdo.
— O senhor acabou o décimo segundo? — perguntou.
— Acabei depois. Nas novas oportunidades, já em adulto. Mandaram-me vir cá porque isto foi tudo feito a partir do vosso processo.
Aquela frase — “isto foi tudo feito” — fez-lhe impressão. As pessoas falavam da própria vida académica como quem fala de uma marquise legalizada ou de um muro levantado à pressa: uma coisa feita em cima de outra, a ver se pega.
— E para que é a certidão?
— Trabalho.
— Trabalho onde?
Ele encolheu ligeiramente um ombro.
— Ainda não é certo.
— Se não é certo, não precisa de tanta pressa.
Marco não respondeu logo. Do campo chegou outro pontapé, depois o coro desordenado de miúdos já sem professor por perto. Uma porta bateu algures no piso de cima. O calor subia do linóleo do corredor num bafo doce, misturado com detergente e pó de giz.
— É um concurso — disse ele. — Se não entregar tudo até segunda, fico de fora antes de entrar.
Leonor pôs o cartão ao lado da folha.
— Isso não muda o funcionamento dos serviços.
Marco acenou, uma vez apenas. Não discutiu. Olhou para a janela, para os dossiês, para o armário metálico cinzento encostado à parede. Leonor conhecia aquele tipo de olhar.
Não era o olhar de quem insiste; era o de quem começa a medir a humilhação, a ver quanto mais consegue estar ali sem descer um degrau difícil de voltar a subir.
Ela pegou no datador, pousou-o, tornou a pegá-lo.
— O senhor esteve na turma do Duarte.
Marco olhou-a de novo, desta vez menos resguardado.
— Estive.
— Lembrei-me agora.
— Já lá vão muitos anos.
— Vão.
Ele sorriu com a boca fechada. Havia cansaço naquele sorriso, mas nenhum pedido de cumplicidade. Leonor detestava quando lhe pediam cumplicidade à custa do passado.
Aquilo, ao menos, não.
— O Duarte era melhor aluno do que eu — disse ele.
Leonor não respondeu. Puxou a folha para si, leu o que já tinha escrito, endireitou uma linha do formulário que não estava torta.
— E como está ele? — perguntou Marco, quase no fim da pergunta, com o “ele” já mais baixo do que o resto.
Leonor ergueu a cabeça devagar.
— Não sei.
Marco pensou que ela estava a responder de má vontade, ou por educação seca, mas depois ficou quieto. Alguma coisa na maneira como ela disse “não sei” tirava à frase o feitio das frases feitas. Não era uma resposta para fechar assunto; era um lugar.
— Ah — disse ele, e mais nada.
Leonor sentiu no corpo inteiro a irritação súbita de ter dito a verdade a um homem que viera pedir uma certidão. Não era assunto dele. Não era assunto de ninguém ali. Havia dois anos menos alguns meses que não via o filho. O último encontro fora num domingo de janeiro, na casa dela, com um saco de roupa sobre a cadeira da cozinha e um copo por lavar ao lado do lava-loiça. Depois disso, mensagens falhadas, chamadas que tocavam até ao fim, uma visita combinada e adiada, outra mal falada, pequenas frases atiradas em dias errados. Nada que pudesse ser apontado como a causa. Por isso mesmo doía mais.
Não havia episódio para odiar com limpeza. Havia só aquela erosão miúda, quase doméstica, em que as coisas cedem sem barulho.
Empurrou a cadeira para trás.
— Espere aí.
Marco afastou-se um passo.
Leonor levou o cartão e a folha até à sala do arquivo intermédio, uma divisão estreita com duas estantes, um ventilador de pé e cheiro a papel húmido. Acendeu a luz, que piscou duas vezes antes de segurar.
Os processos antigos estavam arrumados por anos letivos, cursos, transferências, equivalências, uma série de palavras que davam à desordem humana a aparência de uma ciência. Procurou a caixa de 2007-2008, depois a de 2008-2009. Sentia o suor a descer-lhe pelas costas, preso ao soutien, o elástico da saia a marcar-lhe a barriga. Puxou a caixa errada, praguejou em voz baixa, tornou a pousá-la.
Encontrou finalmente a pasta com o nome dele. Folhas amarelecidas, uma fotocópia mal cortada do bilhete de identidade antigo, duas participações disciplinares, um requerimento assinado pela mãe.
A letra da mulher era redonda, inclinada para a direita, cheia de cuidado. Leonor leu sem querer uma frase solta: “venho por este meio solicitar”. Durante um instante viu a mãe do rapaz no corredor, lenço castanho ao pescoço, saco de supermercado na mão, os olhos já cansados antes dos cinquenta.
Voltou ao gabinete com a pasta encostada ao peito.
Marco continuava no mesmo sítio. Tinha pousado a pasta dele no chão e olhava uma fotografia num placard junto à porta — uma turma de nono ano num concurso de leitura, todos de t-shirt branca. Leonor viu-o afastar os olhos antes de ela entrar, o que lhe agradou sem razão.
— O processo está cá — disse.
— Então dá para fazer?
— Dar, dá sempre. O problema não é dar. O problema é assinar, registar, numerar, fechar o expediente.
Ele anuiu.
Leonor sentou-se e abriu o sistema no computador. A ventoinha interna arrancou com um ruído áspero. Introduziu o número, procurou o registo, encontrou a certificação do percurso concluído anos depois. Havia ali tudo o que era preciso, menos a disponibilidade do mundo.
— Quem lhe disse que vinha cá hoje? — perguntou.
— No centro de emprego. A rapariga disse que, se eu viesse antes de fechar, ainda podia ter sorte.
Leonor soltou um bafo curto pelo nariz.
— Sorte não é serviço.
Marco aceitou a frase sem se defender.
— Eu sei.
Ela ficou a olhar para o ecrã, para a caixa onde bastava clicar e gerar o documento.
Bastava e não bastava. Havia campos obrigatórios, número sequencial, assinatura da direção, selo branco. Podia imprimir um rascunho. Podia fazer uma declaração informal.
Podia, sobretudo, dizer que não.
— O trabalho é onde? — perguntou outra vez.
— Num armazém. Não é nada de especial.
— Se não é nada de especial, tanto faz.
Desta vez ele sorriu com cansaço aberto.
— A senhora continua igual.
Leonor sentiu a frase entrar-lhe mal, não como ofensa, mas como coisa antiga demais.
— Igual a quê?
— A falar como quem já sabe que os outros se vão desorganizar.
Ela pousou as mãos sobre a mesa. Tinha as mãos pequenas, fortes, uma aliança já sem uso no anelar direito porque mudara de dedo depois da viuvez e depois deixara de a usar de todo. Não gostou de ser vista daquele modo, embora reconhecesse a justiça.
— E o senhor continua a chegar tarde.
— Sim.
Ficaram em silêncio. O ventilador de um gabinete vizinho ligou-se e espalhou um cheiro a pó quente. No corredor passaram duas funcionárias da limpeza, a conversar baixo, e uma delas espreitou pela porta, viu Marco e Leonor frente a frente e seguiu sem cumprimentar, por delicadeza ou prudência.
Leonor puxou uma folha timbrada para a impressora manual.
— Isto não é a certidão — disse. — É uma declaração provisória de que o registo existe e pode ser confirmado. Sem selo branco. Sem número definitivo. Se lha aceitarem, muito bem. Se não aceitarem, volta cá.
Marco não se mexeu.
— Pode fazer isso?
— Estou a fazê-lo.
Começou a escrever, não no computador, mas à mão, com uma letra firme que só alargava quando estava cansada. “Para os devidos efeitos se declara…” Detinha-se nas vírgulas. Não por perfeccionismo; por defesa. Cada pausa evitava outra espécie de pensamento.
— Tem filhos? — perguntou de repente, sem erguer os olhos do papel.
A pergunta saiu-lhe antes de ela decidir se a queria fazer. Marco demorou a responder.
— Tenho uma miúda.
Leonor continuou a escrever.
— Quantos anos?
— Onze.
— Vê-a?
— De quinze em quinze dias. Quando corre bem.
Leonor pousou a caneta.
— Quando corre bem.
— Sim.
A frase ficou entre eles, sem ironia e sem consolo. Marco não explicou mais. Leonor também não pediu. Havia dias em que a idade não aproximava ninguém; apenas tornava mais nítido o inventário do que faltava.
Acabou de escrever, assinou com a sua rubrica comprida e bateu o carimbo da escola no canto inferior esquerdo, onde o gesto tinha menos valor legal e mais peso visual. O som seco do carimbo no papel deu-lhe um alívio físico, curto.
Estendeu-lhe a folha.
— Leve isto. Não lhe prometo nada.
Marco pegou no papel com cuidado excessivo, como se pudesse desfazê-lo com os dedos.
— Obrigado.
— Leia primeiro.
Ele leu de pé, devagar, lábios ligeiramente entreabertos. Leonor observou-lhe o rosto nesse pequeno trabalho. Tinha rugas finas junto aos olhos, um sinal castanho perto da orelha esquerda, barba do dia já a escurecer outra vez no pescoço. De perto via-se melhor que não havia nada do filho naquela cara. O que havia era só a idade certa, o cansaço certo, a obstinação já mais cansada do que orgulhosa. Era isso. Não o filho, mas o lugar onde o filho podia caber se entrasse ali naquele momento.
Marco dobrou a folha uma vez, hesitou e tornou a desdobrá-la, optando por a guardar esticada dentro da pasta.
— A minha mãe morreu no ano passado — disse, ainda com os olhos no papel. — Se ela fosse viva, tinha-me dito para vir cá mais cedo. E tinha razão.
Leonor não respondeu. Aquela informação não pedia resposta. Não era confissão; era arrumação.
Ele fechou a pasta.
— Obrigado na mesma.
— Não diga “na mesma”. Ou agradece ou não agradece.
Marco olhou-a, depois assentiu, quase divertido.
— Então obrigado.
— Vá.
Ele pegou no cartão de cidadão, meteu-o na carteira, inclinou a cabeça num cumprimento breve e saiu. Os passos perderam-se pelo corredor com aquela ressonância vazia dos edifícios públicos ao fim da tarde, quando já não pertencem inteiramente a quem lá trabalha nem a quem lá passou o dia.
Leonor ficou sentada, mãos pousadas na mesa, a ouvir o silêncio voltar ao gabinete por partes. A luz da janela tinha descido um tom. Já não vinha do campo de jogos barulho nenhum; só uma motorizada ao longe, na estrada, e depois o zumbido fino dos tubos de iluminação.
Levantou-se para fechar a janela. No pátio, junto ao portão lateral, viu Marco parar, abrir a pasta e voltar a olhar para a folha, imóvel no calor ainda preso às pedras. Guardou-a de novo, procurou qualquer coisa no bolso, tirou o telemóvel, ficou com ele na mão sem mexer. Ao fim de alguns segundos, tornou a guardá-lo e saiu pelo portão sem olhar para trás.
Leonor fechou a janela, mas não puxou logo a persiana. Voltou para a secretária, arrumou a pasta dele no monte dos processos do dia seguinte e desligou o computador. No ecrã escurecido viu-se por um instante, mal recortada, mais sombra do que cara.
Abriu a gaveta de cima para guardar a caneta. Lá dentro estava o envelope pardo que Duarte lhe deixara em janeiro com algumas contas por acertar e uma chave que nunca chegou a levar. A chave continuava presa a um porta-chaves de borracha azul, já sem brilho, com o nome de uma oficina de pneus. Leonor pegou-lhe, sentiu o metal morno, não do calor do quarto, mas do calor antigo da gaveta fechada.
Pousou a chave em cima da mesa.
Ficou a olhar para ela, sem pensar nada de acabado. Não havia frase. Não havia decisão inteira. Só o fim de tarde, o gabinete quase escuro, o cheiro da tinta do carimbo ainda fresca na folha mata-borrão, e aquela chave pequena fora da gaveta, ocupando mais espaço do que tinha.
Ao fundo do corredor alguém desligou o quadro de um piso e metade das luzes morreu com um estalo seco.
Leonor sentou-se outra vez.
Depois puxou para si uma folha em branco, escreveu no topo o nome do filho e, abaixo, apenas: “Tenho aqui a tua chave.”
Leu a frase uma vez. Dobrou a folha ao meio sem a rasgar, meteu-a na mala e deixou a chave em cima da mesa, ao lado do datador, como se fosse ainda preciso carimbar qualquer coisa antes de sair.




Brilhante!