Pai e filha após doze anos de silêncio
- Alberto Carvalho - Narrador

- há 6 dias
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Atualizado: há 4 dias
A Carta na Gaveta
Uma carta obriga um homem viúvo a enfrentar a falha que destruiu a relação com a filha e que o silêncio nunca reparou.
A faca do pão abriu o envelope pela lombada, sem pressa, como se a pressa pudesse estragar alguma coisa que já vinha estragada de longe.
Artur Monteiro pousou a lâmina no oleado da mesa, alisou o papel com a palma da mão e leu a carta de pé, junto à janela da cozinha, porque foi ali que a luz caiu melhor naquela manhã de dezembro. Tinha o hábito antigo de procurar a luz antes de ler.

Nos Correios, durante quase trinta e oito anos, aprendera a respeitar o papel como se fosse pele: havia envelopes que traziam más notícias pela tensão do vinco, pelo excesso de cola, pelo peso exagerado de uma folha dobrada mais do que o necessário. Havia outros que chegavam leves, demasiado leves, e eram esses às vezes os mais difíceis.
A letra era da Leonor, embora mais apertada do que dantes.
Pai,
na quinta-feira vou a Bragança por causa da escritura da casa da tia Celeste. Se ainda tiver as minhas caixas, queria levá-las. Chego por volta das onze.
Leonor.
Não havia mais nada. Nem “espero que estejas bem”, nem “avisa se não puderes”, nem sequer um ponto final depois do nome.
Artur releu a carta duas vezes, dobrou-a com cuidado e tornou a abri-la, como se à segunda leitura aparecesse qualquer frase que lhe tivesse escapado na primeira. Não apareceu.
A chaleira começou a ferver atrás dele. Desligou o lume. Ficou a olhar para o envelope, para o selo de Porto, para a morada escrita à mão — Rua das Flores, número e andar, sem cidade, porque a cidade já estava impressa no canto do impresso — e teve um pensamento tão pequeno e tão ridículo que teve vergonha dele mesmo estando sozinho: ao menos ainda sabia a morada.
Sentou-se. A cozinha tinha o frio dos sítios onde o inverno entra cedo e sai tarde. A humidade fazia uma mancha escura junto ao canto de cima, por cima do armário branco onde Emília guardava os panos bons e a loiça que quase nunca usavam. Desde que ela morrera, há dois anos e quatro meses, Artur abrira aquele armário uma única vez, para procurar uma terrina que afinal estava noutro lado. Fechara-o logo a seguir, com a sensação de estar a mexer numa casa alheia.
Voltou a ler a carta.
As caixas.
Nem se lembrava quantas eram. Sabia que existiam, isso sabia. Tinham ficado no quarto do fundo quando Leonor foi embora, primeiro em viagem de poucos dias, depois em semanas, depois numa ausência que ao princípio ainda parecia reversível e que, com o tempo, se tornara uma dessas coisas que não se dizem em voz alta porque a gramática da casa não as suporta.
Ao longo dos anos, ele fora mudando as caixas de sítio: do quarto para a arrecadação, da arrecadação para o sótão, do sótão outra vez para o quarto do fundo, quando o telhado começou a meter água. Nunca as abrira verdadeiramente. Tirara-lhes pó, mudara-lhes o jornal de baixo, empilhara-as melhor. Mas abrir, ver, escolher, deitar fora — isso não.
Dobrou a carta e meteu-a no bolso do casaco de malha. Bebeu o café já meio frio, em dois goles curtos, e levantou-se.
O quarto do fundo cheirava a roupa fechada e a madeira húmida. Artur abriu a porta devagar, quase à espera de que a divisão se lhe apresentasse como era antes, com os livros da escola em cima da secretária, o casaco de ganga pendurado atrás da porta, o rádio pequeno no peitoril. Mas o que encontrou foi o que já sabia que encontraria: uma cama estreita com a colcha puxada até ao alto, uma cómoda escura, a secretária vazia e, junto à parede, duas caixas grandes de cartão pardo e uma terceira mais pequena, branca, de uma antiga tostadeira.
Ficou parado no meio do quarto, com as mãos atrás das costas.
A janela deixava entrar uma claridade suja. Havia pó no candeeiro do tecto. O papel de parede, creme com uns ramos quase apagados, levantara num canto junto à tomada. Nada ali era grave. Era só o tipo de degradação que os anos fazem sem pedir licença. Ainda assim, Artur sentiu-se surpreendido por uma espécie de desordem moral que não vinha dos objectos, vinha dele. A divisão denunciava sem violência uma coisa simples: ele tinha deixado aquele quarto à espera durante tempo demais.
Ajoelhou-se diante da primeira caixa. No topo, em marcador azul já gasto, lia-se: ESCOLA / CADERNOS. Levantou a tampa. O cheiro do papel antigo subiu logo, seco e doce. Havia dossiers de cartolina, cadernos espiralados, um estojo de pano verde sem canetas, folhas A4 dobradas em quatro, uma flauta de plástico da disciplina de Música, fitas de trabalhos manuais, um saco com berlindes que não eram dela e que ele nunca soubera de onde tinham vindo. Na segunda caixa encontrou livros, uma camisola da faculdade, bilhetes de comboio, um cachecol vermelho, uma pilha de cassetes, duas molduras sem vidro e uma caixa de sapatos com fotografias.
Não abriu a caixa branca. Levantou-a apenas para testar o peso.
Levar isto para baixo sozinho ainda conseguia. O pior não era o peso. O pior era decidir se devia deixar as coisas como estavam ou se lhe competia, por uma vez, fazer o que nunca fizera: separar, deitar fora o inútil, poupar-lhe o incómodo. Mas a ideia de tocar demais no que era dela pareceu-lhe logo errada. Havia objectos que, fora do lugar certo, se tornam ofensa. Tornou a pousar a caixa no chão e olhou em volta, como se alguém fosse aprovar ou corrigir a sua hesitação.
Acabou por fazer o que lhe era natural: começou a limpar.
Trouxe um pano húmido, um balde, o aspirador pequeno. Sacudiu a colcha, abriu a janela, limpou o peitoril, passou o pano pela cómoda, voltou a dobrar a roupa de cama que já estava dobrada, alinhou a cadeira da secretária, tirou o pó às lombadas de livros que nem eram da Leonor mas tinham ido ali parar anos antes. Ao fim de meia hora já tinha as costas a doer. Endireitou-se com a mão pousada na cintura e ficou ofegante um instante, irritado por o corpo agora se lembrar dele sempre que ele tentava fazer mais do que o necessário.
Na quarta-feira de manhã foi ao café Avenida depois das nove, como fazia quase todos os dias. O mesmo copo de água, a mesma meia de leite, a mesma torrada quando lhe apetecia. O salão ainda cheirava ao detergente do chão. Na televisão, sem som, passavam imagens de um debate qualquer.
Anselmo, antigo serralheiro e actual homem de comentários permanentes, levantou dois dedos quando o viu entrar.
— Ó Artur, então? Vivo?
— Vou andando.
— Isso já é muito — disse Anselmo, e riu-se sozinho da sua frase.
Artur sentou-se no balcão, não numa mesa. Preferia o balcão porque permitia conversas curtas.
A rapariga nova, a Filipa, trouxe-lhe a chávena e a água sem ele pedir. Havia nisso qualquer coisa que lhe agradava e o entristecia ao mesmo tempo: começar a ser conhecido pelos hábitos é uma espécie de conforto, mas também um aviso.
— Ouvi dizer que amanhã fecham a estrada da aldeia por causa da poda — disse Anselmo, virando-se de lado no banco. — Se tens de ir para aqueles lados, vê lá.
— Não tenho.
— Ainda bem. Com esta gente, meia hora de trabalho são três dias de estorvo.
Artur anuiu. Molhou os lábios na meia de leite. Pensou em dizer a alguém que a filha vinha. Não por alegria — a palavra seria excessiva — mas pela simples necessidade de pôr o facto na boca, torná-lo real, ouvi-lo com a voz de fora. Não disse. Pressentiu logo as perguntas: “Vem cá?”, “Fica quanto tempo?”, “Então e ela agora está onde?”, “E ainda se dão?”
Não tinha energia para gerir a curiosidade alheia. Nem, sendo honesto, para se expor à bondade embaraçada de quem sabe mais do que convém e faz de conta que sabe menos.
Pagou e saiu cedo. Ao passar pela praça, o sino da Misericórdia deu as dez. O ar cortava. Havia sol, mas era um sol de metal.
Em vez de voltar logo para casa, subiu ao cemitério.
Não ia lá com regularidade. Durante o primeiro ano, ainda fora mais vezes — domingos, aniversários, o dia dos fiéis defuntos, aquelas datas que as pessoas respeitam mesmo quando já não sabem bem em nome do quê. Depois começara a falhar. Não por desgosto menor, mas por desgaste de hábito. A campa de Emília estava limpa; a pedra clara, o nome dourado ainda inteiro.
Havia um ramo de flores artificiais de uma prima de Vinhais, deixado provavelmente no fim-de-semana.
Artur tirou uma folha seca que o vento prendera entre os vasos e ficou com a mão pousada na pedra fria.
Não rezou. Nunca soubera rezar bem. Tinha sempre a sensação de que estava a falar demasiado tarde.
— A Leonor vem amanhã — disse, quase sem voz, e a frase pareceu-lhe tão absurda, dita ali, que ficou logo arrependido.
Baixou a cabeça, mais por cansaço do que por reverência, e olhou para os próprios sapatos, castanhos, com lama seca junto à sola. Pensou em Emília como pensava nela muitas vezes agora: não na mulher inteira, mas em pormenores da sua forma de estar no mundo.
A maneira como punha as mãos na cintura quando uma coisa não lhe agradava. A limpeza quase combativa com que tratava a casa. A segurança com que respondia ao telefone. O desprezo, às vezes, por qualquer fraqueza que não fosse a dela. Tiveram uma vida decente, pensou ele. Depois corrigiu-se mentalmente: tiveram uma vida inteira. A palavra decente já trazia defesa a mais.
Na quinta-feira acordou antes das seis.
Ainda faltavam horas, mas não conseguiu ficar na cama. Levantou-se devagar para não sentir a fisgada do joelho esquerdo, vestiu-se no escuro, acendeu o esquentador, fez café.
Às seis e meia já tinha a mesa da cozinha limpa, o pão cortado, uma compota aberta, duas chávenas pousadas de lado, embora não soubesse se ela queria café, se tomava chá, se comia alguma coisa, se entraria sequer. Era cedo demais para acender o aquecedor, mas acendeu-o na mesma no quarto do fundo e fechou a porta para guardar algum calor.
Às oito, mudou de camisa.
Às nove, mudou outra vez.
Às dez e um quarto foi à rua ver se o carro estava direito na garagem, como se isso pudesse interessar-lhe. Depois voltou a entrar, correu a mão pelo cabelo já ralo junto ao espelho do corredor e percebeu, com uma espécie de humilhação serena, que tinha passado toda a manhã a preparar-se para uma visita que talvez durasse quinze minutos.
Às onze e dez não havia ninguém.
Às onze e vinte ouviu um carro abrandar. Não o som de quem procura lugar. O som de quem já sabe a casa.
Foi à janela da frente sem se mostrar. Um carro pequeno, cinzento-escuro, estacionou junto ao passeio. A porta abriu. Leonor saiu.
A primeira coisa que lhe notou não foi a cara, foi a maneira de fechar a porta com o corpo ligeiramente de lado, como Emília fazia para não bater demais. Depois viu-lhe o cabelo mais curto, com alguns fios brancos que a luz do meio-dia mostrou sem piedade, viu-lhe o casaco comprido, as botas rasas, a mão direita ocupada com a mala, e sentiu o choque simples de ver num corpo presente tudo o que durante anos tinha sido apenas uma voz rara ao telefone do notário ou uma notícia indirecta trazida por alguém que conhecia alguém.
Não tinha engordado. Também não estava magra. Trazia no rosto a dureza tranquila das pessoas que vivem sem pedir licença. Artur desceu antes que ela tocasse à campainha.
Abriu a porta no momento em que a mão dela ia já no ar.
Ficaram um instante a olhar um para o outro, os dois um pouco curvados pelo frio, como se a educação ainda pudesse organizar uma cena daquelas.
— Olá, pai.
— Olá, Leonor. Entra.
Ela entrou. O cheiro a ar de fora veio com ela: frio, gasóleo, um resto de perfume discreto ou talvez sabonete. Artur fechou a porta.
— A viagem correu bem?
— Correu.
— Apanhaste muito trânsito?
— Só à saída do Porto.
Ela pousou a mala junto ao móvel do corredor e olhou à volta com um cuidado que ele reconheceu imediatamente: não era curiosidade, era cálculo. Ver se a casa tinha mudado muito. Ver se ainda se conseguia andar nela sem tropeçar no passado.
— Queres tirar o casaco? — perguntou ele.
— Daqui a pouco.
— Queres um café?
— Pode ser.
Foi para a cozinha à frente dela, agradecido pela tarefa. Moer café, pôr água, procurar açúcar — qualquer gesto com sequência o acalmava. Sentiu-a entrar atrás de si. Nenhum dos dois falou enquanto ele tirava as chávenas.
— Ainda tens a máquina antiga — disse ela.
— Tenho. Ainda funciona.
— Melhor do que muita coisa nova.
Ele sorriu, sem saber se a frase era apenas sobre a máquina. Serviu-lhe o café e sentaram-se um de frente para o outro. Leonor tirou as luvas devagar, dedo por dedo, e pousou-as dobradas sobre a mesa. Tinha unhas curtas, sem verniz. Na mão esquerda usava uma aliança fina e outra mais larga, lisa, noutro dedo. Artur viu-as e desviou os olhos demasiado depressa.
— As caixas estão prontas — disse ele. — No quarto do fundo. Eu… limpei aquilo.
— Obrigada.
Ela tomou um gole de café, depois olhou-o melhor.
— Estás mais magro.
— Não sei. Talvez.
— Tens andado bem?
— Vou andando.
Ela anuiu, e nessa anuência havia uma espécie de cansaço antigo, como se certas perguntas fossem feitas por obrigação civil e não por fé na resposta.
— A escritura é às três — disse. — Pensei passar primeiro aqui, carregar as coisas, almoçar qualquer coisa e depois ir tratar disso.
— Sim, sim. Fazes bem.
— Não te vou tirar muito tempo.
A frase ficou entre ambos mais dura do que provavelmente ela queria. Artur mexeu no pires com o polegar.
— Podes tirar o tempo que quiseres — disse ele, e sentiu logo a pobreza daquela formulação, porque o tempo que importava não era o de uma manhã.
Leonor não respondeu. Levantou-se primeiro.
O quarto do fundo pareceu a Artur mais pequeno quando entrou com ela. Talvez por a ver ali, em pé junto à cama, a mão pousada no espaldar da cadeira, como se o corpo soubesse antes da cabeça onde procurar apoio. Ela olhou em volta sem tocar logo em nada.
— Pintaste isto?
— Não. Só limpei. O papel ainda é o mesmo.
— Pois é.
Aproximou-se da secretária. Passou a ponta dos dedos pelo verniz já gasto num canto.
Abriu a gaveta de cima e voltou a fechá-la. Depois ajoelhou-se junto às caixas.
— Ainda tens a minha letra — murmurou, ao ver o “ESCOLA / CADERNOS”.
— Não mexi em quase nada.
— Quase?
— Tirei só o pó. E mudei de sítio algumas coisas por causa da água no telhado, há uns anos.
— Fizeste bem.
Ela abriu a caixa dos cadernos e começou a mexer no conteúdo sem verdadeira atenção, mais para dar trabalho às mãos do que por necessidade de ver. Tirou um dossier, sorriu quase imperceptivelmente ao encontrar um teste de História com uma nota alta e um comentário da professora, voltou a pousá-lo. Na caixa seguinte encontrou o cachecol vermelho, abanou-o uma vez para lhe sacudir o pó.
— Ainda existe — disse.
— A tua mãe nunca deitou nada fora.
Mal acabou a frase, Artur arrependeu-se. Leonor pousou o cachecol no colo e ficou um instante sem falar.
— Não — disse ela, por fim. — Isso é verdade.
O silêncio que se seguiu foi dos bons e dos maus ao mesmo tempo: não era hostil, mas também não vinha em socorro de ninguém.
— Queres que eu leve isto para baixo? — perguntou ele.
— Já vamos. Primeiro quero ver o que está aqui.
Foi abrindo a caixa branca. Lá dentro estavam papéis soltos, cadernos de desenho, duas revistas velhas, uma bolsa com fotografias e, por baixo de tudo, uma moldura sem vidro onde ainda se via o encaixe gasto de um retrato em tempos retirado à pressa.
Leonor tirou um caderno espiralado, folheou duas páginas e fechou-o. Depois outro. Num deles, preso entre folhas, caiu um bilhete de autocarro já amarelecido. Ela apanhou-o do chão.
— Meu Deus.
— O que é?
— Nada. Um bilhete para Vila Real. Devia ter ido ver a Cláudia nesse fim-de-semana.
Disse o nome sem ênfase, como quem sabe que a palavra, sozinha, já basta. Artur sentiu logo o corpo endurecer num ponto preciso entre o estômago e o peito. Não por surpresa. Pelo contrário: pela familiaridade intacta daquele desconforto, como se os anos tivessem passado todos por cima, menos ali.
— Ainda falam? — perguntou, e ouviu-se a si próprio como quem testa uma ponte frágil.
Leonor continuou a olhar para o bilhete.
— Não.
— Ah.
— Já não há muitos anos.
Ela pôs o bilhete dentro do caderno e pousou-o no chão, ao lado.
— Às vezes penso que o que me custou mais nem foi o que a mãe disse naquele dia — disse, ainda de cócoras. — Foi perceber a velocidade com que uma casa inteira muda de temperatura.
Artur não respondeu logo. Tinha uma mão pousada no rebordo da cómoda e sentia o verniz frio debaixo dos dedos.
— A tua mãe… — começou ele.
Leonor levantou-se de repente, com o joelho a estalar.
— Não, pai. Não faças isso.
— O quê?
— Não me tragas a mãe para a frente como se eu tivesse vindo cá para discutir com uma pessoa morta.
A frase não foi dita alto. Talvez por isso lhe bateu mais.
Artur baixou os olhos.
— Tens razão.
Ela respirou fundo, uma vez, como quem empurra uma coisa de volta para dentro.
— Eu não vim por causa disso — disse. — Vim buscar caixas e tratar da casa da tia Celeste. Só isso.
— Eu sei.
Mas não sabia só isso. Sabia, pelo menos, que a frase era uma tábua posta sobre água funda.
Desceram as caixas em duas viagens. Artur carregou as duas maiores até à porta da rua, recusando ajuda com uma teimosia quase infantil. Leonor levou a branca e a mala.
Quando pousaram tudo junto ao carro, ela abriu a bagageira e começou a arrumar as caixas com a prática de quem está habituada a fazer caber a própria vida em espaços medidos.
— Ainda queres almoçar qualquer coisa? — perguntou ele, junto ao passeio.
Ela fechou a bagageira a meio e ficou a olhar para ele.
— Se não te atrapalhar.
— Não atrapalha nada.
Acabaram por comer em casa. Artur aqueceu sopa, fritou dois filetes que tinha comprado na véspera sem saber se seria excessivo, cortou pão. Leonor ajudou a pôr a mesa sem perguntar onde estavam as coisas; sabia ainda. O gesto foi tão simples que o desarmou mais do que qualquer frase. Durante alguns minutos, pareceram duas pessoas a cumprir um hábito suspenso, e a cozinha quase conseguiu iludir-se.
— A tia Celeste deixou mais dívidas do que eu pensava — disse Leonor, enquanto partia pão. — A casa vai vender-se, mas não sobra grande coisa.
— Ela sempre foi desorganizada.
— Era. Mas tinha graça.
— Tinha.
— Tu gostavas dela.
— Gostava.
Era verdade. Celeste, irmã de Emília, fora talvez a única pessoa naquela família capaz de rir profundamente. Também por isso fora tratada muitas vezes como irresponsável. Artur lembrava-se dela a chegar aos almoços de domingo com histórias, malas desalinhadas e perfumes fortes, e a ser corrigida em voz baixa pela irmã antes de se sentar.
Leonor levou a colher à boca, provou a sopa e disse:
— Ainda fazes a sopa com excesso de nabiça.
— Sempre foi assim.
— Eu sei.
Houve um quase-sorriso. Artur sentiu-o e teve a tentação absurda de proteger aquele momento, como se uma palavra a mais pudesse quebrá-lo.
— E tu? — perguntou. — Estás bem no Porto?
— Estou.
— Continuas na mesma livraria?
— Não. Saí há três anos. Agora trabalho numa distribuidora de material escolar.
— Ah. Isso é melhor?
— É mais certo.
A palavra ficou-lhe no ouvido. Mais certo. Não melhor, não pior. Certo.
— E… — começou ele, e ficou sem saber onde pôr o resto da frase. E a tua vida? E a tua casa? E se estás sozinha? E se há alguém? E se foste feliz? Nenhuma destas perguntas lhe pertenceu verdadeiramente ao longo dos anos; porque não as fizera quando ainda poderia ter aprendido a fazê-las, todas lhe saíam agora disformes.
Leonor poupou-o.
— Tenho uma vida normal, pai — disse. — Trabalho, pago contas, às vezes vou ao mar ao domingo, às vezes não me apetece falar com ninguém, às vezes janto fora. Não há grande romance para contar.
— Não era romance que eu queria.
— Eu sei.
Ele não sabia se ela sabia mesmo. Mas agradeceu-lhe a frase.
Comeram o segundo prato mais devagar. Depois Leonor empurrou a cadeira um pouco para trás, pousou as mãos no colo e olhou para a mesa limpa entre ambos.
— Naquele dia — disse ela, sem preparação — eu fiquei à espera de uma frase tua.
Artur sentiu logo no corpo que o momento, esse momento, chegara afinal e chegara exactamente como chegam as coisas importantes: sem cerimónia.
Não perguntou “que dia”. Sabia.
A cozinha pareceu-lhe demasiado iluminada. O barulho do frigorífico, que antes mal ouvia, tornou-se insistente.
— Eu sei — disse, e a honestidade daquela resposta surpreendeu-o, porque só naquele instante percebeu que sabia de facto. Não os pormenores, não a coreografia toda, não a ordem exacta das vozes. Sabia a ausência.
Leonor olhava para a toalha, não para ele.
— Nem era preciso concordares comigo — disse. — Nem perceberes tudo. Nem gostares. Eu naquela altura nem te pedia isso. Só estava à espera que dissesses uma frase.
Artur demorou.
— Qual?
Ela ergueu finalmente os olhos.
— Qualquer uma que me deixasse perceber de que lado da porta é que tu ias ficar.
A frase não foi dura. Foi pior: foi exata.
Artur abriu a boca, fechou-a, e por um segundo teve a sensação física de estar a chegar muito tarde a uma estação onde o comboio já partira há anos e, no entanto, ainda se ouvia ao longe.
— Eu fiquei no lado errado — disse.
Leonor não o interrompeu. Talvez porque a frase, dita assim, curta, sem desculpa nem emenda, era a primeira coisa verdadeira que ele lhe entregava sobre o assunto.
— Fiquei a pensar que… — começou, e parou. Não queria estragar aquilo com justificações. Mas a cabeça, habituada a defender-se, lançou-lhe na mesma as velhas fórmulas: a tua mãe estava exaltada, a casa estava cheia, eu não soube, eu nunca pensei que fosses embora de vez. Sentiu-as todas e afastou-as como se afastam moscas de um prato.
— Eu tive medo — disse por fim. — Não de ti. Da confusão. Do que os outros iam dizer.
Da tua mãe. Da vergonha. Dessa vergonha de aldeia, de corredor, de família. E achei, estupidamente, que se ficasse quieto aquilo passava. Não passou.
Leonor ouviu sem mexer nas mãos.
— Não — disse. — Não passou.
— Depois… depois cada mês que passava tornava mais difícil dizer qualquer coisa.
— Pois.
— E quando quis…
Ela abanou a cabeça, mas sem brusquidão.
— Quando quiseste já eu tinha feito o trabalho todo sozinha.
Artur aceitou a frase. Não havia defesa possível que não fosse também ofensa.
Do lado de fora, um carro travou junto ao cruzamento e voltou a arrancar. A vida dos outros manteve-se inteira, sem solenidade. Artur olhou para as mãos. Eram mãos que sabiam fechar sacos de serapilheira, dobrar impressos, trocar uma fechadura, segurar um volante em estradas de gelo. Nunca tinham sabido bem isto.
— Eu não te peço que me perdoes — disse, e percebeu logo, com uma clareza quase cómica, como a frase soava a gente que aprende tarde a falar pelo cinema. Ainda assim, continuou. — Só não queria morrer sem dizer que sei.
Leonor deixou escapar ar pelo nariz, uma espécie de riso sem alegria.
— Não digas essas coisas.
— Quais?
— Essas de morrer. Como se isso agora resolvesse algum balanço.
— Não resolve.
— Não.
Ficaram quietos. Depois ela pousou as palmas das mãos na mesa, uma de cada lado do prato já vazio.
— Eu não vim cá para fazer as pazes de filme nenhum — disse. — Mas também não vim para fingir que não ouvi isso.
Artur assentiu.
— Está bem.
Ela levantou-se para levar os pratos ao lava-loiça. Ele também se levantou.
— Deixa, eu lavo.
— Eu ajudo.
Lado a lado, na cozinha estreita, lavaram a loiça como quem executa uma tarefa simples demais para o que acabara de acontecer. Leonor ensaboava, Artur passava por água, ela pousava no escorredor. A proximidade dos corpos, os cotovelos quase a tocarem-se, o barulho da água — tudo isso lhe pareceu ao mesmo tempo banal e quase insuportável.
— Tens toalhas novas — disse ela, olhando para o pano pendurado.
— Comprei no mercado.
— Nota-se que escolheste tu.
— Porquê?
— Porque são feias e resistentes.
Ele riu-se, e desta vez o riso saiu inteiro, pequeno mas inteiro. Leonor sorriu também, virada para o lava-loiça, e por um segundo viu-a menina, não na cara, que já não lha devolvia, mas no modo como inclinou a cabeça ao rir.
Quando terminou de secar o último copo, ela olhou para o relógio.
— Tenho de ir andando.
— Sim.
No quarto do fundo, antes de sair, pegou num caderno de capa preta que tinha deixado em cima da cama.
— Isto fica — disse.
— Não o queres?
— Não. Esse pode ficar.
Não explicou. Artur também não perguntou.
Desceram à rua. O frio tinha apertado outra vez. Leonor abriu a porta do carro, depois voltou-se para ele.
— Não sei quando volto — disse.
— Está bem.
— Mas se precisares mesmo de alguma coisa… daquelas coisas concretas… podes ligar.
“Daquelas coisas concretas.” Contas, médicos, papéis, uma fechadura, uma queda. Artur percebeu a delimitação e aceitou-a como se aceita um cobertor curto no inverno: não chega para tudo, mas é o que há.
— Está bem — repetiu.
Ela hesitou um instante. Depois aproximou-se e beijou-o na face. O gesto foi rápido, sem encenação, mas não automático. Artur ficou imóvel, tomado por uma gratidão tão abrupta que quase lhe pareceu indecente.
— Adeus, pai.
— Adeus, Leonor.
Viu o carro afastar-se até ao fim da rua, virar à esquerda e desaparecer. Ficou no passeio mais alguns segundos, de mãos nos bolsos, até sentir o frio atravessar o casaco.
Dentro de casa, o silêncio já não era o mesmo. Não era melhor. Talvez só estivesse deslocado uns centímetros.
Arrumou a mesa, endireitou uma cadeira que não precisava de ser endireitada, desligou o aquecedor do quarto do fundo e entrou lá outra vez sem motivo certo. A luz da tarde começava a baixar. Em cima da cama estava o caderno preto que ela deixara.
Artur sentou-se na beira da cama e pousou o caderno no colo. Não o abriu logo. Passou a mão pela capa, onde ainda se viam marcas de pressão, como se durante anos tivesse havido ali outros cadernos por cima. Por fim abriu-o.
Não eram textos. Eram desenhos. Rostos a lápis, mãos, janelas, um jarro, um sapato, a curva de um pescoço visto de lado. Folheou devagar. A certa altura encontrou, dobrada entre duas folhas, uma fotografia pequena. Tirou-a com cuidado.
Leonor, muito nova, talvez vinte anos, estava encostada a um muro baixo junto ao mar.
Ao lado dela, uma rapariga morena, de cabelo apanhado, ria-se para fora da imagem. Não estavam abraçadas. Havia apenas a mão da outra pousada na manga do casaco de
Leonor, num gesto leve, quase distraído. Mesmo assim, ou talvez por isso, a fotografia continha qualquer coisa que não precisava de legenda.
Artur ficou a olhar para ela durante muito tempo.
Lembrou-se, então, com uma nitidez que o feriu, do dia em que encontrara aquela fotografia pela primeira vez. Não fora Emília. Tinha sido ele, ao arrumar papeladas da secretária. Vira-a, reconhecera de imediato o que ali estava e fizera o que faria depois tantas vezes na vida: não destruir, não assumir, apenas esconder. Pusera-a numa gaveta. Dias mais tarde, quando a tempestade doméstica rebentou por outro lado, com outras palavras, com a voz de Emília a subir de tom e Leonor junto à porta da cozinha a tremer sem recuar, essa pequena cobardia já estava feita havia muito. O silêncio começa quase sempre antes do momento a que depois damos nome.
A fotografia tremia-lhe agora entre os dedos.
Levantou-se, foi à cómoda e abriu a gaveta de cima. Dentro havia apenas dois lenços passados a ferro e uma fita métrica antiga. Ia meter a fotografia lá dentro por hábito, pelo reflexo de décadas. Parou a mão a meio.
Olhou para a divisão, para a cama estreita, para a janela onde a humidade deixava um traço escuro no canto. Depois fechou a gaveta vazia.
Pousou a fotografia em cima da cómoda, encostada ao espelho.
A moldura não existia, o vidro também não, e mesmo assim a imagem ficou de pé, torta primeiro, depois direita quando ele a acertou com a ponta do dedo.
Artur recuou dois passos. Não parecia grande coisa. Não resolvia nada. Não alterava os anos. Não trazia ninguém de volta ao que não fora. Era só uma fotografia pousada à vista num quarto frio de uma casa antiga, numa tarde de dezembro.
Ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, o quarto do fundo deixou de parecer uma sala de espera.
Ao fim do dia, quando a luz começou a desaparecer e a fotografia se tornou apenas um rectângulo mais claro sobre a madeira escura, Artur não a voltou a esconder.
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