Batina e Kremlin: propaganda ortodoxa em Washington
- Frei Lourenço de Santa Clara - Narrador

- 29 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Opinião · Mundo · Estados Unidos/Rússia/Ucrânia · Religião & Influência Política.
Naqueles dias em que Washington se enche de coroas de Natal, discursos sobre “valores” e fotografias com velas acesas, houve uma visita ao Capitólio que merecia menos incenso e mais atenção.
A acusação levada ao Capitólio.
Não porque a fé não conte — conta — mas porque, às vezes, a fé é usada como embalagem. E a embalagem, quando vem carimbada por uma máquina de influência, serve precisamente para evitar que se olhe para o conteúdo.
Foi o que aconteceu com a delegação de clérigos ortodoxos e intermediários que circulou por gabinetes e corredores (com barbas, cruzes e gravidade bem ensaiada), a repetir uma mensagem simples, eficaz e feita para consumo americano: a Ucrânia persegue cristãos.
A acusação tem o apelo certo. Toca no ponto exato onde muitos conservadores e muitos crentes americanos reagem por instinto: liberdade religiosa, igreja, perseguição, mártires. E é por isso que funciona. Porque, quando uma narrativa acerta no nervo moral, raramente se pergunta o que falta. (E o que falta é sempre o essencial.)
A frase — dita, insinuada, reenviada, reciclada — é conhecida: a igreja “está praticamente banida”.
Kiev fecha templos.
Reprime fiéis.
Criminaliza a ortodoxia.
Quem ouve isto, sem contexto, imagina logo um Estado anticristão a esmagar procissões.
Mas a Ucrânia não é um país descrente. Pelo contrário: a religião ali não é decoração; é tecido social.
A guerra, aliás, fez o que as guerras fazem a muita gente: empurrou-os para o que é último.
Há missas, há velas, há funerais, há capelães, há salmos ditos com a voz presa. E há também uma realidade que o Kremlin (e os seus ecoadores) tenta apagar: a Ucrânia não está a fazer “guerra à fé”. Está a fazer guerra — defensiva — a redes de influência do agressor.
O ponto de viragem foi político e jurídico.
Em 2024, o Parlamento ucraniano aprovou legislação destinada a impedir que organizações religiosas subordinadas a centros num “Estado agressor” atuem como prolongamento desse Estado. A lei não é um slogan; é um instrumento de segurança em tempo de invasão. É discutível? Pode ser. Há alertas e críticas no plano dos direitos fundamentais? Há. Mas uma coisa é discutir os limites de uma lei num Estado em guerra; outra é vender a lei como se fosse uma cruzada anticristã.
Até porque o campo ortodoxo ucraniano não é um bloco único (e isto é sempre omitido quando dá jeito).
Desde 2018/2019, existe uma estrutura ortodoxa ucraniana reconhecida por Constantinopla como independente — a Igreja Ortodoxa da Ucrânia.
Em paralelo, existe a outra estrutura, historicamente ligada a Moscovo, que se move numa zona cinzenta de jurisdição, legitimidade e lealdades. E é aqui que a história fica menos confortável para quem gosta de frases curtas.
Porque, quando se fala de “perseguição”, a pergunta que não querem ouvir é esta: perseguição a quê — à fé, ou a uma arquitetura de dependência que, durante décadas, foi uma ferramenta política russa?
Nos Estados Unidos, aprenderam (bem ou mal) a viver com a separação entre igreja e Estado.
A Rússia, pelo contrário, fez da fusão um método.
No Império, a igreja foi coluna do poder.
No comunismo, foi penetrada, controlada, usada. No putinismo, tornou-se uma das faces públicas do regime — a face que benze, legitima e moraliza aquilo que, sem bênção, seria apenas violência nua.
O Patriarca Kirill não é um espectador. É ator. E não apenas por linguagem geral de “paz”: o seu discurso tem servido, repetidamente, para enquadrar a invasão como combate espiritual, para dar ao conflito uma aura de destino e de “missão”.
Não se trata de uma igreja esmagada por um tirano; trata-se, muitas vezes, de uma hierarquia que escolheu estar ao lado do tirano.
E, quando se olha para o que acontece no terreno, percebe-se porque é que a Ucrânia insiste em falar de segurança e espionagem (e não de teologia).
As autoridades ucranianas têm acusado membros do clero ligado a Moscovo de colaboracionismo e de apoio operacional ao invasor; há casos, investigações, detenções — e, do outro lado, negações e contestação.
O ponto, porém, não é afirmar que “todos são espiões”. O ponto é este: em guerra, basta que alguns sejam (e que a estrutura sirva de cobertura) para que o Estado se veja obrigado a atuar.
A comparação útil, aqui, é simples e pouco romântica: quando os Estados Unidos combateram a Al-Qaeda e os talibãs, isso não foi “guerra ao Islão”. Foi guerra a organizações violentas. Do mesmo modo, restringir a actividade de estruturas suspeitas de servir um agressor externo não é “guerra ao Cristianismo”. É guerra a redes de influência num conflito existencial.
E há ainda uma ironia que Moscovo detesta ver dita em voz alta. Porque, se alguém quer falar seriamente de perseguição religiosa, não tem de ir a Kiev. Basta olhar para a Rússia.
Na Rússia, denominações cristãs não-ortodoxas — protestantes, evangélicos, baptistas — vivem há anos num ambiente de intimidação, multas, processos e limitações legais.
A legislação “anti-extremismo” e as regras sobre missionação foram sendo usadas como bastão administrativo.
E as Testemunhas de Jeová foram banidas e perseguidas como “extremistas”. Isto não é retórica: é o quotidiano de um Estado que gosta muito de falar de fé (desde que a fé obedeça).
É por isso que a acusação russa contra a Ucrânia soa tão familiar: acusa o outro do que faz em casa. E fá-lo com a segurança de quem sabe que, no mundo saturado de informação, a primeira frase circula; a nota de rodapé morre.
Depois há a dimensão material, aquela que corta qualquer discurso de “defesa da fé” pela raiz.
Desde o início da invasão, a destruição de locais religiosos na Ucrânia tem sido massiva.
Há monitorizações que apontam para centenas e centenas de igrejas, templos e edifícios de culto destruídos ou danificados; algumas estimativas apontam para “pelo menos 630”.
Seja qual for o número exato, a realidade é incontornável: foi a guerra russa que fez das cúpulas e das naves ruínas fumegantes. E é difícil imaginar gesto mais obsceno do que posar como protetor da Cristandade enquanto se multiplica a devastação de igrejas num país maioritariamente cristão.
Nesta história, os amplificadores americanos importam. Não porque tenham inventado a narrativa, mas porque a tornam respeitável. Quando um argumento entra num gabinete do Congresso, ganha gravata e carimbo. E a partir daí já não parece propaganda: parece “preocupação legítima”. É assim que se normaliza uma operação de influência — não com gritos, mas com reuniões.
Há, porém, quem diga o óbvio sem medo de desagradar: que a Igreja Ortodoxa Russa, no seu topo e na sua função pública, não é apenas uma instituição religiosa; é um braço simbólico e político de um Estado em guerra. E é precisamente essa clareza — rara, quase antiga — que falta quando se confunde liberdade religiosa com imunidade estratégica.
(É aqui que me lembro de um verso conhecido, que não precisa de ser repetido palavra por palavra para ser entendido: a imagem de um padre a esconder, debaixo das vestes, as dragonas de um oficial. A metáfora é brutal porque é simples. E é simples porque descreve um método.)
No fim, a regra é esta: o Kremlin chorará sempre “perseguição” quando os seus instrumentos forem escrutinados.
Chamará “ataque ao Cristianismo” a qualquer tentativa de bloquear infiltração. Dirá “liberdade religiosa” como quem diz “passe livre”.
Mas defender liberdade religiosa não é suspender o juízo. Não é fechar os olhos a uma instituição que se deixa usar — e que, por vezes, se oferece para ser usada — como cobertura moral de uma guerra de agressão. Não é tratar como vítima uma estrutura que, no tabuleiro político, funciona como ferramenta.
A delegação que passou por Washington não trouxe uma mensagem de paz. Trouxe uma narrativa.
E a diferença entre fé e operação é esta: a fé não precisa de apagar o contexto. A operação vive disso. Apaga o resto da história e pede-nos que acreditemos apenas na primeira frase.
E, em política, acreditar só na primeira frase costuma ser o começo do erro.
Autor: Frei Lourenço de Santa Clara




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