As Novas Cortes
- Alberto Carvalho - Narrador

- 21 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Eu estava a pagar um café quando ouvi, atrás de mim, um homem dizer: “Temos de o ter no jantar. Ele abre portas.” Não disse “ele é competente”. Não disse “ele sabe do assunto”. Disse “abre portas”. E eu pensei — com aquela preguiça triste que às vezes me apanha em dias comuns — que o país se organiza muito mais por portas do que por ideias. E que a palavra “porta” é, no fundo, uma forma educada de dizer “corte”.
A corte, no imaginário, é coisa antiga: corredores longos, candelabros, vaidades com pó.
Só que as cortes não morrem. Mudam de morada. Já não precisam de trono, basta-lhes um círculo. Um almoço. Um painel. Uma fundação. Uma fotografia com duas pessoas a sorrir para a mesma câmara, como se a vida fosse um acordo permanente.
Hoje a corte é mais limpa, mais discreta. E, precisamente por isso, mais eficaz.
Há uma arte que trabalha como um detergente: apaga as marcas da ambição. Não a elimina — apaga as marcas. Faz parecer que tudo aconteceu “sem querer”. Que foi o acaso. Uma coincidência feliz. Um convite que caiu do céu. É uma ambição com luvas: não deixa impressões digitais.
Os antigos chamavam-lhe etiqueta; outros chamaram-lhe sprezzatura, esse gesto treinado de quem parece leve quando, na verdade, está a fazer contas.
E as contas não são apenas dinheiro. São relações. São rostos. São lugares à mesa.
Repare: as novas cortes raramente sobem a gritar. Sobem a elogiar. Um “que sapatos incríveis”. Um “gosto muito do seu trabalho”. Um “temos de o apresentar a fulano”. Começa assim, com coisas pequenas, quase domésticas, que não assustam ninguém. A porta abre-se de mansinho. Depois é só não a deixar fechar.
A certa altura, aparece sempre um símbolo. Porque o poder adora símbolos — e nós também, convém admitir.
Um casaco usado durante vinte anos. Um par de sapatos que dura uma década. Uma frase bonita sobre sustentabilidade. “Comprar menos, comprar melhor.” É uma frase impecável. É também uma frase perigosa, dependendo de quem a diz e do lugar de onde a diz.
Porque há gente que compra menos por convicção. E há gente que compra menos porque não tem outro remédio. Há gente que compra “melhor” porque pode escolher. E há gente que compra “o que dá” e reza para que aguente. Isto não é moralismo. É vida prática. É o que se vê no país real, o que se vê nas casas, nas lojas de bairro, nos armários onde a roupa tem história porque não houve dinheiro para comprar uma história nova.
Quando alguém transforma um casaco antigo numa medalha pública, eu tenho sempre uma hesitação. Não por inveja — por lucidez. O gesto pode ser virtuoso. Pode ser também encenação de virtude. E a diferença, muitas vezes, não está na peça de roupa; está no palco.
As novas cortes vivem disso: de causas que servem de cartão de visita.
Há uma diferença entre servir uma causa e usar uma causa para se servir. A diferença vê-se pouco. Quase nunca se prova. Mas sente-se. E há um momento em que começamos a perceber que as causas aparecem sempre nas pessoas certas, nos eventos certos, com os fotógrafos certos. Como se a moral precisasse de iluminação profissional.
Depois vem a narrativa, que é o verdadeiro passaporte.
O homem contemporâneo não quer apenas ser eficaz. Quer ser personagem. Quer a história que o torna incontestável. Quer a anedota que o humaniza, o detalhe que o torna “simpático”, a pequena prova de coragem que todos repetem como se fosse uma assinatura.
E isto tem uma consequência curiosa: deixamos de discutir o mecanismo e passamos a discutir o enredo.
Quem entra, quem sai, quem foi convidado, quem faltou, quem ficou bem na fotografia. E o essencial — quem decide, quem distribui, quem manda sem parecer que manda — fica ali, intacto, com uma serenidade de pedra antiga.
Se eu trouxer isto para Portugal, não é por mania de comparar. É por honestidade. Nós também temos cortes. Temos as nossas. Às vezes são pequenas, às vezes são muito grandes. Há cortes culturais, cortes mediáticas, cortes partidárias, cortes empresariais, cortes académicas. Há cortes em que a palavra “mérito” aparece como cortina, e outras em que nem se finge: é convite e ponto final.
E sim, há pessoas boas dentro dessas cortes. Há trabalho sério. Há dedicação real. O meu problema não é esse.
O meu problema é quando a corte se torna um sistema de substituição: em vez de debate, pertença; em vez de argumento, acesso; em vez de verdade, conveniência.
O mais inteligente destas cortes novas é que já não precisam de brutalidade. O poder aprendeu a ser afável. Aprendeu a dizer “compreendo”. Aprendeu a usar o tom certo. Aprendeu, sobretudo, a não se comprometer demasiado, para poder estar sempre do lado “razoável”. E nós, cansados, aceitamos. Porque o razoável descansa. O razoável não dá trabalho.
Só que há uma pergunta que não me larga — e eu prefiro deixá-la aqui, sem grande ar de conclusão, porque a vida raramente conclui bem:
Quantas vezes confundimos elegância com ética? Quantas vezes tomamos a boa história por boa conduta? Quantas vezes aceitamos um símbolo (o casaco, o sapato, a frase) como se fosse prova de carácter, quando pode ser apenas prova de estratégia?
As novas cortes não têm coroa à vista. Mas têm chaves. E há sempre alguém, muito bem vestido, a fingir que não sabe que a traz no bolso.
AC




Muito bom! "Há uma diferença entre servir uma causa e usar uma causa para se servir."
O que mais se faz é a segunda.
Acredito no poder dos instrumentos de regulação das instituições mas ainda mais na capacidade analítica e crítica das pessoas.
Leio sempre com satisfação. Ao mesmo tempo a sua escrita ajuda-me a refletir sobre mim, sobre a vida e sobre política ou sociedade ou justiça/injustiça social, etc. Desperta-nos! Gratidão por se deixar ler.
É raro encontrar textos que consigam ser, simultaneamente, tão belos e profundamente humanos. Os textos dos autores e do Alberto Carvalho nesta revista são de uma excelência notável. Ter ao nosso dispor um conteúdo desta envergadura literária, de forma gratuita, é um luxo que importa valorizar. Um agradecimento sentido por este contributo à nossa literatura.