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O que significa celebrar o 25 de Abril hoje?

Ensaio


Numa sala de reuniões de uma câmara municipal, as cadeiras já estão alinhadas antes de alguém chegar. A mesa espera. As bandeiras também. Há um programa impresso com horas, nomes, talvez uma palavra gasta sobre liberdade. Lá fora, noutro município, alguém testa o som para um concerto. Há cartazes, cabos pelo chão, gente que passa sem parar, uma criança que segura um cravo sem perceber bem o que transporta na mão.


As duas cenas pertencem ao mesmo dia. Não precisam de se tocar.


O que significa celebrar o 25 de Abril hoje?


O 25 de Abril sempre foi muitas coisas ao mesmo tempo: memória, rutura, promessa, disputa. A data não mudou, nem o calendário, nem sequer o vocabulário que a acompanha. Mudou a forma como se habita aquilo que ela significa. E, mais devagar, a forma como se deixa de o habitar.


Durante anos, a pergunta era saber se a democracia portuguesa sobreviveria ao seu próprio nascimento. A resposta foi-se acumulando em factos: eleições regulares, alternância, integração europeia, normalidade institucional, uma espécie de respiração administrativa que, por si só, já era muito para um país saído de ditadura, guerra colonial e isolamento. O regime consolidou-se. A pergunta perdeu urgência, talvez até tenha perdido público.


Vieram outras, menos visíveis.


Entre a festa pública e o protocolo institucional, a democracia portuguesa mostra sinais discretos de desgaste.


Num país que já não precisa de provar que é democrático, o problema desloca-se. Não é a ausência de instituições. É a relação com elas. Não é a falta de liberdade formal. É a forma como essa liberdade circula no espaço comum: usada, ignorada, invocada, gasta, por vezes reduzida a palavra disponível para quase tudo.


Flor vermelha única num espaço de luz e sombra austera, símbolo contido da liberdade e do silêncio contemporâneo.
Um cravo permanece, mas já não ocupa o centro — entre a luz e a sombra, a liberdade torna-se presença discreta.

A diferença entre uma celebração que se prolonga em cultura e outra que se fixa no protocolo não pertence apenas ao domínio da estética. Não é só questão de preferências políticas ou de estilos de governação local. Aponta para o modo como a democracia se transforma quando deixa de ser urgência e passa a ser dado adquirido: uma coisa que está ali, como a iluminação pública ou a calçada, reparada apenas quando falha.


Há um momento em que a liberdade deixa de ser conquista e se torna cenário. Continua ali. Já não interrompe ninguém.


Essa acomodação não costuma anunciar-se. Vem em mudanças de tom. Vem também na distância entre aquilo que se diz celebrar e aquilo que se pratica no dia seguinte, quando as cerimónias acabam, as cadeiras regressam ao armazém e o país volta à conversa habitual sobre suspeitas, irritações, culpas e pequenos ressentimentos que se oferecem como explicação de tudo.


A linguagem altera-se primeiro. Certas palavras permanecem no lugar, mas perdem peso ou mudam de função. “Liberdade”, por exemplo, pode passar a designar coisas incompatíveis entre si — o direito de protestar e a vontade de humilhar, a autonomia cívica e o capricho agressivo, a crítica ao poder e o desprezo por qualquer limite comum.


A ambiguidade, longe de ser resolvida, torna-se útil.


Ao mesmo tempo, a desconfiança ganha terreno. Não a desconfiança crítica, que examina e distingue, mas uma suspeita difusa, que coloca tudo no mesmo plano. As instituições, os media, a justiça, a política: tudo passa a parecer igualmente contaminado. Não é recusa informada. É desgaste. E o desgaste tem uma vantagem sobre a rutura: não exige coragem, nem programa, nem rosto.


Um discurso que antes seria recusado torna-se tolerável. Uma simplificação que antes pareceria grosseira passa a parecer eficaz. Uma exclusão que antes exigiria justificação começa a circular sem ela. A repetição faz o trabalho que a convicção ainda não conseguiria fazer. Depois de suficientemente repetida, a frase deixa de parecer violenta e começa a parecer apenas uma opinião entre outras.


O país que saiu de uma ditadura construiu a sua democracia a partir de uma experiência concreta de limite. Sabia o que era não poder falar, não poder reunir, não poder escolher. Sabia também o que era medir palavras, desconfiar da parede, baixar a voz, conhecer alguém que tinha sido chamado, detido, vigiado, empurrado para fora da sua própria vida. Esse conhecimento não era doutrina. Era vida.


O problema de uma democracia consolidada é diferente: a ausência dessa memória direta nas gerações seguintes. Não porque a História desapareça, mas porque deixa de ser experiência. Aprende-se uma data, talvez um slogan, talvez uma fotografia repetida nos manuais. Mais difícil é transmitir o peso daquilo que não se viveu: o ar parado de uma sociedade onde a prudência se confundia com sobrevivência.


A transmissão não é automática.


Entre o que aconteceu e o que se entende há sempre um intervalo. Pode ser preenchido por ensino, cultura, discussão pública, conflito honesto, contacto com testemunhos, leitura de documentos, prática cívica. Ou pode ficar vazio, entregue à pressa das redes, à simplificação partidária, à fadiga das famílias, à ideia cómoda de que a democracia é uma paisagem e não uma construção.


Quando fica vazio, o passado não desaparece. Torna-se abstrato. E o abstrato protege menos. Ninguém arrisca grande coisa por uma abstração sem corpo. Arrisca-se por uma lembrança concreta, por uma injustiça reconhecida, por alguém a quem se deu nome, por uma ferida que ainda encontra linguagem.


A diferença entre uma democracia que se defende e uma democracia que se presume começa aí. Na primeira, a liberdade é testada contra a realidade. Na segunda, é assumida como mobiliário da casa. Existe, ocupa espaço, parece sólida; mas ninguém pergunta quem a conserva, quem a limpa, quem a repara quando uma perna começa a ceder.


Nada disto se traduz necessariamente em mudanças visíveis no funcionamento das instituições. O parlamento continua a reunir. Os tribunais continuam a decidir. Os jornais continuam a publicar. O calendário político mantém-se. A forma democrática pode resistir durante muito tempo ao empobrecimento da sua matéria.


Mas a relação com esse conjunto altera-se. Uma democracia pode continuar a existir formalmente e perder densidade no modo como é vivida. Não há contradição nisso. Há desfasamento. As palavras permanecem; o uso que delas fazemos, esse, começa a mudar.


O 25 de Abril não produz esse desfasamento. Expõe-no.


Quando uma cidade celebra com intensidade cultural e outra cumpre com precisão institucional, não estamos apenas perante estilos diferentes. Estamos perante leituras diferentes do que ainda precisa de ser defendido. Numa, a memória é ativada como prática: sai à rua, procura público, mistura gerações, arrisca algum excesso. Noutra, é preservada como referência: fica ordenada, respeitosa, muitas vezes impecável, talvez demasiado segura de si.


Nenhuma destas posições explica sozinha o estado da democracia. A coexistência das duas, quase sem atrito, diz alguma coisa sobre o momento. Diz que o consenso se deslocou. Não necessariamente contra Abril; talvez para longe dele, para uma zona onde a data é aceite, mas já não organiza o imaginário comum com a mesma força.


Durante décadas, o 25 de Abril funcionou como ponto de convergência. Não eliminava divergências políticas, mas definia um terreno comum. Esse terreno ainda existe. Tornou-se menos evidente. A democracia já não tem apenas adversários exteriores ou nostálgicos declarados; tem também o cansaço dos que a herdam sem espanto e a usam sem gratidão, como se tivesse nascido com o mobiliário urbano.


A disputa não é frontal. Não aparece como rejeição aberta da data ou do que ela representa. Passa por gestos mais discretos: a forma como se fala do passado, a forma como se redesenha o que conta como ameaça, a forma como se desloca a atenção de uma promessa coletiva para uma soma de irritações privadas. Quando a liberdade deixa de ser linguagem de emancipação e passa a ser apenas linguagem de licença, algo mudou no centro da conversa.


Uma democracia não se esgota na sua origem. Mas a forma como trata essa origem denuncia alguma coisa do que se tornou.


Portugal não é um caso isolado. Em várias democracias consolidadas, a relação com os seus momentos fundadores está a mudar. O problema não é apenas a perda de memória. É a conversão da memória numa coisa disponível, maleável, sem poder de orientação. Os acontecimentos permanecem nos arquivos; o seu sentido passa a circular mais leve, mais disputável, mais vulnerável a apropriações que dele retiram o incómodo.

O 25 de Abril, visto a partir de Lisboa, não é só uma data nacional. É também peça de uma história mais larga: a de um país que foi centro de um império e que, ao perder esse lugar, teve de reaprender o tamanho da sua voz. Essa aprendizagem nunca ficou concluída. Nem poderia. Um país não se torna subitamente lúcido sobre si próprio por mudar de regime. Leva consigo hábitos antigos, fantasmas, hierarquias, nostalgias, formas de obediência que sobrevivem à queda das estátuas e ao fim das palavras oficiais.


Há uma experiência acumulada — de poder, perda, adaptação, atraso, sobrevivência — que continua a informar a forma como se olha para o presente. Não como doutrina.


Como fundo. Talvez por isso faça sentido desconfiar das narrativas demasiado triunfais, das certezas rápidas, da ideia de que a democracia é uma linha ascendente que só precisa de tempo para se aperfeiçoar.


O olhar de Lisboa, quando não se deixa adormecer por si mesmo, pode ter essa utilidade: reparar no que se estraga devagar. Nas margens antes do centro. No tom antes da lei. Na piada antes da norma. Na impaciência antes da violência.


Não como ameaça súbita. Como deslocação.


No final do dia, as cadeiras são arrumadas. Os cabos de som são desligados. Os cravos começam a murchar. Alguém varre o chão perto da entrada da sala. Noutro lugar, desmonta-se o palco. A criança talvez já tenha largado a flor, ou a tenha levado para casa sem saber se deve pô-la num copo com água.


A data passa.


O que fica não é o programa nem o discurso. É a forma como, no dia seguinte, se continua — ou não — a habitar aquilo que se disse celebrar.

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há 10 horas
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A liberdade testa-se nos momentos pequenos, não nos discursos solenes, pomposos e tantas vezes circunstanciais. A liberdade é livre de ser vivida mesmo estando as cadeiras todas arrumadinhas, porque não 'há machado que corte..."

JCCarranca

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