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OS CURDOS, A GUERRA E A PROMESSA QUE WASHINGTON NUNCA CUMPRE

Atualizado: há 3 dias

Há uma fotografia recorrente na história do Médio Oriente moderno: homens e mulheres curdos, de armas ao ombro, a olhar para uma linha de montanhas que para os outros é fronteira e para eles é apenas continuação da mesma terra e nas mesmas guerras. A imagem repete-se com pequenas variações de década para década — o uniforme muda, o patrocinador muda, a sigla muda, o inimigo muda de nome — mas a posição é quase sempre a mesma. Estão no limite de alguma coisa. À espera. Úteis.


Imagem editorial de um corredor estreito e quase vazio, com lojas fechadas, chão húmido e uma figura ao fundo, usada como capa do Atlantic Lisbon para um texto sobre os curdos e a política externa de Washington.
Capa editorial para Atlantic Lisbon sobre os curdos, a guerra e o padrão histórico de promessas estratégicas não cumpridas por Washington, numa composição austera de corredor vazio, tensão e distância.

Curdos - Guerra - WASHINGTON.


A utilidade é a forma mais instável de aliança. Enquanto serve, parece reconhecimento. Quando deixa de servir, revela-se o que sempre foi: uma relação de prazo curto entre a necessidade de uma potência e a sobrevivência de um povo sem Estado.


Os curdos sabem-no melhor do que ninguém, porque quase toda a sua história contemporânea pode ser lida como uma sucessão de convites para a guerra seguidos de instruções para o silêncio.


É por isso que, sempre que Washington volta a olhar para milícias curdas como instrumento possível de pressão sobre Teerão, Ancara, Bagdade ou Damasco, a linguagem oficial parece mais nova do que realmente é.


O vocabulário muda: parceiros no terreno, forças locais, contenção regional, actores não estatais, estabilização, pressão assimétrica. A estrutura, essa, é antiga. Os curdos entram na frase como promessa táctica e saem dela como problema diplomático. No intervalo, morrem.


O caso presente — a possibilidade de grupos curdos iranianos no Zagros funcionarem como componente periférica de uma guerra mais vasta contra o regime de Teerão — deve ser lido à luz dessa rotina. Não como episódio isolado, mas como uma variação de um padrão americano que já deixou ruínas suficientes para dispensar ingenuidade.


Quando Washington sugere, de forma aberta ou apenas insinuada, que as milícias curdas podem vir a ter uma função num confronto regional, não está apenas a pensar em geografia militar. Está a activar uma memória política que, para os curdos, nunca é abstracta. A memória tem nomes, datas, valas, êxodos, postos de fronteira fechados à última hora.


No norte do Iraque, essa memória continua inscrita no terreno. Não como monumento, mas como hábito. Há aldeias que conhecem demasiado bem o som das promessas estrangeiras: chegam pelo rádio, pela visita de um emissário, por uma alteração subtil no tom de um aliado local, pela circulação súbita de armas, pela linguagem nova de uma imprensa que, durante anos, ignorou o mapa e agora o descobre com urgência. A guerra começa muitas vezes assim, antes do primeiro tiro: quando uma potência distante decide que uma população periférica voltou a ter valor operacional.


O problema, para Washington, é simples de formular e difícil de resolver.


O regime iraniano pode ser demasiado resistente para cair só com sanções, sabotagem, ciberoperações e poder aéreo. Tropas americanas no terreno seriam politicamente tóxicas.


Uma força curda, ou uma constelação de forças curdas, oferece portanto aquilo que os estrategas gostam de chamar uma solução intermédia: gente suficiente para complicar a vida ao inimigo, pouca visibilidade americana, margem plausível de negação. Na linguagem técnica, isto chama-se alavanca local. Na linguagem histórica, chama-se outra coisa: terceirização do risco.


É nesse ponto que a análise militar e a memória moral se encontram. Os curdos não são apenas mais uma variável numa equação regional. São uma variável que já foi usada demasiadas vezes da mesma maneira para que se continue a falar dela como se fosse neutra.


Em 1975, os Estados Unidos e o Irão do xá incentivaram uma insurreição curda no Iraque e abandonaram-na quando o acordo de Argel tornou a utilidade curda dispensável. Henry Kissinger respondeu à catástrofe com a frase que ainda hoje paira sobre qualquer conversa séria sobre este tema: a política externa não deve ser confundida com trabalho missionário.


A frase tinha a secura da honestidade imperial. Também tinha a crueldade de quem sabe que a história será feita por outros corpos.


A partir daí, a relação não melhorou; apenas ganhou novas embalagens. Em 1991, depois de encorajar os iraquianos a levantarem-se contra Saddam Hussein, Washington deixou os curdos expostos ao massacre e ao exílio em massa até o espetáculo humanitário se tornar demasiado grande para continuar ignorado.


No nordeste da Síria, décadas mais tarde, os curdos voltaram a servir como infantaria indispensável contra o Estado Islâmico — eficazes o suficiente para serem celebrados enquanto combatiam, descartáveis o suficiente para serem deixados à mercê de outros aliados quando a geopolítica voltou a mudar de prioridade.


É este o contexto real por detrás de qualquer hipótese de activação curda contra Teerão. Não um quadro limpo de opções estratégicas, mas um arquivo de precedentes em que a eficácia táctica curda foi quase sempre inversamente proporcional à solidez da garantia recebida. Quanto mais úteis foram, mais expostos ficaram ao momento em que a utilidade terminava.


O que torna a situação actual mais instável é o sítio onde essa velha lógica regressa.


O Curdistão iraquiano não é apenas uma retaguarda geográfica. É um espaço politicamente poroso, diplomaticamente vulnerável e militarmente demasiado próximo de demasiados interesses concorrentes. Teerão vê ali uma ameaça latente. Ancara vê uma infiltração permanente do problema curdo na sua própria arquitectura de segurança. Bagdade finge mais controlo do que tem. E Washington vê, como tantas vezes, uma periferia suficientemente distante para ser usada e suficientemente central para incendiar a região inteira se alguma coisa correr mal.


Correr mal, neste caso, não significa necessariamente falhar no objectivo imediato. Pode significar até o contrário: uma operação curda suficientemente eficaz para obrigar Teerão a desviar meios, reforçar fronteiras, endurecer a repressão interna e elevar o custo da guerra. Isso, do ponto de vista americano, poderia parecer um sucesso parcial. Mas sucessos parciais têm o hábito de produzir desastres completos quando assentam sobre povos cuja protecção política nunca foi o objectivo central da operação.


É aqui que a palavra promessa exige precisão. Washington raramente promete aos curdos um Estado. Já aprendeu a não prometer tanto.


O que promete, ou deixa que seja ouvido como promessa, é uma coisa mais evasiva e por isso mais difícil de cobrar: apoio, cobertura, oportunidade, janela, parceria, reconhecimento funcional. O suficiente para que alguém arrisque.


Nunca o suficiente para que alguém possa dizer, no fim, que houve traição no sentido contratual. A promessa americana aos curdos não é quebrada porque quase nunca chega a ser formulada de modo a poder ser juridicamente quebrada. É uma promessa por atmosfera. E é precisamente por isso que consegue repetir-se.


Numa sala em Washington, esta distinção parece inteligência estratégica. Numa encosta do Zagros, parece outra coisa: a diferença entre voltar vivo e ficar dependente da próxima rotação do interesse americano.


Há, além disso, um erro recorrente nas análises feitas de demasiado longe. Confunde-se frequentemente o desejo curdo de autonomia, ou simplesmente de sobrevivência digna, com disponibilidade automática para servir qualquer plano externo contra qualquer adversário comum. Essa leitura infantiliza.


Nem todos os grupos curdos têm o mesmo cálculo, nem a mesma memória, nem a mesma margem de manobra.


Alguns querem apoio, mas temem o preço político de o receber. Outros aceitam o apoio porque sabem que a alternativa é a irrelevância armada. Outros ainda percebem, com amargura adulta, que a história lhes retirou há muito o luxo da pureza.


A pergunta para eles nunca é se devem confiar em Washington. É o que fazer num mundo em que não confiar não elimina a necessidade de agir.


Talvez por isso haja qualquer coisa de enganador na imagem romântica do combatente curdo como símbolo universal da resistência traída. A imagem emociona, mas simplifica. O problema não é apenas a traição.


É a estrutura que torna previsível a repetição da traição e, ainda assim, deixa poucas alternativas a quem está encurralado entre Estados hostis e potências oportunistas. O heroísmo, aqui, não corrige a assimetria; apenas a torna suportável de olhar.


De Lisboa, isto vê-se com uma clareza particular. Não porque Portugal tenha qualquer autoridade especial sobre a questão curda, mas porque conhece bem a gramática dos aliados descartáveis.


Conhece-a do lado de quem administrou periferias, usou interpostos, distribuiu lealdades por utilidade e chamou pacificação ao que era apenas gestão violenta da distância. E conhece-a também do lado de quem, já empobrecido e reduzido, aprendeu que as promessas das potências centrais raramente são feitas para durar mais do que o seu interesse.


Há países que conhecem o mundo pelo centro do mapa. Portugal conhece-o também pelas bordas onde os compromissos ficam menos sólidos.


Talvez seja por isso que a questão curda exija menos entusiasmo moral e mais precisão histórica.


Não é preciso decidir se os curdos são “bons aliados” ou “más apostas”. Nem repetir, com vocabulário novo, a velha sentimentalização ocidental de um povo corajoso a quem se presta homenagem verbal no exacto momento em que se o deixa sozinho. O que é preciso é reconhecer que a relação entre Washington e os curdos não falha por acidente. Funciona segundo um desenho em que a falha está incorporada desde o início. A aliança dura enquanto o objectivo táctico coincide com a conveniência diplomática; a partir daí, a realidade regional volta a impor a hierarquia verdadeira dos interesses.


Essa hierarquia nunca é anunciada com clareza total, mas revela-se sempre no momento decisivo. A Turquia pesa mais. A estabilidade iraquiana pesa mais. A gestão da escalada com o Irão pesa mais.


O controlo da NATO pesa mais. O preço da energia pesa mais. A credibilidade global dos Estados Unidos, quando muito, pesa mais. Os curdos entram nesse cálculo não como sujeito estratégico autónomo, mas como variável dependente.


O trágico não é apenas que isto aconteça. É que toda a gente envolvida, a certa altura, o sabe.


Mesmo assim, a hipótese regressa. Regressa porque as montanhas continuam lá, porque as milícias existem, porque as fronteiras são porosas, porque a guerra gosta de ferramentas já disponíveis. Regressa porque a história nunca é suficientemente humilhante para impedir uma potência de repetir um método que continua a parecer-lhe eficiente no curto prazo. E regressa porque, para os curdos, a escolha raramente é entre confiança e recusa; é entre diferentes formas de risco, todas elas com precedente.


Se a guerra com o Irão se prolongar, a tentação americana de usar a carta curda voltará a ganhar força. Não na forma grandiosa de uma promessa fundadora, mas na forma administrativa de sempre: um apoio aqui, uma abertura ali, alguma informação, alguma tolerância, algum equipamento, alguma linguagem de encorajamento que não comprometa demasiado.


O suficiente para criar expectativa. O suficiente para produzir movimento. O suficiente, também, para que, se as coisas se complicarem, seja possível dizer que nunca houve garantia.


É por isso que o título desta história não deve ser “os curdos e a América”, como se estivéssemos perante uma relação bilateral com alguma simetria.


O título verdadeiro é a promessa que Washington nunca cumpre.


Não porque seja sempre verbalizada e depois traída em espectáculo, mas porque está inscrita no próprio formato da relação: usar sem assumir, activar sem garantir, elogiar sem vincular, agradecer sem ficar.


Nas montanhas, isto aprende-se cedo. Talvez seja por isso que a fotografia recorrente continua a ser a mesma: homens e mulheres curdos de armas ao ombro, a olhar para o horizonte como quem conhece demasiado bem a diferença entre ajuda e solução.


Atrás deles mudam os impérios, os regimes, os presidentes, os acrónimos. À frente deles fica quase sempre a mesma coisa — a guerra, a montanha e a próxima promessa.


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