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O QUE SOBRA DE UMA TARDE

Amélia dobrou o formulário ao meio antes de perceber que não o ia precisar. Voltou a abri-lo, alisou-o com a palma da mão, e colocou-o no tabuleiro de baixo, onde ficavam as coisas para segunda-feira.


Numa sexta-feira de junho, o que não se diz ocupa mais espaço do que o que se diz.


Imagem de capa para O Que Sobra de Uma Tarde, mostrando uma funcionária num escritório escolar iluminado pela luz quente do entardecer, rodeada de papéis, com Atlantic Lisbon sob o título.
Capa de O Que Sobra de Uma Tarde, conto publicado por Atlantic Lisbon, evocando a solidão administrativa, o peso das pequenas perdas e a luz suspensa de um fim de tarde que já não volta.

Eram dezassete e quarenta e dois. O ventilador do computador fazia um ruído que ela já não ouvia há anos.


Pela janela do gabinete entrava a luz de fim de tarde, aquela luz baça de junho que não ilumina nada mas aquece tudo, e o campo de jogos lá ao fundo estava vazio à exceção de dois miúdos a darem pontapés numa bola sem qualquer convicção. Tinha ficado mais meia hora para fechar os registos do terceiro período. Era o que havia para fazer e ia fazê-lo.


Ouviu passos no corredor antes de ver a sombra no vidro da porta.

Bateram duas vezes, com os nós dos dedos, de forma hesitante — a hesitação de quem não tem a certeza se deve entrar.


— Sim — disse ela, sem levantar os olhos do ecrã.


O homem que entrou tinha a camisa desapertada no colarinho e carregava um casaco dobrado num braço. Trinta e tal anos, cabelo escuro, uma barba por fazer de três ou quatro dias. Ficou junto à porta como se a distância ao balcão fosse uma questão ainda por resolver.


— Boa tarde. Desculpe incomodar a esta hora.


— Diga.


— Preciso de uma certidão de habilitações. Tenho uma entrevista na próxima semana e pediram-me o original.


Amélia olhou para o relógio no canto do ecrã. Dezassete e quarenta e quatro.


— O prazo para pedidos de certidões é até às dezasseis e trinta. Já não é possível hoje.


— Sim, eu sei, é que — fez uma pausa — só soube hoje de manhã que precisava. É para uma coisa urgente.


— Na segunda-feira estamos abertos a partir das nove.


O homem assentiu, mas não saiu. Deslocou o casaco de um braço para o outro. Havia qualquer coisa no gesto — não no gesto em si, mas na repetição dele, a forma como o casaco passava de um lado para o outro como se fosse um objeto que precisasse de ser colocado algures e não houvesse sítio certo — que fez Amélia olhar para ele de verdade pela primeira vez desde que ele entrara.


— Andou aqui na escola? — perguntou ela. Não era a pergunta que queria fazer. Queria dizer a segunda-feira estamos cá e voltar ao ecrã.


— Sim. Saí em dois mil e oito.


Ela virou-se para o teclado e escreveu o apelido que ele lhe deu. Rodrigo Tavares. A ficha abriu com a fotografia de um miúdo de dezasseis anos, cara redonda, expressão séria de quem estava a tentar parecer mais velho do que era. Amélia olhou para a fotografia e depois para o homem à sua frente e a correspondência era e não era evidente, a forma como certas pessoas crescem de um lado e não do outro, ficam com qualquer coisa da criança colada a uma parte do rosto que o tempo não encontra.


— Está tudo em ordem — disse ela. — Na segunda-feira demora no máximo vinte minutos.


— A entrevista é na segunda-feira de manhã.


— A que horas?


— Às dez.


— Se vier às nove temos tempo.


O homem ficou em silêncio. Amélia esperou que saísse. Em vez disso, ele disse:


— A minha mãe morreu em março.


Ela não respondeu imediatamente. Não era o tipo de coisa a que se respondesse imediatamente.


— Lamento — disse ela, depois.


— Ela guardava tudo. Diplomas, boletins, tudo em pastas. Mas a certidão não estava. Andei um mês à procura.


— Compreendo.


Não era verdade que compreendia, ou era verdade de uma forma que não servia para nada.


Amélia conhecia o peso das gavetas de outra pessoa depois de essa pessoa ter morrido, a forma como os papéis ganham uma densidade diferente quando já não há ninguém para explicar porque é que aquele envelope estava junto àquele outro, porque é que esta fotografia estava dobrada e guardada entre dois documentos do banco.


O seu marido tinha morrido com tudo em ordem e mesmo assim ela passara semanas a abrir gavetas à procura de qualquer coisa que não sabia nomear.


— Posso fazer o pedido agora e emitir na segunda de manhã cedo — disse ela. — Mas não posso garantir antes das nove e meia.


— Tudo bem. Obrigado.


Ela começou a preencher o formulário. O homem ficou do outro lado do balcão, mas desta vez não havia a hesitação de antes. Ficou quieto, a olhar para o gabinete com uma atenção distraída, o tipo de atenção de quem está a ver sem estar realmente a ver.


— Já trabalha aqui há muito tempo? — perguntou ele.


— Vinte e três anos.


— Deve conhecer muita gente.


— Conheço os processos — disse ela. — As pessoas passam.


Não era uma resposta simpática mas era verdadeira e ela não tinha obrigação de ser simpática fora do estritamente necessário. Vinte e três anos eram muitos alunos, muitos pais à porta com exigências, muitos professores com urgências que não eram urgências.


Aprendera a fazer a separação cedo.


— Eu lembro-me de si — disse ele.


Amélia continuou a escrever.


— Havia uma funcionária que nunca se enganava. Toda a gente dizia isso. Se fosse a dona Amélia estava resolvido, se fosse outro havia sempre um problema.


— As pessoas exageram.


— Era o que diziam.


Ela imprimiu o comprovativo do pedido e carimbou-o com mais força do que era necessário. O barulho do carimbo encheu o gabinete por um momento e depois o ventilador voltou a ser o único som.


— Segunda-feira às nove — disse ela, e estendeu o papel por cima do balcão.


Ele pegou no comprovativo e dobrou-o com cuidado, como se fosse um documento mais importante do que era. Era um gesto que ela reconheceu sem conseguir imediatamente dizer de onde. Não do miúdo da fotografia. De outro sítio.


O seu filho dobrava assim os papéis. Com aquela atenção ligeiramente excessiva, como se o gesto de dobrar fosse uma forma de ganhar tempo para pensar na coisa seguinte.


Amélia voltou para o ecrã.


— Boa sorte na entrevista — disse ela.


— Obrigado. Boa tarde.


Ouviu os passos a afastarem-se no corredor, ouviu a porta exterior a bater com o peso próprio das portas de escola, e ficou a olhar para o ecrã sem ler o que estava escrito.


O campo de jogos lá fora estava agora completamente vazio. Os dois miúdos tinham ido embora sem que ela desse conta. A bola ficara encostada ao poste da baliza.


Amélia abriu o ficheiro dos registos do terceiro período e colocou o cursor no primeiro campo em branco. Havia ainda quarenta e seis entradas para verificar. Era trabalho de quarenta minutos se não houvesse interrupções.


O seu filho chamava-se Nuno. Tinha trinta e dois anos e trabalhava em Setúbal numa empresa qualquer de logística. Ela sabia isto não porque ele lho tivesse dito mas porque a irmã dele, a Catarina, lho dissera numa chamada de novembro, com aquele tom de quem está a transmitir informação e não quer ser responsabilizada pela informação. Ele está bem, mãe. Está a trabalhar. Como se estar a trabalhar fosse uma categoria moral suficiente.


A última vez que tinham falado de verdade foi num domingo de outubro, há quase dois anos, ao telefone. Ela dissera alguma coisa sobre a forma como ele gastava o dinheiro. Ele dissera alguma coisa sobre ela não perceber nada da vida dele. Eram coisas que já tinham sido ditas antes e que por isso não deveriam ter o peso que tiveram, mas às vezes é assim: uma frase que podia ter sido dita em qualquer outra ocasião cai num momento errado e fica.


Ele não ligou no Natal. Ela não ligou no aniversário dele. Não houve um dia em que tivessem decidido não falar. Houve vários dias em que não falaram até se tornarem demasiados para ser coincidência.


Amélia escreveu o nome do primeiro aluno no campo de texto e verificou a nota. Catorze valores. Passou para o seguinte.


Não tinha sido ela a dizer as coisas mais graves. Tinha a certeza disso. Ou tinha a certeza de que as coisas mais graves que tinham sido ditas tinham sido ditas dos dois lados, e que portanto a responsabilidade era partilhada, e que portanto não havia razão para ser ela a ligar primeiro. Esta era a lógica que usava quando a questão aparecia, o que acontecia menos do que aparentava. Conseguia passar dias sem pensar nisso. Semanas, às vezes.


O ventilador do computador mudou ligeiramente de tom, aquele aumento imperceptível que anunciava que a máquina estava a trabalhar mais. Amélia guardou o ficheiro por precaução.


O miúdo da fotografia — Rodrigo Tavares, saiu em dois mil e oito — tinha dezasseis anos na fotografia e agora tinha trinta e quatro, o que significava que tinha nascido em mil novecentos e noventa, o mesmo ano em que o Nuno começara a andar. Ela lembrava-se do ano porque o seu marido comprara uma máquina fotográfica nova especialmente para isso e havia uma caixa inteira de fotografias de um miúdo a tentar pôr-se de pé apoiado em coisas.


Não era isso. Não era a coincidência dos anos. Era o casaco a passar de um braço para o outro, era os papéis dobrados com aquela atenção ligeiramente excessiva, era a forma de ficar parado junto à porta como se a distância fosse uma questão por resolver.


Não era o Nuno. Era um homem que tinha perdido a mãe em março e precisava de uma certidão para uma entrevista na segunda-feira.


Amélia voltou ao ficheiro. Décima entrada, quinze valores. Décima primeira, onze. A luz lá fora estava a mudar de cor, aquela passagem do amarelo para um laranja ainda suave que acontecia sempre antes de ela dar conta e que significava que eram quase seis horas.


Havia quarenta e seis entradas para verificar. Era trabalho de quarenta minutos.


Ela trabalhou em silêncio até terminar.


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