O Preço do Perdão — Parte III: O Rosto e a Máscara
- Alberto Carvalho - Narrador

- 24 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Há sempre um momento, na história de qualquer poder, em que o país percebe que já não está a discutir a justiça — está a discutir a aparência da justiça. E, nesse instante silencioso, aquilo que era transparente adquire um brilho estranho.
O país olha, mas já não vê. Escuta, mas já não distingue.
A justiça continua lá, mas está coberta por uma película fina — uma máscara que imita o rosto, mas não é o rosto.
A máscara surge primeiro como proteção, depois como hábito, por fim como identidade. E quando a máscara se cola ao rosto, deixa de ser possível separar as duas coisas.
É aqui que começa esta terceira parte.
I — A Arte de Parecer Justo
Nenhuma instituição resiste muito tempo sem teatralidade. O poder aprendeu isso muito antes de existir democracia.
Há rituais, símbolos, discursos solenes, assinaturas filmadas, portas que se abrem devagar, fachadas que se iluminam ao entardecer. Tudo isto existe para dizer ao país: “estamos aqui, somos dignos, somos confiáveis”.
Mas o que acontece quando o ritual se torna mais importante do que o conteúdo?
Quando a pose se sobrepõe ao princípio?
Quando o gesto vale mais do que o critério?
O perdão presidencial, essa cerimónia sempre envolta em nobreza, corre um risco particular: o de se tornar um espetáculo que convence não pelo que decide, mas pelo que encena. E o espetáculo — como todos os espetáculos — é especialista em esconder aquilo que não convém mostrar.
A justiça, quando se preocupa demasiado em parecer justa, começa a esquecer-se de o ser.
II — O Olho que Observa e o Olho que Encobre
As sociedades vivem divididas entre dois olhares.
O olhar público — amplo, certeiro, moralista. E o olhar íntimo — cúmplice, pragmático, por vezes resignado.
O problema é quando o poder começa a usar um olhar para a nação e outro para si mesmo. O primeiro fala de princípios, de universalidade, de imparcialidade.
O segundo fala de circunstâncias, de conveniências, de exceções que “se compreendem”.
É nesta duplicidade que nasce a máscara.
A máscara serve para projetar virtude e esconder o cálculo. Serve para anunciar igualdade enquanto distribui privilégios. Serve para mostrar firmeza enquanto ajusta regras para acomodar proximidades.
O país escuta a narrativa oficial — o rosto. Mas sente, no rumor subterrâneo — a máscara — que há decisões que não pertencem à justiça, pertencem ao círculo.
E, quando essa sensação amadurece, a confiança começa a desfazer-se por dentro, como madeira roída por insetos invisíveis.
III — Quando a Clemência se Torna Persona
Há quem acredite que o perdão é apenas um ato jurídico. Não é. É também uma expressão simbólica — quase teatral — que molda o imaginário público.
Durante muito tempo, o perdão foi visto como gesto raro, excecional, reservado a situações extremas. Mas, quando começa a ser aplicado com fluidez, com uma ligeireza que dispensa explicações robustas, transforma-se num personagem. Entra em palco. Repete falas conhecidas. Age segundo conveniências do momento.
E o mais inquietante é isto: a República começa a comportar-se como se estivesse a encenar a ideia de justiça enquanto, nos bastidores, ajusta o enredo para acomodar alguns protagonistas.
A máscara não cobre apenas um rosto — cobre uma intenção.
IV — A Face Oculta do Perdão
Há sempre uma versão oficial — limpa, redonda, quase pedagógica. E há sempre uma versão oficiosa — aquela que não se escreve, mas todos conhecem: quem telefonou, quem pressionou, quem sussurrou, quem “pediu apenas para avaliar”.
A justiça não se desvia quando erra. Desvia-se quando aceita conviver com duas versões da mesma realidade.
Um país amadurece quando reconhece os seus erros. Adormece quando aceita as suas máscaras. Desmorona quando confunde uma coisa com a outra.
E a pergunta que devemos fazer não é: “porque foi perdoado este homem? ”Mas antes: “porque não poderia ele ser perdoado… se estivesse sentado noutra mesa?”
A máscara protege quem? E protege do quê?
V — O Espelho Quebrado
No final, tudo se resume a isto: uma República é um espelho partido em mil pedaços. Cada decisão pública é uma tentativa de juntar fragmentos, alinhar reflexos, montar uma imagem coerente do país.
Mas bastam alguns perdões mal explicados — ou demasiado facilmente explicáveis — para que surjam fissuras no espelho.
Primeiro parecem riscos. Depois linhas. Depois fraturas. Até que, um dia, o país olha para a sua própria justiça e já não se reconhece.
Porque aquilo que vê não é o rosto — é a máscara.
E ninguém confia numa máscara.
VI — A Conclusão Inquietante
A primeira parte perguntou: o que é o poder que absolve?
A segunda perguntou: o que acontece quando a justiça se desvia?
Esta terceira pergunta algo ainda mais íntimo e mais perigoso:
Que país se torna aquele que já não distingue entre o que é justo e o que parece justo?
É essa a fronteira final. A mais ténue. A mais enganadora. A que mais facilmente se atravessa sem dar por isso.
E, quando a atravessamos, percebemos tarde demais que o rosto da justiça já não está onde estava — ficou para trás, abandonado no chão.
E o que segue em frente é apenas a máscara.
Autor: Alberto Carvalho (Narrador)
Imagem: — Unsplash




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