Explodem barcos, repatriam tripulações.
- A Equipa Atlantic Lisbon

- 6 de jan.
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Atualizado: 7 de jan.
Port Everglades, 19 de novembro de 2025.
O cutter Stone regressa do Pacífico e o convés vem preparado para a fotografia — não para o mar.
Fardos empilhados, selados, alinhados como se fossem caixas de armazém com orgulho institucional.

O País Que Explode Barcos, Prende Tripulações e um Presidente ao Mesmo Tempo.
Dizem “cinquenta mil libras”, porque a América gosta do número assim. Em quilos, isso dá cerca de 22 680 kg. Em toneladas, 22,7. A diferença não é pequena; só fica pequena quando a transformamos em espetáculo.
Tulsi Gabbard está ali, Diretora da Inteligência Nacional, ao lado de Terry Cole (DEA) e de Gregory Kehoe, procurador federal de Tampa. Câmaras. Declarações curtas. Aquele tipo de frase que serve para o ecrã e não para a dúvida. A droga, no centro, cumpre o papel de sempre: prova visível de que “algo” está a ser feito.
E, no entanto, o que não aparece na fotografia é o mais importante — porque não cabe no formato, porque perturba o plano, porque obriga a explicar demais.
Durante a missão, a tripulação deteve 36 pessoas. Vinte e nove foram repatriadas para o Equador antes de o navio atracar. As restantes passaram para o Departamento de Justiça — para um interrogatório breve, para recolhas de elementos para uma acusação a um qualquer Presidente, para uma deportação rápida, para um destino que ninguém descreve com gosto. Há uma espécie de recato oficial quando se trata de pessoas. A droga, essa, mostra-se.
Ao mesmo tempo — e isto é o que torna a semana impossível de contar sem desconforto — noutro ponto das mesmas rotas, sob a mesma lógica declarada de “guerra à droga”, aeronaves militares norte-americanas destruíram 22 barcos entre setembro e novembro. Morreram 83 pessoas. Não foram capturadas. Não foram interrogadas. Não foram julgadas. Foram, simplesmente, apagadas do mapa como se fossem parte do material.
As mesmas águas, o mesmo alegado crime, duas respostas que não se tocam e, ainda assim, coexistem.
O país que posa com fardos em Port Everglades é o mesmo país que dispara do céu sobre embarcações com gente a bordo. E ninguém parece sentir que deva justificar por que razão uns são tratados como suspeitos a encaminhar e outros como alvos a eliminar.
Durante décadas, havia uma lógica fria mas reconhecível: captura, processo, acordo.
A Guarda Costeira interceptava lanchas rápidas — os “go-fast boats”, que deixam de ser “go-fast” quando um helicóptero desce e alguém inutiliza motores. Depois vinha Tampa.
Os procuradores federais recebiam os detidos e negociavam acordos: cooperação em troca de redução de pena. O sistema não era “humano”, mas era um sistema. Extraía informação. Mapas. Rotas. Coordenadas. Alimentava centros de inteligência. Subia a escada.
Rebecca Castaneda, advogada de defesa criminal em Tampa e ex-procuradora nestes casos, descreve o mecanismo sem romance: “É assim que a inteligência funciona. Sobes a escada a partir deste tipo de casos. Alimenta o quadro geral.”
Só que a 5 de fevereiro de 2025 foi publicado um memorando da procuradora-geral Pam Bondi: uma orientação para que os procuradores deixassem de acusar “traficantes de narcóticos de baixo nível” ao abrigo da lei usada contra contrabandistas intercetados no mar.
Em teoria, o foco passaria para “alvos de topo”. Na prática, o que secou foi a engrenagem. Muitos dos detidos, agora, acabam repatriados ou deportados depois de um interrogatório curto. Sem processo. Sem acordo. Sem incentivo para colaborar. E sem a velha fábrica de informação a trabalhar.
É aqui que a contradição se torna mais do que moral — torna-se operacional, quase absurda.
Um sistema que dependia de gente viva a falar é substituído por dois extremos: deportação rápida (que corta o incentivo a cooperar) e morte imediata (que corta qualquer hipótese de falar). No meio disto, continuam as rotas, continua a procura, continua o dinheiro.
Os homens apanhados nestas operações são, quase sempre, o mesmo tipo de gente: equatorianos, colombianos, alguns venezuelanos. Pobres. Sem saberem falar inglês. Por vezes mal alfabetizados em espanhol. Não são donos dos barcos. Muitas vezes recebem um GPS com coordenadas programadas e pouco mais.
Ben Stechschulte, advogado de defesa em Tampa, representou dezenas deles ao longo dos anos. E não tem paciência para mitos: “Não estamos a falar de Pablo Escobars. São pescadores pobres. Fazem contas e arriscam.”
Uma frase de Castaneda cai como uma lâmina porque é verdadeira e feia: para os traficantes, estas pessoas são descartáveis. Trocam-se como se troca um objeto barato. E, mesmo assim, a narrativa oficial desta nova fase chama-lhes outra coisa: “combatentes”.
Trump declarou formalmente que os Estados Unidos estão em estado de conflito armado com cartéis de droga.
A Casa Branca usa essa formulação para defender que os ataques aéreos são legais.
Uma parte grande de especialistas em direito internacional e doméstico discorda: contrabando não é, por si, estatuto militar; civis em barcos não são automaticamente alvos legítimos; “ameaça iminente” não nasce de um comunicado.
Mas a administração mantém os ataques. E os números vão ficando como se fossem só números. Pelo menos 107 mortos desde setembro, segundo o que tem sido reportado.
Entretanto, a atividade policial no mar continua quase como sempre. Entre 1 de setembro e 30 de novembro, período em que os militares destruíram 22 embarcações e mataram 83 pessoas, a Guarda Costeira intercetou 38 embarcações suspeitas. Três a mais do que no mesmo período de 2024. Ou seja: não houve uma “mudança de mar”. A máquina de interceção continua. Continua a abordagem. Continua a apreensão. Continua a detenção — só mudou o destino.
E repare nisto, porque é um detalhe que diz muito: nos últimos cinco anos, segundo a própria Guarda Costeira, houve um único caso de um suspeito morto a tiro durante uma interceção.
Um episódio descrito como abalroamento que colocou a equipa em risco. De resto, o padrão é não letal.
A Guarda Costeira, no terreno, trata isto como missão policial. Noutras águas (mas nas mesmas rotas), trata-se como teatro de guerra.
Stephen M. Crawford, advogado em Tampa há cerca de trinta anos nestes casos, chamou aos ataques aéreos “teatro político perturbador” e foi direto ao assunto: “Nós não temos pena de morte para traficantes de droga neste país.” A frase é simples e, por isso, insuportável. Porque obriga a perguntar: então o que é isto?
A incoerência começa a crescer para todo o lado.
A campanha é apresentada como resposta ao fentanil nos Estados Unidos, mas as apreensões marítimas de que se faz espetáculo são, esmagadoramente, de cocaína. E, nestas rotas das Caraíbas e do Pacífico Oriental, o fentanil aparece pouco e em quantidades residuais: cerca de 17 kg em 2021, 5 kg no ano anterior, e 113 gramas em 2023. Desde 2003, aparece apenas em três anos de apreensões nessa zona, e sem expressão comparável à cocaína.
Depois há a história do primeiro ataque nas Caraíbas, alegadamente contra onze membros do gang venezuelano Tren de Aragua — chamados “terroristas” a transportar narcóticos rumo aos Estados Unidos.
Advogados e investigadores que vivem destes casos levantam a sobrancelha por razões básicas: a logística.
Os barcos de tráfico não costumam desperdiçar combustível e espaço a levar “passageiros” a mais, e muitos nem têm autonomia para chegar onde a retórica diz que iam chegar.
E há, ainda, a carta divulgada em dezembro pelo senador Rand Paul indicando que mais de um quinto das embarcações suspeitas paradas pela Guarda Costeira (entre setembro de 2024 e outubro de 2025) não tinha droga a bordo. Isto não prova inocência automática, mas mostra o risco de transformar suspeita em sentença, e sentença em explosão.
A contradição central continua a ser a mesma, e ninguém a resolve: por um lado, estas pessoas são tratadas como tão perigosas que “merecem” morte imediata. Por outro, quando são apanhadas vivas, tornam-se tão “menores” que nem valem um processo — deportação, repatriação, acabou. Se são “combatentes”, por que são deportados como irrelevantes? Se são irrelevantes, por que são mortos como ameaça?
Um agente federal, falando sob anonimato, resumiu o lado operacional disto com frieza: matar e deportar quebra a cadeia de inteligência. Porque mortos não dão informação e deportados, sem processo e sem acordo, também não têm incentivo para falar. O velho ciclo — captura, interrogatório, cooperação, inteligência — começa a desfazer-se não por falhar, mas por ser desligado.
Voltemos ao Stone.
A Guarda Costeira apresentou esta patrulha como “a maior apreensão de cocaína numa única missão”: 49 010 libras, o que corresponde a cerca de 22 231 kg (aprox. 22,2 toneladas), provenientes de quinze interceções, valor estimado em 362 milhões de dólares.
A fotografia mostra a carga. Não mostra as pessoas. Das 36 detidas, 29 foram mandadas de volta para o Equador antes de o navio atracar. As restantes seguiram para o Departamento de Justiça, provavelmente para um interrogatório e uma deportação que ninguém filma.
Nenhuma morreu.
Mas, no mesmo período, 83 morreram do céu, nas mesmas rotas onde a Guarda Costeira continua a operar como polícia. É isto que fica desta semana: duas Américas a funcionar ao mesmo tempo, na mesma água, com a mesma palavra (“guerra”), e com duas consequências que não podem ser reconciliadas.
E, de repente, a frase de Crawford deixa de ser opinião e passa a ser pergunta: se não temos pena de morte para traficantes de droga, o que é isto — e quem decidiu que podia ser?
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