A Ópera Espanhola
- Zé das Verdades Meias

- 21 de nov. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2025
Há coisas que a gente aprende e fica a olhar para o teto a pensar "mas então e agora?".
A ópera espanhola é uma dessas.
Está ali ao lado, desceu da mesma Itália que inventou a coisa, andou séculos a fazer barulho em teatros cheios de ouro e veludo, e hoje? Hoje é como aquele primo que emigrou, fez a vida lá fora e nunca mais aparece no Natal.
Vou explicar.
Quando a Ópera Chegou a Espanha e Ninguém Ligou Nenhuma
A história começa em 1627.
A ópera tinha sido inventada em Florença há menos de trinta anos — ainda cheirava a tinta fresca, por assim dizer.
E uns italianos expatriados em Madrid tiveram a brilhante ideia de fazer lá uma récita.
Chamaram-lhe "La Selva sin Amor" (A Selva Sem Amor, o que já é um título que promete drama).
O libreto foi escrito por Lope de Vega, que na altura era tipo o Cristiano Ronaldo da escrita teatral espanhola. A música ficou a cargo de dois tipos, Piccinini e Monanni, que suponho terem feito o melhor que sabiam.
Resultado? Ninguém quis saber.
E não era por falta de talento.
Era porque em Espanha já havia Lope de Vega, Calderón de la Barca, Cervantes — gente que escrevia tão bem que as palavras sozinhas já faziam o espetáculo todo.
Meter música por cima daquilo devia parecer o mesmo que pôr ketchup num bife de Barrosã: desnecessário e ligeiramente ofensivo.
A mesma coisa se passou em Inglaterra, aliás. Shakespeare e Marlowe escreviam versos tão potentes que a ideia de os cantar devia soar a desperdício de tempo.
A Zarzuela, Ou: A Ópera à Moda da Casa
Passaram umas décadas e os espanhóis decidiram fazer à maneira deles.
Inventaram a zarzuela, que é uma espécie de ópera em que se canta umas partes mas outras falam-se normalmente.
É como aquelas peças de teatro onde de repente alguém começa a cantar e depois volta a falar como se nada fosse.
Funcionou bem em Espanha. Fora de Espanha? Nem por isso.
A zarzuela ficou ali, caseira, como um bom cozido à portuguesa: toda a gente que prova gosta, mas ninguém pensa em abrir um restaurante de cozido em Paris.
Nos séculos seguintes, a ópera espanhola não conseguiu singrar lá fora.
O Metropolitan Opera de Nova Iorque, que é a casa da ópera por excelência, só apresentou duas obras espanholas até hoje: "Goyescas" de Granados em 1916, e "La Vida Breve" de Falla em 1926. Duas. Em mais de cem anos.
Portanto, se queremos ver ópera espanhola, temos de ir a Espanha. É como ir à Escócia beber whisky decente: convém ir à fonte.
Uma Baleia Encalhada Cheia de Música
Há quem já tenha visitado o Palau de les Arts Reina Sofía, que é uma espécie de baleia futurista encalhada na praia projetada por Santiago Calatrava.
O edifício custou centenas de milhões de euros e deu polémica como deve ser: obras intermináveis, mudanças de última hora, gente a dizer que aquilo parecia uma nave espacial mal estacionada. Mas lá dentro? Lá dentro há uma orquestra jovem, a Orquestra de la Comunitat Valenciana, que toca com mais vontade e precisão que muitas orquestras velhas e cansadas de tanto tocar sempre a mesma coisa.
Há quem tenha visto a estreia mundial de "Enemigo del Pueblo", uma ópera de Francisco Coll. O rapaz tem quarenta anos, nasceu em Valência, estudou em Espanha e depois foi para Inglaterra aprender com Thomas Adès, que percebe daquilo.
A ópera é baseada numa peça do Ibsen, "Um Inimigo do Povo", que estranhamente nunca ninguém tinha transformado em ópera. A história é simples mas eficaz: um médico descobre que as águas termais da terra dele estão contaminadas, tenta avisar toda a gente, e de herói passa a pária porque ninguém quer ouvir más notícias quando há dinheiro envolvido.
Parece-me familiar, não sei porquê.
Comprimido Como Café de Cápsula
O libreto foi escrito por Àlex Rigola, que também dirigiu a produção. E aqui está o problema: pegou nas cinco actas da peça original e espremeu tudo em duas, com menos de noventa minutos no total. Ficou tudo muito rápido. Tipo resumo de novela brasileira quando queremos pôr alguém a par da intriga mas temos pressa.
A cena crucial — a reunião da assembleia onde o médico perde a cabeça e insulta a inteligência do povo — passa a correr. Não vemos o homem a perder a compostura aos poucos. Vemo-lo saltar quase de imediato para o discurso incendiário. O fim então, em que ele decide educar o povo sozinho, é ainda mais apressado. Resumindo: faltava carne no molho.
Mas. A música de Coll salva tudo. A ópera abre com um pasodoble frenético — aquela marcha que se ouve nas touradas — mas num compasso torto de sete tempos em vez dos habituais dois. A harmonia está toda torcida, como se o pasodoble tivesse bebido a mais e andasse aos ziguezagues. É brilhante.
Ao longo da ópera há momentos folclóricos assim, que surgem de vez em quando para lembrar que a energia popular vai acabar por engolir o médico. Há passagens violentas da orquestra que sugerem a indiferença brutal da natureza. Há momentos quase wagnerianos quando o protagonista se põe em bicos de pés.
O elenco esforçou-se mas teve dificuldade em fazer-se ouvir por cima da orquestra potente.
José Antonio López, que fazia o médico, tem uma voz bonita mas às vezes perdia-se no ruído.
A soprano americana Brenda Rae conseguiu aguentar-se melhor, com agudos brilhantes e uma presença forte.
Coll dirigiu a ópera ele próprio. Recebeu a ovação maior da noite. Não foi só porque era de Valência e estava em casa. Foi porque aquilo era bom mesmo.
Bartók em Madrid, Porque Nada É Simples
Já há quem tenha ido Madrid, ao Teatro Real, que é a casa de ópera oficial desde 1850.
Estavam a dar uma noite inteira dedicada a Bartók: o bailado "O Mandarim Maravilhoso" e a ópera "O Castelo de Barba Azul", com um pedaço pesado de música orquestral no meio como intervalo.
O Teatro Real tem apoiado bastante a ópera contemporânea.
Desde 1997 já fizeram estreias mundiais de vinte obras novas. Ajudaram a produzir o "Enemigo" de Coll e vão apresentá-lo em Fevereiro.
A produção de Bartók foi dirigida por Christof Loy, um alemão veterano que agora vive em Madrid e fundou uma companhia para reviver zarzuelas.
A encenação era minimalista e urbana: cenários que pareciam um terreno baldio qualquer, com uma cabine telefónica velha de um lado, uma estrutura tipo armazém do outro, e lixo espalhado por todo o lado.
Para "O Mandarim Maravilhoso", que é uma história de malandros e uma rapariga que usam para atrair vítimas, aquele cenário funcionava perfeitamente.
Para "O Castelo de Barba Azul", que é sobre uma mulher que descobre o destino das esposas anteriores do marido, já era mais forçado. Mas Loy tem um minimalismo sombrio com humor beckettiano que criou uma linha narrativa convincente para toda a noite.
Loy fez ele próprio a coreografia do "Mandarim", num estilo atlético e livre que muitas vezes parecia uma luta de boxe erotizada. Carla Pérez Mora fez a rapariga com ferocidade controlada; Gorka Culebras transformou o mandarim num mártir sofredor.
Em "Barba Azul", a presença dominante foi Evelyn Herlitzius, soprano alemã que cantou Judith com força cortante e gestos de actriz milimétricos. Não via uma cantora encarnar o destino simplesmente cruzando as mãos no colo desde Anja Silja.
Christof Fischesser, como Barba Azul, não conseguiu igualar a intensidade dela, mas o baixo dele era sólido e profundo. Gustavo Gimeno dirigiu na orquestra com instinto natural para os ritmos e cores de Bartók.
O Que É Que Fica?
Aqueles pioneiros florentinos que inventaram a ópera em 1600 não perceberiam nada disto se cá viessem. Mas ficavam impressionados na mesma. Porque o que eles queriam era precisamente isto: texto, música, imagem e sentimento tudo junto sem costuras à mostra.
A ópera espanhola não conquistou o mundo como a italiana ou a alemã. Ficou ali, em casa, como fica a receita da avó que ninguém escreve mas toda a gente faz.
Mas quando se vai a Espanha e se entra naquelas salas — seja na baleia encalhada de Valência ou no Teatro Real de Madrid —, percebe-se que há ali qualquer coisa viva e teimosa. Uma língua musical diferente. Uma forma de contar histórias que não copia ninguém.
E isso, meus amigos, é coisa rara.
Agora vou mas volto. Tenho uma sopa no lume e não quero que pegue.
Zé, Caderno do Zé




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