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Oliver Sacks e a tentação de inventar


OPINIÃO · Mundo · Cultura · Medicina e Narrativa


Durante décadas, Oliver Sacks foi o rosto perfeito de uma certa imagem da medicina: o médico que escuta, o escritor que transforma casos clínicos em literatura, o intelectual que devolve dignidade a quem foi reduzido a diagnóstico.


Em muitas escolas médicas, “Awakenings” e “The Man Who Mistook His Wife for a Hat” tornaram-se quase evangelhos laicos: ler Sacks era aprender que cada doente é uma história e não apenas um conjunto de exames.


A casa onde o tempo se senta.


Mas por detrás desta figura luminosa havia um homem que viveu meio século no armário, preso a um consultório de psicanálise, atormentado pela sua própria relação com a verdade. E que, nas páginas dos livros, nem sempre se limitou a testemunhar; por vezes, reinventou.


Quando chegou a Nova Iorque, em 1965, Sacks vinha embriagado de felicidade. Tinha trinta e dois anos, uma relação amorosa recente com um homem de quem guardava a carta no bolso e o pressentimento de que, ali, poderia finalmente ser quem era. Em Inglaterra, a mãe – cirurgiã, respeitada, temida – chamara à homossexualidade do filho “abominação” e dissera que preferia que ele nunca tivesse nascido. Não é fácil reconstruir uma vida depois de ouvir isto.


A América parecia prometer outra coisa: liberdade sexual, liberdade moral, um mundo mais largo do que o consultório londrino onde a culpa era prescrição quase obrigatória.


Mas essa promessa durou pouco. A relação terminou abruptamente, Sacks mergulhou num uso compulsivo de anfetaminas e acabou, ele próprio, deitado no divã.


Entra em cena Leonard Shengold, o psicanalista que o acompanharia durante quase cinquenta anos. Três sessões por semana, depois duas, depois uma, numa fidelidade que sobreviveu a mudanças de casa, de emprego, de fama.


A ortodoxia psicanalítica americana da época não era especialmente amiga dos homossexuais: a homossexualidade surgia como problema a “tratar”, muitas vezes à custa de celibato e sublimação.


Sacks, que sonhava ser romancista e “Galileu do interior humano”, aceitou essa via: renunciou ao sexo, renunciou a relações, e atirou tudo para o trabalho e para a escrita.


Há uma imagem que repete em cartas e diários: a mente como corpo que também tem as suas “ereções”.


Se não podia amar um homem de carne e osso, talvez pudesse amar o cérebro humano, as suas falhas, as suas excentricidades.


Começa a encher cadernos a um ritmo quase industrial – centenas de páginas por mês – e a transformar doentes em personagens.


É aqui que o mito do médico-escritor se cruza com algo mais incómodo.


Sacks dizia querer “dar voz” a quem não a tinha.


Mas, nos bastidores, confessava a irmãos e amigos que os seus livros eram, em parte, contos: “meias observações, meia imaginação, meia ciência, meia fábula”, com uma fidelidade própria, não necessariamente factual.


Vemo-lo, por exemplo, na forma como descreve um dos doentes mais famosos de “Awakenings”: um homem batizado de Leonard, apresentado como adolescente solitário, tímido, entregue aos livros, pouco ou nada interessado em sexo.


Quando, anos mais tarde, vêm a público textos autobiográficos desse mesmo paciente, a figura é outra: um jovem socialmente ativo, com amigos, mas também autor de agressões sexuais graves que o próprio relata sem pudor.


Sacks limpa essa dimensão por completo.


Dá-nos um Leonard quase angelical, ideal para representar a consciência desperta à força por um comprimido milagroso. Para a narrativa funcionar, o passado precisava de ser higienizado.


Noutro caso, a jovem Rebecca, com deficiência intelectual e luto recente pela avó, é transformada em aspirante a actriz que, graças a uma espécie de florescimento interior, descobre o teatro e ganha voz na vida. Nas transcrições das sessões e nas notas clínicas, essa metamorfose simplesmente não existe. Rebecca continua a sentir-se inútil, a repetir que teria sido melhor não nascer.


O que muda é a maneira como o médico a escreve.


Talvez o exemplo mais perturbador seja o dos gémeos autistas que, em “The Man Who Mistook His Wife for a Hat”, surgem como génios naturais dos números, capazes de trocar entre si primos com dezenas de dígitos num jogo quase místico. A literatura abraçou a história; a comunidade científica, não tanto.


Estudos prévios sobre os mesmos gémeos nunca tinham identificado qualquer talento matemático especial, mas sobretudo a proeza que Sacks lhes atribui desafia aquilo que sabemos sobre cálculo humano. A sensação de milagre é literária; a verificabilidade, frágil.


Importa perguntar: isto é apenas “licença poética” ou é outra coisa? É possível falar de ética médica e, ao mesmo tempo, aceitar que factos clínicos sejam moldados como quem corta e cose um romance?


Sacks não era um cínico. Nos diários, atormenta-se com o que chama “mentiras”, “falsificações”, “confabulações”. Cita aquela frase, atribuída a Picasso, segundo a qual a arte é a mentira que diz a verdade – e não se convence. Sente que há qualquer coisa de “crime sem castigo” no modo como exagerou certos traços, apagou outros, deslocou vidas alheias para dentro da sua própria gramática. “Escrevo versões simbólicas de mim mesmo”, nota. Talvez seja a frase mais honesta do corpus.


Porque, ao mesmo tempo que cuidava dos pacientes, Sacks usava-os como espelhos: os “acordares” que descreve neles são, muitas vezes, os que não consegue viver.


O homem enterrado vivo em “Awakenings”, que desperta por uns meses e volta à letargia, é também o jovem Oliver que conheceu o amor, se assustou e regressou ao casulo analítico; a Rebecca que sonha com o palco é o médico que fantasia com uma vida plena e uma sexualidade assumida, mas se contenta com o papel de espectador.


Só muito tarde – já octogenário, já famoso, já doente oncológico – Sacks ousa fazer aquilo que durante décadas pedia aos pacientes: contar a verdade sobre si. Assume a homossexualidade num livro de memórias, fala da mãe que o amaldiçoou, descreve anos de celibato como uma espécie de semi-morte. E, de repente, permite-se amar um homem, o escritor Bill Hayes, com quem partilha finalmente não apenas palavras, mas vida quotidiana, insónias, jantaradas e discussões. É com ele ao lado que escreve os últimos textos, serenos, gratos, reconciliados.


Há um episódio final, quase discreto, que diz muito. Pouco antes de morrer, liga ao analista de sempre, Leonard Shengold, que passa férias numa casa modesta, rodeado de família. Pela primeira vez em quase cinquenta anos de sessões, tratam-se pelo primeiro nome. “Foi a honra da minha vida trabalhar consigo”, diz o psicanalista. Desligam, ambos a chorar. Há aqui um laço real, não inventado. E talvez seja este, no fim, o tipo de relação que Sacks sempre procurou nas histórias clínicas: alguém que o visse e o nomeasse com ternura.


O que fazemos nós, leitores, com este legado ambivalente?


Podemos, por um lado, continuar a ver em Sacks o homem que abriu espaço à medicina narrativa, que obrigou médicos a olhar para pessoas e não para organogramas, que inspirou gerações a pensar o doente como sujeito e não como caso. Esse mérito é inegável.


Mas temos de aprender também com as suas sombras. Com o facto de que empatia, quando não é vigiada, se transforma em apropriação. Que “dar voz” pode significar falar por cima. Que o desejo de sentido leva muitas vezes a arredondar biografias, apagar zonas escuras, inventar desfechos redentores que só existem no papel.


Para o jornalismo, para a literatura factual, para qualquer projeto que queira contar vidas reais – incluindo este em que escrevo – a história de Sacks é aviso e oportunidade. Aviso, porque nos lembra que não há boa intenção que justifique falsificar o que está à frente dos olhos.


O doente, o leitor, o cidadão merecem a verdade inteira, mesmo quando ela é desconfortável, mesmo quando não cabe num arco narrativo bonito.

Oportunidade, porque nos lembra que não precisamos de escolher entre rigor e humanidade. Podemos escutar com atenção, escrever com beleza, e ainda assim manter a humildade de reconhecer aquilo que não sabemos, aquilo que não é nosso, aquilo que não nos pertence reescrever.


Oliver Sacks passou a vida a tentar despertar os outros. Faltou-lhe tempo para se despertar a si próprio mais cedo. Talvez a nossa responsabilidade, agora, seja outra: não repetir o mesmo atraso, nem nas relações, nem na ciência, nem na forma como contamos a história dos outros.


por Alberto Carvalho


Candeeiro antigo e pomba de porcelana sobre a mesa, com um homem idoso de expressão pensativa sentado ao fundo, junto à lareira.
Homem idoso junto a um candeeiro antigo

2 comentários

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15 de dez. de 2025
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Extraordinário!

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Alberto Carvalho
Alberto Carvalho
21 de dez. de 2025
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Grato pela leitura e pelo entusiasmo.

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