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O Intervalo do Domingo

Domingo.


Outra vez domingo.


O relógio não corre — tropeça.


Oiço passos no andar de cima.


Arrastam móveis? Não. Devem ser só cadeiras. Há sempre cadeiras a serem arrastadas ao domingo.


Na cozinha, o café ficou frio. Volto a aquecê-lo, não o bebo. Esqueço.


Domingo é isto: começar e largar.


Abro livros, fecho logo.


Pego no telefone, não ligo.


A lista de coisas por fazer encolhe — não porque se faz, mas porque já não importa.


Lá fora, um cão ladra sem convicção.


A rua tem cheiro a pão, a lixívia, a jornal por abrir.


Um vizinho fuma encostado à janela.


Outro estende roupa. Quere-a seca.


As crianças percebem o vazio.


Correm mais depressa, gritam mais alto.


Tentam empurrar o silêncio para fora de casa. Nós, adultos, já desistimos. Fingimos que não nos incomoda.


Domingo não é descanso.


É intervalo.


E os intervalos doem sempre mais do que os dias inteiros.


Quando anoitece, sobra essa sensação estranha: não vivi nada, não perdi nada. Apenas fiquei.


E ficar — ficar é às vezes o mais difícil.


AC


A palavra “Domingo” em tipografia simples sobre fundo neutro, evocando pausa e silêncio.
Domingo — silêncio em pausa

4 comentários

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José Luiz Laymé
26 de ago. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Quero ver se não vou perder nenhuma!!!

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Alberto Carvalho
Alberto Carvalho
há 3 dias
Respondendo a

Muito obrigado. Vamos continuar por aqui, com regularidade, para não perder nenhuma. Abraços,

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Maria Mota Lope
26 de ago. de 2025
Avaliado com 4 de 5 estrelas.

Já o tinha lido! Obrigada. Simples, sempre agradáveis de ler.

Abraço de amizade.

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Alberto Carvalho
Alberto Carvalho
há 3 dias
Respondendo a

Obrigada pela leitura atenta e pelas palavras gentis. Um abraço de amizade.

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