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Chávez violou raparigas. O movimento que fundou protegeu-o.

Atualizado: 22 de mar.

Há uma pergunta que os movimentos sociais raramente conseguem fazer sobre si próprios sem entrar em colapso: o que é que as nossas condições de força tornam possível para além daquilo que dizemos querer?


A UFW não falhou apesar da sua estrutura — falhou por causa dela. Como os movimentos de libertação silenciam as suas próprias vítimas.


Imagem histórica a preto e branco mostrando Cesar Chavez ao centro, diante de vários microfones, durante um comício pela paz em Los Angeles, acompanhado por dois ativistas dos Brown Berets.
Cesar Chavez discursa num comício pela paz em Los Angeles, em 1971, ladeado por dois membros dos Brown Berets. | Imagem: Cesar Chavez and Brown Berets at peace rally (3 May 1971), Los Angeles Times, via UCLA Library / Wikimedia Commons. Licença: CC BY 4.0.

Não é uma pergunta sobre hipocrisia. A hipocrisia é um problema individual, de pessoas que afirmam uma coisa e fazem outra.


Esta pergunta é estrutural — é sobre o modo como certas configurações organizacionais, independentemente das intenções das pessoas que as habitam, criam condições sistemáticas para que o abuso ocorra e seja absorvido sem resistência. É sobre a arquitectura, não sobre o carácter.


César Chávez, cofundador da United Farm Workers e figura central dos direitos civis latinos nos Estados Unidos, morreu em 1993 com uma reputação que o colocava na galeria dos grandes organizadores do século XX.


O seu nome está inscrito em centenas de ruas, escolas, centros comunitários e feriados estaduais. Dolores Huerta — que esta semana revelou ter sido violada por Chávez numa vinha em 1966, quando ambos construíam juntos o que viria a ser o maior sindicato agrícola da história americana — disse ter guardado silêncio durante décadas porque acreditava que a verdade "prejudicaria o movimento dos trabalhadores agrícolas a que dedicou toda a sua vida".


Esta frase é o centro de tudo. Não porque revele cobardia — não revela — mas porque documenta com precisão o mecanismo: uma mulher que foi vítima de violência sexual sentiu que a sua obrigação primária era proteger o movimento. E o movimento concordou com ela durante décadas. Isso não é uma anomalia. É o funcionamento normal de uma estrutura específica de poder.


Os movimentos de libertação têm uma necessidade funcional de coesão que os distingue de outras organizações. Uma empresa pode sobreviver a divisões internas porque o critério de sucesso é externo e mensurável.


Um partido político pode fragmentar-se e reconstituir-se em torno de novas alianças. Um sindicato combativo — especialmente um que enfrenta adversários com recursos vastamente superiores, que depende da disposição de pessoas vulneráveis para se exporem a riscos reais, que constrói a sua força sobre a convicção partilhada de uma causa justa — não pode permitir-se a mesma fragmentação.


A coesão não é um valor entre outros: é uma condição de sobrevivência.


Esta necessidade tem uma consequência directa: o custo de questionar a liderança sobe de forma estrutural. Não porque alguém o decrete — embora em certos casos alguém o decrete — mas porque o questionamento é sentido, por quem questiona e por quem observa, como um acto de traição à causa partilhada.


Debra Rojas percebeu-o da forma mais concreta possível: quando revelou, numa rede social privada para veteranos da UFW, que Chávez a tinha abusado sexualmente quando tinha doze anos, foi acusada de manchar o movimento. Apagou a publicação. O mecanismo funcionou sem que fosse necessário ameaçá-la formalmente.


Esta é a forma mais eficaz de silenciamento: não a ameaça explícita, mas a internalização, pela própria vítima, de que a sua experiência é menos importante do que a causa que a rodeia. É uma forma de violência que os movimentos não conseguem ver em si próprios precisamente porque a linguagem que usariam para a descrever — exploração, instrumentalização, supressão de vozes — é a linguagem que usam para descrever o inimigo externo.


A autoridade carismática acrescenta uma segunda camada ao problema.


Max Weber distinguiu, há mais de um século, três formas de autoridade legítima: a tradicional, ancorada no costume e na herança; a racional-legal, ancorada em regras e procedimentos; e a carismática, ancorada na percepção de qualidades excepcionais num indivíduo.


A autoridade carismática tem uma característica que as outras não têm: é, por definição, pessoal e não transferível. Não existe independentemente do indivíduo que a encarna. E porque não existe independentemente desse indivíduo, questionar o indivíduo equivale a questionar a fonte de legitimidade de toda a organização.


Chávez não construiu na UFW uma estrutura democrática que permitisse aos seus membros contestá-lo. Isto está documentado pelos próprios arquivos do sindicato e foi descrito por historiadores como Matt Garcia e Frank Bardacke antes de as revelações sobre os abusos sexuais chegarem ao domínio público.


Os exercícios de terapia grupal que impôs aos residentes da sede do sindicato em La Paz — sessões destinadas a expor fragilidades pessoais num ambiente de grupo controlado por quem detém o poder — não eram apenas práticas autoritárias. Eram instrumentos de uma arquitectura de controlo que tornava a contestação interna extraordinariamente custosa.


Quando um líder carismático é também o único polo de legitimidade organizacional, a manutenção da sua reputação torna-se um interesse colectivo objectivo — mesmo para as pessoas que conhecem as suas falhas. Não por cegueira moral, mas por cálculo racional: um sindicato que perde o seu fundador mítico perde simultaneamente o elemento que mantém coesa uma coalizão de interesses e identidades diversas.


Os facilitadores que transportavam Chávez para os locais onde ocorreram os abusos não eram necessariamente cúmplices conscientes de um projecto criminoso. Eram pessoas que tinham aprendido, ao longo de anos, que a preservação do líder era idêntica à preservação da causa.


Existe um terceiro mecanismo, distinto dos anteriores e talvez o mais difícil de articular sem parecer que se está a absolver os responsáveis: a urgência moral como anestesia crítica.


Os movimentos que combatem injustiças reais desenvolvem uma hierarquia de danos em que os sofrimentos externos — a exploração dos trabalhadores agrícolas, o racismo sistémico, a pobreza estrutural — ocupam o topo e os danos internos ficam sujeitos a um escrutínio muito menor.


Esta hierarquia tem uma lógica: as injustiças externas são mais graves em escala, afectam mais pessoas, são mais urgentes em termos políticos. Mas tem também uma consequência perversa: os danos internos ficam sistematicamente subvalorizados, e as vítimas internas ficam sistematicamente menos protegidas do que as vítimas externas em nome de quem o movimento existe.


Jessica Govea geriu o boicot em países estrangeiros que contribuiu decisivamente para os primeiros contratos de trabalhadores agrícolas em 1970.


Elaine Elinson fez o mesmo no Reino Unido — e a sua presença foi apagada da narrativa pública, substituída pela imagem de Chávez que nunca esteve lá. Govea foi etiquetada como conflituosa e expulsa do sindicato. Huerta sobreviveu a décadas de silêncio. As raparigas cujos nomes ainda não são publicamente conhecidos perderam algo que não tem nome nos balanços históricos dos movimentos: a possibilidade de serem as líderes que nunca chegaram a ser.


Esta é a contabilidade que os movimentos não fazem: o custo interno do seu próprio funcionamento, medido não em desfechos jurídicos ou escândalos públicos mas em trajectórias humanas interrompidas, em vozes que foram silenciadas antes de terem a oportunidade de se tornar determinantes.


A vaga de renomeações que percorre agora os Estados Unidos — ruas, escolas, feriados, centros comunitários — levanta uma questão que vai além de Chávez e que merece ser colocada com precisão.


O debate sobre monumentos e nomes públicos tem, nos últimos anos, operado principalmente em torno de uma distinção: entre figuras históricas cujo papel foi inequivocamente negativo — os generais confederados, os proprietários de escravos, os responsáveis por políticas de extermínio — e figuras cuja complexidade exige contextualização em vez de eliminação. Chávez não se encaixa facilmente em nenhuma das categorias.


Os trabalhadores agrícolas que organizou, as condições de trabalho que melhorou, as vitórias legais que obteve existem como factos históricos independentemente dos crimes que cometeu. E as raparigas que abusou existem igualmente como factos históricos independentemente dessas vitórias.


O prefeito de Albuquerque disse que quer ver o nome de Huerta a substituir o de Chávez na avenida que os liga. É um gesto compreensível. É também, de certa forma, uma continuação do mesmo problema: substituir um nome por outro, um indivíduo por outro, sem alterar a pergunta subjacente sobre o que os movimentos devem aos seus membros mais vulneráveis e como constroem estruturas que tornem essa prestação de contas possível em tempo real, não décadas depois.


Huerta disse que esperou porque acreditava que a verdade prejudicaria o movimento. O movimento que ela ajudou a construir não a protegeu. E o movimento que hoje existe não consegue devolver-lhe o que lhe foi tirado — apenas pode, tardiamente, pôr o seu nome numa rua.


Há uma frase no comunicado de Huerta que vale a pena examinar sem pressa: disse ter aguardado porque acreditava que revelar a verdade "prejudicaria o movimento dos trabalhadores agrícolas a que dedicou toda a sua vida".


A frase pressupõe que o movimento e a verdade sobre o movimento são entidades separáveis — que é possível proteger um ocultando a outra. Esta pressuposição é o núcleo do problema, e não é específica de Huerta nem da UFW. É a pressuposição que todos os movimentos tendem a fazer sobre si próprios: que a sua causa é suficientemente justa para justificar a gestão estratégica da sua própria história interna.


O que a história da UFW demonstra, com uma clareza que dói precisamente por isso, é que esta gestão não protege o movimento — protege o mecanismo que o corrói. Os abusos de Chávez não ocorreram apesar da UFW; ocorreram dentro da estrutura que a UFW construiu e que tornava o seu questionamento internamente inviável. A protecção da reputação do líder não preservou o sindicato: contribuiu para o seu enfraquecimento progressivo, para a expulsão das vozes mais críticas, para a subordinação dos interesses dos trabalhadores à arquitectura de controlo interno.


Os movimentos que não conseguem fazer perguntas difíceis sobre si próprios em tempo real pagam o custo dessas perguntas mais tarde, com juros. E os juros são pagos, invariavelmente, pelas pessoas com menos poder dentro da estrutura — não pelas que a lideraram.


Não existe forma de restituir às vítimas de Chávez o que lhes foi tirado. Não existe forma de medir o que os movimentos pelos direitos dos trabalhadores agrícolas perderam nas líderes que essas raparigas nunca puderam tornar-se. E não existe renomeação de ruas que altere os factos históricos em nenhuma direcção: nem apaga as vitórias reais da UFW nem apaga os crimes reais do seu fundador.


O que existe é a possibilidade — sempre adiada, raramente concretizada — de os movimentos construírem estruturas que não dependam da inviolabilidade de nenhuma figura para se manterem coesos. Estruturas em que o custo de falar seja mais baixo do que o custo de calar. Estruturas em que a urgência da causa externa não anestesie a capacidade de ver o dano interno.


Dolores Huerta tem noventa e cinco anos. Esperou décadas. E o movimento que ajudou a construir só agora encontra linguagem para o que lhe foi feito.


Isso não é uma história sobre César Chávez. É uma história sobre o que os movimentos fazem com as pessoas que precisam deles para sobreviver.


2 comentários

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23 de mar.
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Muito interessante. Maravilhoso!

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Alberto Carvalho
Alberto Carvalho
13 de abr.
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Muito obrigado pelo comentário. Gratos!

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