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A Ópera Espanhola Que Nunca Saiu de Casa

Tenho um vizinho que faz o melhor arroz de polvo da rua. Toda a gente sabe. Mas ele nunca abre restaurante, nunca vai a concursos, nunca aparece na televisão. Diz que "isso é para quem quer dar nas vistas". O arroz continua ali, na panela dele, óptimo, secreto, quase teimoso.


A ópera espanhola é um bocado assim.


A Descoberta de Quem Não Estava à Procura


Fui a Espanha no mês passado. Não fui em turismo cultural organizado, não tinha bilhete comprado com três meses de antecedência, não levava guia de viagem sublinhado. Fui porque me apeteceu e porque há sempre comboios.


Acabei numa sala de espetáculos que parece uma nave espacial que desistiu de descolar. O edifício é branco, curvo, enorme, e tem aquele ar de "custei muito dinheiro e dei chatices durante as obras".


Vi depois que se chama Palau de les Arts e que em Valência andam há anos a discutir se aquilo é génio ou disparate arquitetónico.


Lá dentro havia um cartaz: estreia mundial de uma ópera. Pensei "ora bem, estreia mundial é coisa que não se vê todos os dias".


Comprei bilhete. Sentei-me. Apercebi-me rapidamente que estava rodeado de gente que percebia daquilo muito mais do que eu.


A coisa chamava-se "Enemigo del Pueblo" e contava uma história simples: um médico descobre que as águas termais da terra dele estão poluídas, tenta avisar toda a gente, e em vez de herói acaba tratado como inimigo público porque ninguém quer más notícias quando há dinheiro envolvido.


Parecia-me uma história atual, mas afinal era do século XIX. Ou então é que as palhaçadas humanas não mudam grande coisa.


Quando a Música Fala Mais Alto Que as Palavras


Não sou especialista. Já estabelecemos isso. Mas duas coisas me ficaram cravadas: primeiro, a música começou com uma espécie de marcha de tourada toda torta, como se o maestro tivesse bebido uns copos antes de escrever o compasso. Depois percebi que era de propósito.


A ideia seria mostrar que a tradição popular estava ali mas desarrumada, às cegas.


Segundo: havia momentos em que a orquestra tocava tão alto que os cantores desapareciam debaixo do som. Não sei se era falha técnica ou intenção artística. Talvez fosse as duas coisas ao mesmo tempo, como quase tudo na vida.


O compositor, um tal Francisco Coll que é de Valência mas estudou em Inglaterra, dirigia ele próprio.


No fim levantou-se e a sala veio abaixo em aplausos. Não eram só os amigos dele. Era gente séria, de casaco e ar circunspecto, a bater palmas como se tivesse visto qualquer coisa que valia a pena.


Fiquei a pensar: se isto é uma estreia mundial, porque é que não há disto mais vezes?


Porque é que quando se fala de ópera se fala sempre da mesma meia dúzia de italianos mortos há duzentos anos?


O Mistério da Ópera Que Nunca Saiu de Casa


Vim para o hotel e fiz o que qualquer pessoa curiosa faz: pus-me a ler. Descobri coisas estranhas.


A ópera chegou a Espanha no século XVII. Na altura, Espanha tinha dramaturgos de primeira categoria — gente que escrevia tão bem que meter música por cima parecia redundante. Depois inventaram a zarzuela, que é uma ópera híbrida onde se canta umas partes e se fala outras. É charmosa mas específica. Não viaja bem.


Resultado: a ópera espanhola ficou ali, em casa, como o arroz de polvo do meu vizinho. Bom, mas caseiro.


O Teatro Metropolitan de Nova Iorque, que é tipo a Champions League da ópera, apresentou exatamente duas obras espanholas em mais de cem anos. Duas. É como se tivéssemos uma seleção de futebol excepcional mas nunca jogássemos fora.


Isto não é por falta de qualidade. É que há coisas que simplesmente não viajam. A língua, o ritmo, a forma de contar histórias. Funciona perfeitamente dentro de portas, mas quando sai fica estranha, deslocada, como um fado cantado em alemão.


Madrid, Ou: Quando Menos É Mais


Fui depois a Madrid porque já lá estava e porque os comboios espanhóis funcionam. O Teatro Real tinha programado uma noite inteira dedicada a Bartók, que era húngaro e portanto nada tinha a ver com Espanha, mas enfim.


Não interessa.


O que interessa é que aquilo era minimalista de morrer.


Cenário? Um terreno baldio com lixo espalhado e uma cabine telefónica velha. Figurinos? Neutros. Nada de grandes efeitos, nada de cortinas de veludo vermelho ou candelabros dourados.

E funcionava.


Às vezes menos é realmente mais.


Quando não há distrações visuais, a música e a história ficam nuas. Ou funcionam ou não há onde se esconder.


A soprano alemã que cantou era daquelas que não precisa de gritar para dominar uma sala. Fazia tudo com o corpo, com as mãos, com a forma como respirava. Vi-a cruzar as mãos no colo — apenas isso — e percebi que a personagem tinha desistido. Não foi preciso dizer nada.

Isto é talento ou então é magia. Não sei distinguir.


O Que É Que a Gente Faz com Isto?


Saí de Madrid com duas certezas e uma dúvida.


Certeza número um: a ópera espanhola existe, é boa, e há gente a fazer coisas novas em vez de repetir o que já foi feito mil vezes.


Certeza número dois: isto nunca vai ser popular. Não vai competir com a Série A italiana ou os grandes Wagner alemães. Mas também não precisa. Há um público, há teatros, há orquestras jovens que tocam com vontade.


A dúvida é esta: porque é que ficamos sempre à espera que as coisas sejam exportadas para as validarmos? Porque é que o arroz de polvo do meu vizinho tem de ganhar um prémio Michelin para eu achar que é bom?


Há criações que ficam bem onde nasceram. Não é provincianismo. É identidade. É saber que não é preciso conquistar o mundo para valer a pena.


A ópera espanhola não precisa de ser internacional. Já é internacional dentro de Espanha, que tem catalães, bascos, galegos, andaluzes, todos com as suas manias e os seus sotaques. Tentar agradar a Nova Iorque ou Viena seria diluir aquilo que a torna única.


Voltando a Casa


Regressei a Portugal de comboio, como devia ser. Trouxe na bagagem uma certeza incómoda: passamos a vida a achar que o que é bom tem de ser universal, exportável, reconhecido por toda a gente.


Mas às vezes o melhor fica mesmo em casa. Não porque seja inferior. Porque é específico, íntimo, nosso.


Tal como o arroz de polvo do meu vizinho.


Agora vou mas volto. Estou com vontade de bater à porta dele e pedir uma malga.


Zé, Caderno do Zé


Teatro de ópera espanhol representando a tradição operática ibérica que permanece enraizada na cultura local em vez de procurar reconhecimento internacional
Interior do Gran Teatre del Liceu de Barcelona - Arquitectura operática catalã

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